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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 26

 

 

31/10/2007. Depois da infância, vieram as adolescências. Na primeira, briguei com Deus. Na segunda, me casei. Agora, na terceira, já ouço uns projetos de gente me chamando de vovô; e que, daqui dez ou doze anos, já serão tão adolescentes como eu.

 

 

30/10/2007. Prova de geometria. Questão de múltipla escolha. Quando eu estiver na horizontal, e o resto do mundo na vertical, vou sentir: a) inveja, b) piedade, c) indiferença, d) nenhuma das alternativas anteriores.

 

 

29/10/2007. A ventania derrubou a árvore. Depois da chuva, vieram os dois meninos:

— Que legal! Agora ficou melhor pra subir.

 

 

28/10/2007. Bandidos armados? Trânsito louco? Efeito estufa? Aedes aegypti? Imposto de renda? Congresso nacional? Torcida corintiana? Tudo isso é fichinha, diante da permanente ameaça dos nossos filhos.

 

 

27/10/2007. A realidade precisa mais da ficção do que vice-versa.

 

 

26/10/2007. João Gilberto ensinou o brasileiro a cantar com voz de mulher. Prefiro o original feminino.

 

 

25/10/2007. E então retrucou Narciso:

São egoístas todos os que não pensam como eu.

 

 

24/10/2007.Sextilha quase romântica.

A saudade da pequena

De tardinha é que dói mais.

E, entre suspiros e ais,

Vou cumprindo a minha pena,

Porque a saudade condena

Mais que os nossos tribunais.

 

 

23/10/2007. Acredito que ninguém seria inimigo de pernilongo, se ele desinfetasse a seringa e jogasse fora a flauta. Podia colher sangue à vontade. Temos de sobra.

 

 

22/10/2007. Narciso cético:

— E se eu desconfiasse um pouco mais da minha existência?

O espelho:

— Tua imagem ficaria mais nítida.

 

 

21/10/2007. A última indignação do resignado:

— Já com saco cheio de não aceitar a vida como ela é!

 

 

20/10/2007. Nada é tão urgente que não possa esperar pela próxima encarnação.

 

 

19/10/2007. Quase todos gostam de contar e ouvir histórias. Contos, novelas e romances existem por exclusiva culpa da “função fabuladora” (Bergson) do animal racional.

No caso do estranho romance De pai a filho, de Gastão Cruls, preferia que o escritor tivesse contado mais coisas sobre o Alberto-filho, do mesmo modo que contou sobre o Alberto-pai. E que também tivesse perdido menos tempo — quase duzentas das quinhentas e tantas páginas — com a placidez burguesa daquele Rio fim-de-século, embora eu já desconfiasse, enquanto lia, que aquele adiamento dos conflitos tivesse uma razão respeitável: tornar mais absurda a tragédia das últimas cem páginas. Também contribui para  isso as outras histórias misturadas à principal — Cruls foi bom contista —, como a do carioca que virou gaúcho e incorporou todo o vocabulário pampeano; do português, comerciante respeitável, que morreu feliz nos braços da amante mulata; da ex-aluna do colégio Sion que vira atriz, numa época em que atriz e prostituta eram quase a mesma coisa.

Mas se aquelas duzentas páginas iniciais não funcionam direito na máquina do romance, tem inegável valor histórico e sociológico, mostrando um pouco da parte aparentemente civilizada da cidade mais civilizada do Brasil de então, especialmente as mansões de portugueses enriquecidos. Sem a lusofobia do seu amigo Antônio Torres, que pegou pesado contra os pés-de-chumbo, Cruls foi mais discreto e diplomático: de chamar a atenção, só mesmo a caricatura do português Cardoso.

O principal da obra está mais na psicologia que na sociologia. Traz epígrafe de Gide, “A vida nos propõe uma grande quantidade de problemas realmente insolúveis, que só a morte pode resolver, depois de um longo período de inquietação e tormento”, como poderia ter trazido as palavras finais das Memórias póstumas de Brás Cubas. O romance, publicado em 1954, último dos cinco que Cruls escreveu, parece feito pra confirmar, com dois casos clínicos, o famoso aforismo machadiano.

— Fiz um filho — Alberto-pai terá concluído no Além —; transmiti o legado da miséria humana.

Gastão Cruls foi próximo de Lima Barreto, que resenhou e elogiou seu primeiro livro de contos, Coivara. Embora médico, dizia, não escreve pedante como seus colegas de ofício. Lima morreu logo depois e não viu o “amadurecimento” do estilo do amigo, típico fim-de-século, meio parnasiano, meio simbolista, pendurado aqui e ali de “jóia rara”, empurrando a gente pro dicionário. Se, nos últimos romances, se aproximou tematicamente de Machado, seu estilo sempre teve mais afinidades com José de Alencar e Euclides da Cunha. Em De pai a filho, publicado na década da poesia concreta, a linguagem não tinha como ser mais anacrônica — o narrador é onisciente, pula com agilidade e sem cerimônia de uma alma a outra —, mas de certo modo o livro acabou lucrando com essa analogia do estilo preciosista e a época dos acontecimentos narrados, alguma coisa como a mão e a luva.

