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Capítulo
Um Segunda-feira, 03 de Fevereiro de 2003 – 06:00 horas Adriana ainda tinha o rosto
riscado pelas lágrimas quando retornou aos seus aposentos e começou a vestir-se,
a arrumar-se. Mas ao entrar no quarto da filha,
de apenas cinco anos de idade, um pouco de sua amargura se dissolveu. Sua pequena Letícia dormia profunda e tranqüilamente, de
lado, a face direita no travesseiro e o dedinho polegar na boca. Adriana se
ajoelhou ao lado da cama e passou a mão por seus cabelos: − Bom-dia, minha querida. − Bom-dia, mamãe. − Como dormiu esta noite? − Dormi bem – respondeu Letícia, depois de bocejar
sonora e longamente. − Excelente – disse Adriana, beijando-a no
rosto. – Agora vamos deixar essa preguiça de lado e levantar. Antes de finalmente criar coragem para pôr-se de pé,
Letícia bocejou pela segunda vez.. − Vou deixar o uniforme da escola em cima da sua cama e em
seguida vou descer para preparar o café, enquanto você toma banho – continuou
Adriana, quando terminou de despir a garota. – Depois, subo novamente para
ajudá-la a se arrumar. Combinado? Totalmente desperta agora, Letícia não pôde deixar de notar
uma mancha na lateral esquerda do rosto de Adriana, apesar de todo cuidado que
ela tivera para encobrir a equimose com maquiagem. Mas a menina nada comentou. Afinal, além de aquela não ser
a primeira vez que notava equimoses espalhadas pelo rosto ou pelo corpo da mãe,
Letícia era esperta o suficiente para intuir que aquele assunto não lhe era
permitido. − Combinado. – Ela respondeu. − Então já para o banheiro – ordenou Adriana. Mas a menina não saiu do lugar. – O
que foi, querida? Algum problema? A menina de repente
abraçou-a com toda a força que tinha. − O que foi, querida? – tornou a perguntar Adriana. − Nada, mamãe. Preocupada, Adriana afastou um pouco a filha para fitá-la. Como
a menina mostrou um sorriso, seu coração se acalmou. Adriana não sabia que mesmo
sendo apenas uma criança Letícia já era capaz de dissimular seus sentimentos. − Então vá logo tomar o seu banho, meu anjo. E não esqueça de
lavar bem os cabelinhos. − Pode deixar, mamãe! – tornou Letícia, antes de correr
pelada para o banheiro. Adriana sorriu levemente. Sua filha era uma criança
maravilhosa, e significava tudo em sua vida. Tanto que ela se perguntava o
que seria de sua vida se não fosse pela menina. E pensar que eu
não queria ter filhos!, lembrou. Letícia nascera de uma gravidez não premeditada, de um
descuido com a pílula, pois Adriana nem cogitava a hipótese de ter filhos no
início de sua vida conjugal. Quando deu à luz àquela linda menina, porém,
compreendeu que na verdade tinha recebido um presente divino para preencher sua
vida, seu casamento. Um casamento que desde o início estava fadado ao fracasso,
e que ela mantinha apenas por causa da filha. De fato, Adriana nunca arriscaria a felicidade e conforto
da pequena Letícia, por isso suportava o ciúme exacerbado do marido, por isso
suportava a própria infelicidade, há mais de cinco anos. Após ajeitar as roupas da garota sobre a cama, desceu
apressada a escada para preparar o café-da-manhã, mas, quando chegou à cozinha,
defrontou-se com o marido todo engravatado, ao pé do fogão, terminando de coar
o café. − Bom-dia, Beto. − Bom-dia – tornou ele, ríspido. − Levantou cedo hoje. − Levantei no horário de sempre. Você é que acordou atrasada. Adriana não expressou qualquer comentário, enquanto
ajeitava a mesa. Ele continuou: − Então, é hoje que começam suas aulas na faculdade? − Sim – respondeu ela, concisa. − E a Letícia? Ela esperou que ele se aconchegasse à mesa, depois serviu o
café e sentou-se na cadeira ao lado: − O que tem ela? − Com quem ela vai ficar? Adriana suspirou. Os dois já haviam conversado sobre
aquilo. − Já conversamos sobre isso ontem à noite. − Não lembro de termos chegado a uma conclusão. − Se tivesse parado para me ouvir... − Você sabe que eu não posso ficar com ela. Tenho a academia. Mantendo-se calma, Adriana passou manteiga nas torradas,
antes de dizer: − Não se preocupe. Eu já disse à empregada que toda segunda e
quarta-feira ela terá de ficar até você chegar da musculação... − Vou fazer também judô as terças e quintas. Tentando a todo custo evitar uma nova discussão, ela não
respondeu de imediato, apenas tornou a levantar-se e observou-o. Obviamente,
como não havia conseguido persuadi-la de maneira alguma a desistir da idéia de
voltar a estudar, Roberto estava dando sua última cartada, concluiu Adriana com
perplexidade. Estava agora colocando enormes dificuldades para ficar com a
própria filha, e esquecendo de suas obrigações de pai. − E quando resolveu fazer judô? Durante a madrugada? Porque
ontem você não me falou nada sobre isso... − Já estava pensando nisso há algum tempo – alegou Roberto,
nervoso. Ele não conseguia compreender por que a esposa ansiava em trabalhar e
estudar, pois, para ele, toda mulher casada deveria dedicar-se apenas ao lar,
ao marido e aos filhos, a não ser que o homem não tivesse condições de
sustento, o que evidentemente não era o seu caso. E embora Adriana já tivesse explicado mais de um milhão de
vezes que a mulher deveria trabalhar e estudar não apenas por necessidade
financeira e sim por prazer e realização pessoal, Roberto não se convencia. Mas ele terá de se
convencer, pensou ela, irritada. Não deixarei de estudar para atender a um
simples capricho dele. De jeito nenhum!
