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Trabalhos / Textos

Saber Científico e Reflexão Filosófica (por Ricardo Sá)
Saber Científico e Reflexão Filosófica (por Tiago Ribeiro)
Poder Científico e Reflexão Filosófica (por Miguel Breda)
Ciência e Consciência - Os limites do Ser Humano   (por Marta Guedes)
Pena de Morte (por Pedro Cabeça Santos)

Reflexão sobre o Pensamento Autónomo ( por 11ºA, E.S.M.L 06/07)
 
    



SABER CIENTÍFICO E REFLEXÃO FILOSÓFICA
Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Filosofia-11º ano
por Ricardo Sá

Introdução
Questionamento da Cultura Científico-Tecnológica
Os Limites da Ciência
A Descodificação do Genoma Humano
A Clonagem
O Aborto
A Exploração Espacial
Conclusão

Bibliografia

     Hoje em dia, vivemos num mundo cada vez mais influenciado pela Ciência, sendo que esta se faz representar sob a forma de tecnologia.

    De facto, a tecnologia é não só um produto da Ciência, mas também um meio indispensável para que esta seja criada. Podemos, assim, distinguir dois mecanismos completamente distintos dentro da tecnologia: o de oferta (que nos oferece aquilo de útil que a Ciência produz e de que nós necessitamos) e, subjacente a este, está o de procura (ao oferecer maiores meios tecnológicos a tecnologia liberta as potencialidades criadoras, o que permite um aumento de cultura e a consequente criação de novos meios tecnológicos).

    Esta interferência da Ciência na nossa vida, é hoje mais forte do que nunca e tal pode ser facilmente verificado se tivermos em conta que mais de metade dos cientistas da nossa história estão hoje vivos. Se a isto juntarmos as descobertas científicas que foram feitas no último século, o facto de algumas delas terem tido consequências catastróficas sobre a humanidade e ainda que, mais recentemente, foi descodificado o genoma humano, podemos, de facto, começar a interrogar-nos sobre o papel da Ciência não só na nossa sociedade, mas também na nossa vida.

    Esta hipótese de questionarmos a Ciência, surge do facto de esta ser uma “fatia” ou parte integrante da vida humana e estar, desta forma, sujeita a problemas humanos (inclusivamente filosóficos) tal como qualquer outro sector da nossa existência.

Surge então outra questão: fará o papel extremamente importante que a Ciência tem na nossa sociedade com que esta esteja acima de qualquer lei? Para além de qualquer limite?

    Mas o questionamento da ciência deve ir mais longe. Devemos tentar saber se o conhecimento Científico corresponde totalmente à realidade, isto é, se ele é objectivo. Este é, em princípio, o grande objectivo da Ciência: fazer uma correspondência total entre o conhecimento científico e a realidade. E é aqui que surge um novo questionamento da Ciência por parte da Filosofia: será que o cientista pode ser responsável por consequências que possam surgir do seu trabalho, quando este consiste apenas no estabelecimento de uma correspondência entre a ciência e a realidade?

    Este trabalho pretende, assim, questionar a Ciência como um todo, o que inclui os seus limites, princípios, poderes e responsabilidades, bem como  o papel que ela tem na sociedade, pelo que nos parece ser de uma actualidade e de uma importância muitíssimo elevadas, pois hoje é quase, ou mesmo, impossível comprar um jornal ou uma revista que não tenha uma notícia relacionada com avanços científicos feitos, nomeadamente, por novas ciências ou, então, com problemas éticos eternamente associados a certas práticas, tais como a eutanásia ou o aborto e, mais recentemente, com a exploração espacial, a clonagem ou a descodificação do genoma humano.

Questionamento da cultura científico-tecnológica

    Como foi dito na Introdução, a Ciência tem, cada vez mais, um papel importante na nossa Sociedade. De facto este papel é tão central que, a maior parte das vezes, é a esta que a Sociedade recorre para tentar resolver todas as dificuldades que se lhe apresentam. Mas a confiança na Ciência, bem como a proximidade desta com a população, têm vindo a diminuir nos últimos tempos, nomeadamente nos últimos cinquenta anos.

    Podemos referir, a título de exemplo, o extremo entusiasmo e enorme confiança que a sociedade Americana dos anos cinquenta depositava na Ciência.

    A descoberta de uma Energia barata e que chegava a todos, a melhoria e banalização da utilização de utensílios domésticos, o aumento da esperança média de vida, a descoberta de produtos, como o DDT que, alegadamente, seriam capazes de modificar completamente a vida de toda a população mundial, transmitiram confiança a todos. Aquando do aparecimento da Energia Nuclear uma nova vaga de confiança atingiu a população que acreditava que, muito em breve, a sua utilização seria tão vulgar como a da Energia Eléctrica.

    Todavia esta situação viria a mudar. Curiosamente, os produtos que tinham sido criados com a clara intenção de melhorar a vida da população mundial vieram a ter repercussões incrivelmente negativas. Os insectos que, alegadamente, seriam mortos com os pesticidas tonaram-se resistentes a estes, levando, assim, à necessidade da criação de insecticidas ainda mais potentes com efeitos devastadores sobre a Natureza; a Energia Nuclear, incorrectamente manuseada, levou a vários acidentes, o mais famoso dos quais o de Tchernóbyl, com repercussões terríveis e que possivelmente serão muito difíceis, ou mesmo impossíveis, de apagar; as modernas técnicas de produção, não apoiadas por outras que tivessem como objectivo a defesa do meio ambiente, levaram a consequências terríveis, como aconteceu, por exemplo, na baía de Minamata.  Estes são apenas exemplos de uma destruição em massa levada a cabo pela população de um mundo fortemente influenciado pela tecnociência. De facto, parece que esta sociedade não consegue conceber um meio de criar um mundo em que não haja buraco do ozono, destruição das florestas tropicais e criar um modo de se consciencializar a si própria que metade das florestas tropicais e um quinto das espécies humanas foram perdidas, quem sabe, para sempre. Na realidade, praticamente toda a face terrestre foi modificada pelo homem e não se encontra na sociedade Ocidental nada que se assemelhe (ainda que vagamente) ao respeito pela natureza que existia nas culturas tradicionais. Verifica-se que hoje apenas uma parte muito reduzida da sociedade se mostra atenta a estes problemas. Organizações como a Greenpeace surgiram da ameaça que foi apresentada à Natureza sob a forma de destruição. Todos os dias verificamos que há causas a defender e um equilíbrio Natural a manter, e que os esforços têm que vir de todos nós. Não podemos exigir que um grupo de jovens que passam uma noite a uma temperatura de seis graus negativos a manifestarem-se na Rússia contra os lixos tóxicos acabem com este problema. Não há qualquer instituição ou organização não governamental no mundo com poder suficiente para mudar o destino para o qual nos encaminhamos. Apenas um repensar profundo da nossa atitude pode salvar o mundo do descalabro total.

 São estes factores, entre outros, que conferem à Ciência um estatuto de ameaça que lhe é atribuído pelos mais descrentes.

    Mas, e segundo Frederico Mayor Zaragoza, o conhecimento é sempre positivo. Apenas a utilização que dele fazemos pode ter repercussões negativas. Podemos assim concluir que na nossa sociedade não há, nem nunca haverá, uma excessiva racionalidade. Apenas há uma deficiência desta e, por isto, o conhecimento que é obtido pela ciência é erradamente utilizado.

    Podemos ainda condenar a sociedade científico-tecnológica por tentar usar a ciência para reduzir o Universo a um conjunto de situações em que são aplicadas leis gerais e assim chegar ao que pode ser o maior desejo do Homem: o domínio. De verdade o mundo sem encanto ou mistério pode muito bem ser considerado um mundo dominado. Assim podemos considerar que o Homem tenta usurpar a realidade através do seu conhecimento.

    Podemos também questionar a cultura científico-tecnológica por outro ponto de vista. Como pode deixar-se ela influenciar pela Ciência que, cada vez, mais lhe é distante e desconhecida? De facto a Ciência é cada vez mais um conhecimento que está ao alcance de um grupo muito específico. As repercussões a que temos acesso representam apenas uma ínfima parte desta (tão ínfima que nem conseguimos perceber como funciona). Isto é, de facto, paradoxal, pois nunca a civilização humana esteve tão dependente da Ciência. Quem poderemos considerar como culpado por esta situação? A sociedade que não se interessa pela Ciência que é tão importante para si? A Ciência que se diferenciou do restante conhecimento e consequentemente da sociedade ao criar a sua própria linguagem e se especificou cada vez mais, aprofundando o seu estudo? Possivelmente as duas (Ciência e Sociedade) repartem as culpas entre si.

    Mas como poderá uma sociedade tentar resolver questões que muitas das vezes são levantadas por novas descobertas científicas que ela mostra desconhecer quase totalmente? Como poderemos ter como centro da nossa cultura a Ciência que não nos pode dar certezas absolutas e que, muito possivelmente, nunca chegará a uma certeza ou a um conhecimento absolutos?

    Não nos podemos esquecer que a Ciência nos tem trazido imensas vantagens e que muitas das coisas a que temos acesso nos foram trazidos por ela. Sem ela seria impossível, por exemplo, entrar em comunicação (quase instantaneamente) com locais situados no outro lado do mundo. Todavia a Ciência não consegue satisfazer todos os seus objectivos e, continuando com o exemplo anterior, os habitantes de cerca de seiscentos mil lugares do mundo têm de percorrer trinta quilómetros até chegar a um sistema de comunicações. Ainda hoje vinte por cento da população concentra em si oitenta por cento da riqueza a nível mundial e a Ciência não consegue (e talvez não consiga nunca) mudar isto. Mas a Ciência tem como objectivo recolher dados. Não lhe cabe a ela passar à acção ou tentar mudar as situações que possam estar erradas no mundo. Esta parte cabe à técnica e a cabe a cada um de nós passar à pratica. O simples facto de termos conhecimento da existência de um fosso entre um mundo pobre e um mundo rico faz com que sejamos responsáveis por isso ou, pelo menos, compactuantes com tal situação. A Ciência fez a sua função: recolheu dados, concluiu que havia dois mundos separados e fez chegar esta informação até nós. Temos agora de ser nós a mudar tal situação. Não podemos, por isto, responsabilizar a Ciência pela imperfeição do mundo que, actualmente, gira á sua volta.

Os limites da ciência

    Como temos vindo a referir, a técnica tem uma forte influência sobre a nossa vida, influência esta que cada vez mais é maior. Na Introdução, chegámos mesmo a questionar se a Ciência estaria sujeita a qualquer tipo de leis ou de limites. É à resposta a esta questão que pretendemos chegar nesta parte do trabalho e, no caso de a Ciência se encontrar limitada, devemos, então, tentar perceber quais são estes limites. Comecemos, então, por tentar perceber quais são as condições necessárias para que haja uma pesquisa científica. Em primeiro lugar tem de haver, como é claro, um sujeito que procede ao estudo e um objecto, ou fenómeno, que vai ser estudado. Outra das coisas essenciais para a pesquisa, é um meio que permita ao cientista relacionar-se com o objecto, papel que vai ser representado pela técnica. Também importante para as pesquisas científicas actuais, são os fundos com que os cientistas contam para as suas pesquisas. Todas estas condições estão também, por si mesmas, limitadas pela época que se vive e pelo paradigma científico dominante. Apresentámos, assim, até agora, dois condicionantes do progresso científico: um condicionamento directamente relacionado com a época em que se dá a investigação e outro relacionado pelas condições mínimas para que haja desenvolvimento científico.

    Comecemos por analisar os limites materiais. Facilmente podemos comprovar que qualquer desenvolvimento da ciência é hoje cada vez mais dispendioso. Um bom exemplo disto são os aceleradores de partículas: gigantescas estruturas que têm como finalidade descobrir ou comprovar certas propriedades de partículas. Estas estruturas são, como é fácil de imaginar, imensamente dispendiosas. Não há qualquer cientista que, por muita vontade que tenha, consiga desenvolver uma pesquisa relevante neste domínio sem o acesso a um destes aparelhos. Vemos aqui que a ciência é limitada pelo financiamento. Nenhum cientista pode, por si só, lançar-se no estudo que pretende, pelo menos neste estudo, pelo que são muitas das vezes as autoridades que, tendo como fim o desenvolvimento da ciência, patrocinam os estudos científicos. Mas os financiadores têm não só o mérito de apoiarem o desenvolvimento científico mas também o direito de escolher em que sentido em que este se deve processar. Aqui está presente mais um limite da Ciência: a orientação e o destino do financiamento. Nem sempre o cientista é livre para fazer progredir a ciência a seu gosto.

    Vejamos agora as condicionantes inerentes à técnica. Como foi referido na Introdução, a técnica não é só um produto da Ciência. A primazia dada à Ciência, ideia defendida pelo pensamento Grego, foi completamente posta de parte pelo conceito de tecnociência que veio dar a primazia à técnica. Assim temos uma Ciência que parte de uma manipulação activa da realidade e que depende inteiramente dos meios técnicos existentes disponíveis para o fazer. Actualmente temos um técnica que é, naturalmente, a mais avançada em toda a história humana. Mas muitas das coisas que há para descobrir ou testar (não todas) não o são por causa de uma clara escassez de tecnologia para tal. Surge então um novo limite da Ciência: o estado da tecnologia.

    Mas por vezes não são estes os motivos para um impedimento do avanço da Ciência. Vejamos, a título de exemplo, o caso de Galileu. Galileu não necessitou de qualquer tipo de financiamento para desenvolver o seu telescópio e, ao faze-lo, criou todos os meios necessários para conseguir por em questão o Geocentrismo. Todavia, por afirmar que era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário, foi acusado de heresia, por isto ir contra as sagradas escrituras e também contra as crenças profundamente incutidas na sociedade da época. O que fez então com que a teoria de Galileu fosse, numa primeira altura, recusada, foi o facto de ela não estar de acordo com o contexto social da época e de não se enquadrar no paradigma que era então dogmaticamente aceite. Deparamo-nos assim com outro limite da Ciência: a sua evolução é condicionada pelo contexto histórico-social e pelo paradigma aceite.

