| UM TAL JEAN PAIN |
| oc� j� alguma vez ouviu falar de Jean Pain? Eu tamb�m n�o, at� ao dia em que, h� cerca de vinte anos atr�s, num triste fim de tarde de Janeiro, chuvoso e frio, li a sua hist�ria numa revis-ta, enquanto esperava pela minha vez num consult�rio m�dico, na Aveni-da da Rep�blica. Resolvi naquele momento apontar os dados essenciais da sua in�dita hist�ria no meu caderninho de notas, que mais n�o era do que uma fina caixa met�lica de cigarrilhas, com pequenas folhas de papel, cortadas � medida. Fi-lo porque me pareceu um fant�stico e delicioso exemplo da capacidade e do g�nio inventivo da esp�cie humana, direccionado para a resolu��o de problemas de forma h�bil e criativa. Al�m disso, n�o estava presente qualquer inten��o de lucro nas suas iniciativas, mas t�o-s� o suprir de necessidades energ�ticas e de conforto, pessoais e familiares. |
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| V |
| Dizia o texto que li que, at� �quele momento, Jean Pain era um ilustre desconhecido. Pelos vistos continua a s�-lo! Na sua pequena quinta, no Domaine des Templiers, perto de Villecroze (Var), em Fran�a, Jean Pain construiu, ao longo de quinze anos, uma verdadeira f�brica de produ��o de energia, �gua quente e adubo. A energia por si produzida, por exemplo, � respons�vel por 100% das necessidades energ�ticas da sua fam�lia. Pain come�a por juntar pequenos galhos de arbustos, aparas de madeira, cascas velhas de �rvores, folhas secas, etc. Tudo isto � ent�o triturado por uma m�quina, tamb�m inventada por si, e feita de materiais reciclados, que reduz esta mat�ria vegetal a pequenos fragmen-tos. Esta aut�ntica salada vegetal, depois de triturada, � posta dentro de um tanque de �cido, hermeticamente fechado, com capacidade para quatro metros c�bicos, e ali fica a fermentar, com �gua, durante dezoito meses. Desta fermenta��o resulta a liberta��o de um g�s � o metano � que � canalizado para vinte e quatro c�maras-de-ar de cami�o, as quais servem apenas como reservat�rios. Assim que o g�s est� destilado, atrav�s de um processo simples de purifica��o, � ent�o comprimido dentro dos reservat�rios � as tais c�maras-de-ar � e est� pronto a ser usado. A sua utiliza��o vai do fog�o da cozinha � produ��o de electricida-de, passando pelo combust�vel usado pela sua pequena camioneta 2CV. Segundo este inventor auto-didacta, que nunca se sentou nos bancos de uma universidade, s�o necess�rios apenas noventa dias para produzir 500m3 de g�s, o suficiente para alimentar � ininterruptamente, durante um ano! � o enorme fog�o de dois fornos e tr�s queimadores que a sua fam�lia tem. O metano produzido serve tamb�m de combust�vel para um gerador, com motor de combust�o interna, o qual � res-pons�vel por toda a energia el�ctrica da casa dos Pain, com dois pisos e cinco quartos. A camioneta Citroen que a fam�-lia usa para todo-o-servi�o, tamb�m � movida a metano. Duas botijas no tejadilho, com capacidade para 5m3 de g�s comprimido, permitem-lhe andar, sem reabastecer, durante 100 km! Segundo este inventor �dom�stico�, apenas dez quilos de madeira s�o suficientes para produzir o g�s equivalente a um litro de gasolina, com elevado �ndice de octanas. Como se n�o bastasse tudo isto, a fermenta��o causada pela pasta vegetal triturada traduz-se num tal aumento de tem-peratura que fornece �gua quente e aquecimento central a toda a casa! De facto, um tubo de pl�stico, com cerca de 4mm de di�metro, sai do po�o da sua quinta e enrola-se � volta do tanque de fermenta��o, adquirindo a forma de uma serpentina com duzentos metros de comprimento; de seguida, dirige-se para dentro de casa dos Pain, saindo das tornei-ras a 60�C!!! Uma parte desta �gua alimenta os radiadores da casa, proporcionando um confort�vel e econ�mico � qua-se gr�tis, diria � sistema de aquecimento central. Ao fim de dezoito meses, que � o tempo que leva a processar-se toda a fermenta��o daquele massa vegetal, desli-ga-se e monta-se imediatamente outro sistema igual, com nova mat�ria org�nica, assegurando assim, permanentemente, o cont�nuo fornecimento de �gua quente e energia. No fim de todo este processo, a pasta vegetal, j� inerte, vai proporcionar a este mago das energias alternativas 50 toneladas (!) do melhor adubo natural que pode haver. Espalhando uma camada deste h�mus sobre o solo pobre e pe-dregoso da sua quinta, Jean Pain conseguiu criar uma luxuriante horta, com verdadeiros produtos biol�gicos, onde at� crescem com sucesso alguns legumes tropicais! Convido agora a uma pequena reflex�o, que leva inevitavelmente a uma pergunta, no m�nimo curiosa: Se esta aplica��o j� funciona h� duas d�cadas, e com resultados comprovados; se o mundo se debate com graves pro-blemas energ�ticos e de polui��o, resultantes da queima de combust�veis f�sseis; se a queima destes mesmos combust�-veis � o principal factor respons�vel pelo aterrador �efeito de estufa�; se, por outro lado, em muitas partes do mundo a exaust�o dos solos � um problema grav�ssimo, com necessidde de se recorrer permanente e intensivamente a adubos qu�micos para tornar a terra produtiva... afinal, se tudo isto � verdade, porque � que ainda n�o t�nhamos ouvido falar de um tal Jean Pain? |
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