Esperei cinco anos para voltar a estudar e não vou desistir agora. − A Letícia também é sua filha, Beto. Você tem obrigação
de... – Adriana parou de falar quando percebeu que Letícia estava ali, parada
em frente à porta da cozinha. Ela não queria que a menina presenciasse mais uma
discussão. − Eu não tenho obrigação nenhuma – retrucou ele, cada vez
mais nervoso, e sem se dar de conta da presença da filha. – Você é a mãe, e a
mãe tem obrigação de zelar pelos filhos. Aliás, você deveria saber disso melhor
do que ninguém, não é mesmo? Adriana estremeceu. A ironia de Roberto feriu mais do que uma apunhalada à faca. Mas talvez ele não imaginasse como fora dolorido para ela saber, aos quatorze anos de idade, que sua mãe legítima fora uma prostituta e que a deixara, assim que nasceu, na porta da casa do pai. E que sua amada mãe, ou aquela que ela pensou que fosse, não era verdadeiramente sua mãe. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, todavia as
lembranças obscuras do dia da morte de Filomena, sua mãe por vocação, povoaram
sua mente e arrastaram-na para o passado. E de repente ela voltou a ter os
fatídicos quatorze anos de idade e encontrava-se sentada na cama, em seu
quarto, chorando baixinho, com o pai ao seu lado. − Pai, a mamãe vai mesmo morrer? José Carlos procurava controlar-se para não cair em prantos
na frente da filha, embora isso fosse quase impossível, naquele momento. − Eu gostaria de dizer-lhe que não, minha filha... Gostaria
muito... − Mas, papai, a mamãe já teve recaídas muito fortes antes e
resistiu. Ele levantou e virou de costas, porque não conseguia mais
reprimir as lágrimas. − Eu sei, filha, eu sei. Mas, dessa vez, só um milagre
poderia salvá-la. − Milagres acontecem, pai – tornou a jovem Adriana. – A mamãe
garantiu isso. Depois de tantos anos de luta com a doença
da esposa, José Carlos não conseguia acreditar em mais nada. Apesar disso,
antes de abrir a porta do quarto e sair, pediu à filha: − Então reze, querida. Quem sabe Deus escute suas preces. E foi exatamente o que Adriana fez durante aquela tarde inteira.
Filomena havia ensinado que os milagres só aconteciam se a pessoa pedisse a
Deus com muita fé. Por isso Adriana rezou e rezou, com toda a fé que tinha. E esperou pelo milagre. Mas, quando foi ao quarto dos pais, às seis horas da noite,
com o coração cheio de esperanças, encontrou-os chorando, numa despedida
angustiante. Ela parou diante da porta, em respeito, e pensou em voltar
mais tarde. Porém aquela estranha despedida incitou-a a ficar ali, ouvindo o
que não deveria. − Me perdoe, minha amada – suplicou José Carlos. – Me perdoe
por não ter contado antes... − Eu já lhe perdoei há muito tempo, Carlos – disse Filomena,
num esforço quase sobrenatural para falar. – A verdade é que eu sempre soube, embora
muitas vezes tenha me recusado a acreditar. − Quero que você saiba, minha querida, que foi apenas uma
noite. Eu... Filomena colocou um dedo trêmulo sobre a boca dele. − Eu já lhe perdoei, Carlos, independentemente do que
aconteceu. A Adriana nos trouxe muita alegria. Ela foi a filha que eu nunca pude lhe dar. – As lágrimas
rolaram pela face muito magra de Filomena e ela parecia lutar para respirar. –
Que eu nunca pude me dar. E eu a amei
como minha filha. Como nossa filha. Lentamente, o mundo começou a se abrir aos pés de Adriana,
por isso ela correu. Correu para não cair no buraco que queria devorá-la.
