NOTAS PARA UM DIÁRIO - 23
31/07/2007. “Yo vivo en
paz con los hombres y en guerra con mis entrañas.” Antonio
Machado.
30/07/2007. Caminho, toda tarde, por uma rua jecapolitense
com casas em construção. Numa delas, passei por razoável quantidade de água
empoçada — choveu há menos de uma semana —, numa espécie de banheira de cimento, dessas
que pedreiros improvisam pra amassar reboque. Em poucos dias, teríamos mais um
valente exército de mosquitos rajados, novinhos em folha, prontos para alterar
a temperatura de alguns corpos humanos de Jecápolis.
Eu não podia permitir.
Cheguei em casa e cumpri minha obrigação: liguei pra
vigilância sanitária. Mal comecei a falar, a moça do telefone emitiu alguns
sinais de irritação e, sem nada avisar, me transferiu pra outro ramal, que
silencioso ficou. Tentei tudo outra vez, com silêncio redobrado da parte de lá.
Confesso que não é
fácil ser cidadão de Jecápolis.
Embora os moradores
daqui sejam, em geral, céticos (ainda não acreditam em mosquito da dengue),
descobri por fonte limpa que não era o caso da simpática telefonista. Nada do
saudável ceticismo jecapolitense: a moça era uma
agente secreta dos aedes aegipty. E com treinamento em Cuba.
O diabo é que ninguém
acredita em mim. Povinho cético!
29/07/2007. Lua de julho.
A lua, no céu gelado,
Quando viu a coisa
preta,
Vestiu um manto
estrelado
E fugiu para o outro
lado
Na garupa de um
cometa.
28/07/2007. Depois que a máscara adere ao rosto, é quase impossível
remover. Só com uma delicada cirurgia plástica moral.
27/07/2007. Lembra quando o disco estava riscado e o braço da agulha
ficava repetindo a mesma frase? Foi a principal fonte
de inspiração da música minimalista.
26/07/2007. Prece ao Sol no dia mais frio e cinzento de
julho
Eu não me chamo Francisco
(Perto dele viro um cisco),
Nem me atrevo, Zé do chão,
A chamar um Deus de irmão,
Ou juntar-me a quem reduz
O Sol a não mais que luz,
Luminária de mortais
Com mais volts que as demais.
Eu, pasmo diante de tudo,
Bicho da terra miúdo,
Tiro do saco a viola
Despido de todo orgulho
Para pedir uma esmola
De calor no frio de julho.
E, com trapos de mendigo,
Em tom súplice, lhe digo:
— Só uma esmolinha, Senhor,
Um centavo de calor...
25/07/2007. Tudo passa, diziam Heráclito e Nelson Ned. Comunistas,
liberais, pobres, ricos, brancos, pretos, amor, ódio, nossos amigos, nossos
inimigos. Passam céus e terra, sereias e encantados, a caça e o caçador. Só uma
coisa fica pra sempre: o tudo-passa.
24/07/2007. Diálogos da sogra e
da nora.
Nora: — Vale mais um desaforo, na boca dos outros, do que a muda e gélida
indiferença.
Sogra: — Prefiro a muda e gélida indiferença no olhar do próximo. É menos
nociva que a hostilidade.
Nora: — Qualquer ponto de vista será sempre preferível ao olho petrificado
da morte.
Sogra: — O olhar tranqüilo da morte tem muito mais sabedoria que o ponto de
vista dos homens.
23/07/2007. Buscar paz no casamento é o sujeito se esconder da
tempestade sob a mais bela copa de árvore.
22/07/2007. Mandamento número um no decálogo da humildade: não se levar
muito a sério. O auto-humor é a forma suprema da auto-ajuda.
21/07/2007. Não pode haver pensamento sério — do “tudo passa” de
Heráclito ao “ser para a morte” de Heidegger — sem a presença, direta ou
indireta, da idéia da morte. A filosofia e a poesia são mais aprendizado da
morte que da vida. Se esta agüenta alguns anos, aquela é pra sempre: exige mais
lições.
20/07/2007. Hoje há o caos aéreo. Faz tempo que existe o caos rodoviário.
Se ainda tivéssemos trens, o caos andaria sobre trilhos. Isso pra não falar no
caos da educação, da saúde, da segurança. Caos moral? Nem é bom lembrar.
Caos, teu nome é
Brasil!
