Leitora dá continuidade
aos comentários sobre o retorno de jovens doutores ao país
Jornal da Ciência Eletrônico
(JC E-Mail), 20/julho/2001 - No. 1835 - Notícias de C&T - Servico
da SBPC
Mensagem de Ana Maria Lopez ([email protected],
RG. 13.425.314)
Brilhante a mensagem-desabafo da recem-doutora Jimena Felipe Beltrao (“JC E-Mail”/1830, de 16/7), acerca das razoes que levam muitos dos recem-doutores brasileiros no exterior a pensarem em nao retornar mas, ainda assim, retornarem.
Tenho colegas brasileiros que tambem se doutoraram e pos-doutoraram no exterior, e que nestes ultimos anos, ao retornarem ao pais e realizarem concursos, tiveram ate’ que se submeter a processos judiciais e gastarem somas que nunca receberam para garantirem a vaga pela qual haviam competido e recebido aprovacao em primeira colocacao.
E por que tiveram que faze-lo? Porque ainda existem nepotistas em muitas IFES brasileiras. Porque, alem de tudo o que ja’ se tem dito, o que vale nao e’ a competencia e a democracia, mas o apadrinhamento, as preferencias pessoais de quem se esperaria o minimo de dicernimento e imparcialidade enquanto elite cultural do pais.
Aqueles que enfrentam com coragem e lutam por seus direitos e ideais, acabam se engajando em outra luta permanente - a do boicote.
Talvez essa seja uma outra razao pela qual alguns recem-doutores nao querem retornar - eles se lembram de onde vieram e quem sao a maioria dos pseudo-intelectuais, ou pelo menos dos que desejam algum tipo de pseudo-poder no Brasil.
Creio que todos nos que batalhamos pela experiencia de nos aprimorar fora do pais, na volta, muitas vezes nos sentimos como ostras que so’ podem abrir-se para aqueles que tiveram as mesmas experiencias.
Isso por percebermos que aqueles que nao buscaram o mesmo tipo de formacao sao geralmente incapazes de sequer tentar entender parte do nosso estresse, da missao, das auto-cobrancas e da formacao que tivemos e gostariamos de compartilhar atraves do trabalho, mesmo que fosse com quem talvez nao se esforcou, nao se esforca, nao se esforcaria, ou nunca se esforcara’ nem a milesima parte do que nos o fizemos um dia, por nos e pelo Brasil.
Infelizmente, quando tudo o que os recem-doutores desejam e’ apenas retribuir ao pais parte daquilo que lhes foi propiciado (inclusive a coragem de lutar pela cidadania!), acabam tendo que enfrentar o carater nacional espalhado pelas instituicoes, aquele do tipo que tem muitas imperfeicoes e acaba sucumbindo a sentimentos bem pouco virtuosos.
As desculpas para esse nosso tal carater defeituoso sao muitas - "resulta da ausencia absoluta de politicas decentemente voltadas para educacao, saude, agricultura, seguranca e ciencia de um modo geral" , mas o fato e’ que emperra o crescimento de qualquer instituicao, em especial daquelas onde deveria haver uma massa pensante de primeira linha.
Certa feita, outro leitor deste JC, ao constatar o boicote da Universidade que o empregava no Brasil quanto aos direitos salariais que tinha durante o periodo em que concluia seu Ph.D. no exterior, escreveu o seguinte:
‘...ha’ aqueles que escolhem uma titulacao apenas; ha’
aqueles que escolhem uma pos-graduacao sem estresse, falando o mesmo idioma,
sob as leis e cultura que conhece e, de certa forma, proxima dos amigos
e familia; e ha’ aqueles que escolhem tentar buscar o que imaginam ser
o melhor para sua formacao e contribuicao futura ao pais, mesmo que saibam
de todo o estresse a ser enfrentado - sao os generalisadamente chamados
turistas, mas que de forma bem pouco oportunista tiveram a coragem de
batalhar por um doutorado em terras estrangeiras, sob
milhoes de dificuldades, inclusive a de provarem aos colegas que nao sao
seus inimigos, mas parceiros de luta por uma Universidade melhor.’
