NOTAS PARA UM DIÁRIO
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30/04/2007. As razões de Sancho:
— “Lo que sería mejor y más acertado, según mi poco entendimiento, fuera el
volvernos a nuestro lugar ahora que es tiempo de la siega y de entender en la
hacienda, dejándonos de andar de ceca en meca y de zoca en colodra, como
dicen”.
As razões de Dom
Quixote:
— “Qué mayor contento puede haber en el mundo, o qué gusto puede igualarse
al de vencer una batalla, y al de triunfar de su enemigo?
Ninguno sin duda alguna”.
29/04/2007. Domingo com vento e nuvens batataenses.
O quintal — e a rede esticada entre a aroeira e o cedro. A
vira-lata Catarina à direita, o pastor-alemão Tuga
à esquerda, sentados em total solidariedade ao dono.
Depois de conversa com
a filha médica, chego à conclusão de que o homem não passa de um vírus. Um
vírus diferente, mas vírus, parasitário e ambicioso.
Muitos são os vírus e
viroses do mundo, porém nenhum é mais espantoso que o vírus homem, poderia
dizer com Sófocles.
Um vírus que pensa
28/04/2007. Viajei trezentos e cinqüenta quilômetros para rever minha
biblioteca, que não consigo tirar da velha casa batataense
e trazer para onde hoje moro,
“Também lia os
escritos do sr. Paulo
Francis e nem sempre gostou; mas ‘gustibus non est disputandum’.
Carpeaux também sabia o que ‘os inimigos
dizem’ do sr. Paulo Francis,
mas nunca publicou.
Carpeaux também sabia que ‘homo homini lupus est’.
A nota era assinada
por dona Helena Carpeaux, viúva de Otto Maria Carpeaux. Foi alguns meses depois
da morte do ensaísta, em resposta a algumas provocações de Paulo Francis
27/04/2007. A pedagogia moral de Manzoni está
toda no que diz frei Cristóvão a Lourenço e Lúcia, no romance Os noivos, sobre como devem educar os
futuros filhos:
— “Viverão em um mundo
triste, e em tristes tempos, no meio de soberbos e provocadores. Ensinem a eles
que perdoem sempre, sempre! tudo, tudo!”
Na época da pedagogia
amoral de Nietzsche, cuja primeira lição é dar quinta marcha à Vontade; na
época do islamismo furibundo, da guerra santa, do homem-bomba, o cristianismo
vai acabar virando, outra vez, doutrina subversiva.
26/04/2007. Uma certa inquietação consigo e
com o mundo faz parte do jogo. Melhora o ritmo do poema da vida, quase sempre
de pés quebrados. Além da medida, é o caminho mais curto pro absurdo. Kafka condenou
Dom Quixote pela mania redencionista, e absolveu
Sancho Pança, que não se deixou embrulhar pelas miragens do Cavaleiro da Triste
Figura — só não conseguiu evitar o próprio salto no abismo do autodescontentamento. Queimou-se por excesso de voltagem.
25/04/2007. Saudade da crítica impressionista, quando o leitor ainda
não tinha prestar contas à Santa Inquisição do método. # Escrever “difícil”
sobre literatura só se justifica se o sujeito quiser fazer carreira acadêmica:
aí é preciso decorar o jargão e fingir um método. Afinal, quem entra para
clubes fechados deve obedecer às regras. Mas é bom repetir, sempre, que isso
nada tem a ver com literatura. # Já dizia nosso Mário Quintana: “Não me
perguntem qual é o assunto de um poema; um poema fala sempre de outra coisa.”
Esta é a resposta definitiva às quixotescas aventuras da crítica dita
científica. # Mais importante que a análise, na crítica, é a síntese.
24/04/2007. Passo pela roda das jovens mamães, sentadas sob a frondosa
acácia do condomínio. Toneladas de progesterona por metro quadrado! Fala-se de
tudo, em especial das últimas coisas que compraram: a troca do carro ou do
sofá, o mais recente modelo de tevê, um cosmético, um pacote aéreo para
Fortaleza. Falam quase ao mesmo tempo, a competição é
dura, “luta renhida”, como diria o poeta.
Saúde é poder.
23/04/2007. O tombo do palhaço
“— E
o palhaço, o que é?
