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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 39 31/10/2008. Em defesa do menor abandonado. Poetas menores, que acertam de vez em quando (e algumas vezes acertam muito bem), funcionam melhor em antologias coletivas. Uma antologia com bons poemas de poetas medíocres seria um grande livro de poemas. 29/10/2008. As palavras do mundo. O molequinho de cinco anos disse aos outros dois molequinhos de cinco anos: — Ele chamou a gente de caralho. Quem era “ele”? Também outro molequinho de cinco anos, que tinha acabado de sair correndo. 28/10/2008. Dizem que o primeiro português era bastante apegado ao momento que passava e sofria muito ao perdê-lo. Pra suportar a perda, um dia ele pegou uma guitarra e cantou um fado. Nasceu, então, a saudade. E ele ficou lamentando o tempo perdido pro resto da vida, esquecendo-se de aproveitar os outros momentos que passavam, rapidamente, por Portugal. 27/10/2008. Já foi um curso de letras. Hoje, é um curso de letras... de música. 26/10/2008. Subsídios para uma história tecnológica da literatura. O romance foi fabricado pela máquina de Gutenberg e triturado pela máquina dos irmãos Lumière. 25/10/2008. O Brasil nunca viveu uma fase tão fértil em cantores... de pneus. 24/10/2008. A velha idéia, muito combatida pela crítica formalista, da literatura como “documento” do espírito do autor, não me parece nada absurda. Independente do valor próprio que possam ter as obras em si mesmas, nalguns casos — nos gênios, digamos logo — elas também são parte de uma escalada, degraus pelos quais eles sobem na escada do conhecimento. Como separar Guerra e paz e Ana Karenina, apesar dos movimentos de rotação que essas duas obras fazem sobre si mesmas, da figura central de Tolstoi, com todos os seus equívocos pessoais e filosóficos, mas em torno da qual elas transladam continuamente, como planetas em volta do sol? Exemplos sem conta poderiam ser mencionados, de Shakespeare a Goethe, de Dante a Dostoievski, de Homero a Kafka. Não há frustração maior para o leitor do que a de não saber nada acerca do criador da Ilíada e da Odisséia, como se as duas obras fossem filhos órfãos ou de criação espontânea. Por maior que seja a felicidade estética provocada por uma boa encenação de Antônio e Cleópatra, queremos ver as outras peças; não sossegamos enquanto a imagem espiritual de Shakespeare não estiver desenhada com um mínimo de nitidez em nossa mente. 23/10/2008. Há escritores que leio por identificação, como se, lendo-os, fosse eu próprio a pensar; evidentemente, bem melhor do que na verdade sou capaz de pensar... É uma das formas mais completas de auto-satisfação que conheço. Há escritores que leio só pra ver como pensam os outros. Com freqüência, porém — e sem querer me gabar com o fato, até pelo contrário —, me apanho procurando pontos de discordância com os iguais e de semelhança com os diferentes. Êta vida sem sossego!... Será isso dialética? Só se for a de Heráclito de Éfeso, cujas sentenças jamais me cansei de ler e reler; nunca a de Hegel ou Marx, que não só viraram Heráclito de ponta cabeça (como fez o próprio Marx com Hegel), mas também pelo avesso. Você consegue imaginar marxistas procurando pontos de discordância com seus iguais e de semelhança com seus diferentes? Difícil. Seria uma ameaça ao sistema deles, e isso é inadmissível. Marxismo não é filosofia, mas religião, com seus aiatolás cubanos e pajés petistas. 22/10/2008. Até pra coçar, na pequena árvore, o cavalo mantém a elegância. Os cavalos são os lordes da natureza, inclusive os pangarés. Um pangaré resiste bem até à própria palavra pangaré; e só começa a perder o interesse, quando comparado com um manga-larga. Ou seja, problema não está nos pangarés nem nas palavras feias, mas no método comparativo. 21/10/2008. Gostar de mulher baixinha ainda vai dar problemas. Os fiscais da correção política alegarão impulsos pedófilos mal disfarçados, sobretudo se o desejo é dirigido a essas adoráveis baixinhas meio infantilizadas, mas que já menstruam há muitos anos. 20/10/2008. Modesta contribuição para a campanha anti-aborto. Não sei por quê, mas tem hora em que me acho um zigoto de cinqüenta e dois anos. 19/10/2008. Romance que foi levado à tela pode ser lido, depois de visto o filme, como um longo comentário a ele, espécie de desenvolvimento — embora já estivesse pronto antes do filme — das idéias, ações ou personagens que a concisão do roteiro deixa obrigatoriamente de lado; um comentário ficcional, para sempre girando em torno das versões cinematográficas do texto. Diferente do texto teatral, que em geral coincide com o que dizem os atores no palco, o romance será visto como um almoxarifado com excesso de matéria-prima, bem mais do que necessitam os produtores de filmes. 18/10/2008. Proposta de alteração regimental: duzentas horas de estágio obrigatório como coveiros pros alunos de filosofia da USP, UNICAMP, UNESP, PUC, UNB, UFRJ etc. etc.etc. 17/10/2008. O suicídio, diante do sadismo de certas doenças, não é ato de desespero, mas de profundo amor pela vida. Deus seria o primeiro a compreender. 