Assim como o referido colega, e diferente de muitos dos recem-doutores que tem se pronunciado acerca da evasao de cerebros e de todos esses planos ridiculos que nosso governo tem inventado para mascarar o desemprego dessa classe, eu sai do Brasil apos ja’ ter um emprego numa Universidade Federal.
Por isso, posso dizer que so’ o emprego nao basta, nao resolve a questao da contribuicao e da cidadania dos recem-doutores. Muitas vezes nao nos e’ possivel, ainda que empregados, aplicar sequer a minima parcela do que aprendemos em nossos treinamentos no exterior.
Para isso, seria necessario que fizessemos parte de departamentos e instituicoes coesos, com metas de pesquisa e colocacao das areas de cada profissional definidas ate’ a nivel de reitorias.
Instituicoes onde apoio logistico e administracao fossem encontrados quando buscados, ou pelo menos que nos fosse permitido participar de sua criacao se nao existissem.
Partimos para nossos treinamentos sim, mas quando retornamos e’ possivel que sequer possamos mais dispor de uma mesa e cadeira, ou, se lutamos para manter o que nos era disponivel, somos considerados presuncosos e mal agradecidos!
Enfim, nessas instituicoes sao imensos os obstaculos criados por aspirantes a caciques e caciques de fato. Muitas vezes eles nem pertencem ao quadro de professores/pesquisadores, mas lhes foi delegado algum poder por instancias superiores.
Engavetam processos, retardam o tramite de documentos, omitem informacoes e ate’ impedem que simplesmente se acesse profissionais com determinadas atribuicoes na linha hierarquica, algumas vezes tambem coniventes.
E em tempos de Internet, podem ate’ invadir o cerne de maquinas e ler informacoes que deveriam ser confidenciais, isso quando os servidores ainda funcionam!
O principio da imparcialidade, tao inerente da democracia, raramente e’ observado - ainda que esse substantivo seja um dos cliches mais frequentemente alardeados nos discursos politico-academicos.
Nessas circunstancias, o disperdicio de energia envolvida nas disputas de um poder obsoleto (haja visto nossos salarios!), alem da vaidade pura e simples, sao, de fato, mais fortes do que qualquer intencao um pouco mais altruista de alavancar o setor e a sociedade como um todo.
Seria importante que os seis mil recem-doutores pudessem juntos assumir posicoes imediatas nas IFES, pois nao seriam tao sos em suas lutas.
Aos recem-doutores empregados nao basta apenas gastarmos horas escrevendo e ate’ aprovando projetos, ministrando muitas aulas e disciplinas novas, nem tao pouco participarmos de congressos que nos permitam formar intercambios no proprio pais - temos que vender a nossa alma se quisermos tentar conquistar o minimo que precisamos para aplicar parte do treinamento que recebemos.
Mas sera’ que alguem que viveu 4-6 anos em paises onde uma carta e ate’ um bilhete representam documentos juridicos do mais alto valor, onde o ‘nao lesar o proximo como nao desejaria ser lesado’ e’ um principio categorico, onde a imoralidade e corrupcao de qualquer nivel leva ate’ ministros para a cadeia comum, onde a palavra de um homem tem um valor moral inestimavel, onde qualquer situacao onde se sente prejudicado ou valorizado pode ser clamada atraves da linguagem escrita e necessariamente se recebe-se um retorno e providencia oficial, enfim, alguem que aprendeu muito sobre cidadania pode ser solicitado a emburrecer da noite para o dia e prostituir o cerebro para um sistema academico omisso, falido e cheio de pobres vaidades?
E’ muito importante que se empregue os recem-doutores todos, mas seria relevante que isso ocorresse onde a competencia nao fosse esmagada pela necessidade da bajulacao, e onde a execucao da ciencia nunca fosse associada ao narcisismo de alguns profissionais com talento para o circo, mas ‘a elegancia e perfeicao das ideias, resultados e descobertas capazes de contribuir com a sociedade.
Enquanto houver quem goste de dirigir um Mercedez em ruas
esburacadas e cheias de miseraveis nos sinais, teremos recem-doutores pseudo-empregados
ou desempregados no pais, e teremos doutores brasileiros no exterior frustrados
por nao poderem trabalhar decentemente na terra onde nasceram.