— É
ladrão de mulher.”
O palhaço do circo
Não sabia de nada:
Bem melhor que roubar,
É tomar emprestada.
22/04/2007. O poeta, que já sofria de pleonasmo hiperbólico, foi
atacado subitamente por uma sinestesia aguda; e começou a ouvir as cores do
arco-íris, cheirar barulhos no sótão, enxergar os mais diversos sabores de
sorvetes. Então lhe aplicaram na veia uma injeção dupla de metáfora e ele virou
um lagarto teiú.
21/04/2007. No início dos anos sessenta, aprendi na escola primária que
o Tiradentes era uma espécie de Cristo nacional. Até fisicamente o aproximavam
do nazareno, na farta iconografia escolar: a longa barba, a corda no pescoço —
equivalente brasileiro da judaica coroa de espinhos —, enfim um santo homem que
morreu para livrar do jugo português a sufocada colônia e que, se vitorioso,
teria transformado o país na primeira “terra sem mal” do planeta.
Alguns anos depois,
podia até ser usado como símbolo na resistência contra a ditadura militar. Um
filme do período, Os inconfidentes (1972),
impossível de ver até o fim, ilustra-o bem. Parece que
o assunto já tinha inspirado um filme de 1948, da atriz e diretora Carmem
Santos, luso-brasileira, um pouco antes do soporífero Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles.
Não seria de espantar
se Tiradentes, com a cabeça feita pelo iluminismo francês, tivesse sido nosso
primeiro tirano, caso o golpe que liderou contra a rainha Dona Maria tivesse
dado certo. Era um sujeito muito esperto, com o gogó afiado, excelente na arte
de fazer prosélitos.
O herói da
independência de 1822, quando ninguém morreu e ninguém matou, foi um homem
relativamente tranqüilo, o intelectual José Bonifácio: e por isso não servia
para comemorações cívicas. Personagem de dramalhão operístico
— como Carlos Gomes deixou escapá-lo? —, Tiradentes só começaria a virar herói
nacional a partir da campanha republicana, em torno de 1870. E o patíbulo se
tornou pódio, do qual nunca mais o barbudo apeou.
20/04/2007. Dos diálogos da sogra
e da nora.
Sogra: Se tivesse
dinheiro sobrando e um pouco mais de tédio, freqüentaria um analista freudiano
só pra lhe contar sonhos inventados.
Nora: Esta noite
sonhei que a escada do prédio nunca terminava. Eu descia sem fim...
Sogra: Melhor que subir, querida.
Nora: Que horror,
sogrinha! Deus me livre desse sonho.
Sogra: Não vejo por
quê. É só sentar no degrau quando cansar. E depois continua. Uma hora o sonho
acaba.
Nora: Nunca vi sonhar
tanto como eu! Nos sonhos, sempre tenho a sensação de eu ser mais real que na
própria realidade.
Sogra: É mais provável
que o problema esteja na realidade, não nos sonhos.
Nora: Não posso mudar
sozinha a realidade.
Sogra: Nem sozinha,
nem de outro jeito. Mas pode aprender com os sonhos e virar contista. Os
melhores contistas foram os que aprenderam com os sonhos. Como quase não sonho, ou pelo menos não me lembro deles, gosto de
inventá-los. Até li a Interpretação dos
sonhos, do Freud, pra enriquecer minha técnica. É um manual perfeito pra
quem gosta de inventar sonhos. E os invento sempre que
a cabeça pode funcionar em paz: esperando a vez no dentista, na fila do Banco
ou do açougue, vendo tevê, fazendo tricô. Já tenho um estoque considerável
deles. Foi por isso que pensei num analista.
19/04/2007. Comprei três filmes de Jacques Tati
com Monsieur Hulot — Monsieur Hulot vai à praia, Meu tio e Tempo de diversão — e já estava mais que satisfeito, até resignado
a não ver tão cedo o último filme com aquele personagem — Monsieur Hulot no trânsito louco, que
ainda não saiu em dvd —, quando uma colega me disse:
— Ali na esquina, por
quinze reais, abaixam da internet o filme que você quiser. Todos os filmes, os
bons e os ruins, estão na internet.
