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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 36

 

31/07/2008. O politicamente correto, com seus eufemismos morais, é o inimigo número um do humor. Onde está a graça do Zorra total, dos Trapalhões? Com ameaça de cadeia pra quem contar piada sobre veado, sapatão, japonês, preto, evangélico, gago, etc., vamos rir de quê? Ao Casseta, que aliás não prima pela correção política, faltam atores intrinsecamente engraçados. Jô Soares, quando consegue escapar dessa camisa de força, ainda é engraçado. Tom Cavalcanti foi amansado pelo Bispo Macedo. Chico Anísio, talentoso e vaidoso na mesma proporção, decidiu privar o público de sua decadência física, quando poderia tirar vantagens dela com sua inteligência. Decair não é demérito pra ninguém; quem não está em franco declive?

O bom-mocismo esquedizante pasteurizou e adoçou a soda cáustica do humor, pelo menos na sua versão pública. Pois em casa, já quase uma atividade subversiva, ele permanece como sempre foi: cego como a justiça.

 

 

29/07/2008. As malasartes da história das artes: no século das melhores e mais afinadas orquestras (em Berlim, Amsterdã, Londres, Tel-Aviv, Nova Iorque, Chicago, Cleveland, Boston etc.) surge a música dodeca-cacofônica. Parece gagueira, mas é sim.

 

 

28/07/2008. Se Lula é vitorioso, a única derrotada só pode ser a civilização.

 

 

27/07/2008. Octavio de Faria não é, seguramente, um modelo de concisão literária. É o anti-Graciliano Ramos, com quem poderia formar a dupla gordo e magro, pelo menos em questões de estilo. Nenhuma obra, porém, é mais despojada do mundo exterior que a sua. Conseguiu fazer um retrato “essencial” da burguesia brasileira, quase sem concessão a conceitos sociológicos. Levou a idéia de burguês de volta à sua matriz eterna: o que sempre esteve por cima, de preferência auxiliados por Satã, o Senhor do Mundo.

 

 

26/07/2008. Dei, por acaso, uma folheada no livro Teoria da poesia concreta, reunião dos manifestos da divertida corrente literária. Defensores, no plano poético, do período composto por insubordinação, eram no entanto esquizofrenicamente cartesianos na formulação da sua estética.

 

 

25/07/2008. Flaubert, o que reescrevia. Stendhal, o que não passava a limpo. Acaso o segundo é inferior ao primeiro?

 

 

24/07/2008. Na famosa História da literatura portuguesa, de Antonio José Saraiva e Óscar Lopes (autênticos scholars à européia, mas também sujeitos a ilusão de ótica), entram escritores “brasileiros” até a independência. A partir do grito do Ipiranga, deixam subitamente de comparecer. Não seria mais coerente com os fatos uma “história das literaturas de língua portuguesa”? Os próprios portugueses não se caberiam de contentes, ao verificar como ilustres brasileiros continuavam ligados à tradição literária da Metrópole, mesmo depois de rasgados os laços oficiais.

 

 

23/07/2008. Uma das vantagens de envelhecer casado: a mulher sempre se lembra do que você esquece, e vice-versa, dando uma espécie de sobrevida às lembranças comuns, que interessam mais diretamente à história da família. Quanto à perda da memória estritamente individual, é até benéfica pro envelhecimento, que ainda é o fato mais solitário do mundo.

 

 

22/07/2008. Batizar cachaça era adulterá-la, exceto para o seu Argemiro. Encostava-se ao balcão do bar América e levantava o copo:

— Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém! — dizia com voz grave, antes de entornar a pinga.

Era o modo pelo qual se aproximava de Deus.

 

 

21/07/2008. Só toparia participar de uma revolução: volta ao passado.

 

 

20/07/2008. Noto, nas caminhadas, que ninguém mais quer saber de rosas no jardim. Mas será concebível um jardim sem rosas?

 

 

19/07/2008. Quando a narrativa ficcional se livrou do verso e da solenidade épica, adotando uma linguagem mais secular, ficou mais exposta às palavras correntes e às doutrinas da moda. Sobretudo a partir do século XIX, o jargão filosófico e científico invadiu o quintal do romancista.

 

 

18/07/2008. Que vontade de reescrever o hino nacional, botando na ordem direta toda aquela serpentina barroca! “Ouviu-se, às margens calmas do Ipiranga,/ O grito heróico de um Brasil nascente.” O que levaria, fatalmente, ao expurgo de dezenas de adjetivos épicos que nunca combinaram com o jeitinho brasileiro (que a gente leva na brincadeira, mas é a expressão do mais anárquico e manhoso individualismo).

 

 

17/07/2008. Quando Deus inventou o modo imperativo do verbo, no famoso fiat lux, aboliu definitivamente do universo a liberdade.

 

 

16/07/2008. Urtigas decoram a entrada do Paraíso.

 

 

15/07/2008. Há algo de errado, quando o lado técnico do romance interessa mais que sua capacidade de revelar o desconcerto do mundo. Em quê o Ulysses é superior a Os irmãos Karamazov? O elemento estético é diferente no romance e na poesia.

 

 

14/07/2008. O romance é um desfile furioso de paixões, com a derrota inevitável da razão. Neste sentido, vai ter sempre um aspecto elegíaco.

 

 

13/07/2008. Bom romance é o que não dá folga pra reflexões sobre técnica literária.

