Bruxelas, Bélgica, 16 de Novembro de 2004.

Relatório 27 / 2004

Pelos Campos de Batalha da I Guerra Mundial

Acabamos de chegar de um estágio de Orientação, realizado pelo nosso Clube, o ASUB (Associação Esportiva da Universidade de Bruxelas), no período de 11 a 14 de novembro.Trata-se do 3o estágio do ano; o 1o em Engreux, sul da Bélgica, em fevereiro, o 2o no sudeste da França, em Gérardmer, em maio e, este último, o 3o, em Prémontré, no norte da França.

A data: 11 de novembro (de 1918), quinta-feira, grande feriado na Europa, dia do armistício da I Grande Guerra Mundial; feriado prolongado de quinta (11) a domingo (14). Voltarei à data e contarei algo interessante.

O local: Prémontré é uma cidade localizada a +- 80 km ao nordeste de Paris e a 250 km de Bruxelas e é toda circundada por uma floresta que se chama Floresta de Saint Gobain. É como toda floresta da Europa, com grandes árvores da espécie carvalho, "sapin" (tipo pinus) e "hêtraies" (tipo bracatinga, bem mais grossa e frondosa), bem permeável e possuindo uma vegetação rasteira formada de samambaias e muita, mas muita mesmo, amorinha silvestre. O terreno é pouco movimentado, chegando um percurso, no máximo, a ter um desnível de 150 metros. O solo, de terra, quase sem pedras, exceto por uma e outra isolada, coberto de folhas em decomposição, o que também é o normal aqui nas florestas da Europa, principalmente nesta época, quando as árvores, todas, estão perdendo as folhas (uma curiosidade; aqui, quando alguém pede informações sobre qualquer área, certamente a primeira pergunta é qual o tipo e constituição do solo; então, coloquem quando fizerem os convites dos campeonatos daí, como ele é !!!). Muito úmida a floresta, com banhados até em cima das dobras do terreno. A região é chamada de Picardie e é grande produtora de grãos e de beterrabas, a branca, pois aqui na Europa o açúcar é feito dela.

O alojamento: um velho château, que é utilizado por equipes ou excursões, que fica numa pequena cidade chamada Merlieux (as cidades aqui são bem perto uma da outra, chegando mesmo a terminar o perímetro urbano de uma e começar o da outra). O velho casarão possui 3 andares, com +- 30 quartos, no 2o e no 3o, uns para duas pessoas, outros para três e outros para seis, em beliches. No térreo, tem uma excelente cozinha e excepcionais cozinheiras francesas e, um bom restaurante. Possui duas salas de TV, uma boa sala de reunião, uma sala de informática e um pequeno bosque no seu entorno, que é mapeado.

O ponto falho é o banheiro; não por ele ser fora do quarto, pois aqui isto é o normal, mas pelo seu tamanho. Juro para vocês, passei todos os dias sem esfregar o pé, porque não tinha espaço suficiente para abaixar dentro do box; coisa de europeu, grandes casas e quartos e pequenas instalações sanitárias.

As condições climáticas: estiveram ótimas, por assim dizer ... Não choveu, saiu até um sol frio e a temperatura esteve em torno de 6 ou 7 graus durante o dia; à noite, um pouco mais frio.

A viagem: fomos eu, a Kika, o nosso já velho amigo Philippinho e um "raríssimo" novo amigo, chamado Daniel, que mora na cidadezinha de Enghein, próximo a Bruxelas. No carro do Philippinho, um Audi A3, perua, bordô, um "avião"; a viagem durou +- 2h30m, em magníficas estradas e belíssimas paisagens. Chegamos lá para o almoço e ... almoçamos !!! (?). Na volta, igual, porém passamos por locais históricos da I GM; voltarei a este assunto.

Os participantes: 32 do ASUB e 3 da Federação Francesa, que nos deram os mapas da região, 4 no total: Merlieux, Prémontré, La Croix des Sargeants e Septvaux. Presentes alguns dos melhores atletas da Bélgica, masculino e feminino, um bom ambiente, alguns em família outros "solteiros(as)" e, como sempre acontece por aqui, todos para ganhar, nunca só participar. O Chefe foi, novamente, o Secretário Executivo da FRSO (Federação Regional de Esportes de Orientação), o Jean Noël, um experiente e excelente atleta.

O estágio: Como sempre, muito puxado, com atividades de manhã, de tarde e de noite.Vamos ao Quadro de Trabalho:

11 de tarde: "ateliers rouge, noir e bleue". É um trabalho onde são constituídos 3 grupos, liderados pelos três atletas mais experientes. Cada grupo monta um percurso de aproximadamente 3 km e se reúnem num ponto comum distante da saída, onde ficaram os carros e os que foram fazer caminhada. Quando o Chefe chega, ele embaralha os mapas e cada um faz um outro percurso, diferente do que montou e retornam para os carros. À noite jantar e animação siberiana ... nada, só cama !!!