Vou dizer que não
gostei da idéia? Mas a solução, no final das contas, acaba virando problema: se
tudo está à nossa disposição, é óbvio que não vamos ter tempo para tudo
assistir, tudo ouvir, tudo ler.
Em primeiro lugar, é
preciso botar rédea curta na ansiedade, essa aparente vontade de absoluto que
no fundo é só medo de perder o possível. Kierkegaard
disse que somos alunos do possível. Não é mais justo dizer
que somos servos? Depois, é saber agendar o que vale mesmo a pena
assistir, escutar ou ler.
Quando tudo é
possível, nada é real.
18/04/2007. A solidão fuma o dia inteiro. Moro no terceiro e ela no
primeiro andar, mas a fumaça sobe com raiva, uma raiva surda que entra no meu
escritório como se soprada diretamente pela janela.
Me
sinto ameaçado
pela desfaçatez, mas desisto de ligar para o síndico ou a polícia, quando
lembro que é a solidão quem está fumando. Conheço bem a solidão. E a raiva na
verdade é só a minha raiva, na condição de receptor compulsório daquele bafejo
de chaminé.
Na verdade, a fumaça é
neutra como uma unha ou um olhar de manequim. Nem de longe deixa
entrever a melancolia ou o tédio que acendeu o primeiro cigarro, e depois todos
os outros, velhas locatárias daquela solidão que só aprendeu a baforar para
espantar o desespero; e que, no fundo, tudo daria para desaparecer junto com o
cigarro e a fumaça.
17/04/2007. — Olha o marteliiiiii...nhô!
Era o pregão do
vendedor de quebra-queixo. O martelinho era a ferramenta dele
partir o doce mais duro do mundo. De tanto gritar e quebrar, o nome do
homem passou a ser Martelinho: seu Martelinho.
Seu Martelinho morava
numa casa humilde, na vila Maria, em frente à chácara da tia Albina, irmã
caçula de meu avô. Nem pintada era a casa, só tinha o reboco. Quando fiquei
sabendo, porém, que era a casa de seu Martelinho, a tapera virou subitamente
uma vivenda mágica, um castelo encantado.
O homem que dava tanta
felicidade à nossa rua não podia ser menos que um castelão,
um fidalgo medieval. E sempre que podia, voltava à chácara da tia só para
chegar perto e ficar espiando aquele lugar sagrado, fonte do nosso prazer de
cada dia e das nossas primeiras cáries.
16/04/2007. Para Freud, felicidade é suspensão da dor. No que é
contestado pelo seu conterrâneo Konrad Lorenz —
médico que virou zoólogo para melhor praticar a psicologia e a filosofia. Lorenz disse que homem feliz é o que atinge seu objetivo,
geralmente com sacrifício. E dá o exemplo do alpinista que chega ao topo da
montanha todo ferido e alquebrado — mas feliz.
Não perdoa nossa
civilização farmacológica, que tem um remédio para cada dor. Garante que a
ausência de sofrimento é o mais rápido caminho para o tédio, essa “tepidez
mortal”.
15/04/2007. Juscelino fez pelo automóvel, em cinco anos, o que outros —
menos cruéis — fariam em cinqüenta.
14/04/2007. Hoje, minha cidade é só uma fotografia na parede. Mas como
desbota!
13/04/2007. Piracaia era violeiro dos
antigos. Compunha modas de viola, de preferência engraçadas. Com mais de
oitenta anos, ainda pedalava bicicleta.
— Sempre fui um
sujeito muito nervoso — me disse quando o conheci, no início dos anos noventa.
— É por isso que Deus me deu a Carma.
Carma era dona Carmem, mulher do Piracaia.
12/04/2007. Começo de casamento. Sogra e nora, que já não se bicavam,
sabiam que era chegado o tempo das hostilidades mais ostensivas. Quanto antes começassem, melhor para cada front. Como
sempre, usavam de escudo o minúsculo bebê:
— Fala pra vovó, fala.
Fala que o papai tá demorando muito pra arranjar
pedreiro. Logo o quarto do bebê vai ficar insuportável com aquele cheiro de
mofo.
Era óbvio que o bebê
ainda não falava, mas a sogra também respondia através do
netinho, tricotando um vistoso cachecol para o filho:
— Fala pra mamãe,
fala. Fala que o papai anda muito ocupado no serviço.
