AS BATATAS

 

 

Era uma vez o professor João Sem Braço, que ensinava matemática na Universidade Futuro Garantido S/A. Nas horas vagas, gostava de filosofar. Depois de muitas e sufocantes operações de soma, diminuição, multiplicação e até divisão (que era o que menos gostava de ensinar), usava presentear os alunos com o doce refresco de suas sabedorias, acumuladas após tantas equações bem resolvidas.

Naquela manhã, dez ou quinze minutos antes do final da aula, levantou-se da mesa com uma ficha de leitura e aproximou-se de seu jovem público:

— Meus queridos — disse ele —, até que enfim achei alguma coisa que prestasse naquela porcaria do Machado de Assis. Vocês bem sabem como detesto literatura, mas acabei abrindo uma exceção pro romance Quincas Borba. Trouxe até um parágrafo pra vocês anotarem, devidamente traduzido e adaptado pro português de nossa época. Vamos lá?

Esperou que todos abrissem o caderno e começou a leitura, palavra por palavra, como se ditasse os termos de uma equação:

— “Imaginem uma plantação de batatas e duas tribos famintas, muito pobres, que morem ali perto. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim teria forças para transpor a alta montanha e chegar ao outro lado, onde há batatas e riqueza em abundância. Se as duas pobres tribos dividissem em paz as batatas, não conseguiriam se alimentar o suficiente para tão longa caminhada e morreriam antes de chegar ao outro lado. A paz, nesse caso, equivaleria à pobreza absoluta — seria a destruição das duas tribos —, enquanto a guerra seria a conservação da mais capaz. Então a tribo mais competente exterminou a outra e ficou com suas coisas. Ao vencido, ódio e compaixão; ao vencedor, as batatas e a riqueza.”

Tirou os óculos de leitura e, feliz, ergueu os olhos brilhantes para a classe:

— Não é a mais pura verdade? Parece uma equação matemática. É de uma lógica cristalina!

Como um padre que, depois da leitura da parábola, passasse a comentá-la, seguiu em frente:

— Pois é assim mesmo a vida. Somos muitos, na maioria pobres, e as boas oportunidades são bem poucas. Não será pedindo licença ao vizinho, polidamente, que vou me apropriar de sua bela mulher ou de suas gordas batatas. O que acontece nesse livro do Machado? Professor Rubião, uma vergonha pra nossa categoria, era um notório incompetente que não sabia administrar a sua riqueza, que na verdade era uma herança, e viu-se com toda justiça espoliado pelo casal Palha e Sofia. Aliás, com excelente desempenho desta na sedução e manipulação do professor... Vou até sugerir ao professor de literatura que analise com vocês essa bela e instrutiva obra, que tem tudo pra ser a Bíblia do neoliberalismo brasileiro. Garanto, como dois e dois são quatro, que vocês vão crescer 200 % com essa edificante leitura, ficando mais aptos a passar a perna no vizinho e, sobretudo, sem culpa por sua queda.

Continuou falando até soar a buzina do final da aula. Por fim, despediu-se da turma:

— Amanhã, prometo falar sobre a conveniência do pobre em continuar amigo do esperto vizinho que lhe roubou a mulher e as batatas. Boa esperteza a todos. Até a próxima aula.

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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