Carlos Drummond de Andrade
O tempo passa? N�o passa.

O tempo passa? N�o passa
no abiso do cora��o
l� dentro, perdura a gra�a
do amor, florindo em can��o.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um s� verso e uma rima
de m�os e olhos, na luz.

O tempo � todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu
transcedem qualquer medida.

Al�m do amor, n�o h� nada,
amar � o sumo da vida.
Pois s� quem ama escutou
o apelo da eternidade.
Mundo grande

N�o, meu cora��o n�o � maior que o mundo.
� muito menor.
Nele n�o cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.

Por isso me dispo,
por isso me grito
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livravrias:
preciso de todos.
Sim, meu cora��o � muito pequeno.

S� agora vejo que nele n�o cabem os homens.
Os homens est�o c� fora, est�o na rua.
A rua � enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas tamb�m a rua n�o cabe todos os homens.
A rua � menor que o mundo.

O mundo � grande.
Tu sabes como � grande o mundo.
Conheces os navios que levam petr�leo e livros, carne e algod�o.
Vistes as diferentes cores dos homens.
as diferentes dores dos homens.

Sabes como � dif�cil sofrer tudo isso,
amontoar tudo isso num s� peito de homem...
Sem que ele estale.
Fecha os ohos e esquece.
Escuta a �gua nos vidros,
t�o calma. Nao anuncia nada.

Entretanto escorre nas m�os,
t�o calma! Vai inundando tudo...
Renascer�o as cidades submersas?
Os homens subermos - voltar�o?
Meu cora��o n�o sabe.

Est�pido, rid�culo e fr�gil � meu cora��o.
S� agora descubro
como � triste ignorar certas coisas.
(Na solid�o de indiv�duo
desaprendi a linguagem
com que os homens se comunicam)
(..................................................)
As sem-raz�es do amor

Eu te amo porque te amo.
N�o precisa ser amante,
e nem sequer saber s�-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor � estado de gra�a
e com amor n�o se paga.

Amor � dado de gra�a,
� semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicion�rios
e a regulamentos v�rios.

Eu te amo porque n�o amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor n�o se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor � amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor � primo da morte,
e da morte do vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo
n�o de cultivo alfeio ou de presen�a.
Nada exige nem pede, nada espera,
mas do destino v�o nega a senten�a.
O amor antigo tem ra�zes profundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplantas a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, por�m, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mais pobre de esperan�a.
Mais triste? N�o. Ele venceu a dar,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
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