    Vamos agora fazer um pequeno retrocesso no tempo. Vamos voltar ao tempo em que os Americanos lançaram bombas em Nagasaqui e Hiroshima. Ou então ao tempo em que os Nazis fizeram experiências terríveis com os Judeus que capturaram durante a Segunda Grande Guerra. Podemos ainda percorrer uma série de acontecimentos dramáticos e marcantes que dificilmente serão esquecidos pela humanidade.

    Estes acontecimentos foram consequências ou tentativas de se chegar a um conhecimento científico. Ainda que nem todas as culpas possam ser atribuídas aos cientistas, estes não podem ser totalmente desresponsabilizados. Ainda que tenha sido a entidade financiadora a incentivadora e criadora de tais projectos, esta não pode suportar todas as culpas. Actualmente, e mais do que nunca, o cientista deve ter consciência das hipotéticas consequências que possam surgir das suas descobertas. Ainda que haja vozes discordantes e que acham que pedir aos cientistas que não revelem certos segredos ou inventos é, de facto, algo que os transcende, tal não coincide com a nossa opinião. Os próprios cientistas que se reuniram na América com o objectivo de criar a bomba nuclear admitiram que, aquando da realização de tais experiências, não tinham a menor ideia de quais poderiam ser as consequências que essa traria ao mundo, para além de não saberem quais os perigos a que eles próprios se sujeitavam quando se expunham às radiações. Os testes que eles realizaram (mais uma vez por ordem da organização responsável por aquele projecto) são igualmente condenáveis. A exposição de pessoas a radiações cujos efeitos eram então desconhecidos, demonstraram um total desrespeito pela sua própria espécie.

    Na verdade, o desenvolvimento alucinante que se verifica actualmente nas ciências faz com que um cientista não se possa nunca dissociar da sua parte humana. Devemos lembrar-nos que a vida Humana é demasiado preciosa para ser apreciada em termos de valor e, se ainda podemos hesitar em desperdiçar uma vida para salvar milhares de outras (apesar de tal já ter uma moralidade duvidosa), deveria ser excluída completamente da comunidade científica a hipótese de sacrificar uma vida para acabar com milhares de outras.

    Seguidamente apresentaremos o caso de alguns progressos científicos que, ao surgirem, levantaram imediatamente problemas de ordem ética.

A descodificação do genoma humano

    A descodificação do genoma humano pode não ser apenas o início de uma nova era na Ciência. Na realidade, especialistas que estiveram envolvidos neste processo confirmam que através dele poderemos  descobrir as doenças para as quais mostramos maior tendência.

    A possibilidade de esta análise ser feita de forma vulgarizada, criaria, com certeza, grandes discriminações nomeadamente a nível das companhias de seguros que se poderiam recusar a fazer seguros a determinadas pessoas que mostrassem uma maior propensão para determinadas doenças.

    Apesar de se acreditar que a Natureza tem tendência a anular as desigualdades e certas características poderem apresentar uma face negativa (ser causadora de uma determinada doença) e uma outra positiva (defender de outras), não cremos que isso fosse levado em conta se um indivíduo tivesse tendência a ter uma doença mortal.

    Mas como em tudo (ou quase tudo que a ciência descobre) há pontos positivos. Um dos maiores males da nossa sociedade actual consiste na discriminação de indivíduos por outros que se consideram diferentes ou superiores a estes. Não é difícil fazer entender aos dois que o código genético é a base de todas as formas de vida e que nele se encontram registadas todas as características que levam à criação de um ser tal como ele é. Então, deverá também ser fácil de lhes explicar que os testes efectuados pela Celera Genomics (empresa responsável pela descodificação do genoma) mostram que não há informação diferente entre seres humanos de diferentes raças ou etnias. É impossível, inclusivamente, distinguir as etnias de diferentes indivíduos a partir da sua informação genética.

    Outra questão relativa a este tema está relacionada com a possibilidade ou não de se registar a patente do código genético. Em princípio não se poderá proceder ao registo desta patente, uma vez que o código não foi inventado mas sim descoberto. Por outro lado o Presidente dos Estados Unidos e o Primeiro Ministro inglês vieram já a público pedir para que a patente não fosse registada, uma vez que acham que este assunto é do domino público. Veremos se os interesses monetários falam mais alto ou se, pelo contrário, todos temos acesso aos nossos dados mais pessoais.

    O conhecimento de que se tem tendência para ter determinada doença, poderia, ainda, causar efeitos psicológicos devastadores em alguns indivíduos.

    É ainda importante referir que todos temos direito à privacidade e o nosso código genético não deve ser descodificado sem a nossa autorização.

A clonagem

    A Clonagem é outro assunto que tem estado na ordem do dia. Tal não se verifica sem razão. A clonagem é a mais profunda alteração do estatuto humano desde que este se passou a deslocar verticalmente.

    A possibilidade de os seres se reproduzirem assuxuadamente esteve até agora reservada a certas espécies e o homem é o primeiro a chegar a este estado por meios não naturais. A ideia de se poder “produzir” um homem sem o recurso a dois gametas provenientes de indivíduos de sexos diferentes, pode chegar a apresentar-se como assustadora.

    Isto vem pôr em causa não só o nosso conceito de identidade, como o próprio conceito de Ser Humano. A hipótese de alguém exactamente igual a nós ser produzido abioticamente é, desde há muito, o ponto de partida para filmes de ficção científica. Por ironia do destino, a Ciência fez com que o homem se confronte com a hipótese de passar estas ideias à prática.

    Mas não são só cópias o que a clonagem permite fazer. A última aplicação hipotética da clonagem que se descobriu, foi a de produção de órgãos ou sistemas através do desenvolvimento de embriões e a sua remoção quando estes se começam a desenvolver, e desenvolve-los separadamente até que possam ser implantados em receptores compatíveis.

    Este processo seria um meio mais rápido e seguro de salvar pessoas que se vêm privadas de órgãos vitais e não só. No entanto, levantam-se problemas éticos em relação a esta posição. Na maioria dos países a investigação em embriões ou fetos é proibida, e, sem esta hipótese, não é possível desenvolver esta técnica. Será que a ética está a impedir o desenvolvimento da Ciência e, consequentemente, a salvação de muitas pessoas cuja única esperança está nela?

    Cremos que a clonagem, principalmente a humana, é um assunto verdadeiramente complicado e sobre o qual deve haver uma reflexão profunda antes de qualquer atitude ser tomada.


O aborto

    O aborto é outro dos aspectos que faz erguer problemas éticos. A interrupção voluntária da gravidez, como também é conhecido, faz com que convicções de ordem religiosa e social sejam postas em causa. O facto de o acto de matar ser considerado um pecado pela religião Cristã (que tem uma forte influência na sociedade portuguesa), de o direito à vida vir explícito na Declaração Universal do Direitos Humanos e de o homicídio estar previsto no código penal, faz com que não tenhamos (moral ou juridicamente) o direito de matar, em qualquer situação, um Ser Humano.

    Todavia o que está em questão no aborto (em semelhança à clonagem) é o conceito de Ser Humano. A legislação que, em Portugal, foi sujeita a um referendo Nacional, apoiava-se no facto de que não se poderia considerar um embrião de dez semanas um Ser Humano.

    Desde o momento da concepção, um Ser tem uma informação genética semelhante à dos seus progenitores. Dizer que um embrião de dez semanas que se desenvolve de acordo com a informação genética que lhe foi fornecida não é um Ser Humano, é o mesmo que afirmar que os seus pais não lhe transmitiram informação genética que lhe permitisse ser um Ser Humano. Esta afirmação é claramente vazia de significado científico e, por isso, não pode ser considerada como um critério para a validade ou não do aborto.

    Outro argumento que, esse sim, nos pode parecer válido é o de, em certas situações, o aborto ser a única hipótese possível para impedir o desenvolvimento de um embrião ou feto e pôr fim a uma gravidez, evitando um nascimento indesejado que traria sérias consequências para o novo Ser.

    Por outro lado a liberalização do aborto faria com que qualquer pessoa pudesse recorrer ao aborto como um simples método anticoncepcional. Esta situação deve, segundo a ética, ser evitada. O aborto deve apenas ser aplicado em casos muito especiais tais como: malformação do feto, pais sem possibilidades de ordem psicológica para educar um filho e outras situações que criem um grau de dificuldade semelhante para um desenvolvimento saudável do novo indivíduo.

    Idealmente, o aborto nunca deveria acontecer porque, antes disso, deveriam ser aplicadas outras medidas, tais como a prevenção da gravidez ou planeamento familiar.

    O aborto deve assim, também, ser precedido de uma profunda meditação (pois uma vez executado não pode ser anulado) e também utilizado como último recurso.

A exploração espacial
 

    Durante a Guerra Fria, e na ausência de mais espaço para conquistar na Terra, as duas potências mundiais viraram-se para a conquista do desconhecido e infinito Espaço. Depois dos muitos contributos que a Ciência deu à Guerra, seria agora a vez de esta retribuir.

    Os primeiros a fazerem um vôo tripulado ao espaço foram os Russos. Em retaliação, os Americanos apontaram todos os seus meios para vencerem a corrida pela conquista da Lua. Assim, em 1969, os Americanos cumpriram a sua intenção e fizeram uma alunagem. Foram precisas muitas experiências para que os americanos conseguissem alcançar este feito histórico.

    E muitas experiências implicam muitos fundos aplicados e muitas vidas perdidas, uma vez que nem todas as tentativas eram bem sucedidas. Enquanto a morte dos astronautas é de necessidade contestável, mas aceitável, uma vez que não só eles estão sujeitos a acidentes de trabalho (e com certeza as mortes de astronautas por acidentes de trabalho seriam mínimas quando comparadas com as mortes em trabalho de, por exemplo, funcionários da construção civil), já os fundos que foram gastos na exploração espacial levantam maiores questões. Como pode o homem ter pretensões a dominar o Espaço quando no seu planeta milhares de pessoas morrem de fome? Como pode o Homem investir as imensas quantidades de dinheiro que investe na exploração espacial  quando uma grande parte da população mundial vive no limiar da pobreza?

    Conforme atrás referimos, é muitas vezes necessário ter aspirações a feitos enormes e longinquos para se conseguirem pequenos avanços cientifícos. No entanto, será legitimo que se gastem estas incumensuráveis quantias na tentativa de descobertas que, aparentemente, ou de uma forma imediata, não vão ter reprecursões na nossa vida, e não se invista de forma definitiva em pesquisas para se alcançar a cura de doenças que vitimam milhões?

Conclusão  
 
    Hoje, mais do que nunca, o homem vive rodeado de Ciência e da sua manifestação mais pratica e incisiva. Mas esta Ciência não circula livre entre nós. Ela tem limitações inerentes a si própria e que fazem com que ela tenha não só um crescimento moderado, como é o caso da sua dependência da tecnologia, mas também como tenha uma vertente humana que é indissociável dela, pois a ética está enraizada no cientista e faz com que ele tenha de, pelo menos, reflectir minimamente nas possíveis consequências das descobertas ou experiências que faz.

    De facto, experiências anteriores com consequências catastróficas fizeram com que o cientista ficasse cada vez mais consciente do seu papel na Sociedade, e das manifestações positivas e negativas que ele pode ter.

    O desenvolvimento constante das novas ciências e os conhecimentos actuais vieram alargar ainda mais o poder e a primazia dados à Ciência.

    O Homem considera, hoje, que o seu habitat natural é um Mundo alterado pelas suas descobertas e pelas transformações que nele operou.

    É cada vez mais difícil  para o Homem conseguir conceber a Vida sem tecnologia e sem uma Ciência que consegue resolver a maior parte dos problemas com que ele se insurge.

    Podemos, assim, dizer  que para o Bem o para o Mal  estamos irremediavelmente mergulhados numa cultura cientifico-tecnológica que, por um lado, tenta apreender o conhecimento que lhe é dado pelo Mundo e, por outro, o usa para o alterar (ou destruir, dependendo do ponto de vista).

    Se bem que não possamos duvidar que o cientista tem como alvo, ainda que inconsciente, a construção do Paraíso, excepções haverá, em que, por exemplo, um regime político se sobrepõe aos interesses científicos, fazendo com que o conhecimento que daí provem não seja o verdadeiro conhecimento científico, mas apenas uma concretização das ideologias políticas convertidas em tecnologia.

    Apesar de podermos ter diferentes pontos de vista sobre a utilidade ou a validade da Ciência, não podemos discordar que ela é um aspecto central da nossa sociedade, que muito tem beneficiado com ela.

Bibliografia  
http://www.terravista.pt/Guincho/6404/

http://www.madinfo.pt/filosofia/filo.htm

http://www.terravista.pt/AguaAlto/2158/Lenoir.htm

http://www.byweb.pt/genoma/

BRONOWSKI, J. (1992) A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos, Introdução, Organização, Notas e Tradução A.M.Nunes dos Santos, C.Auretta e J.L.Câmara Leme, 1ª Edição-Lisboa: D. Quixote, pp. 29-116

POPPER, Karl. (1987) O Realismo e o Objectivo da Ciência, Tradução Nuno Ferreira de Faria – Lisboa: Publicações D. Quixote, pp. 25-55

HENRIQUES, Frederigo (1978) O Pensamento Científico, Tradução e Prefácio de V. de Magalhães Godinho. 3ª Edição – Lisboa: Inquérito, pp. 116-16


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SABER CIENTÍFICO E REFLEXÃO FILOSÓFICA

Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Filosofia-11º ano
por Tiago Ribeiro


Introdução
Questionamento da cultura científico-tecnológica
Limites do conhecimento científico
Objectividade científica
Conclusão
Bibliografia
Notas

Introdução

    Este trabalho de pesquisa, cujo tema é “Saber Científico e Reflexão Filosófica”, tem o objectivo de explicar um pouco como a tecnociência interfere nas nossas vidas e de que modo esta poderá ser prejudicial.
     Assim, em primeiro lugar falarei da ciência em “si” e como esta se pode relacionar com a Filosofia, mas é necessário saber a demarcação de cada uma das formas de saber, algo que também é explicado. Seguidamente, o trabalho refere que a ciência é inseparável da técnica; explica de que modo ciência e técnica se relacionam, explica se são o mesmo, se há uma relação recíproca, se há dependência ou não de um em relação ao outro. Nesta parte do trabalho há já um alerta para as desvantagens do progresso técnico-científico, algo mais desenvolvido no ponto “3.Os limites do conhecimento científico”. Aí veremos quais os benefícios e perigos da ciência e quais os meios de os controlar. A ética como limite da Ciência é um pouco mais abordada, pois há referência a situações como a eutanásia, o aborto, a clonagem humana, etc. Ainda relativamente à ética podemos ver como alguns cientistas se colocam perante a ética. No fim do trabalho, questionaremos a objectividade científica, isto é, se esta é tão racional e objectiva como nos dá a entender.
     Pessoalmente, com este trabalho, pretendo elaborar um discurso crítico acerca de tudo o que envolve o conhecimento científico (vantagens e desvantagens). Para além disso, espero fazer com que pessoas que nunca pensaram nesta situação, possam fazê-lo.

