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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 27

 

 

30/11/2007. Bilaquiana.

De qual estrela cantará o grilo?

 

 

29/11/2007. Trovinha pra receber dezembro.

E lá vem mais um final

De ano... Compro; logo, existo.

A gente inventa o Natal

Pra esquecer melhor o Cristo.

 

 

28/11/2007. Meditação solenemente matinal.

Estrela dalva por guia,

Vou indo de caminhada,

Sem rumo, em qualquer estrada

Que me leve à luz do dia.

Cada vez menos sombria,

Toda estrada verdadeira

— A noite queira ou não queira —

Sempre leva à luz do dia.

Hora de celebração

De todas as coisas vivas,

Eis de novo as perspectivas...

E eu de roteiro na mão!

Toda verdadeira estrada,

Depois da noite comprida,

Vai beber na iluminada

Fonte da vida.

 

 

26/11/2007. Meditação solenemente crepuscular.

Quando o sol não mais judia,

Eu saio de caminhada,

Sem rumo, em qualquer estrada

Que me leve ao fim do dia.

Passo a passo mais sombria,

Toda estrada verdadeira

Sempre leva ao fim do dia,

A gente queira ou não queira.

Hora de concentração

De todas as coisas vivas,

Onde estão as perspectivas?

Os roteiros onde estão?

As verdadeiras estradas

Deságuam, nesse momento,

Nas turvas águas paradas

Do pensamento.

 

 

25/11/2007. Fazendo a barba.

— Você também vai, um dia —

Eu disse ao outro, no espelho,

Que incrédulo nem me ouvia,

Bem mais atento à tosquia

E às lâminas do aparelho.

 

— Um dia será você! —

Apontei querendo briga.

Sorriu cético... Por que

O outro do espelho não crê

Em coisa alguma que eu diga?

 

 

24/11/2007. Remédio eficaz contra agressões do mundo exterior: lembrar do curso de letras que fiz há trinta anos, quando o estruturalismo era moda. Se sobrevivi àquilo, por que haveria de temer seqüestro relâmpago, trânsito louco, malcriação, efeito estufa, agrotóxico, aedes aegypti, imposto de renda, governo Lula, congresso nacional, música pop, torcida corintiana, programa do Faustão?

 

 

23/11/2007. A fila do Banco é uma enorme sucuri com fome, mas inacreditavelmente mansa — e dois caixas alimentando-a em câmera lenta. O terceiro caixa, com mínima e elitista fila, só atende idosos, gestantes e portadores de necessidades especiais (que desconfio serem velhinhos, grávidas, deficientes físicos).

Da próxima vez, venho disfarçado de um deles.

Descartada a fantasia de grávida (não levo jeito; estou me sentido bem do outro lado), hesito entre deficiente físico (é só guardar os óculos no bolso) ou velhinho (bastam dois ou três dias sem fazer barba). Talvez uma mistura dos dois últimos: boto umas pitadas de passo trôpego no personagem, cubro-o com calça e camisa de poliéster, e levo o bolo ao forno. Logo estou pronto para estrear na fila dos privilegiados. Quem ousaria contestar?

Não vai demorar o dia em que, podendo usar ao natural essa cobiçadíssima fila, vou teimar por mais alguns anos no lombo da sucuri.

 

 

22/11/2007. O mais incivil dos homens.

Tranquilamente deitado

Entre as visitas de pé,

Mais incivil ninguém é

(Nunca o vi puxar assunto).

Que displicente e folgado

É o senhor Defunto!

 

 

21/11/2007. Anjos — retórica do Paraíso.

 

 

20/11/2007. Ele & ela.

Ela: — Quanto livro! Vai morrer 

Sem ler meia biblioteca.

Ele: — Não compro livros pra ler,

Mas pra poder ler, boneca.

 

 

19/11/2007. Anticristos.

Fazia tempo que não ia à missa.

Que horror!

Diante de coisa tão postiça,

Tive piedade do Senhor.

 

 

18/11/2007. Compaixão é a véspera da solidariedade. Como nunca saio de casa, quase nunca transito da primeira para a segunda virtude.

 

 

17/11/2007. Trovinha espacial.

A distância modifica

Tanto o reles como o nobre:

Empobrece a moça rica,

Enriquece a moça pobre.

 

 

16/11/2007. Oferenda musical.

Trago-te um choro abstrato e mudo,

Sem um só verso, uma só nota:

Pra clarineta de veludo

E piano gota a gota a gota...

 

 

15/11/2007. E vou comprando livros. Se vou lê-los? Não compro livros pra ler, mas pra poder ler.

 

 

14/11/2007. Fiz uma valsa sem letra e sem melodia, só com atmosfera: pra clarineta de veludo e piano gota a gota.

 

 

13/11/2007. Por quantas mãos passou meu livro usado?

Que invisíveis digitais,

De dedos que não há mais,

Se entrelaçam nos letreiros

Do papel amarelado?

Quantos fantasmas de hálitos e cheiros

Sobre o pó tenazmente acumulado?

A ferida da lombada

Foi de uma queda múltipla na escada?

Quantas vezes tombou em colo novo e quente

De dona suavemente adormecida?

