NOTAS PARA UM DIÁRIO - 28
31/12/2007.
Não fosse o barulho do champanhe, nem perceberia a passagem do ano.
30/12/2007. Há dois tipos de chatos opostamente complementares: o invasivo, que chama ao telefone e nunca mais desliga; e o
defensivo que, quando telechamado, manda dizer que
não está.
29/12/2007.
Trocam de carro porque gostam de automóvel; eu, porque não gosto de oficinas.28/12/2007.
Uma das vantagens do sujeito rir de si mesmo: não vai se espantar quando transformado em objeto do riso alheio.27/12/2007. Vivendo bem mais aqui
Do que do
lado de lá,
Dizia Emma Bovary:
— Gustave Flaubert c’est moi...
26/12/2007.
Cada qual escolhe o seu sonho. Acabei de escolher o meu: vender o carro
e rasgar a carteira de habilitação.
25/12/2007. Aceito numa boa o capitalismo, o regime da esperteza, da mentira, da
deslealdade, da ingratidão, porque é nele que sinto mais forte a tentação da
virtude.
24/12/2007. Dialética assustada.
Sou parte da natureza, como o jacarandá que cresceu
torto e o passarinho no alto do pau-formiga.
E estou
além da natureza, envolvido com as idéias do livro que acabo de fechar.
Serei
merecedor de tanta contradição?
23/12/2007.
Mão de Deus.Quando a mais bela dona vem
Com alma, eis a melhor beleza:
Obra-prima
da natureza
Melhorada
por Deus, no além.
22/12/2007.
Caymmiana.Não pode ser bom sujeito
Quem de
poesia não gosta:
Pedra de
gelo no peito,
Cabeça
cheia de bosta.
21/12/2007. Sexo, s. m. (geol.)
Areia movediça daqueles velhos filmes B.
20/12/2007. De um correspondente, na Terra, do Jornal do
Outro Planeta:
— Até
hoje não consegui entender por que, de trezentos e sessenta e cinco em
trezentos e sessenta e cinco dias, os terráqueos se reúnem pra estourar
champanha e repetir as mesmas palavras dos outros anos. Será efeito do
movimento de rotação e translação?
19/12/2007. A frase final das Memórias
póstumas de Brás Cubas não contém um programa de ação. É
meramente declaratória. E é aí que está a sua misteriosa força expressiva. Se,
em vez do modo indicativo, estivesse no imperativo (“Não tenha filhos, não
transmita a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”), soaria falsa. Você
acha que Machado comeu Carolina a vida inteira preocupando-se com o legado da
nossa miséria?
18/12/2007. Ninguém mais estóico que Fulano: jamais o vi possuído por uma
interjeição.
17/12/2007. A insuperável graça das crianças, quando aprendem as primeiras
palavras e frases, vem delas ainda falarem com certo sotaque do céu.
16/12/2007. O curitibano não fala com estranhos por vergonha do próprio sotaque.
Votaria nele pra pior sotaque do Brasil. Negócio rendoso, em Curitiba, seria um
curso de sotaque belo-horizontino pras moças bonitas de lá — que, aliás, não
são poucas.
16/12/2007. Piada contra Curitiba.
— O que diz um curitibano, quando pega a mulher com
outro? — perguntou, em Curitiba, um não-curitibano a outro não-curitibano.
— Não faço
a menor idéia — respondeu o segundo não-curitibano.
— Não diz
nada. Curitibano não fala com estranhos.
15/12/2007. O curitibano Dalton Trevisan, num de seus
últimos livros, chamou Curitiba de “favela do primeiro mundo”. Curitibano não
perdoa nem a si mesmo. Haverá melhor exemplo do mau humor curitibano?
14/12/2007. Falar mal da espécie humana é uma obrigação moral.
13/12/2007. “Poesia é artigo de primeira necessidade”, dizia o velho Papini. Nada mais natural que, na época do supérfluo, seja sumariamente
despedida.
12/12/2007.
Nessa longa estrada da vida, a ação é a fonte
insalubre do conflito. A colisão já não está desenhada na própria partida do
automóvel? O melhor seria deixar o carro na garage. Se sair, toda teoria da
felicidade rodoviária ou existencial deve privilegiar mais o breque que o
acelerador. “Fique torto no seu canto”, disse um poeta que sofria de escoliose
metafísica.