Questionamento da cultura científico - tecnológica

A relação Ciência - Filosofia

     A ciência é normalmente concebida como o que permite que progredamos pelo facto de descobrir continuamente os mistérios da natureza que nos leva para além do nosso estádio de conhecimento. Todavia, a ciência resulta de um trabalho da sociedade em geral e de um esforço mais específico. A ciência é, assim, uma prática social, ou seja, faz parte da vida humana e não se limita às fronteiras consideradas por muitos.
     Visto que faz parte da vida humana “A ciência não pode responder a todas as interrogações que se colocam à Humanidade. A satisfação das necessidades de paz, de Justiça, de felicidade releva de escolhas e não do conhecimento”, tal como diz Evry Schatzman. Face a alguns destes problemas é a própria ciência que recorre à Filosofia na tentativa de encontrar respostas através da reflexão e do debate.

     Naturalmente, há críticos que não concordaram com esta posição da ciência e consideram mesmo que a filosofia é estéril, pois continuamente levanta sempre os mesmos problemas e põe em causa todas as respostas. Esta ideia é visivelmente antagónica à forma como é vista a ciência: repleta de rigor, objectividade e possuidora de um progresso invejável. Logo, também é natural que hajam opiniões desta natureza.

     Mas, voltando à ideia atrás referida, como podemos distinguir o que é filosófico do que é científico?

A demarcação entre Ciência e Filosofia

     De facto, é necessária uma demarcação entre Ciência e Filosofia. Para isso foram criados alguns critérios para demarcar o que realmente é científico.

     Assim, a primeira demarcação é a refutabilidade, isto é, um sistema teórico só é científico se for refutável (testável). O facto de o que é científico ser testável não significa que seja verificável, no entanto, a verificação empírica não consegue demarcar o científico do filosófico. Desta forma, este critério torna-se limitativo, pois não consegue, de facto, delimitar a Ciência e a Filosofia.. Por esta razão, surge um critério delimitativo que é a aplicabilidade técnica do conhecimento científico, tornando-se este cada vez mais útil a nível teórico na medida em que produz novos conhecimentos que aproximam a humanidade da verdade. Por outro lado, a ciência é útil a nível prático, isto é, na capacidade de modificar o meio, intervindo nele e transformando-o. De facto, são estas as finalidades da ciência e esta é preferida precisamente pela sua aplicabilidade prática, mas “A ciência é bem sucedida na pratica precisamente porque é bem sucedida na teoria”(1).
     Podemos, desta forma, concluir que há uma relação dialéctica entre ciência e técnica.

A inseparabilidade entre ciência e técnica

     A ciência possui um estatuto muito próprio, todavia está inteiramente ligada à técnica, que pode ser considerada como a dimensão prática do conhecimento científico. Todavia, não é só a ciência que permite a realização da técnica, muito pelo contrário, os sistemas tecnológicos amplificam a problematicidade e a investigação da ciência, o que permite desenvolvê-la.
     Assim, a técnica é uma componente inseparável da cultura e, por outro lado, os progressos da técnica contribuem para as inovações e/ou aperfeiçoamento culturais. Consequentemente a técnica contribui para o desenvolvimento de todos os ramos científicos. Podemos exemplificar:
          - o microscópio e o ultramicroscópio possibilitaram o acesso ao conhecimento das coisas minúsculas e invisíveis. Este facto permitiu e permite o progresso da Medicina, da Biologia, da Metalurgia, da Química, etc.
          - o telescópio e o radiotelescópio permite conhecer o mundo extraterrestre.

     Podemos, de facto, inferir que a técnica assume um papel extremamente relevante no conhecimento científico.
Para além deste elemento cultural (o conhecimento científico) existe outro presente na técnica: os valores morais, a ética. Apesar de todas as suas virtudes, a técnica não traz só benefícios, assomando, aqui, as duas faces da técnica:

         - a técnica que permite a difusão da cultura que facilita o quotidiano de todos nós, esta é a face da técnica que permite o conhecimento; esta é a técnica que edifica alojamentos dignos do homem: a técnica que produz instrumentos que tornam a nossa vida mais tranquila e acomodada.

          - a outra face da técnica é-nos alertada pelos críticos para que vejamos as suas consequências. Por exemplo, a última “vantagem” referida no ítem acima pode ser o início do fim do desenvolvimento de grande parte da humanidade que tem toda a sua vida facilitada. De facto, “A técnica torna-se uma parte da nossa vida. Vivemos totalmente de modo técnico.”(2) Justamente por este e outros motivos é necessário responsabilizar apenas o Homem pelas intervenções técnicas. O Homem não pode realizar tudo o que a técnica permite, tem de pensar na humanidade.

     Há, assim, que questionar os riscos da técnica e consequentemente do conhecimento científico.

Os limites do conhecimento científico

     A ciência, ao longo do século XX tem sido vista como a solução de quase todos os problemas. Todavia, esta crença nas potencialidades da ciência tem vindo a enfraquecer e esta é vista por muitos como a destruição da harmonia entre o Homem e a Natureza. Para alguns a ciência é vista como a contribuição para o desmoronamento “(...) dos saberes, das tradições, das experiências mais enraizadas da memória cultural: não é este ou aquele resultado negativo do progresso científico, mas o próprio “espírito científico” que é acusado.”(3)
 

A Técnica

     Pode parecer um pouco absurdo, mas a técnica pode constituir um limite para a ciência.
     Actualmente, o primado é atribuído à técnica, atribuição esta pelo facto de hoje se falar em tecnociência , constituindo a técnica e a ciência uma só estrutura. Assim, a técnica é o meio dentro do qual a ciência se desenvolve e se constrói e é através desta que a ciência estabelece a relação com o real. Podemos inferir que a ciência é dependente da técnica, assim como o seu desenvolvimento.
     Considerando o que foi dito, a chave para a reformulação da ciência e o impedimento de certas situações é a técnica, todavia só o homem poderá utilizar esta chave.

Limites materiais e ideológicos

     -Materiais: constituem um limite na medida em que o financiamento para as investigações científicas e para os investimentos técnicos pode ser limitado impedindo estes planos. Por outro lado, este financiamento é também dirigido, isto é, está estipulado o que vai ser estudado e investido, limitando a liberdade da ciência e do cientista.

     -Ideológicos: o contexto hist&oacutte;rico é muito importante para uma aceitação de algo de natureza científica. Por exemplo, Galileu defendia o heliocentrismo, todavia esta teoria não foi bem aceite pela sociedade que estava “habituada” a um modelo diferente relativamente ao lugar ocupado pela Terra no Universo (vigorando, na altura, o geocentrismo). Também o paradigma dominante é importante e vem de encontro do que foi dito acerca da oposição Geocentrismo/Heliocentrismo; pois não se pode mudar um paradigma repentinamente, pelo facto de o paradigma não ser só um conjunto de teorias mas também de métodos, crenças e valores partilhados por uma comunidade.
     Assim, o contexto histórico e o paradigma dominante constituem um limite para a ciência.

A Ética

     Actualmente questiona-se todo o progresso no mundo da técnica, no domínio da medicina (que permite combater e pôr fim a doenças mortais anteriormente incuráveis) é benéfico ou maléfico. É aqui que surge a preocupação ética e moral que se traduz em debates acerca de vários temas humanos: a eutanásia, o aborto, a clonagem humana, a pena de morte, etc. Desta forma a dimensão ética e moral é imprescindível, pois o ser humano rege-se por critérios que lhe servem de orientação para todas as suas decisões.
     Os temas atrás referidos, dos quais tanto se fala, são possíveis de se realizarem na prática, mas é necessário Ter em conte a ética e a dignidade do ser humano.

     Assim, a ética constitui um limite para a ciência

 A EUTANÁSIA

     A eutanásia consiste em provocar a morte a um doente que se encontra em estado terminal e sem qualquer esperança de cura. Naturalmente, há defensores e opositores.
     Os defensores acham que o doente, tendo a consciência da situação em que se encontra e pedindo o termo à sua vida, deve merecer uma morte digna e sem dor. Os defensores acreditam na eutanásia como o meio que põe termo ao sofrimento dos doentes terminais.
     Os opositores, defensores da vida, acreditam sempre num último meio para salvar a vida do doente. Defendem a vida até ao fim.

  O ABORTO

     O aborto (voluntário) consiste na interrupção da gravidez. Existem os defensores que acham que este deve ser livre, gratuito e só depende da livre decisão da mãe. Os que são contra à interrupção voluntária da gravidez consideram que se trata de um crime contra uma vítima inocente. É óbvio que este assunto envolve valores éticos e morais, daí existirem posições contra e a favor.
a ) Campanhas a favor da despenalização do aborto

a.1) “Questionemo-nos sobre a razão de, em Portugal, um grande número de mulheres recorrer a clínicas clandestinas (muitas das quais sem as mínimas condições) para abortar, causando-lhes graves lesões e por vezes a morte, bem como o impedimento nalguns casos da mulher poder voltar a engravidar. Sabemos que o sofrimento físico e psicológico por que passam; Sabemos o desespero e a humilhação com que são marcadas para o resto da vida.
  Questionemo-nos porque  recorrem essas mulheres a tal solução:
     - As más condições sócio-económicas da maior parte da população;
     - A falta de informação fornecida pelas entidades competentes;
     - O papel da Igreja como elemento repressor da livre escolha de mulheres e homens sobre decisões que só a eles dizem respeito;
     - A hipocrisia do Estado, condenando por um lado, isentando-se por outro de responsabilidades.

  Questionemo-nos porque é a despenalização ainda posta nestes termos, e não como o direito inquestionável que cada ser humano deve ter para decidir livremente sobre o seu corpo e sobre o seu vida.

  Pelo SIM à liberdade de escolha,
  Pelo SIM à qualidade de vida,
  SIM à Despenalização!”(4)

a.2) “No início do mês de Março foi lançada em Lisboa, coma participação de pessoas dos mais variadas quadrantes, um movimento - Tolerância - que se destina a denunciar a falta de vontade política para resolver um problema que, neste país, e 24 anos depois de 25 de abril de 1974, continua a ser escomateado.

  Chamemos as coisas pelos nomes:
     1- a hipocrisia dos que sabem que estamos perante um problema de saúde pública, como o provam os 11 mil casos anuais de entradas nos hospitais , por sequelas de abortos praticados sem condições, mas que teimam em ignorar, em fechar os olhos à realidade.

   2- a violência que representa para qualquer mulher sentir que está a ser incriminada, que tem de recorrer a uma rede clandestina, que tem de colaborar com um negócio por demais.”(4)
 

b ) Campanhas contra a despenalização do aborto

Segundo a lei portuguesa “(...) a vida humana mesmo incipiente, é um bem, e a grávida não pode dispor desse bem, que não seu”(5)
     Apenas em três casos a aborto é permitido:
             -“(...) a mulher violada tem o direito de se libertar das consequências indesejadas e prolongadoras do crime.”(6)
        -“(...)situações de malformação grave e incurável e doenças de manifestação precoce e incompatível com uma vida autónoma e digna.”(6)

     Esta posição também pode suscitar algumas objecções. Neste campo a ética abrange o período pré-natal e também o período pós-nascimento. Mas, como será a vida de uma criança indesejada, ou criada com dificuldades económicas? Os defensores da não liberalização do aborto têm de considerar que a ética não pode acabar “à saída do útero materno”!

A CLONAGEM EM HUMANOS     

      A clonagem em humanos é um tema que tem sido muito falado quer pelas suas vantagens, quer pelas suas desvantagens.
     Ao surgir a clonagem nos mamíferos suscitou a questão em relação à clonagem em humanos para fins medicinais. De facto, a clonagem de humanos pode ser muito benéfica na medida em que permite curar doenças como o cancro. Todavia, esta técnica supõe em colocar em clone num útero materno adoptivo e, posteriormente, provocar um aborto para se extrair alguns órgãos que permitiriam curar certas doenças. Realmente, comestes métodos curar-se-iam muitas doenças e permitir-se-ia melhorar a qualidade de vida de muita gente (com a substituição de órgãos em mau funcionamento).
     O que é necessário é não deixar que a clonagem em humanos vá longe demais, isto é, que se façam clones iguais a nós mesmos, pois a individualidade é uma das coisas mais preciosas que temos.
     A questão da clonagem suscita muitas objecções de origem ática e moral. Talvez sejam necessárias discussões acerca deste assunto, fazer um balanço de vantagens e desvantagens e talvez encontrar técnicas alternativas de fazer clonagem sem ser pelo método atrás referido.


