Capítulo

Oito

 

 

 

 

 

 

 

Daniel fazia um grande esforço para concentrar-se na aula, manter-se discreto. Adriana estava bem ali, à sua frente, e, apesar de parecer bem, ele queria ter certeza.  Há mais de duas semanas tentava conversar com ela, saber como estava, mas ela saía mais cedo da faculdade. Por que estaria fugindo dele?

O sinal bateu e Daniel chamou Adriana para fora da sala.

  Precisamos conversar, Dri. E ainda hoje.

  Hoje não posso. – Ela alegou.

  Por que está fugindo de mim?

Ela alteou uma sobrancelha.

  Quem disse que estou fugindo de você?

  Se não está, por que não fica para que possamos conversar?

  Porque não posso.

  E por que não pode?

Ela simplesmente não queria envolver o primo na confusão que se tornara sua vida, mas não havia como falar isso para ele.

  Ora, porque não posso! Simplesmente não posso.

Apesar de ser extremamente discreto e calmo, Daniel ficara tão frustrado que ignorou uma turma de alunos que estava no corredor e agarrou-a pelo braço, puxando-a de volta, quando ela tentou se afastar.

  Eu preciso muito saber o que está acontecendo, Dri. Não consigo nem mais dormir direito pensando em você.

Ela olhou ao redor, completamente constrangida.

  Dani, por favor, largue meu braço. Não vê que tá todo mundo olhando?

  Desculpe – murmurou ele, largando-a no mesmo instante. – Eu tenho de ir agora. Já estou atrasado em quase cinco minutos. Mas vou aguardá-la no final da última aula.

  Já falei que não posso fi...

  Mas que droga, Dri! Eu preciso conversar com você!

Ela jamais vira o primo tão irritado, e se revelou surpresa.

  O que deu em você, Dani?!

  Eu já lhe disse, preciso conversar com você. Por favor, fique.

 

Mesmo contrariada, ela ficou. Esperou que todos os alunos saíssem e fez um sinal para ele entrar.

  Talvez seja melhor conversarmos aqui dentro – disse, quando Daniel se aproximou.

  Por quê?

Ela nada respondeu. Ele se acomodou numa carteira, de maneira a ficar frente a frente com ela, e foi logo perguntando:

  Por que andou faltando às aulas? Aconteceu alguma coisa?

  Estive doente.

  Não foi isso que eu soube...

Ela franziu levemente as sobrancelhas.

  E o que soube?

  Alguns alunos me disseram que você estava machucada.

Envergonhada, Adriana baixou os olhos e ficou em silêncio por alguns instantes. O que Daniel e as outras pessoas pensariam dela se soubessem que apanhara do marido?

  Eu... eu caí da escada e machuquei a boca. Foi isso.

Ele a pegou pelo queixo e levantou seu rosto delicadamente.

  Por que não me diz o que realmente aconteceu? Esqueceu que sou seu amigo?

  Não, eu não esqueci.

  Então por que não me conta o que está acontecendo? Por que não me conta a verdade?

A voz de Daniel era tão suave que Adriana sentiu vontade de abrir seu coração, por isso ela pegou sua bolsa e levantou-se depressa.

  Desculpe, eu preciso ir embora.

Daniel levantou-se também.

  Então me responde pelos menos a uma outra pergunta: Você é feliz com seu marido?

Ela já estava quase na porta, entretanto parou e olhou para trás.

  Por que está me perguntando isso novamente?

  Porque você ainda não respondeu.

  Claro que respondi.

  Não. Você não respondeu.

Ela tentou manter-se controlada, mas não conseguiu evitar que sua voz se tornasse um pouco esganiçada.

  Droga, Dani, por que insisti tanto em saber da minha vida? O que isso lhe interessa?

  Eu me preocupo com você... Olha, Dri, eu sei que está com problemas, e eu não quero lhe trazer mais problemas do que já tem, porém precisamos conversar seriamente.

  Quem lhe disse que estou com problemas?

  Eu sei que está... Posso sentir isso. – Ele respondeu, enquanto se aproximava vagarosamente dela. – Escute, amanhã eu tenho apenas as duas primeiras aulas. Poderíamos nos encontrar no horário do intervalo. Aí, nós iríamos a um lugar tranqüilo e teríamos pelo menos uma hora para conversarmos.

  Eu não posso.

  Por que não?

Adriana ficou calada por longos segundos. Depois, respirou fundo e desabafou:

  Se quer mesmo saber, minha vida está confusa demais. Mas eu não quero envolver ninguém nisso.

  Já estou envolvido.

Ela meneou a cabeça.

  Não, não está. E nem eu quero que se envolva.

  Não creio que você possa me impedir – tornou ele, taxativo.

Adriana fitou-o com surpresa por um momento, depois balançou a cabeça para cima e para baixo e foi ainda mais taxativa do que ele.

  Posso sim. Não quero que se meta em minha vida, Dani. Não quero que ninguém se meta na droga da minha vida! Posso cuidar dos meus próprios problemas.

Daniel ficara magoado, profundamente magoado. Adriana podia perceber pela expressão em seus olhos. Ela levou a mão ao rosto dele e acariciou-o levemente.

  Desculpe, não tinha a intenção de magoá-lo. Entendo que esteja preocupado comigo, mas eu... não posso envolver você.

Ele pegou a mão que ela passava por seu rosto e beijou.

  Já estou envolvido. Quantas vezes vou ter que repetir isso?

Adriana ainda tentou controlar as emoções, mas, dessa vez, fora impossível.

  Oh, Deus, eu... eu não queria isso. Não queria envolver ninguém...

Daniel puxou-a para si num movimento gentil e abraçou-a.

  Por favor, deixe-me ajudá-la.

  Eu...

