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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 34 29/05/2008. Ato falho curitibano. Em nome do Pai, Do Frio E do Espírito Santo. Amém. 28/05/2008. Contribuição dos gagos pro enriquecimento do léxico português: pulular, tititi, babaca. E as palavras mais importantes do universo familiar: papai, mamãe, vovô, titio, bebê, pipi, cocô. 27/05/2008. Quem posa pra revista de mulher pelada, exerce uma forma de prostituição... platônica. 26/05/2008. Mais uma candidata a palavra mais feia da língua: basicão. 25/05/2008. O que é, o que é? Sem querer abusar da Antônia amásia, entre os bons escritores do país do futebol, o pior é, certamente, o autor da Tragédia burguesa. E, no entanto, é dos nossos maiores romancistas, com o que estão de acordo dois homens muito inteligentes, o fino psicólogo das Lições de abismo e o mestre do Jornal de crítica, ligados pela mesma religião e separados por posições políticas antagônicas. O primeiro tocou num ponto fundamental do fanático torcedor do Fluminense, a falta de sensibilidade plástica, enquanto o segundo preferia esquecer o mau escritor que havia no cunhado do dr. Alceu e só considerar o bem realizado criador de almas e de enredos do principal romance-rio da literatura brasileira. 24/05/2008. Super-safra no meu pé de laranja-lima. Eu, Que ainda não sou digno de amar a Deus sobre todas as coisas, Que só invoco o Seu santo nome na hora do perigo, Que não vejo a hora de chegar domingo ou dia santo para aperfeiçoar a gula, Que não soube ser o filho que minha mãe tanto merecia, Que já matei tantos bichinhos inocentes E nunca tive coragem de matar um filho da puta, Que acredito mais no dr. Freud que no apóstolo Paulo, Que já furtei uma primeira edição do Dom Casmurro pela Garnier, Que já menti com a cara mais lavada, Que já desejei todas as mulheres do próximo, Que já cobicei todas as mansões alheias — Será que mereço mesmo, Pecador tão capital, Um pé de laranja-lima, Todo dourado por cima, No fundo do meu quintal? 21/05/2008. Dirceu de Marília. Marília, progressista cidade do sudoeste paulista, tem como vizinha uma pequena e inexpressiva cidade de nome Dirceu. Ponto para as feministas. 20/05/2008. Ser pai é padecer no Paraíso. Aumenta cada vez mais o número de pais que ajudam em tarefas domésticas. Já podem até ser cumprimentados e presenteados no Dia das Mães. Vitória do feminismo ou vontade masculina de superar as mulheres até em seu próprio e indevassável território? 19/05/2008. Pessoas com tendências radicais deviam ser encaminhadas, desde criancinhas, para o ceticismo... fundamentalista. 18/05/2008. Contra o Che. É preciso enternecer-se, porém sem perder a firmeza. Os amantes competentes sempre o fizeram, e sempre funcionou. Só um revolucionário mal intencionado poderia botar o endurecimento como protagonista e a ternura coadjuvando. 17/05/2008. Sermão do excomungado. ...Mas enquanto cuidamos De merecer a Graça, Bebamos e comamos O momento que passa. 16/05/2008. Entre as palavras que a gente aprendeu no começo da vida, uma foi soprada pelo diabo: o não. Curiosamente, é nossa primeira grande atitude afirmativa. 14/05/2008. Nepotismo involuntário: por influência do paizão genial, todos os filhos de Johann Sebastian Bach têm a posteridade musical garantida. 13/05/2008. Se Aristóteles imaginasse o que andam fazendo da lógica aristotélica, o cemitério grego que guarda os ossos do filósofo sofreria um terremoto, no mínimo, de uns oito ou nove pontos na escala Richter. Vejam se é pra menos. A rádio Cultura FM, de São Paulo, andou mexendo no horário dos programas, mas resolveu fundamentar semioticamente a alteração. Eram uns programas mais ou menos parecidos que convinha separar, pra emissora paulistana continuar com “um ambiente radiofônico saudável e que não se torne um incômodo no processo de escuta”. Durante vinte brilhantes linhas, em que começou citando Walter Benjamin e Theodor Adorno, ilegíveis gurus da esquerda light, subtraiu da carteira teórica de Umberto Eco uns trocados sobre uns tais “códigos e sub-códigos da comunicação das mídias: o icônico, o sonoro e o lingüístico”, e os definiu um por um, rigorosamente, como se estivesse no ambiente saudável da universidade. Nosso velho Goethe diria que é a árvore verde da vida precisando, pra florescer, do adubo cinzento da teoria. Ambiente radiofônico saudável é ótimo, mas, sinceramente, prefiro muito mais ouvir do que participar do processo de escuta. Não é um desperdício usar pá de ouro pra catar bosta de cachorro? 