16/10/2008. Se Sócrates não disse, teria dito: há perguntas cujas respostas mais inteligentes só podem ser outras perguntas... difíceis. 15/10/2008. Os extremos se comunicam melhor que o muito próximo. A origem de muito nariz quebrado não está na ponta dos pés? 14/10/2008. O escritor, jornalista e mineiro Otto Lara Resende, autor de um romance e alguns livros de contos, era mais conhecido como subtítulo de uma peça famosa de seu amigo Nelson Rodrigues, Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende. Entre os amigos, era também famosa a sua habilidade como frasista, infelizmente mais oral que escrito. Uma de suas frases talvez explique aquela amizade com o dramaturgo carioca, exatamente o seu oposto: “Positivamente, não posso ser apresentado a Satanás: como André Gide, sofro a tentação de entender as razões do adversário.” Jornalista desde os dezoito anos, morreu jornalista aos setenta anos, depois de uma experiência inédita: foi contratado pela Folha de São Paulo para escrever a coluna diária “Rio de Janeiro”, na segunda página do diário paulistano. Era uma página exclusivamente política, mas Otto teve carta branca para tratar dos assuntos que quisesse. Foi um desafio para o escritor que, sofrendo ao mesmo tempo da compulsão da escrita e da flaubertiana obsessão da reescrita, era obrigado a desovar diariamente uma crônica de trezentas a quatrocentas palavras. Cronista dentro da boa tradição brasileira, Otto Lara Resende escreveu sobre tudo desde o primeiro dia de maio de 1991, data de sua estréia na Folha, até o dia 28 de dezembro de 1992, quando uma parada cardiorrespiratória o expulsou da coluna e da vida. 13/10/2008. O cachorro é ansioso, o gato depressivo. 12/10/2008. O que Machado de Assis tinha de cordial na convivência, tinha de rabugento na escrita. Busca de equilíbrio? 11/10/2008. A principal desvantagem dos sábios: despojando-se da voz ativa, eles se transformam em vítimas imediatas dos agentes da passiva. 10/10/2008. Segundo a cantora Adriana Calcanhoto, “para cada sentimento humano, para cada mais sutil sensação, para qualquer situação possível nesta vida, já há uma música correspondente no cancioneiro brasileiro.” Evidentemente, não é verdade, mas a intenção do pessoal é essa, e a intenção de hoje é a mãe das coisas futuras — futuros filmes em vez de romances e futuros poemas já nascendo letras, como parece ser o destino da literatura. 09/10/2008. Quixote é lúcido e alucinado: luz e falta de luz ao mesmo tempo. 08/10/2008. O verdadeiro marco divisório entre a pré-história e a vida civilizada foi a invenção do eufemismo. 07/10/2008. Bicho antigo. Nós somos anteriores ao passado, De um tempo antes do tempo conhecido, Quando o espaço, nem fundo nem comprido, Nada tinha por cima nem do lado. Somos bem antes do menor ruído, Anteriores ao círculo e ao quadrado, Quando o universo, antes de ser criado, E o pensamento, antes de ter sentido. Vimos cansados: a bolor trescala O suor dos que no fundo já vêm sós, Antes de haver caminhos e haver pontes. Todos velhíssimos de usar bengala, Vimos de longe antes que sobre nós Os astros, as manhãs, os horizontes. 06/10/2008. Toada urbana. Se pudesse, minha rua Teria um outro feitio: No lugar dos postes, lua; No lugar do asfalto, rio. 05/10/2008. A literatura ainda é a melhor garantia de que, além da “agitação feroz e sem finalidade” do mundo prático, há uma outra faixa de realidade por onde a mente pode circular mais tranqüila — o único risco é ser atropelada por um poema concreto ou um romance do Chico Buarque. 04/10/2008. Se o ceticismo quiser ser honesto, deve ser cético até consigo mesmo. O que lhe enfraquece é justamente a certeza que aparenta, quando adormece à sombra do próprio relativismo. A absolutização do relativo é a Dalila do ceticismo. Por que não fazer um uso mais heróico da dúvida, aplicando-a estoicamente a si mesma, sem nenhuma vergonha de admitir a possibilidade de absolutos e até do Absoluto? Princípios ou valores como proteção da vida humana, liberdade individual, respeito ao próximo, gratidão ou compaixão são facilmente defensáveis e desejáveis, independentemente do fato de praticarmos ou não essas boas coisas. Quem os repudia, no todo ou em parte, não merece sentar-se à nossa mesa, como diria Sófocles. Nenhum cético decente se recusaria a admiti-las no time das verdades morais indiscutíveis. 03/10/2008. O humorista não leva a sério nenhuma disputa, pois para ele o homem está condenado à lanterninha. De preferência, escorregando em sucessivas cascas de banana. 02/10/2008. O orgulho, principal paixão dos militantes (sejam socialistas, liberais, fascistas), sempre degenera na mais patética forma de megalomania: embora bichos da terra tão pequenos, acreditam-se com o poder de interferir na programação do universo, movendo o sol e as outras estrelas. 01/10/2008. Primeiro a tevê, e depois o computador, inventaram um novo tipo de boêmio: atravessa a madrugada em claro, mas sem sair de casa. |