CONTOS DA SELVA - 5
       enho setenta e nove anos, dos quais cinquenta e tr�s na Guiana. . .�
A afirma��o � feita sem rodeios, o anci�o respira a convic��o do dever cumprido.
     Fant�stico mission�rio o padre Barbotin! Chap�u preto na cabe�a, batina branca ajusta-
da � sua medida, durante quarenta anos pregou a boa-nova nos quatro cantos do territ�rio.
Ningu�m se esquece na Guiana dos seus serm�es, dos seus discursos contra o concubina-
to, o aborto, etc. Era a �poca em que, �s dezenas, os fi�is acorriam � catedral  ao  som  da
sua voz, prontos a segui-lo em todas as cruzadas. No entanto, as suas ac��es, a sua  pr�ti-
ca do Evangelho sempre o opuseram ao resto da comunidade eclesi�stica.
     Ao longo desses anos, ele parte regularmente em viagem  para  a  floresta, sem  hesitar,
para benzer os �bulldozers�destinados a �abrir os espa�os virgens  para  a civiliza��o�. Em
cada par�quia, ele cria um orfanato, e se  substitui  �s  fam�lias. De todos  estes  pequenos
crioulos e amer�ndios, ele quer fazer bons crist�os. Para isso, ele oferece-lhes um lar  e  f�-
-los trabalhar os campos. Entre duas preces, o orfanato transforma-se numa verdadeira es-
cola agr�cola.
     Mas a popularidade do padre Barbotin foi adquirida no seu combate pela protec��o  dos
animais. Aut�ntico pioneiro nos anos cinquenta, ele declara guerra aos ca�adores que  dizi-
mam a floresta, atirando sobre tudo aquilo que mexe. O seu objectivo � ambicioso: fazer to-
mar consci�ncia �s pessoas da Guiana da import�ncia da fauna e da  preserva��o  do  ter-
rit�rio. Tarefa ainda hoje nada f�cil.
     Mas o seu poder de convic��o � tal que consegue persuadir a pr�pria
gendarmerie a colaborar no seu invent�rio dos animais da Guiana. Durante um ano, todos os soldados enviados para a selva v�o capturar e inventariar tudo aquilo com que depararem no seu caminho: insectos, serpentes e aranhas s�o  mergulhados  em  formol. Um  verdadeiro  report�rio dos mitos do inferno verde, classificados e exorcizados pelas vitrinas do museu pessoal do padre Barbotin.
     Foi, pode dizer-se, a sua �poca de ouro. Hoje (1990) o velho homem desce com dificuldade a  escadaria  de  madeira da sua mans�o. P�ra e retoma o f�lego ap�s alguns passos. �Estamos nas v�speras de acontecimentos mundiais  muito graves. . . o Senhor est� triste pelo assass�nio de criancinhas antes de nascerem. Prev�-se uma grande desgra�a. . .�
     Depois de meio s�culo de bons e leais servi�os, o bom padre, apesar da aparente candura do seu olhar, j�  n�o  est� na posse de todas as suas faculdades.  No dia da sua �ltima partida, uma  p�gina  da  hist�ria  dos  �velhos brancos�  da Guiana ser� definitivamente virada.
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Nas vitrines do seu museu, o padre Barbotin colecciona todos os mitos do "inferno verde"...
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