ITÁLIA
A CHEGADA DOS IMIGRANTES
A contribuição dos imigrantes no desenvolvimento
brasileiro, que teria grande destaque no processo de
industrialização, teve início no século XIX e deve muito
ao empenho do senador Nicolau de Campos
Vergueiro , um defensor irredutível da mão-de-obra
estrangeira e primeiro empresário a propor normas para
a imigração.
A Guerra do Paraguai (1864) daria ainda um impulso
indireto a este movimento, favorecendo o progresso de
São Paulo com a participação de imigrantes. Grande
centro de abastecimento interno no país desde a
consolidação da feira de Sorocaba, no século XVIII, São
Paulo foi beneficiada pela construção da estrada de
ferro Santos-Jundiaí (1867), que venceu as dificuldades
que a Serra do Mar impunha e viabilizou o
abastecimento do Exército brasileiro.
A ferrovia trouxe lucros para vários comerciantes,
barateando um transporte até então feito por tropas de
mulas e que chegava a representar um terço do valor
dos produtos. Os tropeiros, já sem ter onde empregar
os seus animais de carga, ganharam dinheiro vendendo
as mulas para o governo, que as utilizou para levar
provisões ao Paraguai. Generoso, o mesmo governo
comprava a produção de mantimentos por preços mais
altos do que o normal.
Para completar, a ferrovia, que reduziu os custos do
transporte até o porto de Santos, aumentou os lucros
gerais dos exportadores paulistas e viabilizou a
produção lucrativa de café em outras regiões fora do
Vale do Paraíba, que já apresentava sinais de
esgotamento do solo. Com isso, a Guerra do Paraguai
reforçou rapidamente o deslocamento do centro da vida
econômica para a região do país onde florescia o
movimento em favor da imigração, como uma alternativa
concreta para a produção escravista. Foi a riqueza
gerada pela Guerra do Paraguai que ajudou a superar
as limitações das primeiras experiências de importação
de trabalhadores estrangeiros, lideradas pelo senador
Vergueiro. E já por volta de 1870, São Paulo adotava
uma fórmula que satisfez tanto os imigrantes como os
fazendeiros. O sistema de parceria proposto por
Nicolau Vergueiro foi aperfeiçoado e livrou os colonos
da pesada dívida que eram obrigados a contrair junto
aos fazendeiros, por conta das despesas com viagem e
hospedagem. No novo sistema, as passagens
passaram a correr por conta do governo paulista. Outra
importante modificação na parceria é que, além de
receberem parte da renda obtida nos cafezais de que
cuidavam, os colonos conquistaram o direito de
comercializar os produtos cultivados nas faixas de terra
a que tinham direito.
A melhoria das condições tornou mais atrativa para os
europeus a opção de trabalhar nas fazendas de café do
Oeste paulista. O governo provincial se aplicou no
projeto, investindo na divulgação dessas vantagens,
sobretudo na Itália, e buscando arregimentar o maior
número possível de interessados. O subsídio para as
despesas de viagem tornou-se um atrativo eficiente e
contrabalançava as melhores possibilidades
econômicas existentes nos Estados Unidos,
especialmente no caso dos imigrantes mais pobres.
Tudo isso deu novo impulso à imigração para São
Paulo. O fluxo de mão-de-obra, tímido no início -13 mil
durante a década de 1870, quando o sistema se
consolidava -, começou a aumentar ano a ano. Na
década de 1880, surgiram os resultados: 184 mil
imigrantes passaram pelo porto de Santos.
INFLUÊNCIA CULTURAL
Basta olhar os sobrenomes de alguns dos principais
artistas contemporâneos no Brasil para ter uma idéia da
importância das primeiras gerações de brasileiros com
ascendência italiana na formação cultural do País. Os imigrantes
italianos do final do século 19, mais numerosos que os
portugueses nesse período, já desempenharam um papel
significativo: eram livres, contrapondo-se ao trabalho escravo,
preferiam o comércio à agricultura e o Sul do Brasil
(especialmente São Paulo) ao Nordeste em decadência. Classe
emergente e competitiva, os italianos puderam também impor o
vigor de seu valioso legado cultural.
A presença italiana na cultura do Brasil começou na mesa
– os imigrantes ensinaram os nativos a não jogar fora os miúdos
do gado abatido porque podiam fornecer boas frituras. Também a
carne da cabeça do boi, misturada com a do porco, permitia
aprontar uma mortadela, semelhante à dos irmãos Zapparoli de
Bolonha. Ensinaram ainda que as rãs não são sapos nojentos,
mas batráquios de uma carne saborosa, tolerada pelos
estômagos mais fracos. Por fim, garantiam que um prato de
espaguete, uma bisteca na grelha, um pedaço de queijo
parmesão e um copo de vinho forneciam ao organismo mais
calorias que dez pratos de petiscos, elevando assim a energia
para se trabalhar um dia inteiro.
Os italianos alteraram a fisionomia urbana de São Paulo e
imprimiram sua marca nos costumes. O pacato burgo encheu-se
de vida. Multiplicaram-se os ambulantes a gritar seus pregões
pelas ruas, muitas vezes atrás de carrocinhas. Os tripeiros, por
exemplo, anunciavam suas mercadorias usando trompas. Havia o
engraxate, os vendedores de bilhetes de loteria e de pizza, o
garrafeiro, o agenciador de hotéis e o jornaleiro, que apregoava Il
Fanfulla, La Tribuna Italiana, Il Corriere d’Italia, Il Secolo e outros.
A seguir, a presença marcante dos italianos na cultura brasileira
e, em especial, na paulistana.