OS CIENTISTAS PERANTE A ÉTICA

     Vamos agora ver como alguns cientistas vêm a ética no mundo da ciência:

   Carl Sagan (Planetólogo): “A ciência passa por subversiva, por um mal necessário que é preciso controlar cuidadosamente. Os frutos tecnológicos da ciência são quase sempre propriedade primeira e exclusiva de quem detém o poder, de quem financiou e ajudou a investigação.(...). Se desejarmos a continuar a beneficiar dos frutos da ciência, precisamos de aprender a aplicar os seus métodos, com uma disciplina muito maior, a todos os desafios com que somos confrontados.”(7)

   Stephen Jay Gould (Paleontologista): “Estou convencido de que toda a actividade humana deve ser guiada e limitada por uma ética, pois nenhum imperativo é mais influente ou mais universal que uma conduta moral adequada (ainda que seja muito difícil este conceito definir ou de se compreender o seu conteúdo).”(7)

   Vataly Goldanski (Físico): “A ética da ciência e a ligação entre moral e ciência são assuntos  que preocupam muitos espíritos. Com efeito, a força da ciência aumentou enormemente e a espécie humana depende da utilização que dela se faz: para o bem e para o mal.(...). Durante muito tempo, o nosso país utilizou o “slogan”: “Não podemos esperar que a natureza nos conceda os seus dons. A nossa tarefa é arrancar-lhos.”(...). O seu fim residiria na procura de uma harmonia máxima entre o homem e a natureza.”(7)

   Jacques - Yves Cousteau (Oceanógrafo): “Podemos interrogar-nos sobre se a ciência - que está na origem do conhecimento e portanto, em princípio, do progresso moral - deverá intervir directamente, com risco de se perverter devido ao contacto com interesses particulares. (...). No que diz respeito à boa convivência da ciência com os valores morais - e não apenas com uma ética de circunstância -, também aí a confusão surge entre ciência e tecnologia. A ciência limita-se a conhecer e não tem nada a ver com a ética. Em contrapartida, a tecnologia, a informação primária ou enganadora, fornecida pelos “media” e pelos interesses nacionais ou públicos, constituem uma aliança contra a natureza que deveria ser urgentemente subordinada a valores éticas.”(7)

A Objectividade Científica  

      Para além de todas as objecções que se têm colocado à ciência coloca-se as seguintes questões: a ciência é tão objectiva como afirma? Mas se o sujeito interfere no objecto as descrições científicas poderão ser 100% objectivas? As descrições científicas corresponderão à realidade?

     Há dois tipos de resposta:

          - Uma que responde afirmativamente e crê que os enunciados não incidem sobre os homens, sobre as suas capacidades, mas sobre as próprias coisas. Esta resposta corresponde a uma a uma objectividade forte da ciência que conduz à noção de ciência neutra e à desresponsabilização do investigador.

          - Há outra que responde negativamente, ou melhor, não tão afirmativamente como a outra perspectiva. A ciência com objectividade fraca defende que um enunciado é objectivo porque é para qualquer ser humano, faz-se intervir a noção de ser humano. Esta objectividade, mais correctamente, intersubjectividade (diferente de subjectividade) implica um sujeito totalmente ligado à realidade.

Conclusão   

    É agora altura de fazer uma reflexão acerca do toda esta situação. É verdade que já foram feitas algumas “divagações” mas podemos um pouco mais acerca deste tema.
     De facto, a ciência é um produto da sociedade mas esta desempenha um papel muito importante na vida de todos nós. Apesar do nosso quotidiano estar “invadido por produtos derivados das descobertas científicas” (8), a ciência não consegue resolver todos os problemas colocados ao Homem, nomeadamente problemas de natureza humanística. Assim, “devemos ter consciência dos seus limites, daquilo que ela pode ou não pode dar à sociedade”(8). E, acima de tudo, o que a ciência deve ou não fazer. Uma das esperanças de que a ciência possa não ser tão prejudicial é o facto  de ela ser um produto do homem, logo também possui vulnerabilidades. Por outro lado, o conhecimento científico é apenas uma tentativa de descrever a realidade e não a única e a absoluta. A ciência também não nos dará o conhecimento do sobrenatural, mas sim um progresso produzido pela própria mente humana. Desta forma, devemos Ter presente  que a ciência não fornece a verdade absoluta mas dá-nos a conhecer como funciona a realidade. Todavia, esta procura total da natureza é o que nos caracteriza enquanto homem e o que nos afasta dos restantes animais. Afirma-se que “conhecimento é poder” mas representa “o poder pelo qual os homens lutam para se libertarem das restrições com a natureza(...)” (9). Assim, devemos usar o conhecimento em harmonia e de acordo com as nossas necessidades, pois “saber usar este conhecimento é precisamente o nosso poder.”(9)


Bibliografia

1: REIS, Alfredo e PISSARRA, Mário (Agosto de 2000), Rumos da Filosofia - 11º ano, Lisboa, Edições Rumo, pp 285-299.

2: KIRSCHNER, Ulrich (1976), O Homem e o Seu Mundo, tradução de Maria Elisa Marques Silva (volume 7: “A Técnica”), Barcelona, Círculo de Leitores

3:Sites da Internet:
     http://ad.clix.pt
     http://www.azul.net
     http://www.banner-link
     http://canais.sapo.pt
     http://www.clix.pt
     http://educom.sce.fct
     http://frontpage.teleweb
     http://www.giganetstore
     http://www.madeira-edu
     http://paginas.teleweb
     http://pesquisa.clix

4: Arquivos do jornal “Público” de 5/2/97 e do jornal “O Independente” de 7/2/97

NOTAS
(1) J.Bronowski, A Responsabilidade do Cientista, p.63
(2) H.Sachsse, em Rumos da Filosofia 11ºano de Mário Pissarra e Alfredo Reis, p.291
(3) Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, A Nova Aliança, p.61
(4) http:// www.azul.net/ m31/ fysga/ moaq/ textos . html
(5) palavras do actual Presidente da Assembleia da República: Almeida Santos
(6) frases que constam da actual lei portuguesa.
(7) Extraído do jornal “O Público” em 5 de Março de 1992
(8) texto de B. Sousa Santos , Um discurso sobre as ciências
(9) J. Bronowski, A Responsabilidade do Cientista, p.64


 


Poder Científico e Reflexão Filosófica
Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Filosofia-11ºano, por
Miguel Breda

Introdução
1-A Ciência como proposta de sentido
1.1-História e valor da Ciência
1.2-As várias áreas da ciência
1.3-Problemática Ciência/Religião
1.3.1-Origem do universo
1.3.2-A origem do ser vivo
2-Ciência e Sociedade
2.1-Relação entre a Ciência e a Sociedade
2.2-Grandes Desafios da Humanidade
3-Ciência e Ética
Conclusão
Bibliografia

Introdução

     Desde o século XVII até aos dias de hoje, a ciência e a técnica progrediram avassaladoramente. Nos últimos anos, a tecnologia tornou-se acessível praticamente a toda a gente e o horizonte de possibilidades do homem cresceu explosivamente.
    A nossa sociedade está profundamente marcada pela tecnociência. Basta ligar o rádio, abrir um jornal, viajar num avião, ou até mesmo navegar na internet, para termos presente o vastíssimo domínio da tecnociência. O termo técnica é recente, praticamente só apareceu no século XIX. Anteriormente, era mais comum a palavra arte, que significava o exercício de um ofício. Actualmente, o termo técnica significa “ um conjunto de regras ou instrumentos aptos a dirigir ou executar eficazmente uma actividade”. A finalidade da técnica é o domínio sobre as coisas, cada vez mais acrescido. Por isso, a técnica é uma força determinante.

    A ciência e a técnica estiveram sempre em interacção, resultando um  desenvolvimento mútuo. A ciência, utilizando-se da técnica, ocupa-se hoje de fenómenos que não são acessíveis à experiência natural e, por isso, não é possível separar a ciência da técnica, porque toda a ciência é uma tecnociência.
    Devido à constante proliferação e desenvolvimento da ciência, urge que se pense  e reflicta sobre ela. É sobre isto que este trabalho se debate.
    Numa primeira parte, irei abordar um pouco da história da ciência, explicando porque pode dar sentido à existência humana, passando, também, pelo conflito entre a ciência e a religião.

    A segunda parte reflectirá sobre os grandes desafios e problemas que a ciência enfrentará muito brevemente, finalizando o trabalho com um capítulo dedicado à responsabilidade do cientista.
    Enfim, bem- vindos ao admirável mundo da ciência, onde cada ser humano pode “sonhar” livremente, tentar desvendar os mistérios que o rodeiam e celebrar o instrumento poderosíssimo chamado razão.

“Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer, (...)
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mão de uma criança.”
António Gedeão, Movimento Perpétuo, 1956
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1-A Ciência como proposta de sentido
     Nesta unidade, será feita a apresentação da ciência aos leitores. Numa primeira fase, relatar-se-ão , muito brevemente, os factos históricos da ciência, dando especial destaque à Antiguidade Clássica, explicando depois, porque pode a ciência constituir uma unidade de sentido para o homem.
    Seguidamente, serão reveladas a grande diversidade de áreas abrangidas pela ciência.
    No fecho desta grande unidade, será suscitado no leitor um pouco de reflexão sobre a problemática ciência/religião.


1.1 -História e valor da ciência


     Recorrendo ao latim, ciência (scire) significa conhecer. Na verdade, a ciência defende uma forma de conhecimento que não é vulgar. É um conhecimento criticamente fundamentado, que resulta de uma intensa indagação racional.

    Há muitos séculos atrás, mais precisamente no séc. VII a.C., a ciência não se distinguia da filosofia. Aliás, quando em Mileto, Tales considerado o primeiro filósofo jónio introduziu uma forma de pensar totalmente diferente, não fazia a mínima ideia da nova fase da história da humanidade que estava a demarcar. Deste modo, devido à difícil distinção entre filosofia e ciência, falar do nascimento de uma assemelha-se a falar da génese da outra. Nem se deve sequer entrar em conflito por causa deste pormenor, deve-se , isso sim, estudar e venerar o maravilhoso processo da passagem do mito à razão que se caracterizou por ser complexo e lento. Facto que é fácil de entender, uma vez que estamos perante uma época cujo pensamento estava imbuído de misticismos, mantidos pela tradição oral, cravados de muitos subjectivismos, não apelando ao sentido crítico do humano.

     Foi neste ambiente que os primeiros “cientistas” gregos, desprovidos de quaisquer instrumentos, com excepção da razão, demonstraram uma enorme vontade em querer quebrar a tradição, tentando dar respostas a perguntas sobre a unidade e multiplicidade, do devir, da realidade e da aparência. Apesar deste louvável e enorme esforço, nas suas respostas iriam também estar presentes elementos míticos. Assim, tal como defendeu F. Châtelet, estes últimos aspectos constituíram as continuidades entre o pensamento mítico e o pensamento racional « tudo se passa como se a filosofia, ao mesmo tempo que consegue delimitar, cada vez melhor a originalidade do seu campo discursivo, repetisse, integrando-as, atitudes muito antigas».

    Assim sendo, numa primeira fase – o Período Cosmológico -, os filósofos pretenderam encontrar a ordem no caos, de modo a possibilitar o conhecimento humano. Nesse sentido, Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Heraclito intensificaram os seus estudos de forma a poderem encontrar o arché ( substância/ matéria de onde todas as coisas provêm); passando pela água , pelo indeterminado, pelo ar e pelo fogo. Mais tarde, Parménides, ainda dentro deste período filosófico, operou uma distinção entre o mundo real e o mundo aparente, referindo ainda que só existia a possibilidade de conhecer o ser.

    Cometia um erro tremendo se continuasse a minha brevíssima incursão pela história da ciência sem fazer uma referência a Pitágoras, filósofo e matemático muito importante. Durante a sua vida acreditou ser possível numerar todas as coisas, ou seja, traduzir os objectos para linguagem matemática; e também acabou por construir um dos mais importantes teoremas da matemática – O teorema de Pitágoras - .

     Mais tarde, após a viragem antropológica efectuada pelos Sofistas, surgiu Sócrates, importantíssimo filósofo grego. Grécia necessitava de um “indisciplinador” metódico. Essa função foi ocupada de livre vontade por Sócrates, uma vez que através do seu método conseguia provar às pessoas que nada era óbvio, não se deveria ter a certeza de nada, prova disso é a sua famosa afirmação : « Só sei que nada sei».

    Na verdade, foi através de Sócrates que se consolidou definitivamente na Grécia o modelo racional.
   Passando agora ao Renascimento, tenho a destacar Leonardo da Vinci, pelos seus estudos desenvolvidos na saúde, na aviação, e em muitas outras áreas; Nicolas Copernicus, pela sua fabulosa e inovadora teoria do heliocentrismo; Galileo Galilei, por ter estudado e comprovado a teoria heliocêntrica e ter desafiado a Igreja; e finalmente, Descartes, por ter inovado a matemática e a filosofia.

    Mais tarde, no séc.XVIII, séc. das Luzes, surgiu Isaac Newton, desenvolvendo e impulsionando a Física, através das suas leis.
    Dando agora um enorme salto na história, ressalto para , segundo muitos entendidos, um dos maiores génios de todos os tempos – Albert Einstein- .Desenvolveu estudos na Física, inventando, entre muitas coisas, a teoria da relatividade e a bomba atómica.  

      Depois desta brevíssima incursão pela história da ciência, gostaria de levantar uma questão, que acabará por ser o problema central desta unidade:  Qual o verdadeiro valor da Ciência?/ Porque é ela unidade de sentido para muitos humanos?

    No meu ponto de vista, a ciência dá sentido à existência humana! Antes de mais, para explicitar a minha posição, convém explicar claramente o que entendo por ciência.  Ela equipara-se a uma força em constante expansão que ,para além de ser caracterizada por uma objectividade indispensável, é ,também, um mundo de beleza comparável à poesia, pois, tal como ela, o conhecimento científico brota da imaginação humana.

    Nos últimos 150 anos, a ciência converteu-se num factor importante e determinante do nosso globo. Trata-se de um assunto de elevado interesse que não deve ser aprisionado no laboratório, deve, isso sim, libertar-se para todos os humanos que tenham curiosidade em compreender as magníficas leis que regem o nosso universo. Aliás, tal como qualquer outra forma de conhecimento, a ciência procura integrar o homem no mundo, percorrendo um caminho totalmente diferente.

    Desde os primórdios da humanidade, o ser humano sentiu necessidade de se expandir e conhecer o ambiente que o rodeia. Naturalmente, ao pretender conhecer, revela a intenção da procura da verdade, devendo , para isso, libertar a sua alma de preconceitos, embora seja muito difícil. No entanto, quer acreditemos ou não na ciência, devemos tentar alcançar a verdade, mesmo sabendo que ela é inalcançável.

