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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 29

 

 

30/01/2008. Dúvidas do filósofo amador.

1. Mudar de casa todo ano, pra me acostumar com a transitoriedade da vida?

2. Nunca mudar de casa, pra aceitar melhor a imobilidade da “vida eterna”?

 

 

29/01/2008. Diálogo para um conto.

— Maria? Maria de quê?

— Só Maria. Maria de nada.

 

 

28/01/2008. A maior invenção de Setecentos é o piano. Bota no chinelo a “briga dos antigos e modernos”, que inaugura o século XVIII; a Revolução Francesa, que o fecha; e todo o seu recheio iluminista, com a empáfia racionalista de um lado e os bons selvagens do outro (precursores, estes, dos nossos histéricos ambientalistas).

 

 

27/01/2008. Entre as religiões que conheço, a mais criativa é sem dúvida o espiritismo. Só não entendo por que só baixam o “santo” e jamais as “santas”: Cleópatra, Rita Hayworth, Marilyn Monroe.

 

 

26/01/2008. Isso de dar noventa e nove por cento para a transpiração, e só um por cento para a inspiração, é influência da mentalidade operário-patronal nas considerações estéticas.

 

 

25/01/2008. O humor é também uma fé. Fé na incurável estupidez humana.

 

 

24/01/2008. O escritor guarda os piores segredos da humanidade, porque pode criá-los. Provavelmente a justiça jamais saberá o que aconteceu na vida daquele respeitável casal de Altinópolis, ela mais velha que ele, fazendeiros de café montados numa grana pretíssima. Ele era o administrador das fazendas, e ela, a esposa quarentã de um rico fazendeiro. Apaixonaram-se. E a Paixão decidiu por eles: o empregado sabotou o teco-teco do cafeicultor, que até hoje — quinze anos passados — ainda não voltou daquela viagem à fazenda Três Porteiras, no oeste paulista.

 

 

23/01/2008. A irreverência, quando não é movida por ressentimento, faz mais bem à reputação póstuma dos gênios do que a incondicional lambeção de botas. Um livro útil pra literatura brasileira seria a história dos inimigos de Machado de Assis. Não são poucos. Gente respeitável como Sílvio Romero, Cruz e Souza, Agripino Grieco e, entre os vivos, Millor Fernandes. Nem sempre acertaram a tacada; mas, quando aconteceu, os maiores beneficiários foram os próprios machadianos.

 

 

22/01/2008. Como nunca vou ter o gostinho de desertar em guerra de verdade, confesso a deserção parcial do Santos F. C.: só volto a ver jogos do clube, quando o time estiver outra vez afiado. Afinal, sou ou não sou um animal racional? E quase sem torcer, pelo puro deleite de assistir a um jogo bem jogado. Que importa ganhar ou perder? São contingências da sorte; ao contrário de jogar bem, que pressupõe engenho e arte.

 

 

21/01/2008. Imagino Graciliano Ramos passando a limpo a prosa machadiana — uma elegante dama de Botafogo retirando sob o sol do agreste. Se o velho Graça se ativesse ao estilo, melhoraria Machado.

 

 

20/01/2008. Muito tempo atrás, num país privilegiado, havia um grande cantor de nome Dorival e que tinha uma bela voz de baixo. Ele também era um privilegiado, pois havia um compositor (de letra e música) que compunha exclusivamente pra ele: um certo Caymmi.

Pode ser o contrário. A ordem dos fatores não altera o produto.

Num país privilegiado, muito tempo atrás, havia um grande compositor (de música e letra), de nome Dorival. Também era ele um privilegiado, pois havia um cantor — certo Caymmi, com bela voz de baixo — que interpretava com exclusividade as suas canções.

 

 

19/01/2008. Maldade civilizada.

Pena de morte? Não concordo, não.

Nem vou querer, Senhor, emporcalhar

Com sangue alheio a minha injusta mão.

Só torço pro bandido suicidar.

 

 

18/01/2008. Livro é mulher, coisa docilmente oferecida. É preciso pegá-lo com delicadeza, abri-lo com carinho. Nada de estupros.

 

 

17/01/2008. Todo compositor de música serial é, no fundo, um serial killer.

 

 

16/01/2008. Inapelavelmente humano.

— Você é um cachorro, Alfredo!

— Cachorro também é gente.

 

 

15/01/2008. O pianista tinha diarréias muito freqüentes e não descobria a causa. Visitou todos os gastros do mundo — e nada. Quem o curou foi um amigo anti-chopiniano, quando soube que ele estudava o dia inteiro aqueles noturnos do compositor polonês. Trocou Chopin por Debussy e nunca mais cagou errado.

 

 

14/01/2008. In vino veritas; in Coca...

 

 

13/01/2008. Sou grato ao novelista que, no enredo da vida, me escalou como simples figurante, sem direito a nome, retrato, fluxo de consciência. Desses que não provocam suicídios, não comem a mulher do amigo, nem dão desfalques milionários nalguma estatal. Vendem a passagem de trem ao protagonista apressado e nunca mais botam os pés na história.

 

 

12/01/2008. O que a gente chama de razão, presumível capataz da ordem social, é no fundo a mesma força que ordena o formigueiro e o resto da natureza. Nossos códigos legais mais sofisticados não passam de grosseira contrafação do estatuto do formigueiro. Procriação e defesa de território continuam sendo os objetivos máximos da bicharada e da humanidade. O homem, ao contrário dos seus hermanos irracionais, foi dotado da liberdade de abandonar o barco, quando quisesse: o suicídio é a única diferença entre o homem e a alimária (e, ainda aqui, ponto a favor dos bichos).

 

 

11/01/2008. Quem governa o mundo é o sexo e a grana. Diante das trepadas e das poupanças (que a gíria deu um jeito de aproximar), o “cogito” cartesiano joga a toalha e bota-se a serviço daqueles dois proprietários do bordel. Progresso é a manhosa permanência do lobo sob o rosto cândido da ovelha.

 

 

10/01/2008. Exercício de misantropia.

Visíveis até onde a vista alcança,

Só há um problema em toda a vizinhança:

Vizinhos — ontem, hoje, sempre. E quantos!

Se fossem coisa boa, não seriam tantos.

 

 

09/01/2008. Charlatão, de ciarlatano: palavra inventada pelos italianos, há muito tempo, mas que só se realizou plenamente, enquanto palavra, quando passou a designar os compositores de música dodecafônica.

 

 

08/01/2008. Em vez de humilhar o próximo, o verdadeiro filósofo humilha a si mesmo: é muito mais divertido.

 

 

07/01/2008. O feminismo começou mesmo, pra valer, com a invenção do coito frontal.

 

 

06/01/2008. Receita pra começar bem o dia: mostrar a língua pro primeiro que aparecer no espelho do banheiro.

 

 

05/01/2008. A irreverência dos italianos não seria provocada pelo excesso de coisas sagradas — religiosas ou artísticas — que os cercam?

 

 

04/01/2008. As crianças de cinqüenta anos atrás também brincavam com miniaturas de automóveis, mas era só um brinquedo entre outros. Já as de hoje estão treinando pra, um dia, usar de verdade a arma mais letal do mundo.

 

 

03/01/2008. Quando não há solução,

Não há problema: é deixar

As coisas em seu lugar.

E as coisas se arranjarão.

 

 

02/01/2008. Quando não dá pra agir, é preciso confiar na inércia. As coisas não são tão bestas assim.

 

 

01/01/2008. Fim de conto.

E então pensou o engenheiro, enquanto todos erguiam suas taças de champanhe ao Ano Novo:

— É só a substituição de um número por outro.

 

 

 

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