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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 32 30/03/2008. Ditado grego. Quem tem fome quer jantar, Quem tem pressa come quente. Já que tudo é tão urgente, Apressa-te... devagar. 29/03/2008. Essa mania de exagerar a importância do bicho-homem! Em caso de acidente, a quem o justo socorreria primeiro, o ingênuo cachorrinho ou o grande canalha? 28/03/2008. Exercício com timbres. Cricrilos cansados da madrugada. — Ufa! — dona Lua já não agüentava mais caminhar na via Láctea, muito congestionada de estrelas àquela hora, inclusive as cadentes que, zás!, sempre lhe pregavam o maior susto. Rã e rã e rã já coaxavam baixinho, olhando o ping-pong das estrelas. O silêncio quase ciciava. Hem? Sussurrando pra quem? Quando o galo cocoricou, a brisa ainda pediu: — Psiu... psiu... Oh! Mas era já impossível evitar. Um zunzum danado tomou conta de tudo: pipilava-se, miava-se, piava-se, uivava-se, urrava-se, zurrava-se. Não deu outra, uai. Tchibum! A noite mergulhou no rio e o sol nasceu. — Bem-te-vi! — dedurou um passarinho. Àquela altura, a manhã já era um fato irreversível, tilintando e tintinando por todos os sinos. E a luz, tintim por tintim, varreu todas as sombras do mundo. 27/03/2008. Conversa de berçário, depois das visitas. Bebê nº 1, virando-se, sorriso sarcástico: — Animado, colega? Bebê nº 2, com tédio mortal: — A gente acostuma... São uns idiotas. — Na bolsa era bem melhor. — Prefiro antes. O Nada. Lembra? — Não. — Nem eu. O problema é quando começa a lembrança. 26/03/2008. Lição de geometria. Quando eu for horizontal — Mas definitivamente... —, Um bando reto de gente, Por enquanto vertical, Vai me acompanhar contente, Quase displicentemente, Ao retângulo final, Do qual não dá pra escapar, Quer seja pela tangente, Quer na perpendicular (Alegria disfarçada, Pois não soariam bem, Sobre a horizontal de alguém, As trompas da gargalhada). Sem ouvir a gemebunda Conversação a meu lado, Eu, paradoxo deitado Na superfície profunda Do sossego universal, Inveja não terei mais Dessas linhas verticais Do turismo funeral: Que gozem do sonho louco De sobreviver um pouco A José na horizontal. 25/03/2008. Filosofia com pé-no-chão (da cozinha). Muito mais útil que a cruel Verdade, Incapaz de impedir a desventura, É conhecer nossa cara-metade Antes da Crítica da razão pura. 24/03/2008. Sexo, com ou sem dinheiro, é invencível no paradoxo. Junta virtuosa com mafioso, padre com puta, intelectual com burra, bonitinha com feioso, velho com moça, mulher inteligente com idiota. É um grande poeta barroco: enxerga demais ou é completamente cego. 23/03/2008. Me duele España. “Às três horas da tarde, às três em ponto,/ foi visto caminhando entre fuzis”, escreveu com asco Antonio Machado sobre um delicado poeta de esquerda, brutalmente tirado de circulação pelos direitistas da Guerra Civil Espanhola. Era também às três, mas às três da madrugada, durante a mesma e criativa guerra, que milícias de esquerda, ditas Brigadas do Amanhecer, invadiam casas de direitistas listados para morrer e os convidavam a “dar el paseo” num lugar conhecido como Casa de Campo. Ali se despediam da vida, depois de alguns beliscões pouco fraternos. Quem perdeu com todo esse empurra-empurra de militantes afoitos? Certamente, as pessoas de bem (do bem, como se prefere dizer hoje) de todas as classes sociais da Espanha. 22/03/2008. Não foi possível evitar? — E então Édipo furou os olhos... E depois os arrancou das órbitas... — disse ao Coro o Mensageiro, na possivelmente maior tragédia de todos os tempos. Esse rei de barba ensangüentada privou-se da visão — metáfora da consciência —, quando percebeu que o adivinhoTirésias, o cego que via longe, estava certo ao dizer que é inútil todo conhecimento que não serve pra evitar desgraças. Foi assim que Sófocles começou a educar o ocidente, apontando-lhe os limites dessa pequena aldeia chamada razão humana. Rei Édipo é a tragédia da impotência racional, mais que versão simbólica do desejo incestuoso e inconsciente. A lição do poeta está esquecida. A gente prefere outros mestres. 21/03/2008. Há simetrias que bem podiam acontecer. Por exemplo, o compositor Marcos Portugal interpretado pelo pianista Alberto Portugheis. 20/03/2008. Cristo primeiro ajeitou a vida da Igreja. Depois, das outras Igrejas. Finalmente, colaborou com a revolução industrial e comercial, e os homens de negócio, não contentes com a exploração natalina, partiram pra pascal. Aliás, foram monges que aperfeiçoaram o chocolate, escondendo por muito tempo a receita com avareza (monge sempre combinou bem com pecado capital). Corolário inevitável: Cristo nasceu mesmo pra Cristo. 19/03/2008. O espírito do Porco. Amigo, quer um conselho? Não confia nesse cara Do lado de lá do espelho. Nunca viu manhã mais clara? Céu límpido e tempestade Um fiozinho é que separa. Tem certeza que é verdade? A mentira, com ternura, Também seduz e persuade. Deus é facto ou conjectura? Prefiro não pensar nisso: Tenho pânico de altura. 