    Assim sendo, ao recorrermos à ciência conseguimos adquirir um conhecimento de tal maneira poderoso que passamos a ter um maior grau de intelegibilidade dos fenómenos naturais e sociais; um maior grau de conforto, de segurança/insegurança (pois ,por vezes, o ser humano perde  o controlo das suas invenções); um  maior grau de controlo sobre as forças contrárias à existência humana e, por fim, e em último caso, maior grau de desenvolvimento da inteligência humana. Deste modo, o conhecimento científico é metodologicamente sustentado, baseando-se em conhecimentos e teorias prévias, que se reajustam e adequam a novas realidades. A ciência é ,pois, uma forma de conhecimento onde a verdade é biodegradável.

    Por todas estas razões, acreditar no poder cientifíco equipara-se a uma crença nas potencialidades humanas, isto é, uma confiança enorme nas  nossas capacidades, tornando-se o Homem um ser omnipotente. Consequentemente, as pessoas que assim pensam, encontram um perfeito refúgio na ciência, que, para além de ser parte integrante do humano, é a sua expansão. Tal como o pensamento humano, a ciência estará em constante mudança, tornando-se as certezas em incertezas e as verdades irrefutáveis em contradições. Esta característica da ciência é muito importante, pois o que lhe dá valor, e também alento a quem a estuda, é o facto de se auto-corrigir, de se reajustar, aos novos factos e descobertas. De facto, este aspecto é de tal ordem importante que origina uma ciência em contínuo movimento, em contínua mudança, permitindo que reine a actualidade no seio da comunidade científica.
     Por tudo isto, considero que a ciência, mais do que qualquer outra forma de conhecimento, confere sentido, equiparando-se a uma estrada que nós, humanos, podemos percorrer, entrando e saindo quando quisermos. Todavia, é urgente deixar um aviso aos condutores:
    - O caminho é longo! É impossível saber quanto combustível vão gastar. Devem, isso sim, focar as vossas atenções no magnífico percurso que vão efectuar.
« O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
    O que há é pouca gente para dar por isso.» (1 )
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1.2- As várias áreas da ciência

     Ao contrário da filosofia, a ciência efectua uma redução temática, uma vez que só uma parcela da realidade constituí o seu objecto. Para esse objecto ser estudado é utilizado um método específico, contudo a ciência efectua uma abstracção metodológica porque tudo aquilo que escapa a esse método é colocado de lado.

    Desde há muitos anos, o que se tem verificado é uma crescente fragmentação da realidade, de modo a facilitar o seu estudo. Este facto levou também à crescente divisão da ciência e sua especialização. Caso este fenómeno se torne cada vez mais radical, corre-se sérios riscos, já que esta posição não é a mais correcta , pois o cientista deve ter interesse não só pela área que estuda, mas também pelas outras, com vista a adquirir conhecimentos para se auto-emancipar, caso contrário será um “ignorante especializado”.

    Na verdade, apesar desta especialização, as ciências mantêm uma relação entre si, sendo possível distingui-las.
    Existem muitas propostas de divisão da ciência em ramos. Uma dessas propostas defende a divisão da ciência mediante o seu objecto.  

    As ciências formais são constituídas por enunciados analíticos cuja verdade depende apenas da sua estrutura lógica ou do significado dos seus termos.    As ciências factuais são constituídas por enunciados provenientes da razão e da experiência e, por isso, a sua verdade depende não só da razão, mas também dos factos ou da experiência a que se refere.
    Outra divisão possível é a classificação aristotélica das ciências. Aristóteles ao classificar as ciências teve como critério, não o objecto, mas sim a sua finalidade:

1.3- Problemática Ciência/Religião

    Quando um ser nasce, logo que começa a ter consciência daquilo que o rodeia, coloca variadas questões. Contudo, existe uma questão que se caracteriza por ser mais profunda e de difícil resposta – a existencial .
    Para responder  a este problema, temos várias propostas, no entanto, existem duas que se destacam: a Ciência e a Religião. Por esta razão, pretendi nesta subunidade, para além de expor as duas perspectivas, suscitar  no leitor uma reflexão sobre as duas perspectivas.

    A relação mantida entre a ciência e a religião, ao longo da história, sofreu várias oscilações. Porém, segundo o Concílio Vaticano I, a Ciência e a Fé devem ajudar-se mutuamente, não devendo a religião opôr-se à investigação científica.
    Na verdade, nos nossos dias, assistimos a uma época de intenso conflito. Casos como o aborto  e a clonagem exemplificam bem esta situação instável. Mas, nesta subunidade, vou tratar principalmente de dois temas, procurando expô-los muito resumidamente, tendo como principal objectivo suscitar a reflexão sobre os mesmos.

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1.3.1- Origem do Universo

    Posição da Ciência
    Muitos cientistas acreditam que a origem de tudo pode ser explicada pelo Big-Bang. Com efeito, este maravilhoso fenómeno é descrito por muitos especialistas como fantástico, rápido e ao mesmo tempo intrigante. Foi há 15 milhões de anos que tudo se passou: a partir de uma partícula pequeníssima, assombrosamente mais pequena que um átomo, com grande densidade e elevada temperatura, surgiu uma explosão que possibilitou a expansão de toda a matéria. Acredita-se que a primeira matéria era uma nuvem de hidrogénio primordial. Posteriormente, através desta, foi possível sintetizar todos os elementos que conhecemos hoje. Mais tarde, devido a fenómenos físicos e atracção gravitacional, formaram-se galáxias e vários sistemas semelhantes ao solar.

    Muitos físicos acreditam ainda que o Universo se encontra em expansão, mas vai chegar a um instante em que vai haver uma regressão, isto é, depois de toda a expansão, todas as partículas vão regredir para o ponto inicial ínfimo.
    Até este ponto tudo encontra sustentação, contudo, e este é o maior problema dos cientistas, se regredirmos até ao instante zero – “Barreira de Planck”- e questionarmos o que está para trás disso, o que deu origem ao ponto ínfimo, ninguém ,na ciência, sabe ainda responder. Aliás, verificou-se que quem “por lá” se aventurou, encontrou coisas verdadeiramente incríveis, que não são, ainda, inteligíveis.

    Assim, podemos concluir que todas estas situações nos demostram que esta teoria é uma cadeia de causas e efeitos sem princípio. Todavia, ficam ainda outras questões no ar:
-    Porque foi criado o Unniverso?;
-    Quem/qual foi o princ&ípio activo anterior à Barreira de Planck?

Posição da Religião
    Segundo a Bíblia Sagrada, Deus é o criador de todo o Universo e de tudo o que nele contem (Gn 1, 1-31). Criou-o num acto de amor e liberdade, sendo um ser omnipotente; devendo qualquer constituinte do Universo “submeter-se” ao seu reinado. Um dos filósofos que assim pensou foi Leibniz. Segundo ele, a causa de tudo isto teria sido Deus, sendo a razão suficiente do mundo.

    Porém, tal posição parece ser muito incompleta. Qualquer ser humano, penso eu, questiona e interpela. Fazendo este exercício poderá chegar à conclusão de que esta posição é redutora, pois falta algum fundamento. Não se pode partir de tais pressupostos para construir a teoria da criação do Universo... Creio eu.Como podem as pessoas crer nesta posição sem problematizar?

« Não acredito em Deus porque nunca o vi
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!
(...)
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?»

            Alberto Caeiro

1.3.2- A origem do ser vivo

      A posição da ciência relativamente a este aspecto, remete-nos para 4000 milhares de anos atrás, já depois do sistema solar estar relativamente definido.
   Primeiramente, devido aos gases e vapores libertados pelas superfícies internas da terra, começou a formar-se uma atmosfera. O modelo que explica a constituição da atmosfera variou muito ao longo dos anos, contudo o Modelo actual, é o que goza maior aceitação junto da comunidade cientifica. Assim sendo, a atmosfera era composta por óxidos de carbono, vapor de água, azoto, metano e amoníaco.

    Segundo a hipótese heterotrófica, a partir desta atmosfera, conjuntamente com as radiações ultravioleta, bem como o calor proveniente da Terra e descargas eléctricas, foi possível, reagindo entre si, formar os primeiros compostos orgânicos. Por sua vez, estes compostos sofriam polimerizações, originando os primeiros seres vivos.

    A ciência conseguiu explicar só o decorrer dos acontecimentos mas não as suas causas. Por isso fica esta pergunta no ar: porque existimos?; Como se explica o surgimento de uma espécie humana onde todos os constituintes se interligam perfeitamente?; Sabendo hoje que a probabilidade de surgir a primeira célula viva é de 1/101000, não podemos dizer que tudo isto é um verdadeiro milagre, e remeter este fenómeno para a alçada de um Deus? Por outro lado, a religião tem outra posição relativamente a este assunto. Segundo a Bíblia, «o Senhor Deus plantou um jardim(...)e nele colocou o homem que havia formado.(...)

    O Senhor disse:”Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele.”(...)
    Então o senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas(...)fez a mulher e conduziu-a até ao homem.»
    Como nos podemos aperceber, através deste excerto da Bíblia, esta posição para além de ser um pouco ingénua, carece de fundamento. Qual o método que utilizou Deus para criar o ser vivo? Porque razão o criou? Nada sabemos sobre isto, nem a Religião consegue responder a estes fenómenos sem ser por intermédio de dogmas e muitos simbolismos.
     O que temos verificado, ao longo destes tempos, é a constante evolução da ciência que, cada vez mais, vem responder doutra forma às mesmas questões que a religião respondeu outrora, de forma muito dogmática. Por exemplo, atentemos ao “milagre de Fátima”: muitos cientistas, após árduo estudo, acreditam que o que realmente aconteceu foi um fenómeno solar. Por outro lado, a teologia defende que a intervenção de Deus na história da humanidade se concretiza, sempre, através de fenómenos naturais.

    Em suma, através desta pequena reflexão pretendi demonstrar que não devemos ter certezas de nada, devemos, isso sim, questionar e duvidar para, de forma metódica, tentar alcançar a verdade.

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2- Ciência e Sociedade

2.1- Relação entre a Ciência e a Sociedade

     Se tivéssemos de caracterizar a cultura e sociedade ocidentais do século XX, poderíamos deitar mão de muitas expressões já consagradas: sociedade capitalista, sociedade industrializada, sociedade de consumo, sociedade tecnológica ou até sociedade automatizada. Há ,no entanto, uma cultura que predomina – a cultura científico-tecnológica. Ela é de tal ordem poderosa e omnipresente que acaba por estar connosco desde o acordar até ao deitar.

    A tecnociência, construída por um determinado tipo de sociedade, está de tal forma interligada com ela que só faz sentido em relação a essa mesma sociedade. Desta forma, se as inovações tecnológicas e científicas ,erigidas por um determinado tipo de sociedade, forem adoptados por uma sociedade totalmente distinta, quer em objectivos futuros ou, mais importante, na sua utilização para alavancar um processo de desenvolvimento rápido no contexto social, não faz qualquer sentido. Por exemplo: não faz qualquer sentido tentar implantar em África uma cultura computacional e informática, quando existem crianças a morrer por falta de alimentos. Penso que através desta exemplificação, ficou bem claro que a ciência e a sociedade andam de mãos dadas, mas , mais do que isso, cada sociedade adopta ou acolhe a tecnociência que lhe vai permitir responder às primeiras necessidades.

    Com efeito, nestas últimas décadas , verificámos que a ciência conquistou um poder, de tal ordem grande que para além da influência nos meios culturais, económico e social, tem ,também, no seio de todas as decisões – o meio político . Ora, é aqui que o maior problema poderá residir, uma vez que nas sociedades mais desenvolvidas, todas as áreas dependem do poder central. Caso este poder não tome posições com responsabilidade e ética, muitos problemas podem surgir, sem que a sociedade civil tenha qualquer culpa e capacidade de corrigir erros graves.

    Por esta razão, começam, dentro das sociedades ditas “desenvolvidas”, a emergir grupos consciencializadores, como a Greenpeace, com o objectivo de alertar o poder político que a sociedade civil não dorme e está pronta a agir antes que os problemas apareçam. Naturalmente, não será de espantar se no futuro as matérias-primas e bens ecológicos passem a ser entes jurídicos, de maneira a responsabilizar a classe humana. Poderão as pessoas questionar: porquê considerar as árvores e outros seres vivos entes jurídicos? Poderá até ser provocação política, mas...

            « Que seria o homem sem os animais? Se todos fossem exterminados, o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque o que sucede aos animais também sucederá ao homem. Tudo está ligado.»
                (Carta do chefe Índio Seattle, de 1854)

Enfim, após esta breve introdução à unidade 2, poderemos reter algumas ideias essenciais:
-    A ciência e a soociedade estão intimamente relacionadas, dependendo uma da outra;
-    Cada vez mais, existe aproximação da ciência à sociedade civil, principalmente  aos jovens;
-    Devido ao grau de envoolvimento que a ciência tem na nossa vida, urge pensar nela e nos problemas que ela coloca. Para esse efeito, quer a sociedade civil, quer as comissões de ética e outras semelhantes devem ter, sempre, algo a dizer;
-    E, finalmente, n&atildde;o podemos dormir. Os problemas estão aí, têm que ser resolvidos, sem burocracia mas com muita democracia.

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2.2- Grandes desafios da ciência

A EXPLORAÇÃO ESPACIAL

    O papel desempenhado pela  exploração espacial  influenciou o quotidiano das pessoas, sendo algo simultaneamente tremendo e tão tido em pouca conta. As descobertas e estudos desenvolvidos levados a cabo pelas equipas de exploração espacial marcaram definitivamente a história mundial. Quem não se recorda da chegada à lua? Na verdade, no futuro, quer a exploração espacial quer investigação genética terão um grau elevado de desenvolvimento e de importância na vida das pessoas. Contudo, acredito que a exploração espacial terá uma margem de desenvolvimento maior do que a engenharia genética, porque ,apesar de ambas responderem a perguntas que já há muito o homem ansiava responder, o campo de estudo é assombrosamente superior, para além do objecto da engenharia genética estar inserida num todo que é o Universo ( objecto de estudo da astronomia).