12/05/2008. Ainda bem que Hitler foi só chefe de estado. Já pensou se tivesse sido psiquiatra? 08/05/2008. O jornalista Laudelino Troncoso, um dos principais personagens secundários d’O indigno, de Octávio de Faria, é o esquerdista típico, para o qual vale tudo no presente — deslealdade, mentira, manipulação afetiva —, em nome da “inevitabilidade de uma aurora redentora”, garantida por “análises tão perfeitas que deixavam tão pouca margem a erro”. E tudo isso, das análises perfeitas à degradação moral, ele entendia como sacrifício em nome da espécie eleita. Quando começou a circular o boato de que padre Luís, professor do Patronato, era o verdadeiro sedutor de Reni, adolescente morta no parto prematuro, não conseguiu pensar duas vezes: era o culpado, pois estava gravado em sua cabeça de militante do Partidão que qualquer padre tinha de ser obrigatoriamente culpado. Seu pecado original era a alienação. Não podia existir, para ele, o padre individual, mas só o clero enquanto classe exploradora de todas as outras classes, dos pobres aos ricos, fornecedores e traficantes do maldito ópio do povo. A ambição secreta do marxismo não era tornar-se, também, uma espécie de ópio do povo, seduzindo as “massas” com o canto de sereia da barriga cheia/cabeça vazia, deixando as pessoas no ponto ideal para a manipulação totalitária? 05/05/2008. A história de O indigno, penúltimo romance do ciclo Tragédia burguesa, de Octávio de Faria, se passa no início dos anos quarenta. Ambientado em pequena cidade mineira, Belavista, certamente não é a atual Bela Vista de Minas, a cento e poucos quilômetros de Belo Horizonte e município recente, mas cidade ficcional, vizinha da real Três Corações que, mais de uma vez, é mencionada no livro. Como romance-panorâmico, tem um pouco de tudo: integralistas, comunistas, padres, senhoras católicas, jovens pecadores. Quem governa o país é Getúlio, mas quem manda em Belavista, pelo menos na Belavista aparente, é Jeremias Bertoldo, delegado de polícia, deixando a Belavista moral, “espiritual”, sob o comando involuntário de padre Luís, um santo homem mais preocupado com a alma dos fiéis do que com a mais-valia, o anti-Leonardo Boff, e que, para confortar os infelizes que o procuram, não hesita em desobedecer aos regulamentos da sua Ordem. Vive “exilado” num colégio interno da redondeza, o Patronato, depois de “expulso” do Colégio de São Luiz de Gonzaga, no Rio de Janeiro, onde suas desobediências já tinham passado da conta. Ele é o centro do romance, em torno do qual vivem e morrem os outros habitantes da obra. Cada intervenção sua na cidade — nas almas da cidade — provoca conseqüências desastrosas, deixando-o em posição cada vez mais solitária, com inimigos à esquerda e à direita. A história começa com padre Luís seriamente adoecido: não resistiu ao diz-que-diz da cidade, que via nele o responsável pela desgraça da moça Reni, filha de fazendeiros, presumivelmente grávida do próprio padre e morta no parto prematuro. Enquanto o padre fica de cama, inconsciente, Belavista se prepara para seu julgamento e linchamento moral. Um desses juizes é o líder comunista Laudelino Troncoso. 04/05/2008. Viveu colecionando dúvidas — tinha uma das maiores coleções particulares de dúvidas do mundo — pra, na hora da morte, trocá-las por uma única certeza. As dúvidas, todos souberam quais foram. A certeza, ele a levou consigo pra debaixo da terra; ou pra muito além das nuvens. 03/05/2008. Um dia, num futuro bem próximo, alguém escreverá nas catacumbas um livro subversivo intitulado Nós, os héteros. 02/05/2008. Os travestis invadiram a zona. Prostituíram a prostituição. 01/05/2008. Inauguração do frio. Com que moral pedir um fiador, Se o que prometo é vago e fugidio? No calor, bem melhor seria o frio... Se esfria, que saudade do calor! |