

Uma história e um poema de Minas para o Mundo: |
A vida de Januário mais parece um poema sobre tela, com versos que passeiam desde os tons mais suaves aos estertores da cor. Sebastião Januário nasceu em Dores de Guanhães, pequeno vilarejo do interior de Minas. Lá misturou-se às milhares variações dos verdes, aos segredos dos riachos, do céu azul e do fogão de lenha. Menino fazenda, sem pai, sem mãe, criado pelo avô. Na roça conheceu todo o tipo de trabalho com a terra e os primeiros sinais de que a vida não seria tarefa fácil. O "menino Tião", como era conhecido, gostava de viver solto nos campos e trancado em si, como se tivesse com a natureza uma relação tão íntima que nenhum outro personagem poderia participar. Solitário, sempre solitário, o "menino Tião"...
A tranquilidade e a pureza dos campos não duraria para sempre. Um dia, no meio da crise, herdeiros invadiriam a fazenda, arrebentando as porteiras e expulsando todos dali. Januário tinha sarampo e 6 anos quando foi para a cidade. No grupo escolar, teve o primeiro contato com a arte, incentivado pela diretora da escola, que, encantada com seus desenhos, convidou-o para ilustrar os jornais do grupo escolar. O sonho de ser alguém na vida era tão forte como as cores que hoje pinta. Trabalhou duro nas quitandas, vendeu vacas, fez de tudo um pouco por algum trocado. Foi coroinha na igreja, auxiliando aos domingos o Padre também Domingos. Ali teve a oportunidade de aprender latim com sua catequista e se impregnar da religiosidade mineira.
Mas o sonho de ser alguém crescia mais e mais, como crescia também o sonho de ver o "mar". E assim aventurou-se a sair de Minas. Na época, residia então em Salto Grande, pequena cidade mineira, e, graças à ajuda de uma família daquela região, conseguiu vir para o Rio de Janeiro. Veio com eles, na boléia do caminhão, tomando conta da mudança e muito sol na cabeça. Tinha 16 anos e muitos sonhos. Morou com esta família no Rio de Janeiro, prestando-lhe alguns serviços. Era uma boa gente, que, ajudou Januário a ter seu primeiro professor de artes: Aloisio Carvão. Nunca abandonara seus desenhos, nem seus desejos. Ao ver o mar, encantou-se, inundou-se, inspirou-se. As areias não eram feitas de "sal de cozinha", como imaginava. E todas essas impressões seriam retratadas por meio de aquarelas ou bico-de-pena, na época.
Aos 18 anos tratou de escolher um caminho para a independência, e achou este caminho na Aeronáutica. Acreditava que poderia ganhar muito dinheiro, servindo sendo sargento. E foi exatamente aí, por menos ligação que Forças Armadas tenha com a Arte, que Januário pode ter seu talento desenvolvido e reconhecido. Trabalhou 4 anos como voluntário, para não ter que voltar para a roça e para a miséria. Encontrou apoio e reconhecimento de oficiais de todas as patentes, como por exemplo: dos sargentos desenhistas, que o deixavam mexer com as tintas e explorar a seção de desenhos técnicos; do tenente Lima Passos, da Esquadrilha da Fumaça, que lhe encomendou um Pierrot, e de tantos outros. Foi convidado para, juntamente com dois oficiais desenhistas, desenhar os novos aviões. O maior apoio, no entanto, veio do então coronel Délio Jardim de Mattos, que mais tarde seria Ministro da Aeronáutica. Delio praticamente o adotou como filho e como artista, apoiado por sua senhora, D. Ruth, que muito incentivou seu trabalho. Seu talento foi reconhecido a distância pelo ilustre casal do Rio de Janeiro.
Saindo da Aeronáutica, foi trabalhar e morar na casa da filha de Delio Jardim de Mattos, D. Estela que, casada com o decorador Mauro Salgado Brandão, muito ajudou a divulgar e lançar os quadros de Januário na sociedade carioca. Januário começava a crescer fazer seu nome. Era impossível permanecer indiferente à força de seus traços, suas cores, sua fibrilação policromática. Aventurou-se aí, com o apoio do casal, às primeiras exposições, como a Exposição de Pintores Novos, promovida pela Petit Galerie. A primeira grande venda foi feita, nos anos 60, a Gilberto Chateaubriand, que, reconhecendo a força de sua obra, pagou bom preço por uma tela.
