Capítulo

Doze

 

 

 

 

 

 

 

Ela pensou nele o dia inteiro, em tudo o que havia acontecido. Quase não conseguiu trabalhar direito. Por isso resolveu, após muita hesitação, ligar para ele, no final da tarde. Mas não havia ninguém em casa e a voz fria do celular pedia para deixar recado.

Ela não queria deixar recado, queria conversar com ele, tentar se explicar; assim, no horário do intervalo, arrumou rapidamente suas coisas e saiu correndo. Quase tropeçou na escada e já estava com o coração disparado quando chegou ao estacionamento. E não lhe ocorreu, até chegar ali, que era possível que ele já tivesse ido embora, afinal ela havia dito que não iria àquele encontro. Mas ele estava lá. Ele estava lá!

  Dani...

Ele olhou para trás e não pôde evitar um fluxo de alegria ao vê-la correndo ao seu encontro. Havia se demorado ali, mesmo enquanto se xingava de idiota por manter a esperança que ela viesse procurá-lo, mas de repente fora exatamente isso o que aconteceu. Deus o ouvira.

  Dani... – Adriana estava quase sem ar quando chegou perto dele. – Precisamos conversar.

  Não aqui.

  Claro – disse ela, depois de colocar a mão no peito e recuperar o fôlego. – Mas onde?

  Não planejei nada. Você disse...

  Eu sei. Não precisa me lembrar.

  Pode ser no meu apartamento?

Ela hesitou um pouco.

  Não sei... Por que em seu apartamento?

  Ficaríamos mais à vontade para conversar.

 

Embora tenha concordado com Daniel que no apartamento dele ficariam mais à vontade para conversar, Adriana não conseguiu evitar um certo constrangimento ao entrar. Ficou tensa, sentindo um calor espalhar-se pelas faces. Tentou disfarçar.

  Por que decidiu morar sozinho? – perguntou, ao se sentar no sofá e correr os olhos pelo apartamento bem decorado e confortável. – Sempre foi tão apegado a seus pais.

  Um dia todo filho tem de sair da barra da calça dos pais, não é? – Daniel sorriu despretensioso. – Além disso, depois que me separei da Célia, achei que deveria ter o meu próprio cantinho.

  E foi você que decorou?

  Sim. Por quê? Você gostou?

Já que ele perguntou, ela voltou a avaliar o local. Era tudo impecavelmente organizado. Tão organizado que chegava a ser austero. Talvez por isso mesmo precisasse de uma certa desarrumaçãozinha na escrivaninha, umas almofadas bem coloridas jogadas pelo sofá para quebrar o excesso de branco das paredes e dos móveis e alguns vasos de flores, para dar mais jovialidade e vida.

  É um belo apartamento. Talvez falte apenas um sutil toque feminino para se tornar ainda mais... ahn... alegre.

Ele sorriu ao ouvir isso.

  Concordo plenamente. Por isso, espero logo, logo resolver esse pequeno problema.

Adriana não achou que a indireta fosse para ela, mesmo assim sentiu-se embaraçada.

  E seus pais não se opuseram? O que acharam?

Daniel fez um gesto evasivo. Depois, tranqüilamente tirou o paletó, arregaçou as mangas da camisa e sentou-se em um dos braços do sofá.

  Papai não se incomodou, porém a mamãe... – disse, em meio ao um sorrisinho. – Bem, você a conhece, sabe como ela sempre fora apegada a mim. Ela não aceita isso até hoje. Sempre que vou lá, pede para eu voltar. Ainda mais agora que o papai saiu de casa.

  Não sabia que seus pais estavam separados. O que houve?

  É uma história muito complicada e comprida. Um dia lhe conto tudo. Deseja beber alguma coisa?

  Tem Scotch?

Ele pareceu levemente surpreso.

  Scotch?!

  Acho que estou precisando de algo forte para beber – respondeu ela, e começou a estalar os dedos.

  Tem certeza?

  Não. Mas vou querer assim mesmo.

Ele deu de ombros e riu.

  Está certo.

Ela continuou estalando os dedos, enquanto ouvia o som da bebida caindo no copo.

