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NOTAS PARA UM DIÁRIO - 22

 

 

30/06/2007. Foi-se Bruno Tolentino, poeta d’As horas de Katharina, que li em 1994 com imenso deleite. Ninguém rimava como ele no Brasil, e seu enjambement fluía tranqüilo — rio metafísico sem iaras e botos tropicais.

Partiu com quase a mesma idade de sua personagem austríaca, sóror Katharina, alter-ego do poeta, nascida em 1861 e morta em 1927: ela com sessenta e seis, o “vate” com sessenta e sete.

Sóror Katharina teria sido contemporânea da geração literária talvez mais importante dos últimos dois séculos, aquela nascida por volta de 1860 e que tem no seu primeiro time, para só citar alguns nomes, Tchekhov, Yeats, Conrad, Wilde, Shaw, Bergson, Rimbaud, Gide, Proust, Unamuno, D’Annunzio, Pirandello, Croce, Hansum, Santayana. Todos com um denominador comum: preocupação com problemas mais universais.

Assim também foi Bruno Tolentino, que morou na Europa, escreveu em inglês e francês, impregnou-se da melhor literatura e da melhor filosofia, e depois veio morrer entre nós, numa pequena cidade do interior mineiro, aceitando “o castigo imerecido” de uma doença que o acompanhou durante muitos anos.

Vamos ficando cada vez mais pobres.

 

 

29/06/2007. Senhorita Dona Lua,

Coberta de ouros e pratas,

Vai tristonha pela rua

Do medo, sem serenatas.

 

 

28/06/2007. A verdade verdadeira é que todos nós, sem uma única exceção, menos ou mais remotamente, descendemos de pobres e pretos. Completamente pobres seremos um dia — pobríssimos, paupérrimos, très pauvres, poverissimi. E cor de terra, que é uma cor muito chique.

 

 

27/06/2007. Haverá sério risco de extinção da espécie humana, quando os homens começarem a brigar pela partilha virtual do universo. Chegaremos lá... Num futuro não muito distante, é bem provável que pastor Bush XVI decida anexar ao território dos EUA a galáxia de Sculptor ou Andrômeda e meter-lhe um carimbo eletrônico, com a desculpa razoável de manter o equilíbrio geopolítico, ou melhor, cosmopolítico do universo. Dom Chaves XVI não vai consentir, obviamente.

Pensando bem, morrer por uma galáxia inteirinha, aquele poeirão de estrelas sempre se expandindo para o outro lado de tudo ou de nada, até que não é má idéia.

 

 

26/06/2007. Mulher é exibicionista nata: se não chama a atenção, definha e morre. Estão, portanto, plenamente justificadas as moças que, não tendo na cabeça o que lhes sobra no corpo, perdem horas no espelho produzindo-se; ou melhor, esculpindo-se; mais precisamente, terminando a escultura que Deus fez.

Um arremate, diga-se, que nunca tem fim, verdadeiro trabalho de Sísifo sempre desfeito pelo banho seguinte, após o qual elas incansavelmente recomeçam. Nenhum Rafael ou Botticelli as supera na capacidade de produzir o belo.

São, em geral, “acadêmicas” (no exclusivo sentido que a palavra tem nas artes plásticas). Na estética feminina, fonte de todas as outras estéticas, todos os pontos cardeais da arte e da vida têm lugar garantido: vanguarda, retaguarda, altura, densidade, superfície e, last but not least, profundidade.

 

 

25/06/2007. Diálogos da sogra e da nora.

Nora: — Li, no jornal de ontem, que o governo Lula tem coragem de continuar negociando com empresas investigadas pela polícia federal. Não é muita desfaçatez dessa gente, sogrinha?

Sogra: — A mais nobre virtude da impunidade é melhorar a auto-confiança dos contraventores. Se o Povo é por eles, minha querida, quem será contra eles?

 

 

24/06/2007. Castigo duplo: as roupas de que a gente não gosta duram muito mais que as outras.

