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BÊBADO Nº 2 Aquela foi uma viagem diferente. Antes de passar por Taquaritinga, despertei do sono leve com um pequeno tumulto no ônibus: as pessoas se levantavam das poltronas, alguém gritou para o motorista parar. E a velha carcaça da Silva-Tur estacionou. Era um bêbado que estava mal e tinha vomitado. — Treme como vara verde — alguém disse. — Vamos levar ele pra fora — outra voz falou. — É melhor o motorista tocar logo pra cidade mais perto — sugeriu aflita uma mulher. E foi o que aconteceu: o motorita retomou o seu posto e todos começamos a viver os minutos mais aborrecidos de nossas vidas (era o tempo que faltava para o ônibus chegar a Taquaritinga). "Imagina se o sujeito continua a vomitar ", pensei. Foram quinze minutos de suplício, contados como contas de um rosário sem fim — um rosário feito de carrapichos —, antes do ônibus contornar o trevo e entrar na cidade. Na rodoviária, vomitou espetacularmente ao descer. Por sorte, havia uma viatura da polícia, que imediatamente levou o homem para longe dali, talvez a um pronto-socorro. O motorista avisou que não podia seguir viagem sem o infeliz, de modo que, até segunda ordem, estávamos liberados. Mas era bom que ficássemos por ali: o homem podia reaparecer a qualquer momento. Ou, para o nosso bem, nunca mais voltar. Ocorreu-me uma hipótese absurda: o ônibus transportando de novo o bêbado, vomitando pelo corredor até o fim da viagem. Espantei-a furiosamente da cabeça. Olhei o relógio: onze horas. Desci para um cafezinho e escutar as hipóteses dos passageiros que já estavam no bar da rodoviária. Ninguém conhecia o sujeito, e o seu vizinho de banco era o que mais o amaldiçoara: acabou sujando-se do vômito nojento. Foi o primeiro a dar o alarme. Antes mesmo do vômito, notara algo estranho com ele: mexia-se sem parar, abria e fechava a janelinha, limpava o suor da testa. — Não sei por que deixam embarcar um cara assim — disse com raiva. — O que fazer com esses bêbados? — perguntou uma senhora gorda, com cara de baiana. — Por mim, jogava no rio — disse o baixinho enquanto chupava o café. Quem estava gostando era o dono do bar, que não esperava por aqueles fregueses compulsórios. Já havia passado da meia-noite, quando ergui a cabeça do livro — só assim para o tempo passar — e vi o mesmo carro da polícia estacionar no meio-fio, porém sem o nosso homem. A tripulação, que tinha se dividido entre os bancos da rodoviária e as poltronas do ônibus, reuniu-se de novo em torno dos dois soldados. Como sempre, eu era o último a saber das coisas. Infelizmente, para atrapalhar de vez a viagem, não tinha sido só bebedeira. O sujeito acabara de morrer no hospital da cidade, vítima de uma angina pectoris. |