  Então agora me conte – pediu Daniel, ao entregar-lhe o copo e sentar-se outra vez em um dos braços do sofá –, o que realmente pretende fazer?

  Eu?... – Ela baixou os olhos. Sabia o que Daniel queria que dissesse, no entanto não sabia por onde começar. Tomou um gole demorado, e mais outro, e mais outro, tentando ganhar tempo. – Está quente aqui...

  O ar refrigerado está ligado, mas se quiser eu...

  Não – e gesticulou com a mão livre. – Não há necessidade.

Daniel ficou observando em silêncio enquanto Adriana tomava o restante da bebida em seu copo de uma só golada. Podia perceber que ela estava receosa, só não entendia o porquê.

  O que está acontecendo com você, Dri? Por que está agindo assim?

O efeito do álcool foi quase imediato, amenizou a tensão e a deixou mais aliviada e descontraída.

  Assim?! Assim como? – perguntou, com um sorriso tolo que demonstrou que já estava alterada.

  Por que está tentando fugir do assunto?

  Não estou fugindo – objetou. – Só não entendi o que quer saber.

Um pouco irritado, Daniel pegou o copo vazio da mão de Adriana.

  Entendeu, sim.

Ela se levantou e tomou o copo de volta.

  Preciso de outra dose.

  Cuidado para não exagerar.

  Você não vai tomar nada?

  Não. Preciso levá-la de volta à faculdade e não quero correr risco desnecessário.

Adriana foi até o bar, encheu o copo e tornou a sentar-se. Daniel continuou tentando entender o que se passava com ela.

  O que queria mesmo saber? – Ela perguntou.

  Se esqueceu o que acabei de lhe perguntar, é melhor parar de beber isso.

Ela bebeu mais um pouquinho e sorriu.

  Está pensando que eu estou bêbada?

  Não. Mas se continuar nesse ritmo...

  O que foi? Por que está me olhando com essa cara? Ah, já sei, está com medo que eu vomite em seu tapete persa, não é?

Ele não pôde deixar de sorrir.

  Engraçadinha.

O sorriso de Daniel sempre fora algo que fascinara Adriana. Era sempre tão despretensioso e encantador que chegava a ser quase infantil.

  Afinal, você vai me dizer o que pretende fazer, ou não? – insistiu ele.

Adriana parecia confusa, enquanto tomava seu drinque em silêncio. Mas a verdade era que ela estava com o coração a mil como se fosse uma adolescente apaixonada. Era assim, exatamente assim que sentia quando chegava perto de Daniel.

  Sinto saudades... – disse, de repente.

  Saudades do quê?

  Da nossa infância, do tempo em que... – e parou de falar, enquanto, pela milésima vez, dizia a si mesma que não era mais uma adolescente. – Ah, já faz tanto tempo. Por que estou lembrando disso agora?

  De qualquer forma, não estamos aqui para falar do passado, mas sim do presente, do futuro.

  É... eu sei – respondeu. Depois, voltou a tomar o seu drinque em silêncio.

Aborrecido, Daniel tomou-lhe novamente o copo e levantou-se. Tava na cara que ela não queria falar, ou estava confusa demais para falar, então era melhor ele preparar um café bem forte e depois levá-la de volta para a faculdade, pensou.

  Tudo bem, Adriana. Já notei que...

Mas súbita e surpreendentemente, ela se levantou e se jogou em seus braços.

  Não quero decepcioná-lo, Dani. Nunca, nunca.

O copo caiu da mão de Daniel e se espatifou no tapete. Aturdido, ele afastou-a um pouco para fitá-la. Aquela de fato não era a mesma Adriana que ele conhecia desde criança. E ele não sabia como lidar com aquela mulher volátil e confusa na qual ela se tornara. Apesar disso, ela ainda era a mulher por quem seu coração se apaixonara perdidamente.

  Confesso que às vezes você me deixa sem saber o que fazer, o que pensar...

  Desculpe. Não era minha intenção deixá-lo assim.

Ele sabia disso, por isso a puxou de volta para seus braços e fitou-a profundamente. Havia tantas coisas para falar, tantas, mas, de repente, sua cabeça ficou praticamente vazia. A mulher à sua frente parecia ser a única coisa na qual sua mente desejava se ocupar.  