Hoje entendo porque
botaram aquela faixa de campeão — “Ordem e progresso” — no peito azul e cheio de estrelas da
bandeira nacional: só com objetivo tão nobre, seguramente inatingível, podemos
tolerar nossa verdadeira condição.
19/07/2007. Cristo foi o primeiro a desobedecer o
Cristo: amou o próximo muito mais que a si mesmo.
18/07/2007. Teoria da relatividade.
Disse o ministro, com
sorriso de malandro:
— O caos aéreo é
conseqüência do crescimento da economia brasileira.
Ao que poderia
responder o líder da oposição:
— Então temos um
segundo caos, o administrativo, pois tinha grana e não conseguiu evitar o
primeiro.
17/07/2007. Bacia hidrográfica.
Não conheço o mar,
Nunca vi navios,
Mas pra me afogar
Não me faltam rios.
16/07/2007. O enterrado vivo gritava dentro do túmulo. Era madrugada e
só havia almas penadas por ali. Mas eram tão ressentidas que nada fizeram para
ajudar o pobre cataléptico.
15/07/2007. Time que subestima adversário já entra em campo perdendo de
um a zero.
14/07/2007. Quebrar rotina é bom treino
Para quando — hora
vencida —
Sair do reino da vida
Pro definitivo Reino.
13/07/2007. As maritacas, no alto do jambolão,
brincam animadamente de Congresso Nacional.
12/07/2007. Em 2008, fará trinta anos que morreu
Otto Maria Carpeaux: pobre, mas não na miséria, como
parecia temer o exilado que fugiu do nazismo e encontrou no Brasil condições de
viver, com relativa decência, a segunda metade de sua vida, sobretudo depois
que virou editor da enciclopédia Mirador, cujos
verbetes sobre arte, música e literatura tinham, de algum modo, a sua chancela,
quando não eram escritos diretamente por ele.
Era admirável, em Carpeaux, não só a erudição, mas
sobretudo o que ele conseguiu fazer daquela montanha de conhecimentos
guardada em sua memória, impedindo-a de soterrar o escritor.
Memória é mais seleção
do que acúmulo. Quem o conheceu, diz coisas espantosas sobre sua capacidade de
conservar na mente o que lia. Embora gago, e falando só duas línguas, o alemão
e o português, lia em grego, latim, francês, inglês, italiano (e dialetos, sobretudo
o siciliano), espanhol (incluindo galego e catalão), provençal, flamengo (belga
e holandês), russo, polonês, tcheco, servo-croata.
Sua biblioteca
brasileira era pequena; a maior parte dos livros perdeu-se enquanto fugia do
nazismo. Sobraram as fichas, onde tinha anotado o essencial daquelas viagens do
espírito. Pátria é onde a gente está bem, diria Horácio. Mais de uma vez ele
tentou voltar a Viena, mas não conseguiu ficar longe do Rio. Seu destino era
viver aqui, e aqui morrer, infelizmente no carnaval, como aconteceu há quase
trinta anos.
Num ensaio sobre
Dante, recorda os tristes dias:
“O Trecento
é uma remota recordação histórica, mas os versos dantescos são de uma perfeita
e terrível atualidade. Quando eu, pela primeira vez, os recordei no silêncio do
Duomo de Florença, já tinha recomeçado lá fora a luta
fratricida, apenas que os Guelfos e os Ghibelinis do século XX ostentavam outros rótulos e que
tinham ouras cores suas bandeiras. Foram os anos de 1930: violação de
Constituições, revoltas, golpes, inflações, convulsões e enfim milhares e mais
milhares foram atingidos pelo mesmo destino de Dante e de tantos outros
italianos nobres: o exílio.
Também experimentei o
exílio. “No meio do caminho da vida, nos recebeu uma floresta escura, e não se
encontrava a saída.”
No Evangelho, Jesus
aconselha os discípulos a rezar “para que sua fuga não aconteça no inverno”.
Pois bem, minha fuga aconteceu no inverno, e tão impiedosa foi a perseguição que nem sequer consegui levar comigo meu
Dante, o exemplar tão usado que a encadernação barata já estava
Mas achei minha Verona:
no Brasil.
Tenho para mim que sem
essas experiências teria ficado incompleta minha experiência de Dante. Só passando
pelos Malebolge desse mundo sem perder a vista para
os stelle
se tem o Dante inteiro: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Só
então se compreende o sentido vital de A
Divina Comédia, autobiografia espiritual do poeta e biografia permanente da
existência humana.”
