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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 25

 

 

30/09/2007. Dizia Pitigrilli que o sujeito, para ter sucesso com mulheres, devia tratar as putas como madames e as madames como putas. Pressuposto: toda mulher, puta ou madame, tem um hemisfério madâmico e um hemisfério pútico.

Com mulher, pra ser feliz,

É aceitá-la como tal:

Com seu lado maternal

E seu lado... meretriz.

 

 

29/09/2007. Desconfio que não existiriam maus vizinhos, se não fosse a política da boa vizinhança.

 

 

28/09/2007. No velório do poderoso-chefão, todos de óculos escuros. Só o morto com óculos de grau.

— Pra não errar a porta do Inferno — alguém sussurrou.

 

 

27/09/2007. Entraram por acaso na livraria do chópim (não confundir com Chopin). Quando a amiga percebeu que ela estava mesmo a fim do livrinho de auto-ajuda, não se conteve:

— Esqueceu que hoje é sábado? Esse dinheiro pode fazer falta no barzinho.

 

 

26/09/2007. Que importa se dormem todo dia com os pais? Para os filhos, as mães serão sempre virgens.

 

 

25/09/2007. Notas para um poema academicamente modernista.

A lua cheia apareceu vermelha e enorme no horizonte, lua de filme de terror, importada da Transilvânia.

Daí a pouco ela já estava romântica e desesperadamente amarela, com uma puta saudade do Vinícius de Morais.

No meio da noite, era uma pequena hóstia no cocoruco do céu, branca e pura como hóstias feitas com a farinha Renata.

 

 

24/09/2007. Usando a preguiça do Mário Quintana como método de trabalho, vou fazer um livro de contos só com títulos.

Um dos contos vai se chamar Dona Chuchu de Barros.

O expediente não é original; só perde para o Branco sobre branco, de Malevich, depois do qual ficou absolutamente impossível a arte abstrata.

Em época de esgotamento literário, o que é que não serve para dar impressão de originalidade?

O título lá no alto.

Embaixo, a página sem mais nada, nua como devia ser a nudez de dona Chuchu de Barros: de uma brancura que nunca viu a luz do sol.

Pra mim, que não a conheci, é suficiente.

Penso que seria o mesmo para o leitor, que provavelmente também não a conheceu.

 

 

23/09/2007. Sibelius 1865-1957-2007.

Morria, há cinqüenta anos, Jean Sibelius

Numa casa de campo finlandesa.

Que importa se compôs nos moldes velhos?

O que manda, na música, é a beleza.

 

 

22/09/2007. A mulher da novela não conseguia engravidar. Deixou o marido, depois que ele emprenhou por acaso uma prostituta.

— É imperdoável! — disse quase chorando. — Depois de tanto sacrifício que a gente fez junto pra engravidar...

 

 

21/09/2007. Bêbado de poesia.

O Quintana bebia?

Poesia ele bebeu...

E rejuvenesceu

Enquanto envelhecia.

 

 

20/09/2007. A maior razão do canto

Não é a morte, nem a vida,

Mas uma coisa nascida

Das duas: a flor do espanto,

Raiz de toda a poesia,

Fonte de todo o sentido.

Mas quem não se espantaria

Por ter de morrer um dia

Ou ter um dia nascido?

 

 

19/09/2007. O espanto é o capital inicial do filósofo e do poeta, aquele susto meio feliz e meio apreensivo diante da possibilidade da idéia nova. Enquanto o primeiro faz tudo pra sossegá-lo com o banho-maria do conceito, o segundo registra-o com suas imagens e parte para o espanto seguinte.

 

 

18/09/2007. Criança é a coisa mais bela do mundo. A garantia de que o fogo de Prometeu não vai se apagar. O futuro da espécie e dos quatro gêneros, feminino, masculino, viadino, sapatino. No entanto, quando retesa as garras e se aproxima dos livros, deve ser tratado como o mais cruel inimigo da civilização.

 

 

17/09/2007. A realidade é muito mais criativa que a arte: o sujeito era compulsivo, precisava de remédio, só que guardava os comprimidos em vez de tomar. Colecionava-os, mais três anos, com medo de que um dia pudessem faltar.

 

 

16/09/2007. Há um personagem de Shakespeare, n’O mercador de Veneza, que desconfia dos que não se comovem com a “suave harmonia dos sons”, dos que não gostam de música. São capazes de trair, roubar, enganar. Suas almas são cinzentas como a noite.

Não creio que Shakespeare concordasse com seu personagem: suscetibilidade à “suave harmonia dos sons” não é garantia moral. Há, por aí, muito mau caráter profundamente musical, alguns até no topo da MPB. Nem é preciso subir mais, até Wagner.

Insensibilidade à música é defeito de fabricação? Algum trauma de infância ou das encarnações anteriores? Graciliano Ramos e João Cabral foram adversários notórios da “suave harmonia dos sons” e escreveram bons livros. No caso de Cabral, por ironia do Deus brincalhão, sua provável melhor obra é o Morte e vida severina, que “canta” muito bem com suas rimas e redondilhas (foi até musicado por um cançonetista famoso).

 

 

15/09/2007.  Pra que esperar sentado? Caminhando é melhor. A gente até esquece de esperar.