  Dri...

Ela sentiu o coração perder o compasso ao ouvi-lo sussurrar seu nome, e, sem querer, sussurrou o nome dele também.

  Dani...

E fechou os olhos, ao mesmo tempo em que os lábios se entreabriam. Mas no instante em que as bocas se encontraram e o beijo aconteceu, ela compreendeu que havia tomado uma dose a mais do que deveria. E embora tivesse plena consciência de que não estava bêbada, algo lhe dizia que se não saísse logo dali, não conseguiria mais controlar aquela situação, não conseguiria mais controlar a si mesma. Tentou se desvencilhar, todavia Daniel continuava a segurá-la com uma firmeza surpreendente, enquanto tornava o beijo ainda mais intenso.

  Oh, Deus! – Ela estava com o coração na boca e as pernas tremendo quando conseguiu afastar o rosto, romper o beijo. – Não faça isso, Dani!

  Não faça isso, o quê?

  Ah, meu Deus. Eu... eu não deveria ter vindo para cá.

  Por quê?

  Porque não. – Ela não conseguia parar de tremer nos braços de Daniel. – Agora, deixe-me ir, Dani. Por favor.  

  Não há porque fugir, Dri. Não somos mais dois adolescentes assustados com as próprias emoções.

Mas ela estava assustada. Muito assustada.

  Isso tudo não está certo, Dani. Sabemos disso.

  Não há nada de errado no meu amor por você – murmurou ele, enquanto deslizava os lábios suavemente pelo rosto dela. – Também não há como evitar.

Deus, dai-me forças, pediu Adriana.

  Sabíamos... Desde o início, nós sabíamos que isso poderia acontecer.

  Não aconteceu nada além de um beijo, Dri. – A voz de Daniel era suave e doce, enquanto os olhos eram tão verdes e intensos quanto a floresta.

  Falo sério, Dani. Muito sério. Sabemos muito bem o que pode acontecer.

  Não costumo me arrepender do que faço.

Adriana fazia pressão para soltar-se dos braços de Daniel, mas os braços dele continuavam envolvendo-a como se fossem feitos de aço.

  A minha vida já está bastante complicada, Dani. Não quero envolver outras pessoas nisso... Não quero envolver você nisso.

  Já estou envolvido. E quanto a isso você nada pode fazer. A decisão é exclusivamente minha.

  Por favor, Dani, deixe-me ir. – Ela estava implorando agora. – Deixe-me ir, por favor.

Daniel abafou seu pedido com um beijo ainda mais profundo, e ela percebeu, não sem pesar, que era tarde demais. O sangue corria rápido e quente por suas veias e explodia em sua cabeça como um vulcão em erupção, deixando-a atordoada.

Apesar disso, ela continuou fazendo pressão para soltar-se. Mas Daniel continuou a segurá-la firme pela nuca e beijá-la com intensidade, até perceber que ela perdera por completo o sentimento de negação... até que ela cedeu.

E com a habilidade de um homem que sabe o que quer e como conquistar, Daniel tirou os grampos dos cabelos de Adriana e deslizou as mãos por seu corpo, massageando provocantemente tudo o que podia encontrar. Então, a blusa, a saia e o sutiã escorreram para o chão.

Deus, um homem seria capaz de se perder por completo nessas curvas, pensou ele, enquanto admirava também os ângulos perfeitos do rosto de Adriana. Ela sempre fora uma garota muito bonita, mas indubitavelmente o amadurecimento lhe tornara ainda mais atraente.

  Você sabe que isso tudo é uma loucura, Dani. – Ela conseguiu dizer, quando ele roçou os lábios por seu pescoço e depois por sua orelha. – Uma completa loucura.

  Tem razão – sussurrou ele em seu ouvido. – Deve ser mesmo loucura amar alguém do jeito que eu sempre te amei e ainda te amo. Mas não há mais como controlar isso. E eu quero você, Dri, inteiramente para mim.

Ela também não tinha como controlar aquele sentimento que ressurgiu com tanta força em seu coração, por isso se encorajou a abrir os botões da camisa de Daniel e deixar exposto o peito atlético, adquirido em anos de dedicação à natação. Depois abriu o zíper da calça dele e deliciou-se com o contato agora mais íntimo, apesar do temor que ainda persistia em seu peito.