10/07/2007. O romance quando é bom, de personagens bem “construídos”, o verdadeiro leitor não tem tempo a perder com probleminhas de construção, pois está todo dominado
pela Circe do enredo. Merece ter cassada
a carteira de habilitação
para a viagem ficcional aquele que vive cortando o barato da leitura
com impertinentes considerações
sobre a mecânica da obra.
09/07/2007. Rua Padre Claret, 234
Não sei que mais
pesaria,
Nesta vida de
mudanças,
Do que uma casa vazia
Carregada de
lembranças.
08/07/2007. De Carlos Guastavino, o compositor argentino, conheço pouca coisa — o “Bailecito para dois pianos”, com Marta Argerich
e Nelson Freire, a canção “Se equivocó la paloma”, a peça para orquestra
“Três cantilenas argentinas & final”: o suficiente para saber com quem
estava lidando.
Pouco antes de morrer,
em 1996, com mais de oitenta anos, disse em entrevista:
"¡El atonalismo, la música concreta! ¡Eso es una porquería!
Y lo digo a los gritos a
todo el mundo. Esas son mentiras, falsedades; eso es decir:
quiero y no puedo. La música auténtica es armonía, melodía,
ritmo, perfectamente tonal. Es la
única forma de hacer música.”
Foi mais ou menos o
que disse ao público brasileiro Camargo Guarnieri, no início dos anos cinqüenta,
comprando uma briga danada com os moderninhos.
Já conhecia o talento
de Guastavino. Agora conheço a inteligência.
07/07/2007. Removeram minha velha cidade e fundaram
outra no lugar: Jecápolis.
Precisava de um hino
novo, fizeram concurso e ganhou uma canção breganeja.
É horrorosa: preciso aprender.
Cercada de cana por
todos os lados, criou-se a Festa do Álcool e da Cachaça, Garapinha na
intimidade, uma semana de pop-shows onde se apresenta o que há de mais milionariamente
letal na música brasileira.
Como o prefeito não
pode bancar sozinho a festa, conta sempre com a boa
vontade do chefão do tráfico de drogas, que vive comendo a mulher e as filhas
do prefeito.
O chefão do tráfico de
drogas é que escreve o sermão do padre, as sentenças do juiz e as leis da
Câmara. Ele é muito generoso.
Sua mais recente
doação à prefeitura foi uma poderosa e móvel aparelhagem de som que, todo
domingo, nos acorda com o pior da música breganeja na
pracinha do Lago Artificial (é assim mesmo que se chama o represamento do nosso
córrego: Lago Artificial).
— Jecápolis,
ame-a ou deixe-a! — está escrito numa faixa eletrônica, no pórtico virtual da
cidade.
Por nada deste mundo
eu saio daqui. É ruim demais pra ficar sem.
06/07/2007. Deus não existe. Foi inventado pelo homem. A partir de inspiração
divina. Só é possível aproximar-se de Deus com paradoxos.
05/07/2007. O fim da história
...e então o velho
sábio chinês leu Marx, transformando-se num competitivo capitalista
pós-moderno.
04/07/2007. Notas disfluentes para uma aula de retórica.
A gagueira é uma forma
compulsória de pleonasmo.
Ou de aliteração, como
no verso de Noel: “Mu-mu-mulher que-que
me fffizeste um estrago...”
Na terra dos gagos,
fluência seria defeito físico. “Necessidade especial”, como eufemisticamente
se prefere dizer hoje.
Enquanto a língua se
especializava em duplicação de sílabas, os dedos machadianos se aperfeiçoavam,
paradoxalmente, na sublime arte de degolar palavras: só perdoava as boas.
A elipse, em Machado
de Assis, como coisa mental, talvez fosse uma forma de vingança contra a natureza hiperbólica, que o fez gago e epilético.
03/07/2007. Inútil mercadoria
Que a História botou
de lado,
Poesia não tem
mercado.
Tanto melhor pra
poesia...
02/07/2007. Há professores de literatura que mais parecem bonecos de
ventríloquo: os críticos é que falam por sua boca. Não arriscam uma idéia nova.
São compilações ambulantes da bibliografia lida.
01/07/2007. Apesar de tudo o que elas aprenderam de ruim com os homens —feminismo não é isso? —, a arma mais letal das
mulheres ainda é a doçura.