  Vou aguardá-la no estacionamento, Dri. Por favor, não se atrase. As horas passam voando e temos pouco tempo.

Ela não respondeu.

  Não se atrase, tá legal? – pediu ele de novo.

Ela se afastou lentamente, e por fim concordou:

  Está certo. Até amanhã.

  Até amanhã.

 

Adriana sempre chegava a sua casa por volta de onze e meia, onze e quarenta, mas já era meia-noite em ponto quando ela atravessou o portão.

  Aconteceu alguma coisa? – perguntou Roberto, assim que ela entrou.

Ela pensara no que ia dizer durante todo o caminho.

  Não. Eu estava apenas terminando de fazer um trabalho.

Embora ela tenha parecido convincente, obviamente, Roberto não acreditou. Mesmo assim, ele controlou a mordacidade das palavras e disse:

  Poderia ter ligado. Fiquei preocupado.

  Eu não sabia que ia demorar tanto. De qualquer forma, desculpe. Prometo que da próxima vez eu ligo para avisar.

  É o que espero – disse ele, enquanto se dirigiam para o quarto. Em seguida, sentou-se à cabeceira da cama, estendeu as pernas e ficou observando-a se despir.

Ela conhecia muito bem aquele olhar, por isso pegou uma toalha e foi terminar de se despir no banheiro. Rezou para que ele estivesse dormindo quando terminasse de tomar seu banho, mas, quando voltou ao quarto, Roberto continuava na mesma posição e com aquele mesmo olhar.

  Não vai jantar?

  Estou sem fome – respondeu Adriana, antes de seguir para o quarto da filha.

A menina parecia dormir profundamente, abraçada à sua velha boneca de pano, mas abriu os olhinhos assim que Adriana se aproximou.

  Mãezinha...

  Oh, meu amorzinho, eu acordei você? Por favor, volte a dormir. Mamãe só veio lhe dar um beijinho.

Letícia sorriu sonolenta, depois revirou os olhos e mergulhou outra vez no sono. Com toda delicadeza, Adriana ajeitou as cobertas por cima e cobriu-a cuidadosamente. Não poderia nem imaginar a hipótese de perder sua filha. Ela era tudo o que tinha. Era seu mundo, seu tesouro, sua vida.

  Eu te amo muito, minha bonequinha – murmurou, enquanto afagava-lhe carinhosamente os cabelos. – Você é tudo para mim. Tudo. E eu nunca vou deixar ninguém tirar você de mim. Juro por Deus que não.

Letícia murmurou algo quando Adriana beijou seu rosto. Ela fechou a porta com o maior cuidado e em seguida retornou ao seu quarto. Tudo o que precisava era de uma boa noite de sono, mas Roberto não parecia disposto a dormir.

  Querida, estou com saudade – disse, quando ela se deitou. – Há mais de uma semana não transamos.

  Estou cansada, Beto. Tive um dia muito corrido hoje.

  Por isso acho que a mulher não deve traba...

  Não comece tudo de novo – interrompeu Adriana rapidamente. – Já conversamos bastante sobre isso.

Ele abraçou-a por trás e apertou-a contra seu corpo quente.

  Está bem, querida. Não vamos mais falar sobre isso. Há coisa melhor a fazer...

Ela tentou livrar-se dos braços dele, esquivando-se para frente.

  Pare com isso, Beto. Já lhe disse que estou cansada.

  Porra! – esbravejou ele. – O que está acontecendo com você? Acha que um homem pode ficar tanto tempo assim sem sexo? Acha que sou feito de aço?

Adriana nem se deu ao trabalho de responder. Até porque sabia que se dissesse alguma coisa seria pior, muito pior. E tudo o que ela simplesmente desejava era que ele parasse de se esfregar contra seu corpo, que parasse de cutucá-la, que a deixasse em paz.

  Não vai me dizer nada? – Ele insistiu.

Ela bocejou alto. Estava morta de sono, de cansaço.

  Deixe-me dormir. Preciso descansar.

Roberto voltou a apertá-la.

  Querida, preciso de você. Veja meu estado.

Adriana não precisar ver, podia senti-lo mais duro que uma pedra.

  Vamos dormir, por favor. Amanhã preciso acordar mais cedo para fazer um trabalho da faculdade.

  Outro? – indagou ele, furioso.

Ela realmente tinha um trabalho a fazer.

  Sim.

Roberto atenuou a pressão por um instante. Mas, de repente, virou-a abruptamente e se estendeu por cima.

  Quero você. Agora!

  Pare com isso! – Ela quisera empurrá-lo, detê-lo, mas a pressão de um homem sedento por prazer desdenhava a força de qualquer mulher. – Você me prometeu que ia mudar.

  Não lembro de ter lhe prometido que ia deixar de ser homem.

  Isso não é ser homem, é ser covarde – disse ela com olhar de desprezo, mas havia pânico por trás. – Não pode me tomar à força toda vez que desejar. Não vê que sempre me machuca, quando faz isso?

  Então por que me rejeita? – perguntou Roberto, após conseguir arrancar-lhe a calcinha.

  Porque por mais incrível que possa parecer a você, sou um ser humano com desejos e vontades próprias – respondeu ela, ao mesmo tempo em que se debatia. – Não sou uma máquina de fazer sexo!

  Você é minha esposa.

  Exatamente. Sou sua esposa, não seu objeto.

Ele imobilizou a mãos de Adriana para cima da cabeça.

  Não vê que tudo seria muito mais fácil se simplesmente me aceitasse quando preciso?

Ela continuou se debatendo.

  Pare com isso, pelo amor de Deus. – Adriana implorava agora, já que sua força não era suficiente. – Vai me machucar novamente. Pare!

Dessa vez, ele parou. Embora resfolegasse de raiva.






[Continua no próximo capítulo...]



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