    A perda de importância da exploração espacial no subconsciente das pessoas pode ter diversas origens. A primeira deve-se à repetição de imagens sobre o espaço desde há mais de quatro décadas, o que vai ajudar um pouco à banalização das viagens espaciais. A segunda poderá residir naquela  ideia de : para quê investir em exploração espacial, quando muitas crianças na nossa Terra morrem à fome? Este ponto pode resumir-se à incapacidade das pessoas não estabelecerem objectivos científicos relacionados com as primeiras necessidades humanas. Muitas vezes, a investigação científica é mesmo assim, os resultados de certos trabalhos e estudos não são obtidos a curto prazo, mas sim a longo prazo. A terceira razão poderá ser suportada nos acontecimentos recentes ocorridos nos EUA, que levaram à morte de vários astronautas aquando da entrada do vaivém na atmosfera terrestre. Todos estes pontos em conjunto poderão descredibilizar e desincentivar a exploração espacial.

    Contudo, o Universo sempre foi e será uma fonte de inspiração para o homem, para além de o instigar a questões filosóficas. De certo modo, aquilo que os astronautas e astrónomos fazem, poderá assemelhar-se à tentativa de responder a questões idênticas colocadas pelo  Período Cosmológico da filosofia. Porque  estamos aqui? Qual a causa de tudo isto?...

    Os mais recentes projectos ,propostos pelas organizações responsáveis por estas matérias, poderão passar pela descoberta de mais pormenores de Marte; de novas Galáxias, na tentativa de encontrar planetas semelhantes à Terra e vida noutros planetas; e, finalmente, o acompanhamento atento na evolução do buraco do ozono.

  A NEUROFARMACOLOGIA E O CONTROLO DO COMPORTAMENTO HUMANO

    Nestas últimas décadas, a nível da neurofarmacologia, bem como da psicologia,  fizeram-se descobertas incríveis! Este progresso teórico, culminou numa fantástica evolução na concepção das substâncias psicotrópicas, que se deve ,em grande parte, a um melhor conhecimento do comportamento e natureza química do nosso cérebro, desenvolvidos por Sigmund Freud.

    Contudo, esta teoria desenvolvida por Freud, segundo Francis Fukuyama, «pode ser comparado com uma teoria desenvolvida por um grupo de homens primitivos que descobrissem um automóvel com o motor a trabalhar e tentassem explicar o seu funcionamento interno sem serem sequer capazes de levantar a cobertura.» (2). Deste modo, podemos deduzir que esta teoria deve ser mais aprofundada, não deve ficar pela rama. A quem coube aprofundar esse estudo e olhar mais atentamente para o cérebro foi à neurologia pós-Freud. Este conhecimento, para além de ser poderoso é ao mesmo tempo muito perigoso, uma vez que uma ciência conhecedora do comportamento cerebral, mais tarde ao mais cedo, de forma mais ou menos aperfeiçoada, conseguirá controlar o cérebro. Como vemos, isto trás implicações éticas e sobretudo políticas. Por isso, não me admiraria se num futuro próximo começassem a surgir ,na sociedade, vozes a insurgir-se, reclamando comissões de ética mais apertadas para estes ramos da ciência! Talvez, até mais do que aqueles que regulam a clonagem.

    Como vemos, a neurofarmacologia é algo muito poderoso, mas ao mesmo tempo perigoso! Para explicar melhor, vou recorrer a dois exemplos nossos conhecidos:o Prozac e o Ritalin.

    O Prozac, ou fluoxetina, funciona como um inibidor de reabsorção da serotonina(hormona), fazendo com que a sua concentração aumente no nosso cérebro e consequentemente deixemos de estar deprimidos. A baixa concentração de serotonina, associa-se a depressões, agressividade e também perda do controlo dos impulsos.

    A revolução efectuada pelo Prozac foi possível ser verificada quando Kramer(médico) descreveu o sucedido com uma paciente sua. Essa cliente tinha uma depressão crónica, devido à falta de orientação profissional e também mau relacionamento  com os homens. Após um tratamento de semanas com Prozac, verificou-se uma verdadeira revolução, devido a uma mudança radical da personalidade da mulher: deixou as relações deprimentes com os homens e passou a ter perspectivas futuras sorridentes. É óbvio que depois de uma história destas, as vendas de Prozac dispararam abruptamente. Mais tarde, veio a descobrir-se que este medicamento tinha efeitos secundários como: aumento de peso, tiques nervosos, perda de memória, disfunção sexual, suicídio, violência e danos cerebrais. Para além de residir aqui um grande problema, não será também pertinente questionar  quem era a verdadeira pessoa, se antes ou depois de ser medicada? Não será isto manipulação? Imaginemos um governo ditatorial a administrar à população um medicamento estilo Prozac, quais as consequências? Ou, como Francis Fukuyama refere: «Teriam Júlio César e Napoleão sentido a necessidade de conquistar quase toda a Europa se tivessem podido tomar de vez em quando um comprimido de Prozac?».(3) São ,sem dúvida, problemas complicados, e ainda tornar-se-iam mais difíceis se  os analisássemos pelo lado comercial!
    Do outro lado temos o Ritalin, medicamento de controlo, administrado a jovens com dificuldades de concentração. Funciona como um estimulante do sistema nervoso central, os efeitos são muito semelhantes às drogas conhecidas como speed’s ou anfetaminas, aumentando a atenção e fornecendo mais energia num curto prazo. A patologia que está na origem desta doença é desconhecida, os médicos guiam-se apenas pelos sintomas. Assim, não é difícil entender que o risco de “epidemia” é muito maior. Vejamos, se as pessoas se conduzirem pelos sintomas, segundo Edward Hallowell e John Rately (psiquiatras), cerca de 15 milhões de americanos estariam afectados. Esta situação é de certa forma anedótica!
    Na década de 90, o Ritalin tornou-se muito comum no seio estudantil, de tal ordem, que certos professores, em determinadas universidade, afirmavam que as salas de aula pareciam uma farmácia!
    O alastramento destes medicamentos podem fazer emergir dois comportamentos humanos reveladores de uma pobreza mental acentuada. O primeiro deve-se ao facto do ser humano ter necessidade de atribuir aos seus comportamentos um estatuto patológico, no sentido de se desresponsabilizar.

    O segundo decorre da mania que o ser humano tem em ver tudo doenças, generalizando o tratamento para todas as situações, o que é completamente errado.
    Na verdade, entre o Prozac e o Ritalin existem simetrias  incríveis. O Prozac receita-se principalmente ao sexo feminino, que carece de auto-estima. O Ritalin é normalmente consumido por jovens do sexo masculino que não estão quietos nas aulas. Em suma, ambos os sexos caminham para uma personalidade mediana, sujeitando-se ao politicamente correcto.

    Cabe ao ser humano, ser capaz de analisar as situações, e só em situação de verdadeira  doença tomar estes medicamentos. Não deve existir um abuso, já que a partir de certo ponto, estes comprimidos alteram a nossa verdadeira personalidade, e também podem conter efeitos secundários desconhecidos.

GUERRA ÀS DOENÇAS

     Vivemos uma era onde reina uma constante e rápida evolução da tecnologia. Infelizmente, muito poucas pessoas, tendo em atenção a globalidade da população mundial, podem ter acesso a esta tecnologia. Aliás, se atentarmos aos casos dos países chamados de “3º mundo”, verificamos que para além de não existir um acesso a esta tecnologia de ponta, também é nestes países que as doenças, mais precisamente, epidemias proliferam.

    Os desafios que temos de enfrentar são verdadeiramente assustadores! E é precisamente neste ponto que reside a  principal frustração da ciência: por um lado, desenvolvemos novas tecnologias e inovações que podem revolucionar a nossa vida; por outro, vemos o tempo a passar e doenças por todo mundo continuam a devastar milhares de humanos! Será caso para questionar: Não deverá o humano reprogramar as políticas de investigação cientifica? Melhor dizendo, não deverá a comunidade cientifica, neste momento que doenças matam milhares de pessoas inocentes, convergir todos os seus esforços para tentar resolver este problema prioritário, e colocar de lado outros projectos desnecessários como o desenvolvimento de tecnologia de ponta, que só serve para desenvolver o consumismo?

    Por isso, penso que já chegou a altura de pararmos de chamar “coitadinhos” aos habitantes dos continentes de “3º mundo”, e passarmos à acção! Devemos prevenirmo-nos das variadas infecções e ajudar esses países a prevenirem-se, com vacinas, alimentação e muitos outros bens! Tubo bem que isto é muito teórico, mas também tenho a noção que um grande desafio da humanidade ( repartição igual de riquezas) não é levado em conta por muitas pessoas e , mais grave ainda, por países que são defensores destas medidas. Veja-se o presente caso, do ataque ao Iraque: porque razão vão os países amantes do amor, da liberdade e da justiça, conduzir as suas verbas para uma guerra, que só vai agravar as coisas, em vez de aplicá-las em organizações que lutam para que as pessoas que vivem em condições precárias possam ter um melhor futuro? Porquê ser hipócritas?...

    Prova de que devemos reunir todos os esforços para combater as doenças é o facto de que nos últimos 25 anos, pelo menos 20 doenças importantes, que pensávamos estarem erradicadas, voltaram com  formas  virais  mais aperfeiçoados e adaptados aos fármacos. Seis doenças ( gripe, SIDA, doenças diarreicas, tuberculose, malária e sarampo) são responsáveis por 90% das mortes por doenças infecciosas em todo o mundo.

    Provavelmente o que isto poderá significar, é que daqui a alguns milhares de anos a espécie humana desaparecerá, já que, como refere Jim Hughes (Director do Centro dos EUA de Doenças infecciosas), os micróbios e vírus têm uma capacidade de adaptação ao planeta superior ao humano, e para além disso, os seres virais são muito superiores, em número, ao humano, e para agravar mais o panorama, eles evoluem em minutos, aperfeiçoando-se rapidamente! E o que é mais ridículo de tudo, é o facto de ,por vezes, actuarmos como cúmplices, ao comprarmos vegetais e outros produtos alimentares carregados de antibióticos, uma vez que muitos micróbios, ao tomarem contacto com estes produtos, melhoram o seu sistema de defesa!

    Neste momento, a palavra de ordem deve ser vigilância, na tentativa de descobrir e convergir esforços para erradicar as doenças. E essa vigilância passará por financiar mais projectos de investigação científica relativamente à imunologia humana. Contudo, o que temos vindo a verificar é que cada vez menos, os governos investem menos nesta imprescindível tarefa. Terão eles feito algum pacto económico ,mais vantajoso, com os micróbios?

«Todos os seres, até agora, criaram algo que está para além de si próprios; e vós quereis ser a vazante dessa grande maré e até retornar ao animal, de preferência a superar o homem?
O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha. É isso mesmo que o homem deve ser para o super-homem: uma risada ou uma dolorosa vergonha.
Haveis percorrido o caminho desde o verme até ao homem, e em vós ainda há muito de verme. Em tempos, fostes macacos, e, ainda agora, o homem é mais macaco do que qualquer macaco.»(4)
Friedrich Nietzsche

A ENGENHARIA GENÉTICA

    Nos tempos que correm, a engenharia genética tomou um papel muito importante na nossa sociedade. Ela está presente quer no mundo animal, quer no mundo vegetal e, consequentemente, na nossa alimentação.
    A expressão “somos aquilo que comemos”, nunca fez tanto sentido! Isto porque, cada vez mais verificamos que muitos dos alimentos pertencentes à nossa cadeia alimentar são geneticamente modificados, não correspondendo, muitas vezes, às expectativas do consumidor.
    Os novos processos para produzir alimentos podem até ser mais baratos, mas acarretam muitos problemas, não compensando o dinheiro poupado para produzi-los.

    Neste admirável mundo novo, a engenharia genética procura manipular os alimentos, tentando cruzar DNA’s de espécies diferentes, de modo a produzir melhores alimentos como: tomates e brócolos melhorados para combater o cancro; arroz e mandioca enriquecidos com vitaminas; trigo e soja sem alergénios; bananas usadas como vacinas; e, finalmente, óleos vegetais ,de tal maneira enriquecidos, que os médicos  os receitam para combater doenças cardíacas.

    Contudo, os opositores a esta política, receiam que seja colocado no mercado, alimentos deste tipo ,sem se conhecer a totalidade dos seus riscos. E o grande problema é o facto deles estarem a ser distribuídos, sem  qualquer política de controle e de reconhecimento. Prova disso, é o facto de nos EUA, mais de 60% dos alimentos colocados à venda nas grandes superfícies, são geneticamente modificados, sem as próprias pessoas se aperceberem disso.

    Os grandes benefícios deste projecto poderão ser:
1-    Maior proveito nas colheitas, auxiliando os países menos desenvolvidos;
2-    Através de manipulações genéticas, seria possível incorporar no alimento organismos de defesa naturais, evitando-se, assim, o uso de pesticidas e a consequente poluição dos solos;
3-    E, finalmente, os alimentos poderiam ser mais nutritivos.

    Os principais riscos residem:
1-    No desconhecimento de efeitos nocivos para os humanos;
2-    No perigo dos micróbios poderem adaptar-se às novas culturas, e consequentemente desenvolverem-se e formar novos sistemas de defesa;
3-    No facto de poder-se perder a genuína espécie de certos vegetais, isto é, com a mistura de genes de diferentes espécies, pode perder-se a verdadeira.
4-    E, finalmente, as pessoas têm que ter a consciência de que existem interesses económicos por trás destas operações, adoptando, as empresas agro biotecnológicas, muitas das vezes, estratégias de marketing enganosas.

    Resta saber se os alimentos geneticamente modificados vão cumprir as suas promessas de melhorar a qualidade de vida humana, cabendo ao ser humano avançar com cautela, uma vez feitos os erros, poderemos pagar muito caro!
     À imagem da engenharia genética aplicada a vegetais, também aquela que é aplicada ao reino animal tem muitos prós e contras. A clonagem em animais começou há décadas, contudo ela passou a ser vista com mais atenção aquando do surgimento da ovelha Dolly – pela primeira vez tinha-se clonado a partir de células somáticas(corpóreas) adultas. Com efeito, após esta mudança, muitos cientistas já propuseram aplicá-la ao humano, todavia, neste momento, muitas vozes na sociedade se insurgem contra esta prática científica.