 

 

23/06/2007. Quando me aposentar do curso de letras — fazer o quê, ? —, vou ser privado das brilhantes redações dos alunos e me resignar — fazer o quê, ? — com essas tais obras-primas da literatura.

 

 

22/06/2007. Ela fala sozinha? Não simplifiquemos. Trata-se de vida interior, excesso de vida interior, que acaba vazando pela boca — ladrão da alma.

 

 

21/06/2007. Fim de tarde. Crepúsculo de sangue, cortado pelo risco branco e comprido do avião que ninguém vê. A coruja pousou no último andar da pequena árvore seca, e girou o pescoço desconfiado quando passei.

 

 

20/06/2007. Hamlet três-por-quatro

Quem é mais nociva:

A morte bem morta,

A vida mais viva?

 

 

19/06/2007. A palavra vanguarda vem do jargão militar e significa a parte dianteira de um exército, a linha de frente que, numa batalha, vai começar o estrago.

Daí deriva o sentido artístico da palavra. Quanto estrago não fizeram as tais vanguardas do primeiro Novecentos? A diferença é que aqui, em vez do inimigo ser a forma de arte vigente, como consta nos manifestos, era no fundo a arte como tal que queriam destruir, pois tinham uma visão estética equivocada, segundo a qual a história melhoraria a “indústria” artística.

Dois preconceitos modernos estão na base desse equívoco: o finalismo evolucionista transposto para a esfera da criação humana, e a ilimitada confiança no poder das tecnologias para o aperfeiçoamento daquilo que o homem faz.  Haveria uma tecnologia artística, e quanto maior o seu conhecimento, maior a possibilidade de melhorar a produção das obras (não foi à toa que a palavrinha entrou definitivamente no mundo das artes).

Cada qual com seu manifesto teórico em punho, o dodecafonismo quis acabar com a música, o cubismo com a pintura e o futurismo com a poesia. A pirotecnia da linha de frente foi espetacular, acompanhada de um barulho infernal. Os tiros saíram pela culatra: a música, a pintura e a poesia continuaram vivas, passeando sobre os cadáveres do dodecafonismo, do cubismo e do futurismo.

Vale como atestado de rendição o fato do velho Schoenberg, depois das experiências atonais e serialistas, dizer que ainda era possível criar muita música no desprezado dó maior...

 

 

18/06/2007. A melhor, a mais límpida, a mais profunda definição de vanguarda literária que já vi neste mundo veio de Ariano Suassuna, numa entrevista à televisão. Segundo o escritor, a verdadeira obra de vanguarda é aquela que consegue interessar a sucessivas gerações de leitores; e deu como exemplo Dom Quixote, de Cervantes.

É preciso mais?

 

 

17/06/2007. É legítima essa literatura de entretenimento, feita para o mercado, sem maiores compromissos com dona Condição Humana. Afinal, não é pecado divertir os outros e ganhar dinheiro. Deixemos esse pessoal à vontade.

Ao lado desse continente literário, ou, mais precisamente, abaixo, há uma pequena província das letras mais interessada no “belo” e no “verdadeiro”, que pode até fornecer produtos vendáveis aos distribuidores de livros, mas não tem o dinheiro como principal fonte de alimentação. A generosidade é sua marca moral; uma certa generosidade, seria melhor dizer, pois, diferente do ato moral concreto, que visa a um beneficiário imediato, a literatura está simplesmente , na dependência de uma casualidade pouco moral: escreve quem pode, abre o livro quem quer.

 

 

15/06/2007. Sarkozy, o presidente recém eleito da França que ousou falar mal de maio de 68, acaba de conseguir maioria no parlamento. É inteligente. Tudo está a favor do esperto Sarko, menos a esposa Cecília. É descendente de ciganos e judeus por parte do pai romeno, e bisneta do compositor Albéniz da parte da mãe espanhola. Herdou do bisavô o gosto da música, toca piano, mas desafinou o coro favorável ao marido e só continua com ele por conveniência (pulou a cerca, há dois anos, com um publicitário americano). Com um inimigo assim dentro de casa, de que adianta a amizade de toda a França?