12 de manhã: alvorada às 0730h, café às 0800, saída às 0900. Exercício; revezamento. O grupo, dividido em equipes de 3, um forte , um muito forte e um fortíssimo atleta. Feito o sorteio, dentro de cada grupo, são constituídas as equipes que partem, todos ao mesmo tempo, para cumprir três percursos de +- 4 km. O vencedor é tirado pela soma dos tempos.

12 de tarde: após o almoço, 1200h, saída às 1300h. Exercício: memória. Aquele exercício onde existem pelo terreno diversos pontos, locados no mapa, alguns em vermelho e outros em preto, numa média de +- 1 vermelho para cada 2 ou 3 pretos; nos pontos vermelhos existe uma carta com todos os pontos, nos pretos só o prisma. Você parte e estuda como executar o maior número possível de pontos no tempo estabelecido de 1 h; sem carta, só com a bússola e o que você conseguiu gravar. Tem atleta aqui, que consegue gravar até 5 rotas, sem ver a carta; eu consegui, apenas em uma das pernadas gravar 3 e olhe lá, dei sorte !!!.

12 de noite: após o jantar às 1900h, fizemos o percurso noturno. Pequeno mas serviu como boa experiência, ainda mais que compramos lâmpadas de cabeça, novas e ótimas; dava para ver até a 20 metros de distância e não incomodam, pois são anatomicamente presas na cabeça. Após o percurso, cerveja !; aliás, todo os espaços entre exercícios era cerveja e nas refeições 1 garrafa do bom vinho francês para cada duas pessoas.

13 de manhã: horários como no dia anterior. Exercício: percurso clássico. Normal, com aproximadamente 6 km, procedimento como numa prova normal.

13 de tarde: almoço no mesmo horário. Exercício: "moulin". É o nosso radial; um círculo menor de 3 km para as mulheres e um maior, de 5,5 km para os homens. Cada dois atletas montam um determinado ponto, já locado na carta mãe. Os pontos são locados, em um círculo, cujo centro será a partida e distam uns dos outros e da partida, +- a mesma distância. Após o retorno de todos, o chefe prepara a carta sendo que cada atleta sai para um ponto diferente e correm realizando os pontos como em um círculo, uns para a direita e outros para a esquerda; desta forma, todos fazem o percurso sozinhos e com a mesma distância. Atacar o ponto ou correr em sentidos opostos, por aqui é considerado a mesma coisa em termos de dificuldade técnica ou física. Foi pedreira !!! E, ainda, o cansaço já vai se acumulando, proveniente dos exercícios anteriores e do desgaste com o frio.

13 de noite: crítica na sala de reuniões, abordando a realização de todos os exercícios, melhores rotas, macetes, etc. Após, Carla e eu providenciamos uma grande mesa no refeitório e como eu havia conseguido comprar limão verde, raro por aqui, fizemos caipirinha de vodka (pinga é artigo de luxo), com açúcar e enfeite na borda do copo e, uma muito requisitada e atentamente assistida, aula de como bem fazer e tomar a "dita cuja". Jantamos, após o que, fizemos um show de entrega de prêmios (aqueles que venho fazendo de madeira e que agora estão com aparência de feitos por profissional, tal a boa apresentação). Como sempre, escolhemos para ganhar os prêmios aqueles que fizeram alguma raridade, como retornar de carro ou correr com bússola de navegação marinha e, como sempre também, entregamos alguns "sérios" para o montador e pessoas que se destacaram pelo trabalho ou por qualquer outro motivo. Pela primeira vez vimos o pessoal às gargalhadas; até umas mais entusiasmadas fizeram uma sessão de canto muito animada, apesar de termos entendido muito pouco ... achamos que foi o "efeito caipirinha" !!!

14 de manhã: caça aos prismas. É a nossa fazenda de Orientação. Excelente exercício e muito boa a carta. Tivemos 1h15m para realizar a caça a 20 controles. Cada minuto chegado depois do tempo, o atleta perde um ponto achado; a cada 15 segundos considera-se um novo minuto.

14 de tarde: após o almoço, retorno para Bruxelas.

Resultados: excelentes os nossos resultados neste estágio; não são separados masculino de feminino, pois tem mulher que é "fera" e nem se leva em consideração a categoria.

 

Segue:

Atelier - não é contado tempo, pois é percurso escola;

Revezamento - minha equipe - 1o lugar; meu tempo o melhor da perna;

- equipe Carla - 4o lugar; tempo na perna, 6o lugar;

Memória - fiz 11/20 pontos, 6o lugar;

- Carla fez 13/20, 5o lugar;

Orientação Noturna - fiquei em 3o lugar;

- Carla em 7o lugar;

Percurso Clássico - 9o lugar;

- Carla 15o lugar;

Moulin - fiquei em 9o lugar;

- Carla em 8o lugar;

Caça aos pontos - fiz 16/20 pontos em 1h - 7o lugar;

- Carla fez 14/20 pontos em 1h14m - 20o lugar.