Tinha jurado que não leria tão cedo um romance brasileiro, e acabei varando sem grande esforço as quinhentas e vinte páginas do livro, com direito a decepção no final. Francamente, é uma obra muito boa e bastante ruim, mas o que ela tem de bom, de muito bom, compensa largamente as deficiências.

 

 

18/10/2007. Socialismo não é utopia, mas marcha à ré da história, que volta ao tribalismo das cavernas. Sacar a arma e gritar mãos ao alto, como no caso do socialismo revolucionário, ou bater sorrateiramente a carteira de quem tem mais, como faz a social-democracia, já indica a procedência pré-histórica do método. É fácil demais, boa parte da população já o pratica com desenvoltura e não tem nada a ver com aquilo que os poetas românticos chamavam  de quimera. 

Utopia, mesmo, é aperfeiçoar moralmente a raça, sem prejuízo da liberdade individual. Ou seja, humanamente impossível.

 

 

17/10/2007. Cara de quem foi comida — e não gostou.

 

 

16/10/2007. Amava o luxo e só pensava em sexo. Mas defendia, como ninguém, o direito de amar além da cama e pensar além das aparências.

 

 

15/10/2007. Cadê?

Quando eu for pro nada,

Quando eu nada for,

Quede o riso e a dor

Da vida passada?

 

Quede tudo aquilo

Que me dava orgulho,

Quando eu for tranqüilo

Como um pedregulho?

 

Quando eu for ninguém,

Sem brilho nem ruga,

Quede o mal e o bem,

Quede a posse e a fuga?

 

Quede aquilo tudo

Por que eu morreria,

Quando estiver mudo

De sabedoria?

 

 

14/10/2007. Somos agentes da História ou pacientes do Destino?

 

 

13/10/2007. Tom Jobim, nos EUA, era conhecido como o homem de um dedo só, one finger man, depois das versões instrumentais que fez de suas canções. Seu piano era de uma economia extrema, o anti-Pedrinho Mattar. Quando lhe perguntaram porque tocava tão poucas notas, respondeu:

— Só toco as boas.

 

 

12/10/2007. Mateus é um sado-platônico. Começa a cuidar da piscina quando chegam as visitas. E faz coincidir o ponto ômega da limpeza com o dia da partida dos intrusos. Deixa-a impecavelmente limpa — pra ninguém.

 

 

11/10/2007. As peculiaridades alheias são frescuras; as nossas, idiossincrasias.

 

 

10/10/2007. É a semana dos bebês abandonados. As mães querem ser lúcidas agora, quando podiam ter sido um ano atrás.

 

 

09/10/2007. O português Cardoso, no romance De pai a filho, de Gastão Cruls, morreu na cama com a amante, balançando sobre o corpo da mulata em plena agonia. O comentário mais sábio veio de Alberto, no velório:

— Morreu em cima de uma mulher? Magnífico! Eu não queria outra morte.

Vários capítulos depois, o leitor fica sabendo que Alberto, naquela época, já não estava no seu juízo perfeito, vítima de paralisia geral. Por que a verdade insiste nessa preferência desleal pelos doidos?

 

 

08/10/2007. O problema de morar muito tempo numa casa é o trânsito congestionado de fantasmas, o risco sempre iminente de colisão com as sombras.

 

 

07/10/2007. Na falta de escolas e lares, a fila é a depositária dos últimos valores humanos: obedece ou tchau. Quer melhor exercício de discernimento do que procurar sósias de conhecidos? Depois de uma hora em pé, faz bem pras varizes olhar os que estão atrás. Mas consolo mesmo é saber que o banqueiro fica um pouco mais rico a cada passo lento da fila. Sabe aqueles carrinhos de supermercado? Podiam botar cadeiras de rodas na entrada do Banco. Se a fila dos velhos é a menor de todas, que raiva ser tão jovem! Será que o caixa esquece de tirar a máscara quando chega em casa?

 

 

06/10/2007. O caderno de notas — minha apendicite neurótica. 

 

 

05/10/2007. Quando interfere na vida prática, a poesia sempre dá algum prejuízo.

 

 

04/10/2007. Por absoluta falta de opção, os filhos crescem imitando os pais.

 

 

03/10/2007. Haicai brasileiro.

Os japoneses estão

Per-ma-nen-te-men-te

Acabando de acordar.

 

 

02/10/2007. As putas mais interessantes são as que sabem usar a máscara do pudor.

 

 

01/10/2007. Perguntinhas.

Interminável partida,

Perguntar é meu esporte:

Há vida depois da morte

Ou morte depois da vida?

Mas tenho, sempre a temê-lo,

Meus palpites pro final:

Um sono fundo e total

Sem sonho nem pesadelo.

Do que nos livros soberbos

Busquei com aquela ansiedade,

Bem mais fácil me persuade

Estes dois límpidos verbos:

— Morreu... acabou... — dizia

Vovô Condo, crente embora

Em Cristo e Nossa Senhora.

Há melhor filosofia?

 

 

 

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