— Fala pra vovó, fala
— voltava a nora. — Fala que pra tudo se acha um
tempinho.
A sogra quieta.
— Fala pra vovó, fala.
Fala que o papai fica mais tempo na firma que na casa da mamãe.
A sogra em silêncio —
fingindo de morta.
— Fala pra vovó, fala.
Fala que já não agüento mais o papai!
Mas a sogra estava bem
viva:
— Fala pra mamãe,
fala. Fala que ela pega muito no pé do papai. E que as portas da casa da vovó
estarão sempre abertas pra ele.
11/04/2007. Quando penso que a cidade, em volta da
minha casa, progride no crime, na droga, na pobreza, recebendo mil e quinhentos
migrantes nordestinos por ano à procura das usinas de álcool (e com eles voltam
doenças já expulsas da região há muito tempo), penso logo em seguida que posso
abrir o portão do meu quintal, quando lá passo férias e feriados, e dar de cara
com a bela mata dos padres claretianos.
A mata tem no meio uma
fonte. As árvores são altas e belas, exatamente o contrário dos miseráveis nordestinos
atraídos pelos açougues de Batatais.
Havia um bom pedaço de
campo, no fundo de casa, e fazia divisa com a mata dos padres. Murei a parte
que consegui comprar — setecentos metros — e enchi de árvores, na contramão da
valorização imobiliária. Nunca pensei que, numa titica de terra, coubessem
tantas. Hoje elas estão altas e devidamente empassaradas.
Minha pequena ilha, perdida no mar dos canaviais, dá para o oriente — o que
significa: para onde o Sol nasce, para onde nasce a Lua, coisas mais eternas
que a necessidade brasileira de alimentar a barriga dos automóveis.
10/04/2007. Criança não tem hipocrisia. Minha netinha de dois anos
estava gripada e não quis falar comigo no telefone. Tentei todos os truques de
aproximação verbal; e nada. Por fim desisti e disse tchau. Aí ela respondeu, enfática:
— Tchau, vovô!
09/04/2007. Dos diálogos da sogra
e da nora.
Nora (abrindo a porta de vidro da sacada):
Chuva boa é quando fecha o tempo, cai a água e logo
volta o céu azul.
Sogra (bordando no sofá): É um bom exemplo pro
amor que, geralmente, desgraçadamente, prefere a longa invernada do casamento.
08/04/2007. Dom Quixote não admite que no mundo haja trigo e joio, e
quer eliminar o segundo. Esta é a sua loucura. Melhor dizendo: a nossa loucura.
07/04/2007. Há cinqüenta e um anos, a luz do Sol começou a iluminar o
mundo para mim. De graça, sem boleto mensal.
06/04/2007. Não há ambição maior que a do filósofo, ao querer explicar
os tais fundamentos do ser. O filósofo não aceita o silêncio de Deus e quer
reconstituir, passo a passo, o trabalho da Criação. Age como detetive: a partir
de indícios, suposições, presumíveis evidências. Ambição de algum modo parecida
com a do próprio Deus, o criador daqueles fundamentos.
05/04/2007. Dos diálogos da sogra
e da nora.
Nora (embalando o bebê): A idéia de Deus é a
mais perfeita de todas. Nenhum ser é tão completo. Uma Coisa tão completa tem
de incluir obrigatoriamente o atributo da existência.
Sogra (soltando a fumaça do cigarro na janela):
Acho que a idéia mais perfeita é a impossível de ser pensada: o Nada.
04/04/2007. Dos diálogos da sogra
e da nora.
Sogra (varrendo a sala
e cantando com a melodia do “Terezinha de Jesus”, num macarrônico ítalo-árabe-português): “Zi este
rua voze minha/ Io ladrilhaba gom zabóm/ Zó bra
vê zerto bizinha/ Gair di bunda
no chóm”.
Nora: Que horror,
sogrinha! Será a vizinha que estou pensando?
Sogra: Nunca penso na
vizinhança universal, mas em vizinhas bem particulares. O inferno são os vizinhos.
Nora: Ou certos
vizinhos?
Sogra: Tá bem, vá lá. “Certos vizinhos”.