Correu porque sua respiração tornara-se de repente tão sufocante que seu pulmão
até queimava. Aquilo não podia ser verdade. Filomena era sua mãe. Era sua mãe! − Não! Não! Não! – gritou, antes de desaparecer corredor a
fora. − Filha?! – Aflita,
Filomena agarrou a mão do marido e passou a sacudi-la. – Ela ouviu, querido.
Ela ouviu tudo. Oh, Deus! Ela não podia ter ouvido! Não podia! − Ela nunca vai me perdoar – balbuciou José Carlos, também
aflito, e sem saber o que fazer. − Corra atrás dela, querido. – Havia urgência na voz fraca de
Filomena. – Não posso morrer sem dizer a ela o quanto a amo, o quanto nós a
amamos. Quero que ela entenda que não omitimos isso por mal. Desesperado, José Carlos desatou a correr, mas somente depois
de procurar por todo o imenso sobrado é que a encontrou no jardim, sentada no
gramado úmido atrás de uma árvore e chorando incessantemente. − Por que não me contaram? – perguntou ela, assim que percebeu
a presença do pai. – Eu tinha todo o direito de saber. Ele sentou-se ao lado e tentou abraçá-la, mas Adriana
afastou-se. − Eu nunca tive coragem, filha. E somente agora contei a Filó
tudo o que aconteceu. Por favor, me perdoe. − Eu pensei que ela era a minha mãe! Por que me enganaram?
Por quê? − Mas ela é sua mãe, querida. Afinal, foi ela quem lhe criou
e lhe deu amor. − Ainda assim – murmurou Adriana –, eu tinha o direito de
saber. − Oh, filha, você é ainda muito nova para entender... − E quem é, pai? – Ela precisava muito saber. – Quem é a
minha mãe de verdade? − De verdade? É a Filomena, pois foi ela quem... − Pai! Por mais dolorido que aquilo fosse para todos, Adriana
tinha todo o direito de conhecer a própria história, reconheceu José Carlos. − Está certo, filha, chegou a hora da verdade. O que quer
saber? Ela passou as mãos pelas faces para remover
as lágrimas. Havia tantas perguntas. − Quero saber quem é minha mãe de sangue, onde ela mora, o
que faz... Mesmo estando com sua fé extremamente abalada, José Carlos
ergueu os olhos para o céu e buscou nele alguma ajuda. − Foi apenas uma noite... – começou, lenta e hesitantemente;
as palavras doendo em sua garganta – Ela era uma linda prostituta e a Filomena
estava doente... − Uma prostituta?! – Adriana empalideceu. − Sim, filha. Sua mãe Luísa, esse foi o nome que ela me deu,
trabalhava numa boate muito chique próximo ao centro de São Paulo e eu... – ele
parou, sufocado pelas lágrimas que passaram a cair – eu fui com uns amigos do
trabalho para àquela boate, para aliviar a solidão... A Filomena estava mais
uma vez internada e eu me sentia muito só... − Pai, você traiu a mamãe, quer dizer, a Filomena, quando ela
estava internada?! Eu... eu não posso acreditar nisso! − Por favor, querida, compreenda – pediu ele. – Eu não fui à
boate com essa intenção. Simplesmente aconteceu. A Luísa era linda e eu havia
bebido muito naquela noite. − E não usou nenhum preservativo, pai? A pergunta pegou José Carlos de surpresa. Desde quando sua
filha sabia dessas coisas? − Não – respondeu com toda sinceridade, ao recuperar-se do
susto. – Eu não usei. Estava bêbado demais para pensar nas conseqüências. − Mas e ela? – Adriana estava inconformada. – Ela também não
se preveniu? − Acho que ela também estava bêbada. Agora, mais do que inconformação, Adriana sentia raiva. − Você e ela estavam embriagados?! – e a raiva cresceu em seu
peito como um balão, quando o pai balançou a cabeça em afirmação. – Então eu
fui fruto de uma noitada de dois bêbados?! − Você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida –
corrigiu José Carlos. – Eu sempre desejei ter filhos, mas a Filó... ela... ela
nunca pôde realizar esse desejo por causa dessa doença maldita, essa tal de
lúpus*. Ah, Cristo, aquilo estava doendo demais! Mas ela ainda
tinha perguntas a fazer. Muitas perguntas. − E como o senhor ficou sabendo de mim, se não teve mais
nenhum envolvimento com essa prostituta? − Era natal e você foi deixada no portão, dentro de um cesto.
Tinha apenas alguns dias de vida... – Ele lembrou com exata nitidez daquele
dia. – O segurança viu, pela câmera escondida no portão, quando uma mulher se
aproximou e deixou o cesto. Ele pensou que fosse alguma brincadeira de uma
vizinha, contudo, quando se aproximou, ouviu um chorinho e percebeu que havia
um bebê embrulhado em uma manta. Ela tornou a enxugar as lágrimas. − Então eu não nasci no dia 25 de dezembro como consta em meu
registro de nascimento?! − Não. Deve ter sido entre os dias 15 a 20. Porém, por
considerar que você fora um verdadeiro presente de natal, a Filó fez questão de
registrá-la como nascida no dia 25. − E quando descobriu que eu era sua filha? Cada pergunta era como uma flechada no peito
de José Carlos. − Havia um pequeno recado sob a manta que lhe cobria... − E o que dizia? − Pouca coisa. Apenas que você era minha filha e que ela, a
Luísa, não poderia ficar com você devido à vida que levava... Até hoje não faço
a mínima idéia de como ela conseguiu meu endereço. Ela procurava se controlar, mas, de repente, uma dúvida
ainda mais cruel que uma jibóia apertou seu coração. − Pai, se minha mãe era uma prostituta eu poderia ser filha
de qualquer um... Então... como tem certeza que sou mesmo sua filha? − Apesar do imenso amor que adquiri a você desde a primeira
vez que a segurei em meus braços, não posso negar que tive dúvidas a respeito
disso – confessou José Carlos, após um momento de hesitação. – Por isso, há
pouco mais de quatro anos atrás, eu e você fizemos o teste de DNA. − Pensei que fosse só um exame de rotina, como o senhor
alegou à mamãe. − Eu tinha que ter certeza, minha filha – balbuciou José
Carlos, quase rangendo os dentes de raiva de si mesmo. – Embora já tivesse a certeza
em meu coração. Ainda que tudo aquilo parecesse um verdadeiro
pesadelo, Adriana suspirou aliviada. Ela era fascinada pelo pai. − E a família da mamãe Filomena desconfiava de alguma coisa?
Sempre me trataram com tanto desprezo. − Eles sempre desprezaram a mim. Nunca aceitaram meu
casamento com a Filó. Eu era apenas mais um imigrante espanhol que trabalhava
nas lavouras de café, as quais os pais da Filó eram donos... Eles acreditavam
que eu não a amava e que queria me casar apenas por interesse. − Essa história eu já conheço, pai. Mas será que eles
realmente não sabem sobre mim? Será que nunca desconfiaram de nada? − Pode ser que tenham desconfiado por causa de nossa
semelhança física. Até a própria Filó sempre desconfiou. Agora, um sorriso meigo se formou nos lábios da jovem
Adriana. José Carlos não tinha idéia de como a filha se sentia orgulhosa quando
alguém dizia que ela era parecida com ele. − Pai, posso lhe fazer mais uma pergunta? − Claro que pode. − Você tentou procurar minha mãe Luísa, depois que ela me
abandonou? − Sim. Mas ela simplesmente desapareceu da boate, onde
trabalhava. Talvez tenha voltado para sua terra natal. − E de onde ela era? − Disseram-me que era potiguar. Eu nunca tive certeza
disso... – e José Carlos inclinou a cabeça para examinar o rosto da filha. –
Isso tem alguma importância para você? Não sei, pensou Adriana, mas respondeu: − Não, papai. Isso não tem nenhuma importância. E, após levantar-se e beijá-lo na testa,
voltou para o quarto da mãe e abraçou-a com muito carinho. − Eu te amo, mamãe. Te amo muito. − Eu também, minha filha
–, respondeu Filomena em seu último suspiro – te amo muito. Por favor, nunca
esqueça disso. Adriana
sobressaltou-se quando Letícia a agarrou pelas pernas, choramingando. − Mãezinha... Mãezinha... − Vamos, querida, vamos tomar o café – disse Adriana, após
ajeitar a menina na cadeira. Em seguida olhou para Roberto, com os olhos cansados.
