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O nosso mundo

 

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno

Poisando em ti o meu olhar eterno

Como poisam as folhas sobre os lagos...

 

Os meus sonhos agora são mais vagos

O teu olhar em mim, hoje é mais terno...

E a Vida já não é o rubro inferno

Todo fantasmas tristes e presságios!

 

A Vida, meu amor, quero vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,

Bocas unidas demos de bebê-la!

 

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...

O mundo, Amor!...As nossas bocas juntas!...

Florbela Espanca

 

Nocturno

 

Amor! Anda o luar, todo bondade,

Beijando a Terra, a desfazer-se em luz...

Amor! São os pés brancos de Jesus

Que anda pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade

Das ilusões e risos que em ti pus!

Traças em mim os braços duma cruz,

Neles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma que eu te dei, cheia de mágoas,

É nesta noite o nenúfar de um lago

Estendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,

Fecha-os num beijo dolorido e vago...

E deixa-me chorar devagarzinho...

Florbela Espanca

 

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca


Lágrimas ocultas...

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q`rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

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