MANUEL BANDEIRA
Venha a cantiga com lacres,
Gota a gota congelada
Em cristal de negação.
Negação que nega o Não
É coisa santa e sagrada...
Venha a áspera, a estridente,
A ígnea rosa do povo:
Tolos cânticos guerreiros
Também buscam os primeiros
Espelhos do dia novo.
Venha a poesia concreta
De que não posso gostar.
Venham frios parnasianismos,
Venham derrames de abismos,
Venham o bom e o mau cantar.
Cantares para os mais pobres
Entranhados ao pão diário.
Cantigas pra gente chique
Que talvez se modifique
Ao sopro do imaginário.
Cruzar o eterno e o instante,
O futuro com o passado...
Venham poemas e poetas,
Venham poesias concretas
De que não tenho gostado.
— Dona Poesia, ó poetas,
Do vosso e do nosso lado.