O ANJO ATRASADO

 

 

O que se vai ler aconteceu com o juiz de direito da comarca de Canaviais, num dos três pequenos edifícios de Canaviais. O edifício, porém, era grande o suficiente para propiciar o salto livre e a morte certa. Era uma cidade também pequena, mas não tão pequena que já não produzisse razões de sobra para alguém desistir da própria vida.

Como se já tivesse sido abandonado pelo próprio eu — não vou revelar agora os motivos do desespero: fica para outro conto —, o juiz de direito da comarca de Canaviais encostou a cadeira numa janela do belo apartamento, recém comprado, subiu no parapeito e, sem mais nem menos, jogou-se contra o vazio, obscenamente aberto à sua frente.

Apesar de curto, foi um vôo espetacular. De mergulho. Um homem com os braços e as pernas contraídos — como se fosse uma enorme garra, ávida por rasgar a indiferente pele do mundo. A única pessoa que o viu nem teve tempo de gritar, pois tudo terminou muito depressa.

Já se disse que todo suicida é um exibicionista póstumo. Para ferir mais fundamente a mulher ingrata ou o credor impaciente, é provável que alguém já tenha se lembrado de filmar o próprio desfecho, num lugar qualquer do vasto mundo. Faria sucesso nas locadoras de vídeo.

Não consigo imaginar como seria o olhar dos suicidas, no momento que antecede o gesto definitivo — pupilas brilhando como vidraça batida de sol, ou fogueira depois que a água apagou a última brasa. De qualquer modo, é inimaginável um suicida de olhar sereno.

Como dizia, a única pessoa que o viu não teve tempo de gritar, apesar de ter guardado para sempre na memória os braços e as pernas contraídos — uma enorme garra voadora a caminho do chão.

Um pouco antes do juiz de direito da comarca de Canaviais chocar-se com a calçada ou o asfalto, depois de trinta metros viajando de ponta-cabeça, eis que o seu anjo da guarda — que estava meio atrasado, em dúvida se o salvava ou não — cruzou rápida e invisivelmente o espaço, com aquela invisível rapidez que só os anjos possuem, chegando em tempo de corrigir (discretamente, com um leve toque de unha) a rota do suicida, que escapou de ser o provavelmente justo assassino de si próprio. Todo juiz tem alguma razão para ser assassinado.

Enfim, encurtando a conversa que já vai longa: o juiz da comarca de Canaviais, como se fosse um hábil trapezista, acabou batendo nos fios da rede elétrica e foi cair amortecido perto do meio-fio. Para o circo ficar completo, só faltaram os aplausos.

Todos os que presenciaram o milagre — e não foram muitos — garantiram que ele proferiu um absurdo palavrão contra o anjo da guarda, assim que terminou o passeio aéreo e ele se viu novamente, lúcido e vivo, entre pessoas vivas e lúcidas.

Machucou-se bastante, é verdade, mas foi conduzido imediatamente ao hospital de Canaviais. Infelizmente para ele, não houve nenhum ferimento grave, com o qual pudesse concluir, no leito hospitalar, o plano desgraçadamente falhado na corajosa viagem vertical.

 

 

O ANJO ATRASADOJosé Carlos Zamboni                                              Contos
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