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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 38

 

 

 

30/09/2008. “Sou poeta menor, perdoai”, dizia de si mesmo o grande Bandeira. Não sei se usou o adjetivo no sentido espacial, de poeta que praticou formas mais curtas; ou no sentido crítico, de poesia inferior. De qualquer modo, nosso maior poeta julgava-se o único com direito a fazer restrições à própria obra. Diante do menor reparo alheio, transformava-se num zeloso cão de guarda do próprio edifício.

 

 

29/09/2008.  Algum honesto pacifista já deve ter escrito a história das invenções tecnológicas provocadas por conflitos bélicos, da pré-história à pós-história... Uma obra que tivesse como epígrafe, obrigatoriamente, a terrível máxima heraclitiana da guerra como mãe de todas as coisas (mãe que na verdade era um pai, pólemos) e terminasse com a melancólica evidência de que a civilização é a filha preferida do combate.

 

 

28/09/2008. Das conversas da sogra e da nora.

— Descobri que a espécie humana tem duzentos e trinta mil anos, e não duzentos e cinqüenta, como a senhora anda dizendo.

— Não vamos brigar por causa de vinte mil anos, querida.

— De qualquer modo, duzentos e trinta ou duzentos e cinqüenta é muito tempo, o suficiente pra já se ter aprendido alguma coisa...

— No entanto, não parece que a espécie começou com a gente, há alguns anos?

— Pior que isso: vivemos como se ela fosse acabar ao mesmo tempo que nós.

 

 

27/09/2008. No amor, Inferno, Purgatório e Paraíso são meras províncias de um reino instável, praticamente sem governo, sempre sujeito a terremotos e sublevações. O amante transita de uma província a outra com a maior facilidade — o principal meio de transporte do reino é o vôo supersônico. Em minutos, vai do Inferno ao Paraíso e vice-versa.

 

 

26/09/2008. Das modalidades de espelho.

# O espelho pode conduzir ao narcisismo ou ao auto-humor. Depende da civilização que fabricou o espelho.

# Desde o berço, a pessoa devia ser estimulada a praticar o auto-humor, que é um excelente profilático. Em geral, porém, só começa a fazê-lo na velhice, depois da falência hormonal e toda uma vida dedicada à contemplação embevecida de si mesmo.

 

 

25/09/2008. Antigamente, em qualquer país civilizado, professor com formação filosófica e cultura geral era o mais indicado pro cargo de reitor universitário. Mas as palavras mudam, e hoje reitor, sobretudo de universidade pública, significa um teacher bem falante, bom de voto, temporariamente disfarçado de executivo, numa atividade que tem mais a ver com números que com idéias.

 

 

24/09/2008. Arte engajada não é coisa do passado: nada é mais militante que uma novela da Globo, com aquele esquerdismo pop, maneiro, espertamente infiltrado na empresa. Tem defesa de minorias sexuais, denúncia de racismo, ricos politicamente corretos, feministas militantes. Os homens, aliás, são todos uns fracotes submetidos à nova mulher que, mais cedo ou mais tarde, acaba por dominá-lo. Homem sem ética, ou melhor, sem ética feminista, não tem nas novelas direito a carinho. As putas têm cidadania garantida, não como “traviatas” românticas, mas profissionais que executam o serviço com exemplar consciência de classe; a maioria têm bom coração, são leais com o gigolô e o cliente, cumprem rigorosamente os horários.

 

 

23/09/2008. Nos duzentos e cinqüenta mil anos que poderia ter a nossa espécie, as mulheres foram “as servas do senhor”. Com o cristianismo, os senhores passaram a fingir que serviam suas servas, pra mais tranqüilamente dominá-las.

Apesar do principal lucro ainda ter sido masculino, foi a primeira grande vitória feminista, graças, sobretudo, ao engajamento póstumo da Virgem Santíssima, ponto de partida de exigências cada vez maiores. Se as feministas fossem menos secularizadas, Nossa Senhora seria a padroeira natural da causa.

Agora, vai chorar menos quem puder mais. Ou seja, elas vão rir bem mais que os futuros “servos da senhora” e, nos próximos duzentos e cinqüenta mil anos, só aceitarão ficar por baixo naquela hora.

