BÊBADO Nº 1

 

 

Foi uma viagem sui generis, como diria o advogado Marsili. Antes de passar por Taquaritinga, despertei do sono leve com um tumulto no ônibus: as pessoas se levantavam das poltronas, e alguém gritou para o motorista parar. Ele estacionou a velha carcaça da Sílvia-Tur, Sílvia-Turtura para usuários semanais.

Era um paranaense que passava mal, depois de vomitar sangue.

— Treme como vara verde — disse o vizinho de banco.

— Vamos levar ele pra fora — uma segunda voz propôs.

— É mió tocar pra cidade mais perto — sugeriu, aflita, a camponesa de lenço branco na cabeça.

Foi o que aconteceu: o motorista retomou o seu posto e todos começamos a viver os quinze minutos mais longos de nossas vidas: o tempo que faltava para o ônibus chegar a Taquaritinga.

— Imagina se o sujeito morre no meio da gente — disse-me o quase vizinho, do outro lado do corredor.

Resmunguei qualquer coisa, sugerindo que não queria conversa sobre o assunto. Foram quinze minutos de suplício, contados como contas de um rosário. Imagine-se um terço feito de carrapichos, aquelas capciosas bolinhas do campo, cheias de espinhos, que grudam no pelo dos bichos e na roupa das pessoas. Um obrigatório rosário de carrapichos: foi o tempo que levou entre a decisão do motorista de entrar na cidade mais próxima e a efetiva chegada.

Quando o ônibus fez o trevo e entrou na cidade, comecei a ficar aliviado. Por sorte, na rodoviária havia uma viatura da polícia, que imediatamente levou o paranaense para longe de nós. O motorista avisou que não podia seguir viagem sem o homem, de modo que, até segunda ordem, estávamos liberados e a mesmo tempo presos. Era bom que ficássemos por ali, já que o homem podia reaparecer a qualquer momento e a viagem prosseguiria. Ou podia o homem nunca mais voltar. Essa hipótese era a pior de todas, não tanto para o homem como para nós, pois deixava a partida extremamente sujeita ao acaso.

Ocorreu-me outra idéia absurda: o ônibus transportando um defunto do Paraná, esticado no corredor, e as passageiras mais responsáveis rezando o terço até o fim da viagem. Espantei-a da cabeça, furiosamente. Olhei o relógio: onze horas. Decidi descer para um cafezinho e escutar as hipóteses dos passageiros que já estavam no bar da rodoviária.

Ninguém conhecia o moribundo, mas seu vizinho de banco já tinha se transformado em autoridade máxima sobre o assunto, uma espécie de parente por contágio, pois presenciou o vômito, até sujou-se um pouco na barra da calça e foi o primeiro a dar o alarme. Antes mesmo do vômito, notara algo estranho com o paranaense: mexia-se sem parar, abria e fechava a janelinha, limpava o suor da testa. 

— Enfarto, na certa — concluiu serenamente, enquanto derrubava com pose cinematográfica a cinza do cigarro.

Ninguém ousaria duvidar daquele que vira a aproximação da Morte e até fora atingido por seu cuspe: fazia questão de mostrar a pequena faixa molhada na barra da calça. Era sua credencial.

— Tão novo, coitado.

— Sozinho numa hora dessas.

— É o destino da gente. Fazer o que?

Quem não estava triste era o dono do bar, apanhado de surpresa por aqueles fregueses compulsórios.

Procurei um lugar iluminado para ler. Já havia passado de uma da madrugada, quando ergui a cabeça da revista e vi o mesmo carro da polícia estacionar no meio-fio. O paranaense finalmente desceu, pálido como vela, seguido de perto por dois soldados: um preto e um branco.

Não diria que nosso homem estava rindo. Mas quase. A ansiosa tripulação, dividida entre os bancos da rodoviária e as poltronas do ônibus, reuniu-se depressa em torno dos três.

— Que foi? Que não foi?

Como sempre, eu era o último a saber. Para falar a verdade, agora que a fronteira da vida e da morte andava por demais confundida, eu não estava muito interessado em óbitos ou nascimentos. Já estava suficientemente contaminado pela banalização da morte. Tanto fazia uma coisa como a outra.

Felizmente, porém, não tinha sido enfarto, nem derrame, nem nada. Estávamos livres. A vida podia continuar viagem até o Paraná:

— Só uma bebedeira mal curada, seguida de subnutrição e extrema fraqueza — explicou em bom português o soldado preto. — Daí, a convulsão...

Jamais vi um ressuscitado ser tratado com tamanho desprezo pelas pessoas. "Um bêbado... Essa que faltava..." Deixaram-no logo de lado e o ônibus retomou normalmente a pista, com duas imperdoáveis horas de atraso e um único fato novo: o vizinho de banco, ex-autoridade moral no assunto, decidiu mudar de poltrona.

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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