  Tenho medo... Não devíamos...

  Medo do quê, meu amor?... Você não imagina como eu esperei por este dia. Não imagina o quanto eu te amo.

E quando a pegou no colo e estendeu-a na cama de seu quarto, Daniel pensou: Finalmente, Dri, você está em meus braços.

Mas controlando o ímpeto de mergulhar urgentemente dentro dela, e para prolongar aquele momento até o máximo que pudesse, Daniel ordenou a si mesmo para ir devagar, enquanto terminava de despi-la. Depois, saboreou calmamente aqueles lábios cheios e rubros e correu as mãos pelo corpo de Adriana, explorando cada centímetro do corpo dela com a sutileza do toque dos seus dedos.

  Vou lhe mostrar o que é fazer amor de verdade, Dri. O que é ser acariciada por alguém que genuinamente a ama... que sempre a amou.

Uma voz continuava reverberando no ouvido de Adriana que aquilo tudo era uma completa loucura. Mas era impossível resistir aos apelos daquela paixão, aos carinhos de Daniel.

  Então mostre – pediu, surpreendendo a si mesma com o pedido. – E faça como sempre desejou fazer... como eu sempre desejei que fizesse.

O coração de Daniel estremeceu nesse momento, ele jamais esperava ouvir aquelas palavras.

  Sim, eu mostro.

Ela se ajustou por baixo de Daniel e se preparou para a penetração. Mas descobriu que Daniel não tinha qualquer pressa em penetrá-la. Ele queria mais, muito mais... queria experimentar tudo, provar centímetro por centímetro da mulher em seus braços. Nesse instante Adriana também descobriu que não estava totalmente preparada para as maravilhosas sensações que Daniel fê-la sentir ao descer a boca pelo seu corpo e saborear o centro do seu ser como se fosse um sorvete gostoso. Por isso ela se agarrou aos lençóis da cama e batalhou por um pouco de equilíbrio, enquanto ouvia o próprio gemido e sentia o quarto girar e girar. Oh, Deus...

E quanto mais ela gemia, mais Daniel acariciava, beijava e explorava...  E isso era quase enlouquecedor. Ele fazia com que ela se sentisse incendiando... lenta e deliciosamente.

  Dani... – Ela teve de agarrá-lo pelos cabelos quando a ansiedade invadiu-a e o calor em seu corpo se tornara tão insuportável que ela não podia mais esperar para obtê-lo dentro dela. – Você está me deixando louca...

Com um sorriso de felicidade, Daniel murmurou:

  Calma. Esperei muito tempo para tê-la em meus braços.

Ela olhou-o aturdida, enquanto ele mergulhava novamente a boca na sua. Jamais sentira tanto prazer antes mesmo da penetração. Na verdade, Adriana nunca sentira tanto prazer antes. Ela tinha muito pouca experiência sexual, pois seu único relacionamento fora com Roberto, com o qual perdera a virgindade e se casara. E como ele nunca fora um homem muito carinhoso, ela nunca havia experimentado uma sensação tão gostosa, tão intensa e prazerosa.

E ele continuou a beijá-la por toda a parte, fazendo-a se contorcer de necessidade, a gemer como em nenhum outro momento gemera.

  Dani... – Ela tornou a agarrá-lo pelo cabelo. Mal podia respirar agora. A febre do desejo aumentara tanto que não havia mais como esperar. – Por favor, me tome agora.

Ele sorriu novamente antes segurá-la pelos quadris e deslizar para dentro dela. E nesse momento ambos tiveram a impressão que o mundo passara a girar em outro ritmo.

  Oh, Dani...

O grito de Adriana ecoou pelo quarto quando uma forte onda de orgasmo atravessou de um para o outro. Mas ela continuou gritando o nome de Daniel e pedindo por mais mesmo depois que atingiram o clímax pela segunda vez, porque continuava ansiando.

E houve mais, até que Daniel verteu dentro dela até a última grama do seu amor e o corpo dela relaxou sob o seu.

  Oh, Deus, como eu amo você, Dri.






[Continua no próximo capítulo...]



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