    Em última análise, poderemos questionar: Em que medida a clonagem poderá alterar a natureza humana?
    Para alguns, esta alteração de natureza humana não é posta em causa, até porque não está na “agenda” da biotecnologia alterá-la, nem isso é  ainda possível.
    No entanto, Francis Fukuyama  afirma que para responder a esta questão é necessário ter prudência. A primeira razão tem haver com o progresso notável e repentino da Ciência. Exemplo disso é o facto de que no final dos anos 80, havia um sólido consenso de que era impossível clonar a partir de células somáticas, mas a Dolly, em 1997, com o seu nascimento provou que era possível.

    A segunda, e última razão, reside no facto de o cientista não necessitar de saber o todo para executar uma parte, isto é, o cientista pode não conhecer o complexo mundo de interacção dos genes, não sendo isto impeditivo de executar a sua manipulação. Aliás, o que se tem verificado na engenharia genética é precisamente  uma  evolução do mais simples para o mais complexo.

    Como vemos, estes factos provam que não devemos abordar estes assuntos com ligeireza, contudo a resposta a esta pergunta é imprevisível, restando-nos acompanhar o futuro da ciência.

    O que mais tem assustado a sociedade é a clonagem reprodutiva! No entanto, apesar de muitas pessoas, movimentos fanáticos e cientistas a apoiarem, ela parece fracassar logo à nascença. Como primeiro motivo poderemos ver os entraves éticos e vozes discordantes que têm desencorajado esta prática. Outra restrição imposta é o acontecimento recente da morte de Dolly, revelando imperfeições e descredibilizando este método. Além destes factos, se os cientistas recorressem a este método, poderiam correr o risco de explorar uma família que tinha acabado de perder um filho. Desenganem-se as pessoas que pensam que a clonagem reprodutiva pode criar cópias integrais de seres humanos, isto porque a clonagem não consegue copiar a alma de um humano!

    Na verdade, existe outro tipo de clonagem que é do agrado dos cientistas e éticos – a clonagem para fins medicinais -, uma vez que esta, poderá constittuir um avanço no tratamento de doenças que até hoje estavam sem cura.

    Em suma, poderemos pensar que a clonagem humana reprodutiva poderá não ter sucesso, mas, como disse no início, deveremos ser cautelosos, pois a história já nos mostrou casos incrédulos e inesperados. Imaginemos que este método é posto em prática: Quem porá em causa a dignidade do clone? Alguém terá coragem para actuar dessa maneira? E mais, se repararmos, um dos argumentos mais utilizados pelas vozes contra a clonagem é o facto de ela ser anti-natura, mas o que tem vindo a fazer a ciência, senão isto? A ciência na sua evolução, entre muitas coisas, pretende prolongar a vida humana, e isso  é ir contra as leis da natureza. Não será esse o caso da vacinação ? Como vemos neste ponto os opositores contradizem-se!
     No meu ponto de vista a clonagem é uma arma poderosa da ciência, tal como a vacinação e outras coisas. Resta ao humano e principalmente ao cientista utilizá-la com muita responsabilidade!

3- Ciência e Ética

            «(...) nunca devemos esquecer a pesada responsabilidade que cabe ao cientista.» (5)
     A investigação científica percorre frequentemente dois caminhos na procura da verdade: a indução e dedução. Na sua pretensão de formular leis tendencialmente universais, os métodos percorridos pela ciência são múltiplos, por isso não se pode dizer que na ciência existe um método para construir o conhecimento, existem, isso sim, vários métodos que são adoptados pelos cientistas consoante o objecto de estudo de cada área científica.

    O conhecimento científico é por si só um valor, mas a decisão sobre quais conhecimentos a sociedade ou o cientista devem concentrar os seus esforços, implica a consideração de outros valores. Da mesma forma não se pode deixar de considerar o papel do cientista ou da actividade que ele exerce. A responsabilidade ética deve ser avaliada não só pelo exercício das suas pesquisas em si, mas pelas consequências sociais decorrentes das mesmas.

    Nos dias que correm devemos apelar, cada vez mais, a uma constante responsabilização do cientista. Porquê? Esta preocupação deve-se, essencialmente, ao facto da ciência e todo o seu conhecimento se tornar potencialmente aplicável. Antigamente, as coisas não eram bem assim, até porque ainda não existia uma grande divulgação científica. O cientista apenas tinha a preocupação de procurar a verdade, tentando aprofundar o conhecimento.

    Actualmente, tudo mudou. Várias empresas e poderes políticos, constataram as potencialidades científicas, e por isso, decidiram explorá-las, umas vezes negativamente, outras vezes positivamente. Com efeito, os cientistas muitas vezes sentem-se perdidos e com falta de referências exemplares que possam guiar a sua conduta. Por esta razão, surge cada vez mais a necessidade de implantar junto dos ramos científicos a ética.

«Temos construído armas e forjado políticas que nenhum de nós[cientistas] individualmente, no foro íntimo da sua consciência privada, teria apoiado.»(6)

    Antes de avançarmos, impõe-se uma simples questão: - Afinal, o que é a Ética?-
    Ora muito bem, a resposta não é tão simples como a pergunta, mas, o curioso é que a ética tende simplificar a nossa vida. Se tentar definir e explicar com muita objectividade o que é esta ciência, poderia dizer que estuda a arte de viver, isto é, ajuda os humanos, seres que tendem para o erro, a fazer as melhores opções, de forma a poderem viver e deixar viver todos os que lhe rodeiam. Por isso, muitas vezes a vida torna-se cruel, já que temos que fazer opções difíceis:

    «Santa crueldade. Um homem, que trazia uma criança nos braços, foi ter com um homem santo e perguntou-lhe: “Que devo fazer com esta criança? É um desgraçado informe que já não deve ter muito tempo de vida.” Respondeu-lhe o homem santo, soltando um grito terrível: “Mata-o e guarda-o nos teus braços durante três dias e três noites para que nunca mais te esqueças! Nunca mais engendrarás assim um filho, quando não for o momento próprio para lhe dar vida!” Ouvindo isto, o homem afastou-se, desiludido, e muitos foram os que censuraram o homem santo por tê-lo aconselhado a matar a criança. Ao que este respondeu: “Não seria mais cruel deixá-la viver?”»(7)
                Friedrich Nietzsche

    Passando agora à questão “Qual a responsabilidade moral do cientista?”, deve-se esclarecer antes que o cientista, pelo facto de trabalhar num campo especializado, tem uma responsabilidade única e especial. De tal maneira especial que em certas investigações científicas, só eles são capazes de encontrar implicações decorrentes dessa descoberta, que ,numa primeira vista, passam despercebidos a um leigo.

    Contudo, existem certos pontos comuns e básicos que caracterizam a responsabilidade essencial de um cientista. Em primeiro lugar, existe um encargo relativo à própria profissão dos cientistas: deve haver uma procura incansável da verdade, ou melhor, procura de aperfeiçoar teorias anteriores. Este aspecto mostra que qualquer cientista está sujeito ao erro, todavia esse erro não deve ser o motivo da sua desistência, deve, isso sim, consistir o ponto de partida para tentar atingir a verdade.
     Outro aspecto que deve constituir motivo de responsabilidade para o cientista é o facto de ele pertencer a uma comunidade, devendo respeito a todos os que lhe transmitiram valores e conhecimentos, não implicando, isto, que tenha uma atitude acrítica perante aquilo que lhe transmitem. Na verdade, este respeito e honestidade intelectual, deve-o a quem lhe transmite conhecimentos, bem como a toda a humanidade, já que, muitas vezes, sem o cientista ter consciência, certas investigações científicas, bem como certas descobertas podem afectar a vida de muitas pessoas inocentes.

    Antigamente, as pessoas alimentavam uma imagem negativa dos “homens de bata branca”. Em grande parte, isto devia-se a um distanciamento enorme existente, entre o cientista e a sociedade. Deste modo, o cientista deve efectuar uma maior aproximação com a sociedade, divulgando e democratizando o conhecimento científico, sem qualquer espécie de arrogância ou altivez. O cientista tem um papel fundamental como educador das gerações vindouras.

    Na verdade, qualquer homem que trabalhe na ciência, deve ,acima de tudo, respeitar a sua consciência moral. Como já referi em cima, muitas vezes, certos investigadores deixam-se ser manipulados por propostas ambiciosas, em troca de uma boa recompensa material. Contudo, esses homens e mulheres, devem ter a noção de que não estão a agir da forma mais correcta.

    Assim, o cientista deve seguir aquilo que a sua consciência lhe diz, porque por detrás de um projecto estão humanos (quer os cientistas, quer aqueles que mais tarde vão ser afectados pelas consequências nefastas) que têm uma dignidade, e devem recusar submeterem-se àquilo que se julga ser consenso geral. Perante este problema, o poder central tem um papel importante a desempenhar: permitir que aqueles cientistas ,que não estão de acordo com certos projectos, desenvolvam a sua actividade, dando-lhes condições, independentemente da raça, nacionalidade, ou até mesmo cor política.
    Com efeito, segundo Bronowski, entre o governo e os cientistas existem diferenças marcantes:

    «Os governantes acreditam que a sociedade deveria permanecer tal e qual como está - e, sobretudo, deveria prescindir-se do acto eleitoral. Os cientistas, por outro lado, acreditam que a sociedade deveria ser estável, sem que isso seja sinónimo de estático. Os cientistas desejam ver uma sociedade em evolução, tal como acontece no mundo físico.»(8)

    Como podemos depreender por este excerto, o humano que está por trás do cientista, é influenciado por esse espírito evolutivo e transitório, que a ciência acarreta.

    Até agora, só divulguei as responsabilidades do cientista e do poder central. Falta revelar a responsabilidade do público em relação à ciência. Deste modo, o cidadão comum deve assumir uma postura de total curiosidade sobre tudo o que o rodeia, exigindo aos cientistas e governo, informações sobre tudo o que se está a desenvolver no laboratório. Assim, as pessoas não podem nem devem dormir, devem, isso sim, manifestar uma atitude de total desconfiança (ponderada) sobre tudo o que se passa, envolvendo-se dessa forma nas principais decisões que o país tem que tomar. Ora, estes três pólos ciência/governo/público, devem estar em completa conexão, respeitando os seus campos de actuação, não implicando o respeito, submissão e mecanização.

    Para finalizar, gostaria de reter a ideia de que, agora e no futuro, o cientista vai ter um papel importantíssimo, de educador e, acima de tudo, de um ser activo que não se submete àquilo que se costuma apelidar de “politicamente correcto”, transformando e revolucionando as sociedades.
 
Conclusão- Que Futuro?

    Chegando agora ao fim do meu trabalho, gostaria de fazer uma breve reflexão sobre o futuro que se avizinha, colocando três questões:

1.    Será que a ciência tem limites?
     Ao longo deste trabalho, exaltei a ciência, contudo essa exaltação foi de certo modo comedida, porque a ciência ,apesar de todas as potencialidades que possuí, também tem limites. Existem uns que resultam da prática científica, e outros são de natureza externa.
    Assim, os limites intrínsecos da ciência resultam do facto de ela nunca estar concluída, de estar em constante mutação, e também pelo facto de a ciência não dar uma explicação definitiva sobre a realidade e não conseguir penetrar na metafísica.
    Os limites extrínsecos resultam do condicionamento histórico, político, social e económico, que determinam o progresso da ciência.
    Deste modo, podemos perceber que a ciência não é ilimitavelmente poderosa, nem que tudo pode fazer.

2.    Até onde pode ir a ciência?

    A prática científica não pode ter uma liberdade absoluta. Não há uma investigação pura e, por isso, a prática científica deve estar subordinada às finalidades justas( respeitantes à dignidade humana) da vida moral e política.
    A exaltação dos méritos da ciência e da tecnologia escondeu o lado negro da desumanização e do desencantamento em relação à essência humana.
    O crescimento industrial, as possibilidades da engenharia genética, bem como a crescente possibilidade do conhecimento científico se tornar potencialmente aplicável, colocaram a responsabilidade ética do cientista, e obrigam as comunidades científicas a seguir o seu próprio código deontológico.

3.    Quem deve controlar a ciência?

    As organizações ecologistas, bem como um conjunto alargado de pensadores, filósofos e bioéticos, entre muitos outros, têm denotado uma crescente preocupação, representando uma sociedade preocupada com a aceleração da investigação científica, que em muitos casos pode conduzir a danos irreparáveis na sociedade e na natureza. É a esses pensadores, organizações, estado de direito e, essencialmente, à comunidade social, que cabe o dever de intervir no controlo da tecnociência, uma vez que o desenvolvimento da tecnociência coloca problemas sobre o público e o privado, sobre informação e manipulação, instrumentalização e dignidade humana e, até mesmo, exploração económica e investimento útil.
    Tudo isto, obriga a definir aquilo que do ponto de vista ético é ou não é correcto; aquilo que deve ser limitado/proibido, daquilo que deve ser patrocinado. Deste modo, a harmonização da actividade científica são, hoje, uma preocupação dos Estados, das próprias comunidades científicas, das comissões de ética e, até mesmo dos próprios cidadãos.

    Enfim, com as inovações tecnológicas e os novos mundos que a ciência abre, é possível que o futuro próximo seja uma era pós-humana, isto é a essência humana seja alterada na esperança de poder criar um mundo menos estratificado, onde é possível fornecer capacidades inumanas aos humanos, no sentido de alargar a liberdade humana. Contudo, esta liberdade será muito diferente de todas as outras conquistadas. Esta liberdade seria ilimitada, e como tal, deixaria de fazer sentido, já que, na realidade, tratar-se-ia de uma anarquia. Contudo, ao contrário do que muitas pessoas pensam, esta nova era pós-humana pode vir a ser muito mais hierarquizada e competitiva do que a actual sociedade.

    Não somos obrigados a defender a era pós-humana, nem a sociedade de que fazemos parte. Não somos escravos da tecnologia, muito menos cegos, para nos apercebermos das lacunas do nosso mundo. Por isso, urge reflectir  e encontrar alternativas a estes dois cenários! Aceitam-se sugestões...

