Nota de Repúdio ao Artigo publicado em "O Estado de São Paulo"
Mensagem de Sérvio Pontes Ribeiro, Recém-Doutor,
do Depto. de Biologia Geral/ICB/UFMG e do Movimento dos Jovens Doutores
Brasileiros
"Um absurdo a falta de visão crítica do artigo transcrito no 'JC E-Mail', de 24/4, publicado em 'O Estado de SP', de Eduardo Nunomura e Paulo Sotero.
Enquanto o Manifesto dos Jovens Doutores encontra resistências para alcançar o grande público pela mídia (salvo raras exceções, como a Folha de Ciência do JB, de 22/4), estes dois jornalistas aparecem vendendo a idéia de que o Brasil virou um paraíso para os cientistas formados.
Não é preciso re-editar o manifesto para ver que a situação não é esta.
Basta olhar a Portaria Interministerial 63/2001, que proibiu, em 20/3, não apenas as 2.000 vagas efetivas prometidas para as IFES este ano, mas também concursos para substitutos.
A reportagem em questão começa com uma grande inverdade: 'Há uma matéria-prima em falta no mundo todo: cientistas de talento'.
Há enorme massa de pesquisadores do mais alto gabarito submetidos a uma sucessão interminável de bolsas de pós-doutorado porque a oferta de doutores no primeiro mundo é muito maior que a oferta de empregos permanentes.
Tive colegas ingleses que estavam a mais de sete anos vivendo desta forma, e eram cientista de muito talento. A idéia de que os paises do primeiro mundo são capazes de 'roubar' pesquisadores de grande potencial é no mínimo equivocada.
Há, na verdade, como em qualquer mercado de trabalho,
lei de oferta e procura. Por exemplo, ao contrário do Brasil (não
SP, mas Brasil), a Inglaterra, os EUA e outros oferecem uma quantidade
excedente de vagas de pós-doutoramento na perspectiva de eventualmente
prospectar os melhores
pesquisadores, claro.
Mas tal procedimento de forma alguma reflete uma carência de inteligência nestes paises, mas sim uma política de abertura e apoio ao desenvolvimento científico sem fronteiras.
Já no Brasil aparecem ofertas tentadoras de empregos mas sim para grandes medalhões, chefes de programas genômicos e agora, quem diria, para Prêmio-nobelizados.
A próxima falácia desta reportagem tendenciosa, e até perigosa para o desenvolvimento científico nacional, está no alarde do retorno da grande maioria dos recém-doutorados para o país. É claro que a taxa de retorno para o Brasil é grande.
Como os próprios jornalistas lembraram, quem não retorna tem que desembolsar cerca de US$ 100 mil para a Capes e CNPq em ressarcimento aos investimentos feitos neles em bolsas e taxas das Universidades!
O retorno hoje em dia não tem nada a ver com oferta e oportunidades, mas sim com imposição judicial!
Nenhuma dúvida que estes 'investimentos em cérebros', mantendo o jargão reducionista e pejorativo do jornal, deveriam voltar e contribuir com o desenvolvimento do país, mas não há, como apresentado no jornal, as condições para tal.
Por outro lado, é sim óbvio que os EUA vão facilitar a entrada de profissionais especializados em seu território, pois, ao contrário do Brasil, eles tem planejamento estratégico em C&T, e oferecem condições para que qualquer bom pesquisador entre no sistema e seja assim selecionado.
Entretanto, insisto na importância do leitor atentar para a verdade dos fatos. O 'emprego' nos EUA ou outros paises ricos, com base em bolsas de pós-doutorado, não é nada mais que um processo seletivo fundamentado em sub-emprego!
Há certa tendência nos doutores brasileiros a passarem uma imagem de sucesso associada à conquista de um pós-doutorado na seqüência de sua formatura, mas quem esteve fora sabe que não há tanto mérito neste fato.
O pós-doutorando é incorporado no projeto de pesquisa de seu chefe, e segue mais alguns anos sem poder desenvolver suas próprias hipóteses e linhas de pesquisa, na maioria dos casos.
Este fato é tão patente que na semana passada um editor da revista 'Nature' começou a circular na Internet um questionário para cadastrar e averiguar a situação de trabalho de doutores em empregos flutuantes.
O próprio Primeiro Mundo começa a ver a falta de estabilidade de seus cientistas mais jovens como grande problema, reflexo talvez da 'Nova Economia'.
Um exemplo. Pensando como doutor em Ecologia formado pelo
Imperial College, e não como brasileiro, vejo de forma muito mais
meritoria estabelecer-me em um pais em desenvolvimento, de diversidade
tropical e sérios problemas ambientais e sociais, do que permanecer
na prestigiosa sede, contribuindo
com as pesquisas de minha orientadora.
Surge talvez aqui um outro lado abandonado nesta discussão absurda exposta pelo Estado de SP.
As linhas de pesquisa ditas promissoras no Brasil, em centros de excelência ou nos inacreditáveis 'Institutos do Milênio', agraciam pesquisas que passam longe, muito longe, das soluções necessárias para a população carente brasileira.
São pesquisas de retorno financeiro a médio e longo prazo, e retorno social provavelmente mínimo.
Sem desprezar a necessidade veemente do Brasil participar de pesquisas de ponta (e acredito mesmo na necessidade desta participação para nossa sobrevivência tecnológica), será que não deveríamos, parte de nós, eventualmente a maioria, ser financiados para cuidar de nosso quintal cheio de misérias?
Entretanto, a realidade é inversa àquela apresentada pelos jornalistas. O governo corta verbas e anula a maioria das chances para um novo doutor conseguir seu próprio recurso, e ajudar a desenvolver um centro de pesquisa carente, ou decadente.
Se voltamos ao Brasil com estes intuitos maiores, e não pelo medo de ressarcimento do valor da bolsa, descobrimos aterrorizados que não teremos tão cedo, ou nunca, a chance de estabelecer e realizar este sonho.
Pior, nos deparamos com cientistas e professores universitários antigos e enrustidos, fazendo vista grossa aos fatos e achando bonito o crescimento setorizado da ciência brasileira.
Este padrão de financiamento em nada contribuirá para um desenvolvimento igualitário neste país afora: mandem os recursos para um lado, e os novos doutores para o outro!
Ou pensam que absorverão mais de 4.000 cabeças com idéias próprias nestes centros de excelência? Honestamente, este está se tornando um padrão de divulgação dos fatos na ótica paulista.
Enquanto SP não parar de apreciar seu belo umbigo com pinta de desenvolvido, o Brasil sub-desenvolvido deveria parar de aceitar suas verdades como generalidades válidas.
Diante da caótica situação consolidada mais uma vez pela Portaria 63/2001 dos Ministérios da Educação e Economia, a proibição de contratações de professores só tem resultado na insuportável conivência das Universidades Federais.
Há hoje no Brasil Pró-Reitores de Graduação ventilando um projeto de ensino entre Universidades: mais de uma Universidade fornece os cursos para um aluno se formar.
Assim, sedimenta-se o fechamento do mercado aos jovens
doutores, aceita-se a imposição do governo, condena-se as
Universidades ao ostracismo, e os jovens pesquisadores brasileiros a largar
a ciência para dar aulas em escola particulares ou a serem sub-empregados,
salvo honrosas, porém ainda obviamente, exceções."
Fonte: Reportagem n° 17 publicada no JC-Email
(Jornal da Ciência Eletrônico) da SBPC, n° 1779, de 2 de
Maio de 2001.