11/12/2007.
Brás Cubas reciclado:— A
vasectomia foi um sucesso. Agora sou um sujeito livre e, dentro dos meus
limites, um benfeitor da espécie. Mas boa parte dessa sensação de liberdade se
deve a uma pequena providência que tomei, antes de entrar na sala de cirurgia:
fui ao banheiro mais próximo, me concentrei nas enfermeiras da clínica e colhi,
rapidamente, um frasco de esperma, que mandei congelar. Vai que, no futuro, uma
dona sequiosa da maternidade me convence a desistir da condição de benfeitor da
espécie... Dependendo da dona, mudo meus princípios sem nenhum grilo. Enfim,
continuo sendo um pai virtual; posso garantir, porém, que é muito mais
confortável manter essa virtualidade bem longe dos testículos.
10/12/2007.
Notas para um conto gótico.Levou a espreguiçadeira para o quintal, armou-a no
ar livre, único jeito de escapar da onipresença onipotente da televisão.
— Mas até
aqui, ó Senhor? — gemeu o infeliz.
Parece
que via o céu pela primeira vez: era impressionante a quantidade de estrelas
brigando por um lugar nas trevas. Como não tinha reparado antes? Aquilo tinha mais
cara de caos que de cosmos. O fato era que, antes da massificação ser um
problema sociológico, já era uma realidade cósmica.
Com
aquele pisca-pisca cenográfico sobre a cabeça, era impossível se sentir
sozinho. Não havia solidão noturna que resistisse. E então dobrou a
espreguiçadeira e foi armá-la sob o jambolão, com
direito a vôos rasantes de morcegos.
09/12/2007. Rimas pedagógicas.
Há uma certa matéria, nas
aulinhas
Da vida,
que é só feita de entrelinhas:
Mulheres (principalmente as melhores).
Mau
aluno, entre lágrimas e suores
Só levo
bolos e descomposturas.
Se não
fossem as aulas tão obscuras,
Como é
confuso o livro de lição!
E eu
sempre, sempre em recuperação...
08/12/2007.
Ao L. A., tecelão da madrugada.
É no silêncio das madrugas
Que a Moira
tecelã trabalha
Na grossa
lã das nossas rugas:
A mais
justa e fiel mortalha.
07/12/2007.
A ambigüidade das palavras pode dissolver famílias, empresas, nações. Há sempre alguém brigando com alguém, por não ter conseguido exprimir ou compreender direito uma idéia. O que faz a felicidade dos poetas pode ser altamente nocivo para as pessoas normais.06/12/2007.
Elogio da repressão.Que saudade das primas puras,
Das
indiscretas fechaduras
Que, por
um mínimo desvão,
Mostravam
o céu inteirinho!
Hoje só há
portas abertas,
Porém as
grandes descobertas
A gente
fez como ladrão:
Pelo
mágico buraquinho.
05/12/2007.
Com a reciclagem de lixo — e o surgimento dialético, historicamente determinado, do detrito incluível e do detrito excluível —, foi de uma vez por todas instaurada a luta de classes no lixão.04/12/2007. Inferno é um lugar maldito, destinado à expiação eterna de almas
condenadas (e onde todos os dias são, rigorosamente, segunda-feira de manhã).
03/12/2007. Ressalva de mineiro:
—
Pessimista, eu não diria. Sou cautelosa e moderadamente otimista.
02/12/2007.
De Crespino, nas margens do rio Pó,Um
lugarejo sem nenhum requinte,
Dois anos
antes do século XX
Partiu Rizziero como se viesse só.
Vir não
queria, mas Cesira o trouxe.
Como a
reter consigo, ali sozinha,
Se toda a
gente de sua esposa vinha?
E então Rizziero, mudo, resignou-se.
No
Brasil, jogou sempre na defesa:
Não quis
saber da língua portuguesa
E, pra
agüentá-la — a gente é que deduz —,
Foi
lentamente desligando o ouvido.
A cegueira,
também, não terá sido
Uma
resposta à nova e estranha luz?
01/12/2007. As pessoas se vingam das árvores — que imperdoavelmente lhes sujam as
calçadas e jardinzinhos — pendurando nelas esses horríveis e luminosos enfeites
de Natal.