Turismo. Espetacular você fazer turismo e reconhecer a História durante a realização de um percurso de Orientação !!! No trecho de carta que estou mandando, em anexo, você pode ver o ponto 1; é uma casamata, ainda em bom estado, do tempo da 1a GM, ponto forte de uma posição defensiva que guardava o cruzamento de estradas onde é a largada/chegada. Se observar com atenção, verá ao sul da casamata, as trincheiras que compunham o esquema de defesa e que se desenvolvem no sentido leste-oeste, entre ela e a estrada. É incrível a quantidade, o comprimento e a profundidade das trincheiras. Os buracos, são locais de impacto de granadas de artilharia.

No domingo à tarde, quando retornávamos, resolvemos conhecer o famoso Caminho das Damas e a mais famosa ainda Caverna do Dragão. O Caminho das Damas (Ver em anexo), é uma estrada que liga, a grosso modo, Soissons a Craonne, num trecho de +- 40 km. Tem este nome porque duas das filhas de Luís XV, Adelaide e Vitória, "Dames de France", utilizavam esta estrada, nos idos anos de 1770/80 para, de Paris, fazerem visitas à Vouclair, uma abadia que fica em Bouconville, a 25 minutos de Reims. Como este trecho de estrada passava, longitudinalmente, sobre toda a longa crista de uma elevação e estava sempre em mau estado, ela foi calçada com paralelepípedos, para facilitar a passagem da carroça real. Sobre esta estrada e mesmo antes dela ocorreram grandes fatos, como no ano 57, quando César prendeu em uma só batalha, chamada Batalha de L’Aisne, 100.000 gauleses. Em 486 o governador romano Syagrius foi derrotado por um rei franco chamado Clovis, próximo a Soissons. Por aí passaram, em 1429, Joana D’Arc e o Rei Charles VII, em direção a Corbeny. Aí também, em 1814, Napoleão obteve sua última vitória, antes da derrota em Waterloo, quando bateu, na batalha de Craonne, os russos e os prussianos. Neste caminho, em seu ponto mais dominante, existe uma grande caverna, de onde, desde os tempos romanos, extraía-se pedras para as construções. Em janeiro de 1914, quando os alemães invadiram a França, após a vitoriosa batalha do Marne, foram detidos na região de Craonne e, depois de alguns combates, ocuparam os pontos dominantes do Caminho das Damas, inclusive, em janeiro de 1915, a caverna ali existente. A 1a GM é caracterizada pela guerra de trincheiras, com pouco ou nenhum movimento. Como os franceses ocuparam as alturas depois do Caminho das Damas, para defender, a qualquer custo, Paris, que está a menos de 100 km dali, os alemães passaram a fortificar a região, bem como a usar, como posto de comando, hospital, depósito de gêneros, de munições e local de descanso das tropas, a velha caverna, à qual deram o nome de Caverna do Dragão (Drachenhohle)- (Ver em anexo). Fato curioso é que, em junho de 1917, mais de 2 anos depois da ocupação, utilizando gás mostarda e asfixiantes, os franceses tomaram a caverna, que foi contra-atacada um mês depois, pelos túneis da retaguarda, determinando uma situação interessante; a metade norte da caverna em poder dos alemães e a metade sul em poder dos franceses, que viveram, mais de um ano, se matando pelas frestas das paredes de pedras que construíram ... desagradável convivência !!! De 11 para 12 de outubro de 1918, um mês antes do armistício, os franceses expulsaram definitivamente os alemães.

Como vocês puderam perceber, quase toda a 1a GM foi lutada nesta região das cartas onde corremos e, por diversas vezes, parei para entrar em uma casamata, ou para olhar mais detidamente uma trincheira ou, ainda, para analisar um sistema de fossos de defesa. Ainda, nesta região, foram utilizados, pela primeira vez, pelos franceses, os carros de assalto; no primeiro combate, dos 128 empregados, 102 foram destruídos pelos alemães, ou pelo terreno. Na região onde está a Caverna do Dragão, em uma área de 50X40 km, existe nada menos do que 30 grandes cemitérios, sendo que os maiores são: 8 franceses, 6 alemães, 4 britânicos e 1 italiano; existe, ainda, o dos russos, dos senegaleses e dos dinamarqueses, totalizando mais de 130.000 tumbas individuais e coletivas. Para se ter uma idéia, iniciada no dia 16 de abril de 1917, na ofensiva do General Nivelle, quando os aliados tentaram inutilmente desalojar os alemães, morreram 115.498 aliados, desapareceram 20.015 e ficaram feridos 65.132.

É muita história para contar; melhor vocês economizarem um pouco de dinheiro e virem aqui para casa, para nós irmos lá ver !!!

Este final de semana estará hospedado aqui em casa o Coronel Assis Brasil, de Cavalaria; teremos muito papo e muita cerveja, acho que misturados com chimarrão ...

Grande abraço para todos

Torrezam e Carla

Anexo: Carta de Prémontre

Croqui do Caminho das Damas

Croqui da Caverna do Dragão

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