Movimento dos novos Doutores Brasileiros publica carta na revista "Nature": "O Brasil tem o talento: basta que nos permitam trabalhar"
 

Apresentamos a traducao da carta de recem-doutores brasileiros, publicada na secao de cartas (pagina 16) da revista inglesa "Nature", volume 413, numero 6851, de 6/9/2001:
 

"O Brasil tem talento: basta que nos permitam trabalhar. Pesquisadores frustrados buscam apoio da comunidade científica internacional."
 

Diferentemente da Europa ou EUA, onde a demanda por profissionais com PhDs e ' relativamente baixa no mercado cientifico, no Brasil ainda temos grande demanda por PhDs em posicoes de pesquisa, principalmente nas Universidades, atualmente com elevada carencia de pessoal. Ainda assim, temos um problema dramatico, uma vez que estas posicoes nao estao sendo preenchidas. O Brasil tem uma populacao de quase 169 milhoes de pessoas, 0.02 % dos quais tem doutorado. Grande parte da pesquisa cientifica e' feita nas 52 Universidades Federais, sustentadas pelo Governo Federal, onde atualmente ha' falta de pessoal para ensino e pesquisa. Areas como ecologia, sociologia, economia, historia e engenharia requerem pesquisa aplicada e basica em diversos aspectos tratando de problemas nacionais urgentes.

Entretanto, nenhuma posicao academica foi oferecida desde um decreto governamental (Artigo 3, Decreto 2.373) de 10 de novembro de 97. Em quase quatro anos, novas posicoes permanentes tem sido sistematicamente canceladas, pondo a perigo tanto as Universidades publicas quanto a pesquisa basica. Esta politica do governo brasileiro significa que uma geracao de jovens doutores estara' perdida para a pesquisa. Entre 98 e 99, por exemplo, somente 1,481 novos doutores foram adicionados ao corpo docente das 52 Universidades Federais, enquanto que neste mesmo periodo, 8.790 estudantes brasileiros obtiveram um PhD. Estes jovens doutores sao o resultado de decadas de investimento por parte do Governo brasileiro; alguns obtiveram seus PhDs nos melhores centros científicos mundiais. Cada um destes estudantes custa ao Brasil cerca de US$ 22,680 por ano quando estudando fora do pais, e US$ 7,250 por ano quando estudando no Brasil. De acordo com o CNPq, o Brasil gastou US$ 65.631.910 em 98, e US$ 38.708.594 em 1999 (um investimento significativamente menor que em anos anteriores) em bolsas.

Esta e' a primeira vez que tantos cientistas, tao bem treinados, estao disponiveis para o mercado no Brasil, com o potencial de satisfazer as necessidades de nosso pais em varias areas da ciencia. Eles deveriam estar contribuindo para uma melhora da posicao brasileira no cenario cientifico internacional, abrindo também oportunidades para novas iniciativas e para integracao internacional.

Apos varios protestos no inicio deste ano, e de longas negociacoes com as Universidades, o Governo brasileiro parecia disposto a melhorar a situacao. Todavia, num decreto lancado em 20 de marco (Portaria 63/2001), o Governo proibiu quaisquer novas contratacoes nas Universidades Federais, mesmo para contratos temporarios. Gracas 'a pressao dos Reitores das Universidades Federais, porem, logo depois o Governo voltou atras e renovou a promessa de abrir 2000 posicoes emergenciais, de um total de 6000 necessarias.

Ate' agora, nada ocorreu, e o unico ato concreto e' o decreto impedindo as contratacoes. O Governo parece estar tentando ganhar tempo, algo de que nossas Universidades não dispoem mais. Ha' pouca forca politica em nossa comunidade cientifica para protestar de forma a ser ouvida. Nos decidimos mobilizar esta comunidade para mostrar ao Governo que ha' um interesse publico no desenvolvimento da ciencia no Brasil, e que há' tambem uma forca de trabalho qualificada para ajudar o pais a superar seus problemas sociais e economicos.

Leitores interessados em apoiar nossos esforcos podem contactar Sérvio Ribeiro atraves do e-mail [email protected]
 

Assinam a carta: Servio P. Ribeiro, Depto. de Biologia Geral/ICB, UFMG; Milton de S. Mendonça-Junior, Laboratório de Ecologia de Insetos, Depto. de Zoologia, UFRGS; Edesio M. Barbosa, Laboratoire Environnement et Mineralurgie, Franca; J. Adauto de Souza Neto, Depto. de Geologia, Centro de Ciencias Exatas e da Terra, UFRN
 

Fonte: Jornal da Ciencia (JC E-Mail), 12/Setembro/2001 - N° 1872 - Noticias de C&T - Servico da SBPC
 
 
 

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