 

 

12/07/2008. Que importava se meia dúzia de guerrilheiros e generais tentavam subverter a ordem cotidiana dos fatos? Diziam que havia uma ditadura no país, mas jamais consegui acreditar naquilo. Nenhum comunista tentou me seduzir com O capital, nenhum homem de farda me impediu de entrar no cinema, onde ia quase diariamente pra ver westerns, filmes de guerra, ou bíblicos, ou greco-romanos (ainda que detestando, até Fellini e Bergman eu vi, pois não era fácil manter sempre baixo o nível da programação com a necessidade de exibição diária). A guerra, que diziam estar nas ruas do Brasil, estava na grande tela à minha frente.

Nunca me livrei da influência do cine Castelo, naqueles tranqüilos anos sessenta, quando o final era sempre feliz. Na vida, continuo esperando tudo vai dar certo; é só uma questão de tempo.

Até meus sonhos são absurdamente otimistas. Dia desses, sonhei que meu cachorro Tuga tinha sumido. Acordei apavorado, sacudi minha mulher e lhe contei a tragédia.

— Dorme — ela me disse. — É só um sonho.

Dormi e tornei sonhar o mesmo sonho. Tuga tinha voltado.

 

 

11/07/2008. A sinceridade nunca gostou de permanecer muito tempo na boca feminina. Nem a linguagem literal. O que é preferível ouvir de uma mulher: que teve um orgasmo ou atingiu o momento supremo?

 

 

09/07/2008. Um dos principais personagens da Tragédia burguesa, de Octavio de Faria, é o Diabo.

 

 

07/07/2008. A palavra “lugar”, no sentido de posição no espaço, está cada vez mais perdendo terreno pra “local”. Não por estar mais próxima da origem latina, mas porque soa mais grave, mais técnico. Embora semanticamente mais rica, “lugar” é palavra vira-lata, degenerada, formando-se a partir de sucessivas fraturas medievais do original: local, locar, logar, lugar... É provável que a mania atual tenha começado com a imprensa: o jornal sempre preferiu o “local” do crime. Os políticos de Brasília e os vendedores das Casas Bahia só usam “local”. Com tais fiadores, ninguém mais deve hesitar.

 

 

05/07/2008. O problema do engajamento literário não está no compromisso em si, mas nas idéias das quais o escritor é porta-voz. Os subterrâneos da liberdade, romance marxista de Jorge Amado, está morto e enterrado como a doutrina que defende. A Tragédia burguesa, romance católico de Octavio de Faria, nunca esteve tão bem de saúde, apesar da roupa desalinhada (sem “literariedade”...) que lhe dificulta o ingresso nos laboratórios de análise textual da universidade.

 

 

04/07/2008. Na Costa do Ouro, quando era ainda uma colônia holandesa da África, um chipanzé foi capturado com dois tiros por uma expedição de caça e metido numa jaula. Como já tinha acontecido com muitos outros da sua espécie, seria levado de navio à Europa.

Na viagem, porém, Pedro Vermelho (apelido que ganhou da tripulação) aprendeu a resignar-se. Não havia outra saída. Era o começo de uma milagrosa metamorfose que se completaria pouco depois, ao esvaziar uma garrafa de aguardente deixada por distração perto da jaula. Ele gritou a palavra “olá!” e todos se assustaram. Daí em diante, foi admirável o progresso de sua “humanização”, e o dúplice Pedro, corpo de macaco e espírito de homem, passou a viver como artista em teatro de variedades, atingindo em cinco anos “a cultura média de um europeu”, como ele mesmo revelaria mais tarde em depoimento a uma academia.

Quem não pagaria pra ver, ao mesmo tempo, um símio pensando como homem ou um homem com habilidades simiescas? Estava salvo. Tinha encontrado uma saída. Entenda-se bem: virou homem não pra subir na escala animal, mas pra melhor se defender da humanidade “delinqüente” (o adjetivo é dele), que o teria transformado num melancólico animal amestrado. Quando arranjou uma parceira chipanzé, evitava encará-la: não podia suportar a loucura do confuso animal amestrado que ela trazia estampada nos olhos.

“Relatório a uma academia”, de Kafka, é uma divertida e, ao mesmo tempo, terrível condenação da espécie cuja evolução biológica não parece acompanhada da equivalente contrapartida moral.

 

 

03/07/2008. A leitura precisa emburrecer novamente, livrando-se daqueles mil conceitos que, superpostos e ligados pelo cimento da teoria literária, se converteram numa espessa muralha da China, cujo principal objetivo é defender a obra do leitor e o leitor da obra. A universidade inventou a leitura intransitiva.

 

 

02/07/2008. A gente se queixa de morar em apartamento. Mas quer vida pior que a da alma, trancada numa torre de carne e osso por tanto tempo? “Ay qué larga es esta vida! Qué duros estos destierros, esta cárcel y estos hierros em que el alma está metida!” (Santa Teresa de Jesus)

 

 

01/07/2008. Só há um caminho pro leitor que se recusa a colaborar na destruição lenta e gradual da literatura: voltar a ler com simplicidade, esquecer-se daquelas pretensiosas teorias críticas do século XX, comprar mais livros de filosofia (o verdadeiro pensamento confina misteriosamente com a poesia), aproximar-se humildemente das obras como se fosse o confidente de um segredo terrível sobre a condição humana, a passagem do tempo, a finalidade de tudo. O elemento social, psicológico e lingüístico não passam de ingredientes de um bolo muito maior, cuja receita Deus destruiu assim que ligou a batedeira.

 

 

 

 

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