Leitora tenta responder a seguinte
pergunta: “Voltar para que?”, em relacao a fuga de cerebros, Jornal da
Ciência Eletrônico (JC E-Mail), 13/julho/2001 - No. 1830 -
Notícias de C&T - Servico da SBPC
Mensagem de Jimena Felipe Beltrao,
bacharelada em Comunicacao pela UFPA, mestre em Jornalismo pela University
of Missouri, Columbia, EUA e Ph.D. em Ciencias Sociais pela University
of Leicester, Inglaterra (e-mail: [email protected])
Ha’ muito gostaria de fazer um comentario sobre a experiencia da pos-graduacao. Sob o risco de soar como lamento, agora me atrevo a faze-lo.
O estimulo para o comentario veio ao ler as noticias sobre o lancamento do Profix do CNPq e sobre a fuga de cerebros, na edicao do ‘JC E-Mail’, de 12/7. E gostaria de fazer um exercicio em responder a pergunta:
‘Voltar para que?’
. Para se readaptar e ouvir a pergunta de amigos e inimigos (estes sao muitos depois de voce ter morado - na cabeca deles, ter feito turismo - fora do pais enquanto fazia a pos): Para que voltou? Aqui nao tem ‘campo’?
. Para esperar um concurso publico que nao vem.
. Para se debater e bater de porta em porta.
. Para obter bolsa e auxilios – obedecidas as prioridades por area de conhecimento, por regiao, por interesse institucional etc.
Para depois de mais dois anos na qualidade de bolsista (foram cinco na pos-graduacao), ter de observar intersticios e mais uma vez:
. Bater de porta em porta.
. Gastar o que nao se tem no envio de curriculum vitae para um sem-numero de instituicoes, empresas e particulares.
. Receber algumas ofertas indecorosas tanto em termos de trabalho, como em termos de remuneracao.
. Assistir a agonia dos que querem ajudar, mas se veem de maos e pes atados.
. A pensar se algum dia la’ pelos 50, vai se ter uma casa, uma vida decente com direito a seguranca financeira, plano de saude, ferias a cada 12 meses etc. E sabem por que? Porque como bolsista nao se pode comprovar renda para fazer qualquer tipo de aquisicao; porque a nao ser com documento do orgao concedente da bolsa, nao se pode abrir conta em banco. E isso e’ ser um quase-cidadao.
Mas se volta
E se volta, sabem por que? Porque a despeito de todas as evidencias cientificas (as estatisticas por regiao, por area de conhecimento, os Profix, os Pronex, os Programas de Pos-Graduacao), quem saiu sem vinculo e continua sem ele tinha um compromisso que quem ficou e continua em seu comodo lugar (desculpem as injusticas involuntarias) nem sempre tem. Qual e’ o compromisso?
Ora, no lugar de onde venho - e so’ a partir dele falo, afinal que e’ o referencial primeiro – era, e’ e sempre sera’ importante ter uma formacao que va’ alem da graduacao; que permita momentos de sistematizacao, que a rotina nao permite; que permita ter perspectiva que a distancia em muito ajuda a apurar; que proporciona o amadurecimento de ideias e atitudes.
Mas tudo isso sem ressentimentos. Sim, porque, e’ logico, uma carta destas ainda que baseada em experiencia que com certeza nao e’ unica, e’ um desabafo.
Nao se preocupem os contribuintes que bancam nossos estudos. Continuo, a despeito do status de sem vinculo, a contribuir com o que amealhei de conhecimento, de experiencia.
Dou pareceres, leio trabalhos, empresto e indico bibliografia, e faco isso com saudades do que tive enquanto estudante, quando nem todas as portas se abriam.
Faco, por saber como e’ dificil. Afinal, quando nao valha para outra coisa, vale a experiencia. Mas vale a pena e direi sempre isso, defendendo o direito de acesso ‘a uma formacao estendida.
E vale a pena, pelos que seriamente trabalham para construir
conhecimento e manter de pe’ os programas de pos-graduacao, os programas
de bolsas, e a brigar para que a Universidade publica continue a dar oportunidade
aos que nao podem e nao devem pagar mensalidades de um ensino particular
nem
sempre confiavel.