continua��o de "O rei do bosque"
     Dezassete anos e quase dez mil hectares depois, o rapazinho de Dresden � um homem realizado. A par da sua  ob-sess�o em plantar, semear, transplantar e cuidar das mais variadas formas uns fr�geis seres vegetais, foi  desenvolven-do uma outra ideia n�o menos nobre: a necessidade de fixar as pessoas � terra, de dar-lhes condi��es de  vida  dignas, com a finalidade de que a passassem a amar e cuidar, deste  modo, para  sempre. Sempre  desconfiou  dos  resultados  que produzia um trabalhador contratado a prazo, � temporada, os chamados trabalhadores  golondrinas (1). A  sua  opi-ni�o  � muito clara: �O trabalhador tem que amar a terra, sentir que faz parte dela, fundir-se com ela, e  por  isso  �   im-prescind�vel que se fixe ao lugar com a sua fam�lia. Se � argentino ou chileno, n�o me importa!�
      Esta postura �, seguramente, um reflexo positivo da sua amarga experi�ncia naquela long�nqua e fria  escandin�via, onde lhe foi negado o direito de lan�ar ra�zes. Hoje, na Est�ncia Santa Lucia, a sua amada e mil vezes sonhada  proprie-dade, existem onze casas para os oper�rios e respectivas fam�lias, sem ningu�m se importar se nasceu em territ�rio  ar-gentino, ou do outro lado da cordilheira dos Andes. Existe ainda um parque infantil e uma escola prim�ria, ambas iniciati-vas plantadas por Everardo, para que as ra�zes lan�adas pelas pessoas frutifiquem um dia.
      No seu viveiro florestal, para continuar replantando �rvores e exemplos de vida, est�o mais de  tr�s  milh�es  de  fr�-geis plantinhas, que nunca conhecer�o a cor dos pesticidas. �Aqui s� usamos  processos  naturais, porque  eu  sou  um ecologista tonto�, afirma com convic��o, divertido. �Sei que h� produtos qu�micos para matar as ervas  daninhas, mas a mim ainda ningu�m me explicou o que � que matam mais, para al�m dessas ervas. A terra est� cheia de bichitos, de coi-sas que desconhecemos e que tamb�m s�o necess�rias �s �rvores. Se h� alguma  erva  que  incomoda, pois  bem, tira-mo-la com as m�os�, remata perempt�rio.
      Hoje, na sua confort�vel casa de madeira - edificada h� menos de uma d�cada no topo de  uma  colina  que  domina toda a paisagem circundante - o jantar continua a ser romanticamente servido � luz das velas, visto n�o existir electrici-dade. Do cimo desta colina, Everardo Hoepke observa o conquistado deserto, um vasto oceano verde  de  �rvores  bem vivas, lindas e vi�osas, as mesmas com que j� sonhava h� meio s�culo atr�s, na sua calcinada inf�ncia de Dresden.


(1) andorinhas, em castelhano, por analogia com as estas aves migradoras
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