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BÓRIS E DORES Luiz Vilela de livro novo, Bóris e Dóris (Record, 2006, 94 páginas). Li em duas horas, enquanto esperava a fila do Bradesco. Conto longo ou novela? Nossa tradição editorial, sem a permissão dos professores de teoria literária, conseguiu rebatizar de novela o que, na verdade, seria um conto longo, quando editado sozinho e esticado pelas artes da diagramação. A universidade chia, mas engole a espúria nomenclatura. Particularmente, gosto desses contos longos alargados pela editoração, com as páginas menos pesadas de texto, lembrando livros de poesia. É uma diagramação que ressalta a arte dos bons escritores. Dizem que as edições de Machado na velha Jackson — W. M. Jackson INC., pra ser mais exato — não são muito confiáveis, mas era com grande prazer que eu lia aquelas páginas com poucas linhas, quase apalpando palavra por palavra, numa espécie de braile mental. O novo livro do Vilela lembra um pouco a novela anterior do escritor, Te amo sobre todas as coisas: quase a mesma extensão, longo diálogo de casal encrencado, estilo seco e perfeito. Os namorados do Te amo agora estão casados, o que faz de Bóris e Dóris, de algum modo, uma continuação da novela anterior. O enredo é tchekhovianamente discreto. Boris, sessenta anos, é empresário, está em viagem para convenção da empresa e levou Dóris, trinta e sete anos, esposa carente e depressiva. Quase toda a história se passa no hotel Campestre, durante o café da manhã: é a conversa de marido e mulher, enquanto ele espera o motorista que o levará à reunião que, presumivelmente, o consagrará como presidente do grupo empresarial. Falam sobre tudo: os negócios, a vida, a morte, a solidão, o casamento já operando em vermelho. Por trás do humor, a sugestão do que vai acontecer em breve com a esposa, que já começa a ensaiar os primeiros passos do adultério e sobretudo da culpa. Termina com desfecho inesperado. O livro não tem sexo explícito, nus frontais ou traseiros, sodomizações, como costumava haver em algumas obras do Vilela. Nem uma única trepadinha, pois nosso Boris deixava sua balzaquiana exposta a uma seca danada. E Dóris ainda não era mulher de se jogar fora: depois de uma caminhada pelo entornos bucólicos do hotel, vestia camiseta decotada e short curto, que bem ressaltava o belo bumbum arrebitado que Deus lhe deu. Era como estava vestida naquele café-da-manhã, pronta para um ataque que não acontecia, pois as baterias do nosso capitão de indústrias estavam voltadas para outros horizontes e arrebites. O efeito dessa escamoteação sexual é deliciosamente machadiano: a história, com as dores da mulher desprezada, fica imensamente mais sacana do que se tudo estivesse à mostra. Algum maldoso diria que Vilela está na menopausa literária. Prefiro dizer que Bóris e Dóris é a obra mais erótica e mais madura do contista de Ituiutaba. Há várias boas sacadas de estilo. Como isto não é artigo de revista acadêmica, posso citar só uma: em exatas duas linhas e meia, na página trinta e nove, Vilela mostra uma alucinação de Dóris: “De repente, as montanhas mexeram-se, ondularam-se e abriram-se, formando uma boca — uma boca obscena, uma boca...” É tudo. Quantas páginas não gastaria Clarice Lispector, genial quando conseguia controlar a verborréia, para obter efeito parecido? 03/02/2007 |