O caminho seguinte seria Paris. Nos anos que passou em Paris, quando o seu protetor Delio Jardim de Matos era adido naquela cidade, pôde amadurecer sua arte, inteirando-se de técnicas mais apuradas e das grandes obras e pintores internacionais. Lá estudou e se aperfeiçoou, tendo sua primeira mostra internacional em uma "acrossage" na Galerie des Arts. Também nesta época, teve contato com Di Cavalcanti, Antonio Bandeira, entre outros, e seu trabalho fora elogiado por eles.
Voltando de Paris, envidou seus esforços divulgar sua obra, no Brasil e no exterior, sempre aperfeiçoando seus estudos, em contato com vários mestres e com a melhor essência das artes plásticas. Januário é um eterno laboratório. Conheceu, juntamente com outros artistas, as agruras da Ditadura militar dos anos 60, o que dificultou sua sobrevivência, tendo sido , inclusive, preso junto com outros integrantes de movimentos artísticos e intelectuais. Mas isto viria a servir de matéria-prima para a inspiração de uma nova e frutífera fase.
Por ter vivido tão intensamente, e acompanhado sempre de uma fé inabalável, pôde imprimir ao seu processo criativo uma marca muito forte, muito criativa, muito "brasil", muito definida. Um modo Januario de ser. Os anos se passaram e Januário continua mantendo as cores vivas, a despeito das dificuldades, a despeito de algumas lágrimas Brasil e de seus olhos de pintor. Januário haverá sempre de imprimir vida às suas telas. Seus trabalhos são expostos eventualmente, principalmente porque toda arte e todo artista tem que ir aonde o povo está. E ele continua indo.
O Estilo - Um jeito "brasil" de pintar: |
O estilo de Januário dificilmente caberia em algum "ismo" da história e dos críticos de arte. Não seria exato classificá-lo como "naïf", embora alguns o façam. Ficaria incompleto e inapropriado. É figurativo, policromático, com marca e traços fortes, impregnado das cálidas influências dos trópicos. Mais exato não classificá-lo e sentir a força de sua expressão.
Fica mais fácil analisar a obra de Januário com os olhos da alma. Seus quadros, variando pelas mais diferentes fases, não são apenas composições decorativas a enfeitar ou alegrar uma parede. Os temas e fases contém elementos de sensualidade, mistura de raças, a força da flora e da fauna brasileira representada em contundentes traços. Gente, terra e cores. Cafezais e cacaus costumam enfeitar o fundo de algumas telas, com traços bem definidos. Há ainda os pássaros estilizados e coloridos, a traduzir todo o pictórico cenário dos trópicos brasileiros.
A fase dos santos estilizados, talvez a mais impregnante de sua carreira, deixa clara a influência mineira e a criatividade em cima do paradigma da "fé". As figuras religiosas de Januário têm marca registrada, não só pela beleza plástica mas pela força da expressão.
O contraste mais marcante desses trabalhos, no entanto, se faz pelo binômio: "alegria de cores" x "olhares patéticos". Se observarmos bem, o mistério e a marca registrada da pintura de Januário está no olhar de seus personagens, em contraste à festa de cores e formas tropicais. Nenhum outro artista esboçaria este olhar sobre tela. Geralmente são olhares melancólicos, contemplativos, doridos, profundos. E sobre olhar, podemos comprovar a sua importância dentro deste poema antigo que Januário escreveu, impressionado com os olhos de um amigo.
No mais, seu trabalho parece fugir mesmo de qualquer classificação, assim como o próprio artista. O improviso é sua maior característica. Ao pegar um pincel, nunca sabe o que vai acontecer. Januário costuma se dizer "possuído" por alguma entidade, ao pintar. Possuído ou não, o resultado é uma grande bênção e uma explosão de talento. Um talento muito brasileiro, que se assina Januário, que a identidade atesta Sebastião Januário, e que eu chamo de Sebastião Januário do Brasil.
Texto de Marcia Cardoso
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Credenciais:Discípulo de Oswaldo Teixeira, no antigo Instituto de Belas Artes - IBA, de Eduardo Sued e do Professor Ivan Serpa no MAM do Rio de Janeiro.
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