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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 30

 

 

27/02/2008. Soneto pra Isabela.

O barco pequenino de Isabela

Levou meses na lenta travessia.

Se houve dias de pânico e procela,

Netuno logo impôs a calmaria,

 

E o barco pequenino de Isabela

No porto mansamente atracaria.

Desceu cansada, estranhamente bela,

Chorando de pavor... ou de alegria?...

 

Não fomos todos esperar por ela

(Que ela, mais que ninguém, o merecia),

Mas nosso pensamento ora e vela

 

Por quem vem de tão longe nesse dia,

Depois de tão difícil travessia:

A corajosa e mágica Isabela.

 

 

23/02/2008. O existencialismo se contentou com metade do Platão — aqueles cinqüenta por cento sobre o mundo das sombras. Só podia acabar mesmo na zona, entre sacanagem, bebida e droga.

 

 

20/02/2008. Sabedoria natural.

— O sexo não é solução — me disse

O velho triste. — Mas não há desgraça

Maior que só sabê-lo na velhice,

Depois de ter bebido toda a taça...

 

 

19/02/2008. Não há nada mais poderoso, entre o céu e a terra do Brasil, do que um aedes aegypti. O resto é vã política.

 

 

18/02/2008. Com tantas definições prévias, ninguém vence em chatice os professores de literatura. Se você quer se esconder da literatura, matricule-se num curso de letras.

 

 

17/02/2008. O desleixo, em Octavio de Faria, parece coisa construída. Não se trata, aqui, da ingenuidade formal do romance popular, mas de um inacabado intencional, posição literária de escritor decididamente anti-flaubertiano.

Escreveu sobre a burguesia carioca — a mesma fauna machadiana — com deliberada deselegância. Estilo jornalístico no mais puro sentido... impuro. Ou, pensando no homem católico e de direita que ele foi, estilo franciscano, de pé do chão. 

Mas é um erro acreditar que esteja mais preocupado com a moral que com a estética: não escreveu ensaios e sim romances. Queria que funcionassem como tais. 

Para lê-lo, é preciso esquecer a lição (ou a neurose) de Flaubert. Nosso romancista circula noutra faixa, entre Balzac e Dostoievski.

 

 

16/02/2008. Há bons romances mal escritos, quando o mundo imaginado e pensado pelo romancista é superior à sua capacidade artesanal. Exemplo são alguns tomos da Tragédia burguesa, de Octavio de Faria. No início da publicação do ciclo, Álvaro Lins defendeu-o, apesar disto; pela mesma razão, Alfredo Bosi condenou-o, depois do roman-fleuve todo publicado.

Estou lendo o volume XI da Tragédia: O cavaleiro da virgem. Já ameacei desistir várias vezes, mas enredo e personagens exigem a volta do leitor, mal acostumado com a elegância machadiana. Há mais mistérios entre o céu e a terra da ficção, do que pode supor nossa vã teoria literária.

Acredito que o mesmo não vale pro poeta: nesse exercício de superconcentração que é a poesia lírica, a menor desafinada é fatal.

 

 

15/02/2008. Mulher, s. f. Animal dotado de uma desconcertante complexidade psicológica; pode ser, também, um brinquedinho muito agradável.

 

 

14/02/2008. O fauno e a freira.

Tuga, o pastor, e Catarina, a vira-lata, vivem relativamente em paz, só alterada quando voltam do banho. Ele, muito excitado, insiste em fazer a corte. Sem nenhum sucesso, parte de uma vez pro assalto, mas tudo em vão, pois ela foi operada do útero e entregou o corpo e a alma ao Deus dos cachorros.

 

 

13/02/2008. O governo está de site novo:

http://auauau.cachorro.Cão

 

 

12/02/2008. Feminismo ambientalista:

— Será que a água da piscina não cansa de ficar tanto tempo presa em casa?

 

 

11/02/2008. Nunca entendi por que algumas pessoas lêem Wittgenstein, mas há uma frase sua que parece sabedoria chinesa: “Do que não é possível falar, é melhor calar.” Chinesa ou acaciana?

Insuperável maravilha seria a humanidade completamente muda — sobretudo a televisão da humanidade .

 

 

10/02/2008. Vento é solilóquio do Ar, quando preocupado com a Chuva. 

 

 

09/02/2008. Nota pra uma fábula indiana.

E dona Elefanta, desmoronada pelo próprio peso, abanava-se com a grande folha da palmeira.

 

 

08/02/2008. A futura velhinha esconde-se muito bem sob a moça bonita. Não tem pressa de ocupar o posto. Quem sabe vê-la, porém, percebe que a vindoura vovó está sempre sorrindo — um sorriso irônico e quase vingativo.

 

 

07/02/2008. Todo escritor é um mitômano. Só não é moral e psiquiatricamente condenado, pois tem a lucidez de avisar que está mentindo. Como todo louco, também possui seus momentos de lucidez.

 

 

06/02/2008. A música do Piazzolla não parece tango pra paralíticos?

 

 

05/02/2008. O bom cético é o que não leva muito a sério nem o próprio ceticismo.

 

 

04/02/2008. Única censura que faço a Deus: não ter botado a voz da Ella Fitzgerald no corpo da Claudia Cardinalle.

 

 

03/02/2008. Balé comercial.

Sem nenhum sucesso, a ágil balconista procurava a mercadoria nas prateleiras — em todas as prateleiras. Fez o maior sucesso.

 

 

02/02/2008. Valsa antiga.

Interfonar pra quem,

Se quem

Eu quero

Já vazou,

Deixando

Todo o prédio

Tão tristemente

Vazio?

Um labirinto,

Um caos,

Um breu,

Um saco,

Um chão de piso frio.

 

 

01/02/2008. As moças bonitas, simpáticas e inteligentes deviam ser preservadas da rotina humilhante do casamento.

 

 

 

 

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