Quantas vezes foi fechado

Por um leitor solicitado

Subitamente

Pela vida?

 

 

12/11/2007. Era uma vez duas crentes caminhando pela Gordovia, cabeleira presa na nuca, tênis e... saia. Diferente das outras, que iam de bermuda ou xorte, eram as que mais se destacavam, não só pela diferença, mas pelo que souberam fazer da diferença. O pastor proibia calça ou bermuda, mas nada tinha dito sobre as medidas da saia; e as bundas evangélicas eram as mais extrovertidas da tarde. 

Que importa se as duas moças se chamavam Maria ou Mariana? Era a esperta natureza pensando através delas. Não convém botar em dúvida a inteligência da natureza.

 

 

11/11/2007. Cheiro de pão.

1. Um cheiro honesto e cristão

Vem vindo do meu fogão:

É o pão assando, e esse cheiro,

Misto de salgado e doce,

Manda que eu retorne inteiro

No tempo, como se fosse

Outra vez certo menino

Que buscava todo dia

Baguetes na padaria

Do padeiro Tolentino

(Me lembro bem do padeiro).

2. Melhor que o pão era o cheiro.

Cheiro do qual era escrava

Toda a Rua da Estação:

Mais do cheiro que do pão.

Cheiro que transfigurava,

Num banho de etérea lava,

O tosco e velho salão:

Sob aveludadas telhas,

Mais negras do que vermelhas,

Picumã e teia de aranha

Decoravam todo o teto;

E, pro serviço completo,

Tradição da padaria,

Um velho de cara estranha

Que jamais agradecia.

3. Prato simples, água e trigo,

Mais simples não há nenhum,

Denominador comum 

Do ricaço e do mendigo.

Não sei se é doce ou salgado

O cheiro honesto e cristão

Que chega do meu fogão,

Mas uma coisa eu te digo:

Não há prato refinado

Que cheire melhor que pão.

 

 

10/11/2007. A morte não é problema. Problema é morrer.

 

 

09/11/2007. Pode haver atividade mais nobre que a leitura; por exemplo, consultor telefônico para pré-suicidas. Porém nada é mais duradouramente prazeroso que ler, nem mesmo sexo ou derrota do São Paulo FC.

 

 

08/11/2007. Haiconto.

Em profunda depressão,

Chamou a Morte. Ela veio,

Mas... fugiu apavorada.

 

 

07/11/2007. Tudo é possível. Até a própria realidade, que é a mais improvável de todas as possibilidades.

 

 

06/11/2007. Valsa dos pés da amada.

1. Tom maior.

Beijo teus pés, meu amor, que doçura!,

Esses pezinhos que foi Deus quem fez

(Feitos da argila mais leve e mais pura).

Beijo teus pés, meu amor, com ternura...

Beijo bastante... E, depois, outra vez...

 

2. Tom menor.

Mas são teus pés que te levam, por fim;

Um inimigo nunca tive assim.

Quando te vais, não são teus pés que vão

Te conduzindo pra longe de mim?

São pés bonitos, mas sem coração.

 

 

05/11/2007. O espaço é uma ilusão. Liberdade é coisa mental. A barata, ao sair do esgoto, corre sempre o risco de topar com o chinelo. Ou o passarinho com o gavião, quando mal acabou de celebrar a fuga da gaiola. Não seria mais prático se dona barata decorasse a parede da cela com as paisagens provençais de Cézanne — ou, se a patativa preferir, deixar a tevê da gaiola ligada o dia inteiro na Animal Planet?

 

 

04/11/2007. Ritos de passagem.

— Minha mulher virou Testemunha de Jeová.

— E você?

— Virei testemunha da sandice dela.

 

 

03/11/2007. Três frases no máximo volume.

1. Quando eu virar psicopata, vou correndo comprar uma guitarra elétrica e aprender a tocar rock japonês.

2. Finalmente, tenho um motivo pra evitar o Inferno — dizem que lá tem rock em turno integral.

3. Se viesse a carestia e só rock matasse a fome, eu seria primeira vítima feliz do jejum.

 

 

02/11/2007. O dia dos finados podia ter um sol mais discreto. É covardia. A luz chega até minha rede coada pela ramaria das árvores, manchas claras que a brisa movimenta e desloca.

Penso no túmulo da minha mãe, que nunca visito — cemitério não é parque de diversões.

Os mortos estão enterrados no coração da gente, e por isso qualquer dia pode ser de finados, com chuva ou com sol.

Depois do meu velório, ainda vai ficar um pouco de mim por aí: alguém, de quando em quando, vai se lembrar da minha voz ou da minha escoliose lombar, até chegar definitivamente o fim. Ninguém morre de repente. A gente parte pouco a pouco, bem devagar, até o tempo jogar a última pá de cal.

Um frufru de asas. É o beija-flor no jambolão, equilibrando-se nas próprias hélices. Abro outra vez o livro e desapareço na leitura, que é um jeito civilizado de morrer.

 

 

01/11/2007. A morte como fim de tudo — do corpo e da alma humana — é a prova mais contundente da existência de Deus e da justiça divina.

 

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