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PARECER SOBRE RELATÓRIO DE UMA VIAGEM AZUL Designado para exarar parecer sobre o relatório de viagem da Família Estressada, passo a considerar o que segue. Segundo o mencionado relatório, a família não sabia onde passear na Semana Santa. Depois de alguns dias debatendo-se em dúvidas — a família era pobre e não podia ir muito longe —, “brotou no ar [palavras do relatório], como um pássaro, a idéia luminosa” do Filho-Mais-Velho: — Que tal a ponte do Sapucaí, na estrada velha de Franca? A gente caminha um pouco pela margem do rio. A família aprovou a idéia, mas continuou cética. Uma margem de rio não resolveria o problema deles. Mas na manhã seguinte, manhã de Sábado de Aleluia, “muito azul e transparente”, a estressada família teria entrado no carro e foi explorar a várzea do rio Sapucaí. Segundo o relatório, o começo da viagem não foi muito promissor. A estrada velha de Franca estava muito estragada pelos caminhões de cana, cheia de cascalhos e buracos. Mas tranqüilizaram-se com o argumento da Mãe: o carro era suficientemente velho para não piorar com a viagem. O Pai lembrou-se do tempo em que essa estrada era uma das melhores da redondeza: — Eu vinha sempre passear de bicicleta. Nadava no poço do Açoita-Cavalo e depois voltava. A Mãe lembrou-se de que sua família viveu muito tempo em uma fazenda próxima, antes de mudar-se para Canaviais. Não estavam indo, portanto, a um lugar qualquer. De algum modo, tinham raízes por ali. “Retornavam às origens”, conforme as palavras do relatório. Depois da Curva do Cinco, que pareceria mesmo um 5, teria começado o show dos angicos, com direito a número suplementar de sagüis pulando de galho em galho. Os angicos espalhavam-se — palavra do relatório! — por mais de um quilômetro na beira da estrada. Seriam árvores enormes, mas de folhas finas e delicadas. Nem tudo estaria perdido. O Pai então teria parado o carro, a família descido para apreciar melhor os trapezistas e tirar uma panorâmica do vale do Açoita-Cavalo, que se desdobraria sinuosamente à direita. Estaria tudo azul no céu e nas quatro almas da família, já em vias de desestressar-se. Teria sido então que o Pai sugeriu uma rápida passada pela queda d'água do ribeirão do Açoita-Cavalo, que ficaria no meio de um capão de mato que avistariam dali do alto. Todos teriam concordado na hora e o carro teria se enfiado à direita, numa estradinha também esburacada, mas de um esburacado diferente, quase poético, segundo o relatório. — O fazendeiro tinha fechado a entrada — o Pai teria se lembrado. — Mas quem segura pescador? A porteira, além de destrancada, estaria aberta. E o carro teria descido. Lá embaixo, teria deixado a estradinha esburacada e poético para pegar o trilho que separaria a várzea e o imenso canavial que escalaria a colina do Bom Retiro. Logo que o motor foi desligado, teriam ouvido o ronco da água que viria do capão. — Como chegar até ali? — a Mãe teria manifestado desejo de saber, ao mesmo tempo aflita e maravilhada. O Pai teria ficado em dúvida. O mato formaria “um espesso paredão protegendo o velho santuário”, dificultando a entrada da família que, apesar de tudo, agora parecia rir por qualquer motivo. Aquele pedaço de clareira no mato já seria suficiente para enchê-los de alegria. Se não conseguissem ver a queda d’água, não iam se sentir frustrados. Depois de algumas tentativas, o Filho-Mais-Velho a teria descoberto não muito longe dali: — Olha lá cachoeira! — teria dito. Entre picões e carrapichos, todos teriam corrido para ver. E ela — a queda d'água imediatamente promovida a cachoeira — estava lá mesmo, conforme o relatório, do jeito que sempre tinha sido: a água do ribeirão caindo das pedras e “abrindo uma grande curva remansosa, dessas que todos gostariam de ter em seu quintal”. O Pai quase teria chorado, quando a viu: — Como isso aqui ficou diferente! De acordo com o relatório, o Filho-Mais-Velho achou em seguida uma bela flor branca, de pétalas largas, e ofereceu-a à Mãe, que sorriu e cheirou discretamente. A Mãe teria ficado mais bonita e mais jovem com aquela flor na mão. O Pai a teria beijado carinhosamente na testa, chamando-a de querida. Ela teria dito que estava muito, muito feliz. Todos estariam agachados à margem, com os tênis encharcados pelo orvalho, olhando e ouvindo em silêncio. Uma borboleta azul foi vista aproximando-se, depois indo, depois voltando. Cigarras assobiavam desanimadas. — Quanto tempo não escutava uma cigarra — a Mãe confessou. A verdade é que a família, já completamente curada do estresse, foi ficando por ali, já esquecida das margens do rio Sapucaí. Ainda havia muito o que fazer no Açoita-Cavalo, mesmo se fosse para não fazer nada. Um pouco mais tarde, o Filho-Mais-Velho viu um caminho que levava ao topo da colina. Propôs então uma caminhada, logo aceita pela maioria do grupo, exceto pelo Filho-Mais-Novo, o mais preguiçoso dos quatro, que alegou cansaço e preferia não sair de onde estava. O Filho-Mais-Velho chamou-o de “pó-de-arroz”, “dondoca”. Mas o Filho-Mais-Novo não ligou. Estava confortavelmentre deitado numa sombra macia: — Esse negócio é uma beleza! Nenhum ser humano para atrapalhar. O Pai, enquanto subia, continuou lembrando-se das outras vezes em que esteve ali, na adolescência, e de como sempre associava a colina do Bom Retiro à montanha de Santa Vitória, aquela dos quadros de Cézanne. O suor escorria dos rostos dos três que decidiram escalar a suave colina. As camisas estavam molhadas. Concordaram todos que o Sapucaí ficaria mesmo para amanhã seguinte. Ainda havia muito o que explorar por ali. Naquele momento, segundo o relatório, não lhes passavam idéias desconfortáveis pela cabeça, como a possibilidade deles não voltarem tão cedo ao mato — nem quando a família voltasse a se estressar bastante, a ponto de não mais suportar a cidade. O relatório não relata mais nada. Não tem desfecho. Interrompe-se, bruscamente, quando a maior parte da família subia a colina do Bom Retiro e a parte menor descansava, confortavelmente, à sombra de um ingazeiro. Manifesto-me, portanto, pela não aprovação do mesmo. |