 

 

14/06/2007. Em época multiculturalista, líder político ideal é o que se identifica com a massa. Mais que isso: é o que vem da dita cuja e mantém intactos os sinais de identificação. Estou falando do Lula, naturalmente, mas poderia ser do Chaves ou do Evo Morales.

Óia nóis lá no palácio! — diz o povão, olhando fraternalmente para a sede do governo.

E o presidente, pequena parte da hidra popular que, por alguns anos, se alojará na redoma do poder, enxerga a si mesmo na multidão que o cerca. São carne e unha, o mesmo trabalhando pela mesma coisa: é a representação política no sentido mais autêntico possível, segundo os fãs do neo-populismo latino-americano. O líder fará o que puder para botar em prática os nobres ideais da ralé: panem et Silvio Sanctus.

É a democracia funcionando como ditadura.

 

 

13/06/2007. O romance, quando é bom, e são bemconstruídos” os personagens, o leitor perspicaz não tem tempo a perder com probleminhas de construção, pois está todo absorvido no mundo bem fingido do enredo. Não merece carteira de habilitação para a viagem ficcional aquele que corta o barato da leitura com impertinentes considerações sobre a mecânica da obra.

 

 

12/06/2007. “Eu sou aquele que muda”, dizia Goethe, o sabido. Mudar é preciso: de lugar na mesa, na cama e no carro. Mudar de rua na próxima caminhada. Mudar de vinho e de queijo.  Mudar é preciso, sempre que o hábito fica bom demais. É o melhor exercício diário para aquelas mudanças compulsórias, que acontecem sem nosso sinal verde: do emprego à sarjeta, da saúde à doença e, finamente, da vida para a morte.

 

 

11/06/2007. Engraçadas essas montanhas:

Por fora, o cenário mais lindo;

Por dentro, nas duras entranhas,

O sono das pedras dormindo.

 

 

10/06/2007. Diálogos da sogra e da nora.

Nora: Como devem ficar as mães desses malandros da política, quando tudo é descoberto pelo Jornal Nacional? Morrem de vergonha, certamente.

Sogra: Nem sempre.

Nora (botando a chupeta na boca do bebê): Mãe também é gente, sogrinha.

Sogra: Amor de mãe tem vista curta e braços longos, meu bem. Ela é sempre a última a desconfiar do seu produto.

 

 

09/06/2007. Se a regra número um da leitura é a suspensão provisória da descrença, será também o da escrita de contos e romances.

 

 

08/06/2007. Cervantes se diverte fazendo com Quixote o que Quixote não gosta de fazer: dar ouvido aos outros.

 

 

07/06/2007. Não há tema mais adequado ao exercício da liberdade criadora do que o do duplo. Não sei com quem – Quixote ou Sancho – Cervantes tinha mais afinidades, mas os dois nos convencem tanto porque o autor decidiu, pelo menos durante a criação, concordar com ambos.

Cervantes, homem livre, podia testar o ponto de vista dos outros enquanto escrevia – sabia que as verdades provisórias de cada personagem apareciam quando o escritor suspendia provisoriamente suas próprias crenças.

 

 

06/06/2007. Sancho e Quixote são as duas faces do espanhol que os criou. Sem qualquer uma delas, o rosto de Cervantes estaria mutilado. Aqueles muitos diálogos entre cavaleiro e escudeiro são, na verdade, uma interminável conversa do escritor consigo mesmo, um monólogo dialético...

 

 

04/06/2007. Os romances de cavalaria, lidos pelo mau fazendeiro Quixote, já eram o que hoje chamamos de literatura fantástica, como sempre foi a maior parte da velha literatura, desde os mitos primitivos à Divina Comédia. Cervantes, ao zombar das façanhas sobrenaturais de Amadis de Gaula, não assassinou o gênero medieval, mas foi sem dúvida o criador do romance realista, conseqüência inevitável da cabeça moderna, para a qual a representação literária devia chegar bem perto do mundo natural.

