O CANTOR DA NOITE

 

 

Numa dessas tardes luminosas de Canaviais, o cantor da noite ia lentamente pela cidade, como sempre tem feito ultimamente, na luta desigual para reduzir o colesterol e a “obesidade centrípeta” — apelido amável que o médico lhe botou na velha e encervejada barriguinha. Não deixou de assustar-se quando soube que toda a banha do corpo ali estava concentrada, entre o peito e o sexo. Achou de tremendo mau gosto. Daí as caminhadas.

Caminhava. Sem querer, entrou na rua da Neusinha, ex-namorada. Reconheceu-a de longe, tão logo virou a esquina. Sabia poucas coisas dela: tinha se casado, era mãe de duas crianças e o marido era muito ciumento, não podendo nem ouvir falar em seu nome. Mas não sabia que ela morava naquele bairro novo.

Teria mudado de rota, jurava por Deus. Depois de tantos anos e tantas canções inúteis, ela ainda era uma ferida aberta. Seu primeiro impulso foi o de voltar, mas teve vergonha da covardia e seguiu em frente. Neusinha lavava obstinadamente a calçada. Com frio na barriga e idéias confusas na cabeça, continuou em frente.

A ex-namorada estava de bermuda, dessas que são feitas com uma velha calça jeans. Engordou um pouco. Até mais de um pouco. Os quadris quase sumiam. As pernas já se moviam com alguma dificuldade. E também já tinha a tal obesidade centrípeta.

— O que aconteceu com a moça de dez anos atrás? — o cantor da noite perguntava ao coração, enquanto aproximava-se.

O encontro foi inevitável. Com a mangueira na mão e meio sem graça, Neusinha perguntou pela mãe do cantor, pelo pai do cantor e até por ele mesmo, o cantor da noite. Quando ela foi desligar a torneira, viu-lhe as celulites nas coxas. Viu as varizes acima dos joelhos. Viu as carnes que mal cabiam na roupa.

Não o convidou para entrar, e ele entendeu perfeitamente. Ficaram por alguns minutos conversando por ali mesmo, falando das coisas mais exteriores do mundo, como se nunca tivessem dormido junto. Disse-lhe que não sabia que ela morava ali. Disse-lhe, também, que tinha o hábito de caminhar todas as tardes, cada dia por um bairro diferente de Canaviais.

— Você ainda canta em barzinho? — perguntou-lhe com imprevista luz nos olhos, uma luz que veio de muitos anos atrás, luz da estrela morta.

— Faz tempo que parei. A voz pifou... — respondeu-lhe com um sorriso complacente

Ela achou graça do “pifou”.

— Como “pifou”? — ameaçou rir.

Neusinha tinha a mania de achar graça em certas palavras que ele dizia.

— Pifou... Como uma fusca velho.

E aí ela riu mesmo, aquela risadinha que ele conhecia muito bem. De algum modo, sentia-se aliviado por poder dizer-lhe que tinha trocado uma profissão boêmia por outra mais respeitável:

— Agora sou professor de música em Ribeirão. Num conservatório evangélico...

Tinha certeza de que ela não ia compreender a ironia. Neusinha só achava graça no que podia: era a mais literal e quadrada das mocas bonitas de Canaviais. Foi por ela ser quadrada e por ele “cantar em barzinho” que o namorou acabou. Não podia ter futuro um sujeito que não sabia fazer outra coisa além de tocar violão e cantar. Para que servia um cantor? Neusinha gostava dele, não tinha nenhuma dúvida, ao contrário da família, que jamais aprovara o namoro.

— Chegou o cantor!

Era assim que a sogra o anunciava, quando batia na porta. Um violonista medíocre, era obrigado a confessar, intérprete de canções fora de moda, cantadas com voz grave e lerda, numa época em que só vozes agudas e sussurradas tinham vez. “Voz de boi manso”, como lhe disse certa vez uma putinha de fim de noite. Um boi que nunca teve coragem de aventurar-se por outros pastos, e por isso nunca passou de um pobre cantor da noite, vivendo dos fracos cachês dos bares e das aulas de violão. Um cantorzinho a soldo de bêbados teimosos.

Tudo bem... Porém jamais — era capaz de jurar — teria permitido que ela chegasse ao estado em que chegou, se tivesse se casado com ele.

Apesar de ser um sujeito que também merecesse um pouco de piedade, teve dó de Neuzinha. Sentiu-se duas vezes impotente: não ter conseguido prendê-la, quando isso ainda era possível, e não poder fazer nada agora, quando via a ex-lépida Neusinha andando com dificuldade, submetida aos ciúmes idiotas do marido e àquela inaceitável cara de velha.

— Sou um pobre diabo — disse a si mesmo depois de despedir-se dela, e jurar que não se sentiu vingado ao vê-la daquele jeito. — Mas ainda sei o que é feio e o que é bonito. Sempre soube, sempre vou saber. Mas adianta alguma coisa?

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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