03/04/2007. No filme Playtime (1967),
de Jacques Tati, o grandão
e mesureiro Hulot está mais velho, mas ainda se veste como no filme anterior, Meu tio (1957): calça de pular brejo
mostrando as meias listradas; o chapéu meio amarrotado; o cachimbo; o
sobretudo. Lembraria um detetive, não fossem as passadas largas e desajeitadas.
E tem algo de quixotesco, não só na figura esguia e distraída, mas na
permanente boa vontade com o próximo, que nem sempre retribui.
Veio a Paris para um
negócio qualquer e, no moderno prédio em que entrou, acabou não sendo atendido
pelo funcionário encarregado do assunto, com quem se encontra e desencontra
algumas vezes.
No começo da noite,
andando por uma rua qualquer da irreconhecível Paris — cujas velhas imagens só
aparecem de relance, refletidas nos vidros da nova arquitetura —, é reconhecido
por um ex-colega de exército, que o leva para conhecer casa e família. Aliás,
já estão quase em frente à casa: um conjunto de apartamentos,
térreo e andar superior, cujas salas dão para a calçada e tem paredes de vidro;
bem decoradas, são como vitrines de lojas. A própria mulher do ex-colega
comporta-se como manequim: gestos impessoais, comedidos. O tempo todo, pessoas
que passam na calçada cortam a cena do apartamento.
Evidentemente, Hulot não ia se sentir à vontade ali. Agüenta-se como pode.
Enfim, um escorregão no chão liso e a queda de bunda
o fazem despedir-se quase correndo de vergonha. Distribui
grandes mesuras a todos e é levado até o hall. Despede-se do ex-colega.
Este volta ao apartamento e, sozinho na sala-vitrine, começa distraidamente a
desvestir o paletó, a gravata, os suspensórios, indiferente às pessoas que
passam na calçada.
Pode ser que o fim das
fronteiras entre privado e público seja coisa de hoje, mas a oscilação da linha
divisória entre o real e o ficcional é coisa de sempre. Como não me lembrar
todo dia do filme do Tati, se moro num apartamento em
que pelo menos a sala é uma vitrine típica, com a vítrea porta de correr do
mesmo tamanho da parede? Os blocos de apartamentos defronte ao meu
freqüentemente me deixam diante dessas vitrines domésticas. Se alguns
moradores, mais ciosos da privacidade, pouco ou quase nunca abrem a cortina, há os que fazem questão de deixar o livro sempre
aberto, de modo que a cena referida do Playtime migrou
definitivamente do filme para a realidade onde vivo.
A ficção está dentro
de mim — e eu dentro da ficção. Dom Quixote ainda é a obra mais moderna do ocidente.
02/04/2007. Dos diálogos da sogra
e da nora.
Nora: Como vai estar o
mundo, na minha próxima reencarnação? De vez em quando me pergunto.
Sogra: Provavelmente,
ainda não terá vencido a validade do verso de Jorge Manrique:
“Qualquer tempo passado foi melhor”.
01/04/2007. Hoje, de manhã cedo, fiz o que não fazia há muito tempo: um
giro mais esticado pela internet. Li alguns jornais, entrei em páginas pessoais
de três ou quatro brasileiros que ainda vale a pena ler, pesquisei duas ou três
coisas no google. Quando dei acordo de mim, a manhã
do domingo já tinha ido pro beleléu.
Computador desligado, desmoronei na poltrona de leitura e respirei fundo.
Comecei um balanço sincero de tudo aquilo que tinha lido nas últimas horas. As
notícias, essencialmente, eram as mesmas de sempre. Os três
ou quatro brasileiros que ainda vale a pena ler diziam o mesmo de quando
os li da última vez: continuavam mergulhados até o pescoço na “hora presente”.
Sempre interessantes e inteligentes, mas era possível viver sem sua
interessante pregação ou inteligente zombaria.
Tanta informação
disponível, comparada com minha limitadíssima capacidade de assimilação, só tem
uma virtude concreta: alimentar a ansiedade. Tenho sincera saudade da época em
que, para encontrar uma resposta qualquer, era preciso muitas vezes sair de
casa, mandar vir um livro de São Paulo — que demorava mais de uma semana para
chegar —, ou simplesmente me contentar provisoriamente com o silêncio. E a
gente continua vivo sem aquela “resposta qualquer”.
Vivo. Silenciosa e sossegadamente vivo.