
Sobreviver no semi-árido nordestino já é uma tarefa para heróis. Mas muitos bonconselhenses e outros sertanejos queriam mais, queriam uma vida digna.
Embora as elites brasileiras tenham tentado transformar Canudos em uma história de fanáticos e ignorantes, sabemos que o principal significado daquele movimento está na insatisfação do povo sertanejo com uma situação de vida miserável para a qual as elites davam insistentemente as costas.
Não obstante fossem as práticas de Antonio Conselheiro voltada para os céus, sua mensagem era de irresignação à vida sofrida do povo nordestino. A cidade de Belo Monte foi, até seu sangrento massacre, um sinal de contestação a um sistema político e econômico que aviltava ainda mais a já dura vida nas caatingas.
A história de Canudos e de Bom Conselho estão inexoravelmente ligadas. Foi em Bom Conselho que, num dia de feira, Antonio Conselheiro reuniu o povo para queimar os editais municipais que aumentavam os impostos e expulsar da cidade os prepostos das elites que ali estavam para dominar e controlar o povo. Euclides da Cunha assim narrou esses acontencimento:
"Em dilatado raio em torno de Canudos, talavam-se fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-se cidades ! No Bom Conselho, uma horda atrevida, depois de se apossar da Vila, pô-la em estado de sítio, dispersou as autoridades, a começar pelo juiz da comarca e, como entreato hilariante na razia escandalosa, torturou o escrivão dos casamentos que se viu em palpos de aranhas para impedir que os crentes sarcásticos lhe abrissem, tosquiando-o, uma coroa larga, que lhe justificasse o invadir as atribuições sagradas do vigário."
Outro fato que liga nossa cidade a Canudos é a presença de um bonconselhense entre as principaís lideranças conselheristas.Trata-se de Norberto das Baixas, que possuia uma fazenda em Bom Conselho, mas seguiu Antonio Conselheiro e se estabeleceu em Belo Monte.
N'Os Sertões há ainda uma outra referência a um bonconselhense entre os conselheristas, trata-se de uma liderança feita prisioneira:
"Viu-se, pela primeira vez, um jagunço bem nutrido e destacando-se do tipo uniforme dos sertanejos. Chamava-se Bernabé José de Carvalho e era um chefe de segunda linha. Tinha o tipo flamengo, lembrando talvez, o que não é exagerada conjetura, a ascendência de holandeses que tão largos anos por aqueles territórios do Norte trataram com o indígena. Brilhavam-lhe, varonis, os olhos azuis e grandes; o cabelo alourado revestia-lhe, basto, a cabeça chata e enérgica. Apresentou logo como credencial o mostrar-se duma linhagem superior. Não era um matuto largado. Era casado com uma sobrinha do capitão Pedro Celeste, de Bom Conselho. . ."
Além dessas lideranças conselheiristas cujos registros ficaram na história, com certeza dezenas de bonconselhenses estavam entre os milhares de heróis anônimos que resistiram até o último homem:
"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram."