| N | A | T | U | R | E | Z | A | H | U | M | A | N | A |
Conheci, certa vez, um empres�rio paulista que se dizia socialista. Segundo ele, o socialismo era uma bela id�ia, por�m imposs�vel de ser concretizada. Dizia ele que "o homem tem uma natureza que n�o permite que ele seja justo. Igualdade e fraternidade s�o apenas ideais. O homem � ambicioso e compete com os outros para ver quem vai sobreviver. Por isso sempre haver� guerras e maldades. Foi a natureza que nos fez assim. Est� em nossos genes."
� interessante verificar que muitas pessoas, e n�o apenas o empres�rio paulista, pensem que homem j� nasce feito. Esse, talvez, seja um dos maiores empecilhos para que o pr�prio homem acredite que pode mudar a sociedade, j� que qualquer sociedade, necessariamente, ser� injusta, com os homens lutando entre si para ocupar os melhores espa�os. A hist�ria da humanidade talvez possa nos indicar o caminho para entendermos quem somos e se � imposs�vel mudarmos nosso modo de ser. Vamos a alguns exemplos.Em setembro de 1799 um menino, de cerca de 12 anos de idade, foi encontrado perto da floresta de Aveyron, sul da fran�a. Estava sozinho, sem roupa, andava de quatro e n�o falava uma palavra. Aparentemente fora abandonado pelos pais e cresceu sozinho na floresta. O menino, a quem lhe deram o nome de Victor, foi levado para paris, onde ficou aos cuidados do m�dico Jean-Marc-Gaspar Itard. Durante 5 anos o Dr.Itard dedicou-se a ensinar Victor a falar, a ler, a se comportar como um ser humano, mas seus esfor�os foram em v�o. Pouco progresso foi conseguido durante esse tempo. Victor nunca falou e aprendeu a ler somente uma palavra (leite). N�o era mais o menino selvagem de quando fora encontrado mas, tamb�m, n�o se tornou humano.
Kaspar Hauser apareceu para a sociedade em 1828, numa pra�a do centro de Nuremberg. Tinha cerca de 16 anos de idade e falava de modo confuso; suas palavras eram pouco intelig�veis. Sua vida passada era um mist�rio, por�m tudo indica que ele vivera preso em um celeiro desde havia nascido. Teve pouco contato (ou talvez nenhum) com outros homens. Da mesma forma que Victor, Kaspar foi educado por seu tutor e, ao contr�rio de Victor, aprendeu a ler e escrever, pelo menos num certo n�vel em que era poss�vel a comunica��o com outras pessoas. Seu racioc�nio, contudo, n�o foi muito adiante. Continuava a ser a mesma crian�a do dia em que fora encontrado. Sua vis�o n�o enxergava em perspectiva e tamb�m n�o conseguia apreender conceitos abstratos, como Deus e religi�o, apesar dos esfor�os de padres e educadores. Morreu 5 anos depois, assassinado, e seu passado misterioso nunca foi desvelado.
Em 1920, o reverendo Singh encontrou, em uma caverna, duas crian�as que viviam entre lobos. Suas idades presum�veis eram de 2 e 8 anos. Deram-lhes os nomes de Amala e Kamala, respectivamente. Ap�s encontr�-las, o rev. Singh levou-as para o orfanato que mantinha na cidade de Midnapore. Foi l� que ele iniciou o penoso processo de socializa��o das duas meninas-lobo. Elas n�o falavam, n�o sorriam, andavam de quatro, uivavam para a lua e sua vis�o era melhor � noite do que de dia. Amala, a mais jovem, morreu um ano ap�s ser encontrada. Kamala viveu por mais oito anos sem, contudo, aprender a falar, ler, usar o banheiro ou a ter qualquer comportamento que pudesse ser considerado pr�prio de seres humanos. A �nica emo��o que demonstrou em todos esses anos foi algumas l�grimas que ca�ram de seus olhos, no dia em que Amala morreu.
O que esses exemplos (e muitos outros que poderiam ser citados) t�m em comum � que eles retratam pessoas que foram privadas de contato humano durante sua inf�ncia. Sem contato humano n�o conseguimos nos tornar seres humanos de fato: a apar�ncia pode ser humana, mas o comportamento � de outra esp�cie. O homem, portanto, s� pode ser homem se viver em sociedade. Por outro lado, o tipo de sociedade em que vivemos vai determinar, de modo geral, o tipo de pessoas que seremos. Uma sociedade de ladr�es vai gerar mais ladr�es; uma sociedade voltada para o lucro e competi��o gera indiv�duos ambiciosos e ego�stas; uma sociedade injusta gera indiv�duos sem car�ter; uma sociedade baseada na justi�a e coopera��o gera indiv�duos bons e felizes.
N�o temos a possibilidade de optar entre viver ou n�o em sociedade, mas, pelo menos, podemos escolher qual o tipo de sociedade em que desejamos viver.