Leitora comenta o Programa Profix
e o retorno de doutores ao país
Jornal da Ciência Eletrônico
(JC E-Mail), 20/julho/2001 - N° 1835 - Notícias de C&T -
Servico da SBPC
Mensagem de Maria da Conceicao
P. Saraiva, PhD em Epidemologia pela Universidade de Michigan e bolsista
da Capes
Embora o programa Profix lancado pela CNPq seja interessante, acredito que nao tenta resolver as deficiencias das existentes bolsas de recem-doutor, que nao tem funcionado para levar de volta e nem manter nenhum bolsista no Brasil ate o momento.
Como sempre acontece no pais, nunca se avalia e melhora os programas existentes, criam-se novos programas com as mesmas deficiencias.
Brasileiros ficam ou migram para os EUA para trabalharem em posicoes de pos-doutoramento e empregos estimulantes e estaveis. Empregos a parte, nao temos pos-doutorado no Brasil, embora as agencias de fomento pesquisa teimem em dizer que o pos-doutoramento no Brasil seria o equivalente a bolsa de recem-doutor.
Bolsa e uma coisa, posicao de pos-doutorado e outra totalmente diferente. O dinheiro, a CNPq oferece, mas posicao de pos-doc e da instituicao e nao da CNPq.
Pos-doutorado e uma posicao temporaria, porem, razoavelmente remunerada, aberta por instituicoes a procura dos melhores recem-doutores para desenvolverem seus projetos ja aprovados e com verba.
Quem abre a vaga e consegue a verba para contratacao do pos-doc e a Universidade/Instituicao/laboratorio/pesquisador - nao e o pos-doc que consegue a bolsa e procura instituicao com seu projeto.
Assim, o pos-doutorando trabalha em projetos ja aprovados (com verba), sob supervisao de um pesquisador experiente. O objetivo do recem-doutor e conseguir mais pratica ainda sob supervisao, numa pesquisa que o projete profissionalmente, e que resulte em publicacoes.
Isso tudo vem acompanhado de vinculo empregaticio, pois embora o pos-doc seja por tempo determinado, o recem-doutor tem garantido seguro saude e encargos sociais (medicare e aposentadoria) que sao pagos pela instituicao.
Alem do mais, o pos-doc pode aplicar para verbas de pesquisa e continuar a se financiar, mantendo-se na instituicao por tempo indeterminado como pesquisador associado (o que se pode considerar um emprego permanente ja que os encargos sociais sao garantidos).
Se o governo gosta de copiar modelos do exterior, esta
ai uma opcao: Universidades publicas se resposabilizariam por nossos encargos
sociais e vinculo, comecariamos com bolsas de recem-doutor e professor
visitante e poderiamos manter tal posicao produzindo pesquisas, desde que
aplicassemos
para novas verbas.
Nos mesmos "gerariamos" nossos proprios salarios, ate que fizessemos concursos e fossemos contratados.
Para o bolsista no exterior, duas diferencas entre a bolsa recem-doutor e o pos-doutorado sao fundamentais para que este opte pelo nao retorno imediato.
Primeiro, que o recem-doutor americano nao tem que fazer um projeto sozinho enquanto corre para terminar sua tese de doutorado com bolsa de 4 anos.
Segundo, o americano nao tem que sair implorando para que seja aceito pelas Universidades, alem de tentar convence-las de que fazer pesquisa e importante.
As posicoes de pos-doc sao disponibilizadas pelas Universidades/Instituicoes e os alunos aplicam para as mesmas enviando apenas o curriculo.
Os EUA entendem que o doutorando nao tem tempo de fazer um segundo projeto enquanto faz sua tese de doutorado, e nem mesmo tem tempo para correr atras de instituicoes, implorando para que seja aceito (a instituicao e que deve competir pelos melhores profissionais).
E por isso que nao somente os bolsistas no exterior nao voltam para o Brasil, como tambem os recem-doutores formados no Brasil estao saindo.
E cada vez mais comum encontrarmos recem-doutores formados no Brasil, em posicoes de pos-doc nos EUA. Um ano antes de terminar seus cursos no Brasil, os doutorandos estao aplicando para posicoes de pos-doc nos EUA e assim que defendem suas teses , tem emprego garantido no exterior, sem mendigar a niguem para que os aceitem.
Resumindo, para nos bolsistas no exterior, o Profix nao elimina os obstaculos que temos com as atuais bolsas de recem-doutor.
O Profix deveria, sim, dar as bolsas para departamentos/pesquisadores que tenham projetos que precisem de recem-doutores. As vagas seriam disponibilizadas para os alunos atraves da CNPq e nos aplicariamos para as mesmas 6 ou 3 meses antes de voltarmos para o pais.
O recem-doutor mais qualificado e adequado ganharia a posicao. Nao somente o profix deveria funcionar desta maneira como tambem todas as bolsas de recem-doutor.
Assim, teriamos emprego no outro dia que chegassemos ao Brasil; ter como sobreviver quando se chega ao pais e nosso maior problema. Sera que daria para Capes/CNPq entender que com a bolsa no exterior nao da juntarmos dinheiro para retornar ao pais?
Temos despesas enormes com livros, computador, impressao, termino de tese e despesas medicas nao cobertas pelo seguro e temos tempo limitado de bolsa que nao e suficiente pelo menos para os EUA (cerca de 3, dos 4 anos que temos para completar o PhD sao dedicados ao cumprimento de creditos).