O realismo, em vez de dar cabo do fantástico, que poderia até ser visto como uma dimensão da arte e da própria alma humana, apareceu como segunda alternativa, mais adequada talvez aos novos tempos. Aliás, as duas principais matrizes do romance moderno, Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, e Gargântua e Pantagruel, de Rabelais, representam essa dupla tendência, como puxadores de fila do realismo, no primeiro caso, e do fantástico reciclado pelo humor, no segundo caso.

De Cervantes para cá, é fácil reconhecer a supremacia quantitativa do realismo, pois a mentalidade pós-renascentista era e, sob muitos aspectos, ainda é por demais confiante na aproximação empírica da realidade, influenciada pela visão cientificista, apesar de não serem poucas, antes de Kafka, as obras significativas da outra tendência.

Kafka é considerado o marco do ressurgimento “sério” do fantástico, que se espalharia século XX afora e provocaria uma enxurrada de teorias e teóricos tentando botar ordem no caos dessa categoria literária, em geral professores de literatura enfeitiçados pelos gênios malignos da semiótica, que substituiriam, se deixássemos, a leitura prazerosa de contos e romances pela decodificação classificatória de sua aparência.

O homem da “metamorfose” teve contudo precedentes ilustres, fantásticos em todos os sentidos da palavra: Hamlet, Macbeth e A tempestade, para só citar três peças de Shakespeare; Viagens de Gulliver, de Swift; Fausto, de Goethe; os contos de Poe, Hawthorne e E. T. A. Hoffmann; Aurélia, de Gérard de Nerval; Dr. Jekill e Mr. Hyde, de R. L. Stevenson; A volta do parafuso, de Henry James, mestre do realismo psicológico. Outros autores tidos como realistas, como Balzac, Dickens, Thomas Hardy e Maupassant, também visitaram ocasionalmente o fantástico, sem esquecer o nosso Machado. Para um público menos exigente — que nunca se esqueceu do sobrenatural e do maravilhoso —, houve o romance gótico pré-romântico e, a partir de Jules Verne e W. G. Wells, a ficção científica, que, sem abandonar o livro, prefeririam depois o cinema e a história em quadrinhos.

Cervantes, escarnecendo do fantástico e abrindo a porteira para a grande tradição realista, incorpora-o no entanto através das alucinações do Quixote, num verdadeiro contraponto com o “mundo real” que o cerca. A respeito de Sancho, nem é possível classificar como realistas as suas falas, muitas vezes até filosóficas e bem arranjadas silogisticamente, saindo magicamente da boca de um lavrador com “muito pouco sal na moleira”.

 

 

03/06/2007. Para Sancho, porta-voz do cético Cervantes, Quixote era o homem absurdo: o que rolava a pedra de Sísifo até o alto da montanha e, depois que a pedra voltava ao ponto de partida, recomeçava a tarefa, como se nada tivesse ocorrido. Não entrava na sua cabeça aquela lógica de abandonar o sossego da fazenda para levar “palos y más palos, puñadas y más puñadas”, sem provar jamais “el gusto del vencimiento”. Pior: sem que aprendesse nada com os desastres aquele obstinado Cavaleiro da Triste Figura, apelido dado, aliás, pelo próprio escudeiro, no capítulo XIX, em seguida a uma peleja em que o magricela tinha ficado com alguns dentes a menos, depois da meia orelha já perdida anteriormente:

— “Le he estado mirando un rato a la luz de aquella hacha, y verdaderamente tiene vuestra merced la más mala figura de poco acá que jamás he visto.”

O cavaleiro gostou da pecha, pois os antigos cavaleiros eram conhecidos mundo afora por um apelido: Cavaleiro da Espada Ardente, Cavaleiro das Donzelas, Cavaleiro da Morte. Deduziu que seu biógrafo, aquele que uma dia contaria ao mundo suas façanhas, é quem teria inspirado o escudeiro aquela fórmula perfeita, imediatamente adotada:

— “Y para que mejor me cuadre tal nombre, determino de hacer pintar, cuando haya lugar, en mi escudo, una muy triste figura.”

