Circulo Vicioso

 

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

 "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar o transparente lume,

Que, da grega coluna à gótica janela,

Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela

Claridade imortal, que toda a luz resume!"

Mas o sol, inclinando a rútila capela:

"Pesa-me esta brilhante auréola de lume

Enfara-me esta azul e desmedida umbela

Porque não nasci eu um simples vaga-lume?"

Machado de Assis

 

   Horas Vivas

 

Noite: abrem-se as flores . . .

Que esplendores!

Cíntia sonha seus amores

Pelo céu.

Tênues as neblinas

Às campinas

Descem das colinas,

Como um véu.

 

Mãos em mãos travadas,

Animadas

Vão aquelas fadas

Pelo ar;

Soltos os cabelos,

Em novelos,

Puros, louros, belos,

A voar.

 

 "Homem, nos teus dias

Que agonias,

Sonhos, utopias,

Ambições;

Vivas e fagueiras,

As primeiras,

Como as derradeiras

Ilusões!

 

 "Quantas, quantas vidas

Vão perdidas,

Pombas mal feridas

Pelo mal!

Anos após anos,

Tão insanos,

Vêm os desenganos

Afinal.

 

 "Dorme: se os pesares

Repousares,

Vês? — por estes ares

Vamos rir;

Mortas, não; festivas,

E lascivas,

Somos — horas vivas

De dormir.   

Machado de Assis

 

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