 

 

22/09/2008. O parto é uma foda ao contrário, obrigatoriamente incestuosa.

 

 

21/09/2008. A imagem que me ficou do Vinícius de Moraes, entre outras menos patéticas, foi a do velho gorducho, de barba e cabelo comprido, copo de uísque na mão, cantando afro-sambas no programa Almoço com as estrelas, da TV Tupi. Era patético.

O poeta que começou escrevendo belos salmos bíblicos e terminou com um longo e imperdoável poema sindicalista, “Operário em construção”, teria sido mesmo um apóstata ou não passou de um herege que, pra melhor chamar a atenção do seu Deus da juventude (do qual foi Congregado Mariano), esforçou-se por acreditar no deus marxista da História?

Quem o conheceu, garante que tinha poderes mediúnicos. Via coisas do outro mundo. Enfim, era um homem essencialmente religioso, que substituiu os santos do catolicismo pelas divindades pagãs do candomblé, pois não conseguia viver sem alguma forma de transcendência.

 

 

20/09/2008. Poema pessimista.

Nós estamos por um fio:

O fio que a Moira desfaz

Olhando as águas do rio

Que sempre voltam... jamais.

Um quase nada separa

A luz — da falta de lume,

A doçura — do azedume,

Sorrir — ou fechar a cara.

Incapaz de platonismo,

Vou indo na estrada turva

Na expectativa do abismo

Em cada ponto da curva.

E esses que levam dois anos

Planejando os outros vinte?

Não consigo fazer planos

Nem pro minuto seguinte.

 

 

19/09/2008. O nome da principal doença contemporânea é apeirocalia: ignorância do belo e do bem. Remédio existe, mas ninguém receita; quando receita, ninguém usa.

 

 

18/09/2008. Resposta de Anarina ao poeta.

Deixemos de lero-lero

E encaremos bem o fato:

Pra fugir com literato,

Eu que não sou poetiza,

Cartão de crédito eu quero.

Mulher não vive de brisa.

 

 

18/09/2008. Começo de peça teatral.

Mesa redonda em salão nobre da ECA-USP, num simpósio sobre cinema. As três jovens atrizes, com seriedade de comentarista econômico, discutem se vale a pena atuar em filme pornô. Não perdem tempo com aspectos morais da questão, que é debate já superado, mas com os eventuais prejuízos que uma chupeta explicita poderia trazer às suas carreiras.

 

 

17/09/2008. Adesivo no furgão da pet-shop: “Deus é fiel como um lulu.”

 

 

16/09/2008. Se eu sou eu e minha circunstância, como disse o filósofo, é obrigatório admitir que o além faz parte da minha “figura”. Pois o que é a circunstância (o que está ao redor) senão o começo do além, a parte menos intangível do além, a manifestação “aqui perto” de uma realidade que se desdobra em círculos cada vez mais distantes e misteriosos?

Circunstância não é só o “social”, o “político”, o “geográfico”, mas isso tudo e muita coisa além, além do além, além do além do além etc., que desnorteia o eu e bota aquelas categorias no seu devido lugar, ou seja, no primeiro e mais fácil degrau da circunstância.

Nem por isso o “social” e o “político” são tão simples assim. Desde o começo do mundo estamos perguntando o que é a sociedade e qual é a melhor forma de organizá-la, sem uma resposta definitiva até agora. É que daquele “além do além do além” procede uma ininterrupta névoa que se infiltra entre as coisas mais circunstantes e lhes diminui a visibilidade.

Misturando Ortega e Sócrates, poderia dizer que eu sou eu — e tudo o que nada sei.

 

 

15/09/2008. O poeta já nasceu fechado pra balanço.

 

 

14/09/2008. Hoje, as menininhas só falam inglês norte-americano, o que é uma pena, pois a única língua que poderia figurar entre adereços femininos é a francesa.

 

 

13/09/2008. Por mais que circule em bando, não há solidão pior que a do bandido. Vai sozinho no deserto — e nem a própria sombra confia nele.

 

 

12/09/2008. O homem foi uma pedra no meio do caminho de Deus, que nunca se esquecerá desse acontecimento em sua vida de retinas tão fatigadas.