18/03/2008. Francamente, ainda não sei se sou contra ou a favor de passarinho preso. Tenho motivos humanitários pras duas posições; poderia argumentar e contra-argumentar até o parágrafo dobrar a esquina, se não me sobrasse em preguiça o que falta em fé conceitual. Mas “motivos humanitários” não me parecem ser a melhor base pra discutir o assunto. Enquanto não ouvir do próprio passarinho uma opinião pessoal, deixo em suspenso a discussão. 17/03/2008. Não gosto da palavra silêncio, que, pelo menos na minha oitiva, não consegue sugerir a nobreza estóica da idéia de silêncio. Difícil explicar a coisa em termos racionais; talvez seja aquele ditongo final, rimando com Juvêncio, Inocêncio, Fulgêncio, que não deviam ser nomes de gente. Que importa se, com o italiano silenzio, esteja mais perto da velha fonte silentium? Sou mais o silence inglês (sái-lens) ou o silence francês (si-lâns), que no meu juízo (ou falta de) melhoraram a forma original. 16/03/2008. Idéias pra um conto fantástico. A morte é um sono. E os mortos, na caverna Da morte, sobrevivem de sonhar. Esse sonho da morte é a vida eterna De quem dorme sem risco de acordar. 15/03/2008. Do caderno de esportes. A briga entre comunismo e capitalismo se manteve em cartaz por um bom tempinho, no século passado. Voaram ganchos, diretos e cruzados das duas partes, antes do jab fatal que nocautearia o primeiro pugilista, que de vermelho passou a roxo. Foi então que subiu no ringue, substituindo-o, o crime organizado (que já foi sparring e discípulo dos outros dois). A luta está equilibrada, ainda promete muitos e brilhantes rounds, mas o capitalismo continua com boas chances, pois conhece fartamente os principais golpes baixos do novo adversário. 14/03/2008. No nevoeiro. Não sei qual o mais obscuro: Se o passado mais distante, Se o mais distante futuro. Mas é cerração bastante Pra eu me livrar, sem demora, Dessa hilária veleidade De ir no rastro da Verdade, Com tanta névoa lá fora. 13/03/2008. Hoje não há mais paralíticos, só portadores de necessidades especiais. O pior são os gagos que, nos livros de psiquiatria, foram rebaixados a tartamudos. Tartamudeio, aqui, meu humilde pro-protesto. 12/03/2008. Já escurecia. Pensei que fosse um velho sofá, abandonado na beira do caminho. Era uma jovem e simpática vaquinha sentada. 11/03/2008. Os estrangeiros não moram longe. Estão aqui mesmo, no setor brasileiro de Babel: gostam de música pop, filmes com efeitos especiais etc. Também sou estrangeiro pra eles. Deportantes e deportados, nós, babelenses, somos todos estrangeiros, vivemos completamente no exílio e nossa língua comum, o babelês, tem meia dúzia de palavras. É a menor língua do mundo. 10/03/2008. Oração de gago mais ou menos virtuoso. Obrigado, Senhor, pela disfluência. Os palanques ficaram livres de um demagogo, a universidade com um desconstrucionista a menos, menos um padre petista nas capelas, e dezenas de virgens a salvo do caçador de hímens. 09/03/2008. Tortura: método preferido de certos policiais perfeccionistas e ansiosos, como via de acesso à verdade. É também muito usado por filósofos que não sabem escrever. 08/03/2008. Cantiga. Sob o arvoredo me deito Na beira do calmo rio. Parece que ouço, no peito, Coração bater piu-piu... Coração virou tiziu: Bate as asas e revoa. De peito livre e vazio Oh como que a vida é boa! 07/03/2008.Quand le ciel bas et lourd... Nesses dias cinzentos, a cidade Encolhe e sai do mapa. Existe qual Um mundo pra sisuda divindade: Melancolicamente acidental. Tempo cinzento. Inútil que desponte O grande sol, que o cinza é cor fatal, E o que era destinado ao horizonte Fica aumentando a poça mais local. Vida cinzenta. Uma tonalidade Sem entretons, como alma de engenheiro. Cinza profundo por toda a cidade. Um cinza muito mais pra fumaceiro Que pra leveza etérea do alvaiade. — Dia sem cor, sem música, sem cheiro. 06/03/2008. O economês consegue ser mais criativo que a teoria literária, cuja linguagem compete despudoradamente com as bulas de remédio. É só dar uma passadinha pelo caderno de economia dos jornais. A crise, com a escalada no preço do petróleo, gerou um leque de indefinições no setor, diminuindo o fluxo de capital e desaquecendo a economia. As ações desabaram, quando não derreteram. Enquanto o câmbio flutua e o mercado permanece nervoso e pessimista, a China continuará absorvendo a maior fatia do dinheiro global. Conseqüência: a recessão vai estrangular o crescimento. 05/03/2008.Pra uma utopia da morte. Nosso último prazer Será morrer, Como o cansado caminhante Que, só depois de caminhar bastante Pelas estradas, Pode tirar as botas apertadas. 04/03/2008. Dos diálogos da sogra e da nora. — As crianças podiam ser treinadas a “caminhar” pela Via Láctea, como aprendem a caminhar pelas ruas sujas e barulhentas do planetinha. Bastaria incluir um telescópio na cesta básica ou na devolução do imposto de renda. Talvez perdessem menos, quando adultas e arrogantes, a consciência de sua infinita pequenez. — E se acontecesse justamente o contrário, sogrinha, ficando mais predispostas a conquistas... homéricas? 03/03/2008. Diria até que sou feliz (nesse sentido Bem vulgar da palavra feliz), se em verdade A condição mais nobre da felicidade Não fora sempre a de jamais ter existido. |