No planejamento para atrair e manter os doutores no pais, o Brasil tambem ignora que o cerebros saem em busca de instituicoes fortes, ninguem vai para Amapa por causa de bolsa, mas existem centenas de pessoas trabalhando de graca, como voluntarios, para a USP.
A frase abaixo foi copiada do site da CNPq, e retrata o que esta de errado com o Profix (que nao fixara niguem nem a curto nem a longo prazo)
‘A concessao da bolsa Profix sera formalizada mediante a previa firmatura de Termo de Compromisso do Solicitante com o CNPq, bem como de Concordancia pela Instituigco que recebe o pesquisador.’
O solicitante nao pode ser o recem-doutor, o solicitante tem que ser a instituicao que deseja se desenvolver, e precisa de um profissional competente. Uma vez que a instituicao cresce ela contratara mais funcionarios.
A instituicao e que tem que solicitar e assinar o termo de compromisso com o CNPq que tera estrutura para receber e aproveitar adequadamente o recem-doutor altamente qualificado, formado nas melhores Universidades no mundo e que custou pelo menos 150 mil dolares para o governo.
O Profix tem um termo de compromisso da instituicao, mas ,insisto, que a iniciativa tem que ser da instituicao a procura de um bolsista e nao o contrario. O CNPq tem que perguntar "qual a instituicao que quer se desenvolver, que tenha um projeto e necessita de profissionais capacitados, pois podemos ajudar na com a concessao de bolsas".
Nao pode continuar como tem sido ate agora ‘Qual o bolsista quer voltar? Temos bolsas, porem, bolsista, saia a caca de uma instituicao que o aceite, atraves de e-mail.’ Sera que e dificil de entender a diferenca?
O problema da evasao de cerebros e muito mais complicada. Muitos fatores diretamente ligados ao nosso governo desestimulam o retorno do bolsista, ou melhor estimulam o bolsista a ficar nos EUA.
Ja ouvi de gente ligada a instituicoes que dao bolsas para o exterior, que fundo e ate bom que certos bolsistas nao retornem, porque estes abrem as portas para atrair mais brasileiros para o exterior.
Juro que fiquei confusa quando escutei tal barbaridade, e nao sabia se deveria me preparar para voltar ao pais, ou se deveria ser patriota ficando nos EUA pois ajudaria mais o Brasil.
Alem do mais tenho presenciado "caloteiros" da Capes/CNPq serem convidados a prestar concurso no pais, e claro que em geral eles nao aceitam e ainda esnobam da situacao : "nao voltei, nao paguei, e ainda me oferecem emprego".
Qual a vantagem de se voltar imediatamente ao pais? Esta situacao simplesmente e desmotivante ate mesmo para quem quer voltar, pois parece que apenas se ficarmos aqui, e que conseguiremos ser contratados e reconhecidos posteriormente no Brasil.
Voltamos ao pais com a impressao de que nao deveriamos ter voltado, pois na verdade o governo nao queria isto, e so considera cerebro quem esta no exterior. Perdemos os cerebro ao colocarmos os pes no Brasil, e voltamos a ser cerebro quando fugimos.
Que tal se pelo menos os direitos de assumir cargos publicos fossem negados aos caltoreiros? E um absurdo que maiores de 21 anos, assinem um termo de compromisso com a Capes/CNPq e depois nada aconteca.
Se acontece, nao ficamos sabendo. Pelo menos, os nao retornantes que encontramos em cada esquina dos EUA dizem que nao pagaram nada a niguem.
Que tal cobrar dos caloteiros, e utilizar o dinheiro para a pesquisa e salario daqueles que retonam ao pais? 150 mil dolares sao 375 mil reais que daria para pagar 75 meses (6 anos) de bolsa/salario no valor de 5 mil reais para um pesquisador no pais.
E nao tem nada de mais que os nao retornantes paguem de volta a Capes/CNPq, pois americanos que fazem loans para se formar tambem pagam suas dividas, pois os salarios aqui sao suficientes para tanto.
Qual a vantagem, entao, de se voltar, se os que ficam sao consagrados como os bons cerebros sugados pelo exterior e, ainda, o governo estente tapete vermelho para recebe-los posteriormente em posicoes publicas?
O governo deve entender, tambem, que a longo prazo bolsas nao manterao doutores no Brasil, ha necessidade de se reestruturar a carreira Universitaria, criando-se, por exemplo, a posicao de pesquisador.
A re-estruturacao precisa ser feita logo, pois a cada ano mais doutores estao sendo formados e nao serao 2000 e nem mesmo 6000 vagas das Federais que irao absorver os profissionais no mercado, nem mesmo melhorar nossas pesquisas.
Nao e questao de numero de vagas, e questao de organizacao de nossas Universidades. Teremos uma boa parcela dos professores das federais contra, mas a reforma e necessaria!
Por ultimo, gostaria de sugerir que CNPq/Capes ouvissem com mais atencao o que os bolsistas no exterior tem a dizer.
Alem disso, seria interessante que estes orgaos facam
do programa de bolsas no exterior um verdadeiro programa para desenvolver
areas carentes no pais, e que nao seja esta distribuicao desconectada de
bolsas
individuais.
O aproveitamento do recem-doutor tem que fazer parte do programa de bolsas. Isto nao significa que Capes/CNPq tenham que arrumar emprego para cada um de nos, mas existem maneiras de facilitar que nossa mao de obra seja aproveitada adequadamente no pais.
Se Capes/CNPq nao tem idea de como fazer isto, que tal
ouvir a opiniao dos cerebros que estao se formando no exterior, nossos
cerebros estao cheios de ideias viaveis ?