 

 

11/09/2008. Pra um museu imaginário da filosofia.

A taça com que Sócrates bebeu a cicuta.

Uma lente polida por Espinosa.

A calculadora de Leibniz.

O relógio do vizinho de Kant.

O cachorro de Schopenhauer.

O cavalo de Torino pra quem Nietzsche deu bom dia.

(Aceitam-se doações).

 

 

10/09/2008. Admiração irrestrita por coisas deste mundo tem algo de demoníaco, pois equivaleria a botar o relativo correndo na mesma faixa do absoluto e, de algum modo, com ele disputando o pódio.

 

 

09/09/2008. Segundo os velhos manuais de literatura, poesia é expressão de sentimentos. O poeta João Cabral discordava, privilegiando o trabalho da inteligência sobre a intuição. Não estaríamos um pouco mais perto da verdade, se disséssemos que a poesia é a expressão inteligente dos sentimentos?

 

 

08/09/2008. O choro é o argumento do coração. Nenhum raciocínio é mais persuasivo ou convincente, sobretudo em bebês e moças bonitas.

 

 

07/09/2008. Há um problema — ou vantagem, dependendo do gosto — nos clássicos do romance russo: aqueles nomes compridos, estranhos, imemorizáveis de pessoas e lugares, que impedem a verossimilhança e dão um aspecto fantástico à história mais realista.

 

 

06/09/2008. A crença na história cíclica, à Spengler e Toynbee, tem pelo menos uma vantagem sobre a crença numa história evolucionista ou finalista: ajuda a suportar melhor a atualidade. As atualidades, seria melhor dizer, pois todos os presentes do passado e todos os presentes do futuro foram e serão insuportáveis, do ponto de vista individual.

 

 

05/09/2008. Reli uma antologia de Vinícius de Moraes, preparada pelo autor. Se ainda tinha dúvidas, foram levadas pelo vento, pela ventania dos versos largos e withmanianos da sua primeira fase: é poeta de verdade. Mas, espírito romântico, “inspirado”, se dava melhor quando fugia dos padrões modernistas. Quando, a partir dos anos cinqüenta, suas idéias cada vez mais “racionalistas” ajudaram a reprimir aquele pathos quase mediúnico do início, o poeta migrou para a canção popular e, de repente, não mais que de repente, se fez letrista.

Mais uma prova de que, para ser letrista, não é preciso ser grande poeta. As melhores letras não são justamente aquelas que, pela pobreza “lírica”, não chamam exagerada atenção sobre si mesmas, deixando o primeiro plano para as qualidades mais estritamente musicais?

 

 

04/09/2008. Crítica e utopia .

Se, antes do prelo, nossa literatura mais recente fosse lida e anotada pelo Wilson Martins, o Brasil só teria obras-primas...

 

 

03/09/2008. Poluição é inerente à natureza humana. Ponto final. Mas aumentou bastante com a civilização, fato que não é de todo irrelevante para a própria definição desta última... A visual não é difícil de amenizar — basta fechar os olhos ou desviá-los. A do ar, por pior que seja, leva o monóxido de carbono ao pulmão, sangue e tecidos, sem ligação direta com a alma, embora seja a mais punível. Já a sonora não tem limites, pois começa agredindo os tímpanos e termina infernizando a alma, que é infinita, pelo menos enquanto dura.

Sempre pensei que, por justiça, o vizinho aposentado do quarenta e nove, que fala alto demais e, ainda que involuntariamente, não poupa a vizinhança do vozeirão compulsivo, devesse pagar mais taxa de condomínio que nós, seus ouvintes compulsórios. Não vou nem falar nos aparelhos de som, hors concours em questões poluentes.

Engraçado: nossa civilização desenvolveu mais mecanismos de defesa pro corpo que pra alma.

 

 

02/09/2008. Cometi muitos pecados neste mundo, mas preferia não pagá-los com uma palestra do Roberto Schwarz sobre Machado de Assis. Alguns milênios de purgatório seriam suficientes.

 

 

01/09/2008. Atribulações de um filho de família.

A família, infelizmente

(Pra nossa felicidade!),

É a parte da humanidade

Que faz divisa co’a gente.

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