– Ainda hoje vou acertar com a Marisa para ficar também as terças e
quintas-feiras, até você chegar da academia. Apesar de estar bufando de raiva, Roberto não disse mais
uma única palavra, apenas se levantou e foi para o carro. E continuou em silêncio durante todo o percurso de casa até
a escola. Voltando a falar somente quando a filha se despediu: − Quer que eu lhe busque na faculdade? − Não há necessidade. – Adriana respondeu. – Posso pegar um
ônibus. Ainda mais irritado, Roberto acelerou o carro. − Por que prefere voltar de ônibus? Ah, Deus, por que
ele sempre deturpa minhas palavras? − Eu não disse isso, Beto. Disse apenas que posso pegar um ônibus. Mesmo porque não
acho prudente que você saía às onze da noite e deixe a Lê sozinha em casa. − Posso levá-la comigo. − Neste horário ela sempre está dormindo. Não há necessidade
de sacrificá-la tanto. − Acho que você está arrumando desculpas para eu não ir
pegá-la. − Por Deus, Beto! Não estrague tudo assim! Eu... nós... não
podemos continuar vivendo desta forma. − O que está querendo dizer? − Que eu não suporto mais esse seu ciúme doente. Que nós
estamos nos desgastando a cada dia. – Ela virou-se para ele com os olhos arrasados,
e uma lágrima rolou por sua face antes que ela pudesse conter. – Não podemos
continuar assim, Beto. Não podemos. Seguiu-se mais um longo momento de silêncio, e Roberto novamente
só voltou a falar quando chegaram à empresa onde trabalhavam: − Não compreendo porque insiste em trabalhar, em estudar, se
eu posso sustentá-la de tudo... se não precisa de nada disso. Ela adiantou-se para abrir a porta do carro, após
lançar-lhe um sorriso triste e comentar: − O problema é que você não quer compreender. Com os olhos ardendo em fúria, Roberto puxou-a de volta
para dentro do carro. − Não vê que nossa filha sofrerá muito com sua ausência?
Deveria repensar se compensa submetê-la a tanto sofrimento apenas por um
capricho. − Oh, meu Deus, Beto, como pode usar a nossa filha para me
chantagear?! – perguntou ela, fitando-o bem dentro dos olhos. – Como pode? Ele não respondeu, e ela acrescentou: − Depois não diga que eu não tentei... E novamente tentou sair, mas Roberto tornou a segurar
firmemente seu braço. − O que quer dizer com isso? − Você sabe muito bem. – Ela simplesmente respondeu. Estava
cansada, muito cansada daquilo tudo. – Agora solte o meu braço. Está me
machucando. Ele a soltou. − Desculpe. − Estamos atrasados... Pela terceira
vez, Roberto a deteve dentro do carro. Desta vez, porém, ele a segurou de forma
gentil. − Eu amo você, Dri. E jamais quero lhe perder. Ao ouvir isso, os olhos de Adriana tornaram a se encher de
lágrimas. Ela não pôde evitar. − Prometo que vou tentar mudar – continuou ele. – Prometo. Ah, como queria acreditar nisso, pensou Adriana, enquanto
tentava evitar que as lágrimas transbordassem de seus olhos. E até houve um tempo em que realmente acreditou nessa
mudança, lembrou ligeiramente, quando ele aceitou que ela trabalhasse fora. A
verdade, no entanto, era que ela sempre estivera “sob as asas dele”,
independentemente disso. E quando ele conseguiu uma vaga na empresa de
engenharia onde trabalhava, ela ficou super feliz. Não compreendeu que ele
havia conseguido-lhe a vaga apenas para que pudesse vigiá-la de perto. Mas ela era culpada de tudo isso, disse si mesma, pois
acreditou no impossível. Roberto nunca havia mudado, e bastava que se sentisse
minimamente ameaçado para dar provas reais disso. − É muito difícil acreditar nisso... Muito difícil... − Por favor, Dri, acredite. – Ele tocou-lhe o rosto com
carinho. – Eu realmente amo você. Angustiada, ela enxugou as lágrimas e pulou do carro, antes
que ele a impedisse novamente. − Vamos trabalhar, Beto. Estamos atrasados. [*] Lúpus - doença inflamatória de origem auto-imune, que provoca febre, perda de apetite, manifestações articulares e cutâneas, especialmente manchas na face que lembram asas de borboleta, podendo espalhar-se e atingir outros órgãos. Enfermidade cutânea de evolução lenta; tuberculose cutânea (Dic. Houaiss). [Continua no próximo capítulo...]
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