Doutores brasileiros protestam
na "Nature"
Na semana em que governo, cientistas e industria se reunem para discutir os rumos da pesquisa e da inovacao, uma classe de pesquisadores qualificados toma a palavra para protestar, pela dificuldade de encontrar colocacao: os recem-doutores. Um grupo de quatro jovens pesquisadores brasileiros conseguiu lancar o seu manifesto na revista cientifica "Nature" (www.nature.com).
A carta, publicada na edicao do ultimo dia 6, procura chamar a atencao da comunidade cientifica internacional para a condicao "eternamente temporaria", nas palavras de Edesio Barbosa, um dos autores do manifesto, do jovem pesquisador brasileiro.
Segundo Barbosa, atualmente fazendo doutorado em geociencias no INPL (Institut National Polytechnique de Lorraine), Franca, a falta de postos efetivos para doutores no Brasil acarreta varias dificuldades para o avanco da ciencia e da tecnologia no pais.
"As condicoes de trabalho dos recem-doutores sao desestimulantes. A estrutura de pesquisa na maioria dos Depto.s nas Universidades e' precaria e, para mudarmos tal situacao, seria vital que tivessemos algum vinculo mais definitivo com tais instituicoes. Um recem-doutor nao e' um estudante profissional, mas um profissional que estuda. A postura do nosso governo so' estimula a fuga de cerebros", diz Barbosa.
Na carta publicada na "Nature", os pesquisadores afirmam que, de 1998 a 1999, somente 1.481 novos doutores conseguiram colocacao nas 52 Universidades federais, embora 8.790 estudantes tenham concluido o doutorado nesse mesmo periodo.
"Essa e' a primeira vez que tantos cientistas tao bem
formados estao disponiveis no Brasil, com o potencial de suprir as necessidades
de nosso pais em varias areas cientificas", escrevem os autores.
O que diz o CNPq
"Sem duvida, essa afirmacao e' verdadeira: nunca tantos
doutores foram formados no Brasil por ano, e as instituicoes tradicionais
nao estao conseguindo absorver essa demanda", diz Lelio Fellows Filho,
chefe de
gabinete da presidencia do CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico).
Ele ressalva, contudo, que existem iniciativas do governo para permitir que os 5.000 novos doutores formados a cada ano trabalhem no pais. Fellows cita as bolsas de desenvolvimento cientifico regional, no valor de R$ 3.000 mensais, e tambem o Profix (Programa Especial de Estimulo 'a Fixacao de Doutores), com bolsas no mesmo valor, como formas de mitigar o problema.
Os dois programas tem capacidade para atender entre 500
e 600 pesquisadores por ano e, de acordo com Fellows, devem ser ampliados.
"Estamos em contato com as agencias estaduais de fomento e esperamos
ampliar os projetos para 2.000 vagas anuais ate' a metade
do ano que vem." Segundo Fellows, a expectativa e' que a parceria com empresas
no Profix, alem da participacao de instituicoes publicas de pesquisa, ajude
a diminuir o problema.
Novas vagas
No entanto, bolsas nao sao a solucao para o problema,
uma vez que sao temporarias, nao estabelecem nenhum vinculo empregaticio
e nao garantem nenhum beneficio social. "Trata-se de um paliativo que nao
resolvera' o problema do deficit de vagas e muito menos evitara' a fuga
de cerebros", diz Barbosa.
Em julho, o Ministerio da Educacao propos a abertura
de concurso para preencher 2.000 vagas nas Universidades federais. Calcula-se
que o deficit de professores seja de cerca de 7.000.
"No entanto, nada ate' o momento aconteceu", afirmam os
autores no artigo da "Nature". Segundo Barbosa, a proposta do manifesto
e' chamar a atencao para a condicao temporaria do jovem pesquisador no
Brasil. "Queremos uma politica governamental que tenha uma previsao de
que o investimento em
doutorados implique postos para os doutores formados.
Pesquisa nao se faz de um dia para o outro, e' preciso prever o fluxo de
varias geracoes de pesquisadores para se construir algo."
O grupo mantem o site www.geocities.com/jadauto.geo/manifesto.html,
na qual estao listados 252 pesquisadores que apoiam o manifesto. (Folha
de São Paulo, 20/9/2001)