Era Sengoku(Sengoku Jidai)


O Sengoku Jidai, ou período dos estados guerreiros, foi uma época de instabilidade social, intrigas políticas e conflitos militares quase constantes no Japão. Eventos esses que ocorreram intensamente de meados do século XV ao começo do século XVII. Nesse período, onde a violência se tornou a “ordem do dia”, o bujutsu teve uma de suas era mais produtivas era produtiva em termos técnicos. É dela que datam os primeiros ryu (alguns dos quais permanecem ativos até os dias de hoje), mas, por outro lado, os conceitos éticos do guerreiro clássico estavam sendo perdidos e a cultura marcial passando por sérias mudanças.

O bafuku Ashikaga


O primeiro bafuku da era Sengoku foi o do shogun Ashikaga Takauji, que era muito popular entre os bushi. No entanto, seu carisma escondia um bafuku corrupto e desonroso, onde uma série de atos desonestos era corriqueiramente cometida contra o povo. Depois de sua morte, os sucessores de Takauji não fizeram muito diferente de seu antecessor e por isso não demorou até que o descontentamento se estabelecesse contra o bafuku Ashikaga. Foi sob essas condições caóticas que se deu o início da mais revolucionária mudança na cultura japonesa, o período de unificação, onde o Japão deixaria de ser um retalho de províncias, para se tornar de fato uma nação. Um fator contribuinte foi a ascensão dos daimyo, os proprietários de terra japoneses. Eles eram de fato os grandes nomes do Japão feudal. Alguns eram bushi, que haviam evoluído de aristocratas ou classes sociais mais baixas à virtuosos detentores de domínios independentes por vários motivos (a maioria deles corruptos ou duvidosos). Foram eles que ditaram o formato do feudalismo japonês, incluindo os ryu marciais.

A ascensão das armas de fogo no Japão feudal


Para proteger seus territórios eles precisavam encontrar guerreiros que oferecessem mão-de-obra mais barata e abundante que os bushi. Com isso, surgiram os ashigaru (ou nobushi), os “guerreiros leves,” que, juntamente com os bushi (que se encontravam em cargos mais altos e exerciam a função de comandantes dos novos guerreiros), instituíram uma nova classe guerreira. Inicialmente, o grupo dos ashigaru era composto por desordeiros, ladrões ou mercenários que haviam escolhido uma vida de aventura e ofereciam seus serviços e uma porção de sua duvidosa lealdade a qualquer um que os garantisse uma forma de sustento. Outros que também integravam essa nova classe eram os chamados ji-samurai, ou “fazendeiros guerreiros.” Se tratava de trabalhadores do campo, servos dos grandes proprietários, que tinham coragem o suficiente para se tornar a base para a nova revolução militar. Devido a sua praticidade, rapidamente esse tipo de guerreiros aumentou muito em número e passou a integrar parte importante de todos os exércitos dos daimyo. Os samurai eram nesse momento a minoria e se sentiam profundamente ofendidos por ser igualados a tais guerreiros que, em sua opinião, eram tão inferiores e desonrosos. Eles estavam profundamente descontentes pelas facilidades de acesso civil (afinal essa nova corja de guerreiros não possuía origem militar) aos ryu marciais, o que antes era uma exclusividade dos bushi. No entanto, havia um único, porém simbolicamente muito forte, protocolo que ainda diferenciava esses grupos e satisfazia os samurai. O fato de que os bushi eram os únicos detentores do direito de portar duas espadas, enquanto os ashigaru ou ji-samurai apenas podiam portar uma espada curta, o que os colocava em uma posição visivelmente inferior aos bushi. Com a chegada das armas de fogo ao Japão em meados do século XVI, os ashigaru e ji-samurai passaram então a integrar uma parte cada vez mais numerosa e valiosa dentro do exército dos daimyo. O flanco armado provou em inúmeras batalhas ser o mais eficiente, pois ele tornava possível sem muito treinamento formar um exército e obter sucesso contra lutadores mais experientes marcialmente que eles próprios, mantendo uma distancia favorável e portanto tendo o menos número de perdas quanto possível. Essa repartição era composta inteiramente por ashigaru e cabia aos bushi comandá-los. No entanto, muitos bushi viam a utilização das armas de fogo como um procedimento incorreto e repudiável, julgavam essa forma de combate desleal era uma real ofensa aos preceitos marciais. No entanto, isso não foi o suficiente para que esse novo método deixasse de ser aplicado, de fato como sistema marcial ele poderia ser definido como incompleto, pois ignorava completamente os valores do bushi tradicional tal qual o esforço para o alcance da excelência técnica, porém a eficácia do sistema não podia ser negada. Para o propósito da guerra as armas funcionavam perfeitamente.