 

 

14/09/2007. Ainda estamos na idade primitiva do radar fotográfico, que só obriga a gente a respeitar a velocidade permitida...  na travessia do radar fotográfico. Enquanto não começa a história propriamente dita, que pressupõe a cobertura, por radar, de cada milímetro de piso rodoviário, o Estado vai lucrando com a pré-história e fazendo de tudo pra história jamais entrar em cartaz.

 

 

13/09/2007. Conclusão mais ou menos otimista: é uma ilusão pensar que nossos filhos não vão herdar nossas escassíssimas virtudes.

 

 

12/09/2007. Acho que a única liberdade possível está na literatura, na música, nas artes. Ou seja, na mentira. O resto é necessidade. Não tem coisa melhor que você se divorciar de uma obra que lê, quando seduzido por outra; ou conviver em doce e irresponsável poligamia com várias ao mesmo tempo, sem obrigação de equanimidade ou anotações à margem do texto. Já que vivo de aulas de literatura, me sinto na obrigação de ensinar segundo meu gosto pessoal, pois nada parece mais desonesto, nesses assuntos de arte, que uma abordagem serena e objetiva. Mas, desde o começo, procuro deixar bem claro: “Não confiem no meu gosto.”

 

 

11/09/2007. Minha contabilidade poética, na literatura brasileira, fica no número três.

Drummond? Reli há pouco a “A máquina do mundo” e me decepcionei. Mais que os poemas, são alguns versos de Drummond que ficaram pra sempre, aqueles que todo mundo conhece: “Itabira é só uma fotografia na parede, mas como dói”, “Havia uma pedra no meio do caminho”, “Minas não há mais”, “Mundo mundo vasto mundo”, “Perdi o bonde e a esperança”, “E agora, José?”, “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, “Eta vida besta, meu Deus!”, “A poesia é incomunicável. Fique torto no seu canto”, “Chegou um tempo em que não adianta morrer”, “Lutar com palavras é a luta mais vã”, “Minha mão está suja. Preciso cortá-la”, “Este é tempo de partido, tempo de homens partidos”.

De Bandeira, ficaram alguns poemas, entre os mais redondos que a língua portuguesa já produziu. Não os chamaria de diamantes, porque sua luz é quase imperceptível: tem mais o brilho de fruta simples que de pedra preciosa, ou o verniz discreto que o carpinteiro aplica na peça que acabou de montar. Mais que ourives, Bandeira é mestre da carpintaria. Fernando P’ssoas é provavelmente mais profundo, porém menos artista que o pernambucano.

Depois de Drummond e Bandeira, achei levianamente que era impossível alguém dizer mais alguma coisa em português. Até que descobri o Mário Quintana, já indo lá pro fim da tarde nesta vida que nem senti passar. Se os dois primeiros foram úteis nas falsas doenças do aprendiz de hipocondria, Quintana me acompanha nas visitas regulares aos médicos e laboratórios da pré-terceira-idade.

 

 

10/09/2007. Haiconto.

Acordou.

Viu que era real demais

E voltou a dormir.

 

 

09/09/2007. Sobre bandidos, alguns são punidos com cadeia, outros recompensados com a morte.

 

 

08/09/2007. Só uma minoria de pessoas se preocupa com a espécie. Outras, imensa maioria, só se interessam mesmo pelo gênero oposto, quando não pelo próprio.

 

 

07/09/2007. Animal racional? A maior parte da humanidade continua nascendo por descuido, e vivendo com a maior desatenção. Por isso inventou-se o carro com alto-falante. Aquele era uma belina velha e andava quase parando. Em alto e bom som, oferecia pamonhas fresquinhas, diretamente da fazenda. O velhinho aproximou-se:

— Será que não dá pra falar mais baixo?

 

 

06/09/2007. Tudo já foi dito. Como se a experiência acumulada da humanidade, nos últimos duzentos mil anos, só estivesse esperando pela escrita para o devido registro. Quantos Heráclitos não vieram limando aquelas idéias que, mais tarde, seriam arquivadas nas sentenças de um sujeito rabugento de Éfeso? A irreversibilidade do tempo, a necessidade dos contrários, a indefinição das coisas, a unidade oculta... O máximo que a gente pode fazer, depois de tudo, é mudar o figurino dessas verdades pacientemente buriladas pelo tempo.

 

 

05/09/2007. Santo Agostinho.

Para o tempo compreender

Em palavras não confio:

Basta senti-lo correr,

Dentro de mim, como um rio.

 

 

04/09/2007. A Dor e o Prazer sempre foram muito apaixonados um pelo outro. Até hoje, ninguém conseguiu separar o casal.

 

 

03/09/2007. Nunca gostou de sair de casa. Quando viajava, ia sempre de olhos fechados: preferia paisagens imaginárias.

 

 

02/09/2007. Para se “comunicar”, na maioria das vezes o poeta se degrada. Penso no Cassiano Ricardo dos últimos livros, ou no próprio Drummond. Não é pra semelhantes que os poetas se dirigem, quando falam sozinhos. “Quem fala sozinho, espera falar com Deus um dia”, disse Antonio Machado, mais eterno que moderno.

 

 

01/09/2007. Uma boa parte da poesia contemporânea viveu de gemer ou rugir contra as mudanças definitivas do velho mundo pastoril. Outra parte, menor, fez o elogio da técnica . Outra, mais sutilmente, incorporou o próprio espírito da tecnologia e se divertiu trocando as peças da máquina poética. E há aquela parte, talvez mais duradoura, que continuou à margem da história, olhos erguidos — ou profundamente abaixados — para o mito.

 

 

 

 

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