Sancho disse-lhe:

— “No hay para qué gastar tiempo y dineros en hacer esa figura, sino lo que se ha de hacer es que vuestra merced descubra la suya y dé rostro a los que le miraren, que sin más ni más, y sin otra imagen ni escudo le llamarán ‘el de la Triste Figura’”.

 

 

02/06/2007. Diz o sábio Sancho ao teimoso Quixote, no começo do capítulo XVIII:

Lo que sería mejor y más acertado, según mi poco entendimiento, fuera el volvernos a nuestro lugar ahora que es tiempo de la siega y de entender en la hacienda, dejándonos de andar de ceca en meca y de zoca en colodra, como dicen.

Evidente que Dom Quixote não concordou: mandou-o calar a boca.

Que significa isso de “andar de ceca en meca y de zoca en colodra”? Entre as 5.554 notas que Diego Clemencín (1785-1834), o famoso comentador do Quixote, escreveu sobre o romance de Cervantes, há uma que explica o aforismo. No sossego de uma fazenda perto de Madrid, onde passou os últimos anos de vida explicando o Quixote e, de vez em quando, puxando a orelha da prosa cervantina, Clemencín escreveu o seguinte:

“Ceca es palabra arábiga que significa casa de moneda. Los moros Ias tuvieron en varias partes de Espana, y senaladamente en Córdoba y sus inmediaciones. Los cristianos de Ia Peninsula dieron, no se sabe por qué, este mismo nombre a Ia mezquita grande de Córdoba, que era uno de los lugares de más devoción para los mahometanos, los cuales Ia frecuentaban con sus romerias y peregrinaciones. Y como hacian lo mismo con Ia Meca, de esto, de Ia casual consonancia entre Ceca y Meca, y de lo distante que están entre si Meca y Córdoba, de todo eIlo, combinado confusamente, hubo de resultar en el uso común Ia expresión proverbial de “andar de Ceca en Meca” para denotar Ia vagancia de los que se andan de una parte a otra sin objeto preciso y determinado. De ceca era fácil el paso a zoca, y de zoca a colodra, siendo nombres ambos de instrumentos o utensilios pastoriles. Zoca o zoco es lo mismo que zueco, calzado de madera, como también lo es colodro. Según el Comendador Griego, citado por Covarrubias en su Tesoro de Ia lengua castellana, andar de zocos en colodros significa salir de un peligro y entrar en otro mayor, que es lo de Escila y Caribdis puesto en rústico. Actualmente se lIama colodra el vaso o vasija que forman los pastores de un cuerno de buey despuntado, y les suele servir para ordenar en el campo.”

Clemencín estava se referindo a Caribde, sorvedouro no estreito de Messina, cidade da Sicília; e a Escila, ou Cila,  nome de um rochedo que há em frente ao sorvedouro. O navio que escapava de um perigo podia cair no outro. Daí o ditado: ir de Cila a Caribde, mais ou menos como ir de Ceca a Meca.

Um dia, folheando um dicionário de italiano, encontrei uma máxima que também integra o mesmo time: “Cadere dalla padella alla brace”: escapar da frigideira e cair nas brasas, que também é ir do mesmo à mesma coisa.

Outra versão da idéia aparece numa das traduções para o português do romance de Cervantes, a de Almir de Andrade, em que há a seguinte solução para a segunda parte da sentença de Sancho. O intransponível “De zoca en colodra” virou, num passe de mágica tradutória, “ir de Herodes a Pilatos”.

 

 

01/06/2007. Há paixões mais acessíveis que outras. Vingar, odiar, invejar estão entre as mais fáceis: basta estalar os dedos, que elas vêm correndo como cães ou putas. A mais difícil é perdoar — daí a sedução que possui para quem gosta de desafiar-se e, obviamente, quase sempre perder.

Não confundir perdão com indulgência, que faz parte do ritual das boas maneiras e nada tem a ver com o coração do homem. Quantas vezes não perdoamos da boca pra fora, por conveniência, sem o devido sentimento na alma? É uma atitude mais civilizada do que moral.

Perdoar é um excelente exercício de transcendência, que pode não levar a Deus mas, seguramente, nos afasta do inferno.

 

 

 

 

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