Nobunaga e seus métodos inovadores de combate


Dentre personalidades como Uesugi Kenshin e Takeda Shingen, Oda Nobunaga foi o maior adepto do armamento bélico e pode-se dizer que também o responsável pela completa destruição da tradição clássica dos guerreiros. Sua rápida ascensão como estadista-guerreiro deu-lhe o poder para ocasionar mudanças muito significativas para a cultura marcial japonesa. Nobunaga proveio de uma família que servia aos Ashikaga, ele herdara a província de seu pai em Owari e serviu como um bem sucedido líder de nobushi. O prestigio do governo Ashikaga estava decaindo alarmantemente e, devido às suas notáveis habilidades, Nobunaga foi convocado por Takauji para auxiliar na unificação do país. Os resultados conseguidos pelo general foram decisivos: ele consolidou rapidamente sua posição em Owari e em seguida ocupou Kyoto. Logo após suas conquistas, ele descobriu que o shogun tinha um plano contra ele e o retirou do cargo, colocando um fim no regime Ashikaga e assumindo a posição de governante. Ele governou com pulso firme, mas houve muitos conflitos durante sua regência, diante dos quais ele resolveu ter como prioridade manter seguros seus domínios. O general havia estudado artes marciais formalmente e por isso sabia que o processo para se forjar um guerreiro era demasiado demorado. Tendo isso em mente, passou a instituir amplamente o uso de armas, com a intenção de tornar seu exército mais poderoso em menos tempo. Tal atitude causou ainda mais controvérsia dentro da classe guerreira. Os bushi que seguiam a linha clássica discordavam, pois achavam uma infâmia que um atirador fosse mais valorizado que um espadachim. Os atiradores não tinham que enfrentar o combate corpo-a-corpo e por isso não se mostravam guerreiros de valor. Para eles, o combate era um exercício de coragem e moral manifestada através da habilidade física. Muitos deles se recusaram a usar armas. Porém nada que dissessem faria com que a opinião do governante se modificasse, o período era desordenado e ele sabia que essa era a única forma de manter seu bafuku à salvo, preocupar-se com tradicionalismo no momento seria um passo em direção da derrota. Nobunaga era um general muito prático, para ele o que valia era vencer a qualquer custo. Ele sabia que mesmo alguém sem nenhuma habilidade marcial com uma arma em punho poderia matar o mais habilidoso dos espadachim, além do fato de que para treinar um guerreiro de forma competente era necessários no mínimo 3 anos de treinamento, enquanto que para ensinar como manusear uma arma não custava mais que 6 meses. Conseqüentemente, apesar dos protestos, a aceitação da armas de fogo foi assegurada pela vitória de Nobunaga em Nagashino. Depois disso, foi criada uma nova matéria e acrescentada ao bujutsu, o hojutsu, ou “arte do poder de fogo.” Foram feitas várias modificações na condução das guerras para melhor utilizar as armas de fogo. Artes como o senjo-jutsu, parte do bujutsu que lida com estratégias de guerra, e chikujo-jutsu, referente à construção de castelos e fortificações, foram revisados devido à adição dos artefatos bélicos e a armadura também foi alterada para proteger mais os guerreiros, tendo sido desenvolvidas na tentativa de fazê-las mais resistentes à balas.

Hideyoshi - padronização do sistema milita


Após a morte de Nobunaga pelas mãos de Akechi Mitsuhide, seu próprio general (o que serve como amostra de quanto a lealdade era valorizada), Toyotomi Hideyoshi, um dos mais brilhantes dos generais de Nobunaga, vingou sua morte movendo seu exercito contra Mitsuhide e se tornando, portanto, sucessor de Nobunaga no poder. Hideyoshi, embora não um bushi legítimo, é reconhecido como um dos maiores generais do Japão. Nobunaga encorajava a ascensão de civis durante seu governo e o próprio Hideyoshi foi um desses. Ele era inicialmente um ashigaru, porém devido a seu destaque e lealdade ao general, Nobunaga o promoveu inúmeras vezes, confiando à ele finalmente um alto cargo, o de general. No entanto, Hideyoshi era completamente avesso a tal política liberal e, devido a essa característica, ele foi quem estabeleceu o formato do militarismo que prevaleceu no Japão. Em sua concepção, urgia uma padronização no militarismo japonês, sobre o qual o governo deveria ter mais controle. Ele tinha consciência de que qualquer mobilização hostil por parte dos daimyo seria uma ameaça a estabilidade nacional e poderia facilmente arruinar seus planos pafra a unificação da nação, então ele resolveu atacar a única fonte de suporte marcial à qual eles poderiam recorrer: os ashigaru, que à essa altura já havia superado os bushi em número nos exércitos dos proprietários de terras. Hideyoshi decidiu finalmente estabelecer regras claras para essa classe, de modo a prover maior organização e inflexibilidade dentro da classe militar. Assim, ele determinou que civis não mais poderiam portar armas, os ashigaru ou ji-samurai que estavam à serviço de um daimyo não mais seriam diferenciados, daquele momento em diante eles seriam considerados bushi. E houveram ainda outras medidas para impedir a mobilidade social, o ofício militar seria inflexivelmente hereditário e nenhum guerreiro poderia abandonar o posto de militar, nem mesmo para assumir uma posição inferior, como um serviçal ou fazendeiro. Assim se deu a absoluta distinção entre combatentes e civis, até então atingir cargos superiores era algo extremamente difícil, mas ainda assim possível, porém não mais seria, a casta guerreira havia sido estabelecida.

Unificação japonesa, o fim dos Estados Guerreiros


Depois da morte de Hideyoshi, Tokugawa Ieyasu (1542 - 1616) estabeleceu-se como shogun, visto, pelo próprio antecessor, como qualificado para continuar o trabalho de unificação da nação. Ele estabeleceu seu bafuku em Edo (atual Tokyo) e se tornou seu primeiro shogun. Ao término da unificação, institui-se um longo período de paz, o período Edo, que declarou o fim do conturbado Sengoku Jidai.