    «O contrato tácito que fizemos com a sociedade que nos deu a liberdade de actuar como profissionais é fundamentalmente moral e supõe, para lá do contínuo aperfeiçoamento científico e técnico, uma reflexão ética correlativa.» (9)

BIBLIOGRAFIA

AA. VV., Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura ,(1967), vol.5, Editorial Verbo, Lisboa, pp.450-455

AA. VV., Catecismo da Igreja Católica, (1993), Ed. Gráfica de Coimbra, Coimbra, p.78.

ABRUNHOSA, M. A. e LEITÃO, M., (1998), Um outro olhar sobre o mundo 11ºano, Porto, Edições Asa, 1ª edição, pp. 198; 337.

ALVES, F. e outros, (1991), Filosofia Pensar e Ser 10ºano, Lisboa, Texto Editora, 2ª edição, p.105

ANTUNES, J. Lobo, (2002), Memória de Nova Iorque e Outros ensaios, Lisboa, Gradiva, 3ª edição, p.249

BRONOWSKI, J.,(1992), A responsabilidade do cientista e outros escritos, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1ªedição, pp.29-40.

CAMPOS, Á., (s/d), Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa, Edições Ática, p.110

CARAÇA, B.J.,(2000), Conceitos fundamentais da Matemática, Lisboa, Ed. Gradiva, 3ª edição, p.62.

FUKUYAMA, F., (2002), O nosso futuro pós-humano, Lisboa, Quetzal Editores, pp.75-97; 121-136; 273.

GUITTON,J. (1991), Deus e a Ciência, Lisboa, Editorial Notícias, pp. 21-36

POPPER, K., (1996), O Mito do Contexto, Lisboa, Edições 70, pp.139-140; 153-161.

REIS, A. e PISSARRA, M., (2001), Rumos da Filosofia 11ºano, Lisboa, Edições Rumo, 3ª edição, pp.257-258.

SAVATER, F., (2000), Ética para um jovem, Lisboa, Editorial Presença, 6ª edição, p.28.
 

INTERNET:

Pensamento mítico in http://afilosofia.no.sapo.pt/emergcia.htm

O valor da Ciência e da Divulgação Científica in http://www.icb.ufmg.br/~lbem/aulas/grad/evol/ovalordaciencia.html

Ciência e Fé in http://www.bsb.netium.com.br/regis/ciencrel.htm

Exploração espacial in http://www.portaldoastronomo.org/tema7.php
 

JORNAIS E REVISTAS:

Clonagem in “Público”, Domingo, 19 de Janeiro de 2003, pp. 2-4

“Desafios da Humanidade” por Rick Weiss in National Geographic, Fevereiro 2002, pp.5-31

“Alimentos geneticamente modificados” in National Geographic, Maio 2002, pp.3-20

“Galáxias Vigiadas” por Ron Cowen in National Geographic, Fevereiro 2003, pp.2-29 

(1) – Álvaro de Campos, Poesias de Álvaro de Campos,  p.110 (voltar)
(2)- Francis Fukuyama, O Nosso Futuro Pós-Humano,  p.76 (voltar)
(3)- Ob. cit., p.82 (voltar)
(4)- Ob.Cit., p.121 (voltar)
(5)- J. Bronowski, A Responsabilidade do Cientista, p.30 (voltar)
(6)- Ob. cit., p.30 (voltar)
(7)- Francis Fukuyama, O Nosso Futuro Pós-Humano, p.273 (voltar)
(8)- J. Bronowski, A Responsabilidade do Cientista, p.37 (voltar)
(9)- João Lobo Antunes, Memórias de Nova Iorque e outros ensaios, p.249 (voltar)

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    CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA
  Os Limites do ser humano
Trabalho realizado para a disciplina de Introdução à Filosofia - 11º ano, por
Marta Guedes


 Introdução
 O impacto da ciência e da técnica no mundo ocidental
 Racionalidade, Ciência e Técnica  - quais os seus posicionamentos?
 Uma proposta de sentido - O mundo humano como “Um mundo transformado pela técnica"
 Qual a real influência da ciência e da técnica sobre os valores e crenças de uma sociedade e vice-versa?
 Tecnociência e Ética – uma dicotomia ou uma dialéctica?
 Conclusão
 Bibliografia
 Notas

 
 Introdução

     “ Olho-te daqui, meu filho, vejo-te brincar com os pequenos cubos que a tua imaginação rapidamente transformou em comboio, e interrogo-me: Que destino o teu? Que futuro temos nós para te dar? E haverá futuro com tantos mísseis apontados ao coração? Ao interrogar-me assim, imediatamente me censuro: como posso eu consentir à roda dos teus três anos de idade a sobra espessa e inquieta destas interrogações? Mentir? E como poderia eu pactuar com a mentira, ocultar esta inquietação, este medo de te ver crescer num lugar tão precário como a terra? Como deixar de pensar que contigo crescem no mundo milhões de crianças sem ternura, e que tantas outras morrem simplesmente de fome? – enquanto os homens, e quando digo homens tenho em mente os responsáveis pelos nossos destinos, continuam numa desenfreada corrida a armamentos cada vez mais dispendiosos e mortíferos, a construir reactores e centrais que não tardarão a pôr-nos o lixo nuclear à porta, comprometendo, assim, toda a economia do planeta, o seu equilíbrio ecológico, a sobrevivência das espécies, multiplicando a angústia, o terror de uma catástrofe atómica, fazendo-se da vida a negação da própria vida, transformando-se o homem, esse “prodígio” de que falavam os gregos, no “monstro” de que fala Pascal. E tudo isto para manter a mais bárbara, a mais vil, a mais hipócrita das sociedades – uma sociedade meramente mercantil, cujo objectivo único é o lucro, sem qualquer finalidade moral.
    Olho-te daqui, Miguel, vejo-te brincar com os pequenos cubos; juntando-os e empurrando-os, comboio seguindo viagem para qualquer lugar onde se não chegue dilacerado ou amputado da alegria de o homem sentir nascer para um novo amor, uma imaginação nova, distante já, e vamos dizê-lo com tremendas palavras de Nietzche, desse asilo de alienados que durante tantos anos foi a terra.” (1)
Apesar de ser um pouco longo, optámos por escolher este texto porque, cremos estar intimamente relacionado com o nosso trabalho e por ser extremamente belo.

    De facto, o tema do trabalho: “ Ciência e consciência” foi, à primeira vista, aliciante. Sempre foi do nosso interesse analisar as questões éticas,  não só é certo, que estão, ou deveriam estar, por detrás da ciência e da técnica. Com efeito, as nossas expectativas iniciais foram amplamente superadas!

    Frequentemente somos levados a interrogarmo-nos sobre o nosso destino. Que futuro temos nós [Homens] para dar aos que vêm depois de nós? Teremos futuro, dado o próprio contexto mundial? Assim, tal como o texto, tentámos fazer uma análise crítica da realidade e sentimos uma urgência, na antes experienciada, de mudança ... Se continuarmos passivos em relação a este panorama e, até o aceitarmos, caminhamos  de olhos abertos, que olham, mas não vêem, rumo ao nosso fim, ao fim dos recursos naturais, no fim do planeta Terra. Tal como nós, também o autor anseia, sonha por um mundo novo! E “ o sonho comanda a vida!” ( Fernando Pessoa)

É este o nosso ponto de partida. Não pretendemos apresentar soluções, e ficaremos plenamente satisfeitos se levantarmos ainda mais dúvidas.

    Este trabalho pretendia ser um percurso contínuo, de capítulo em capítulo, subcapítulo em subcapítulo. Consideramos este aspecto muito importante na medida em que acreditamos ser fulcral que não haja compartimentos estanques na própria organização do trabalho, assim como o tema.  Seria um paradoxo tentarmos demonstrar que ciência / técnica e ética  estão intimamente relacionadas e, de seguida, concretizar essa mesma separação!

    Assim, será dividido em três capítulos: Introdução, desenvolvimento (Para uma ciência com consciência/os limites da tecnociência....) e conclusão.

    No primeiro capítulo visamos introduzir o tema “Ciência com consciência” apresentando a estrutura do trabalho. O segundo capítulo apresenta dois subcapítulo
  Apesar de ser um pouco longo, optámos por escolher este texto porque, cremos estar intimamente relacionado com o nosso trabalho e por ser extremamente belo.

    De facto, o tema do trabalho: “ Ciência e consciência” foi, à primeira vista, aliciante. Sempre foi do nosso interesse analisar as questões éticas,  não só é certo, que estão, ou deveriam estar, por detrás da ciência e da técnica. Com efeito, as nossas expectativas iniciais foram amplamente superadas!

    Frequentemente somos levados a interrogarmo-nos sobre o nosso destino. Que futuro temos nós [Homens] para dar aos que vêm depois de nós? Teremos futuro, dado o próprio contexto mundial? Assim, tal como o texto, tentámos fazer uma análise crítica da realidade e sentimos uma urgência, na antes experienciada, de mudança ... Se continuarmos passivos em relação a este panorama e, até o aceitarmos, caminhamos  de olhos abertos, que olham, mas não vêem, rumo ao nosso fim, ao fim dos recursos naturais, no fim do planeta Terra. Tal como nós, também o autor anseia, sonha por um mundo novo! E “ o sonho comanda a vida!” ( Fernando Pessoa)

É este o nosso ponto de partida. Não pretendemos apresentar soluções, e ficaremos plenamente satisfeitos se levantarmos ainda mais dúvidas.

    Este trabalho pretendia ser um percurso contínuo, de capítulo em capítulo, subcapítulo em subcapítulo. Consideramos este aspecto muito importante na medida em que acreditamos ser fulcral que não haja compartimentos estanques na própria organização do trabalho, assim como o tema.  Seria um paradoxo tentarmos demonstrar que ciência / técnica e ética  estão intimamente relacionadas e, de seguida, concretizar essa mesma separação!
Assim, será dividido em três capítulos: Introdução, desenvolvimento (Para uma ciência com consciência/os limites da tecnociência....) e conclusão.

    No primeiro capítulo visamos introduzir o tema “Ciência com consciência” apresentando a estrutura do trabalho. O segundo capítulo apresenta dois subcapítulos.

    O primeiro subcapítulo permite-nos ter uma visão global da evolução da relação homem/ciência/técnica ao longo dos séculos, até aos dias de hoje, bem como os posicionamentos da ciência/técnica e racionalidade na nossa sociedade. Consideramos esta abordagem essencial como conhecimento de base que alicerça o restante trabalho. Sem estas considerações prévias não seria possível compreender verdadeira e criticamente o tema em debate.

    Ao segundo subcapítulo foi conferida especial atenção, pois ele constitui o âmago, o corpo do trabalho. Analisa-se de que forma o homem tem vindo a transformar o mundo e qual a sua atitude perante ele. Com efeito, ao tentar modelar, através de meios técnicos, o mundo, também o próprio homem se reconhece modelado. As suas crenças e valores são também imbuídas de transformações. De seguida, tentamos demonstrar que, por detrás de uma aparente dicotomia ciência/técnica, se constitui, de facto, uma daléctica.

    O caminho do homem é pela verdade, sempre de mãos dadas com a ética, em direcção a um mundo melhor. Todos temos ambições e falhas. A ambição deve reconhecer a falha, e esta última unir-se à ética e à ciência para que no seu percurso, os obstáculos sejam superados.

           Ciência e técnica não devem ser encaradas como um fim - este só à verdade pertence.

    Na conclusão fazemos uma síntese de toda a problemática, que suscita cada vez mais dúvidas e levanta cada vez mais interpelações. Para tal, é necessária uma reflexão profunda e séria sobre a realidade científica. Criticando, deliniamos o futuro. Agindo, construímo-lo! A esperança nasce do eco dos nossos passos.

    Com o terceiro capítulo temos em vista referir de um modo não aprofundado- devido ao próprio rumo que o trabalho tomou e ao número limitado de páginas - os limites da tecnociência e as predisposições do ser humano para encará-los e tentar superá-los.

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O impacto da ciência e da técnica no mundo ocidental

        Uma breve viagem pela História da ciência

    A ciência e a técnica constituem, nos dias de hoje, um binómio indissociável, que está intrinsecamente ligado ao ser humano, sendo mais notória a sua influência  nos países ocidentais. Todavia, a tecnociência, embora não a uma escala colectiva, não é nem de longe uma invenção do nosso século. É, sim, fruto de um longo percurso feito de avanços e recuos, mas sempre dinâmico: “ (...) de Galileu a Einstein, de Laplace a Hubble, de Newton a Bohr, perdemos o trono que colocava o nosso espírito no centro do Universo: aprendemos  que somos, nós cidadãos do planeta Terra, os suburbanos de um Sol de subúrbio, ele mesmo exilado na periferia de uma galáxia periférica (...)”. O progresso das certezas científicas produz, pois, um progresso da incerteza. Mas é uma “boa” incerteza que nos liberta de uma ilusão ingénua e nos desperta de um sonho lendário: “é uma ignorância que se conhece como ignorância (...)” (2)

    Como resultado de uma necessidade de subsistência, o desenvolvimento da técnica iniciou-se com o “homo habilis”, através do fabrico de instrumentos mais rudimentares que utilizava para a caça e alimentação.

    Surgiu o fogo, com o friccionar de pedras, de nómadas passaram a sedentários, pela criação da agricultura, pecuária, etc. Na verdade, tinha começado a “humanização” do mundo. Esta tentativa de adaptação do meio às nossas necessidades, como afirma J. Bronowski, “ (...) libertou o travão da evolução que o ambiente impõe a todos os outros animais e desafiou o homem para uma mudança com uma velocidade inigualada nos três biliões de anos de existência da vida na Terra   e a sua importância reside na conclusão de que: “ (...) a evolução do homem sempre foi dirigida pela cultura e que a componente principal foi a tecnologia. (3)

    Este desenvolvimento é, sobretudo, sentido quando, a um nível intelectual, chegamos ao “homo sapiens sapiens”. Contudo, este ainda é dotado de um pensamento profundamente envolvido nas malhas do mito, ou seja, não é autónomo.

    É só a partir do século IV a.C., com a civilização grega, que se dá uma cada vez maior ruptura: do mito passa-se para um pensamento racional, que visa preocupações de ordem cosmológica – “o arché”.     Os seus representantes principais foram os três filósofos de Mileto, bem como  Heraclito, Parménides, Platão, Aristóteles, ...

    Esta alteração vai ter grandes repercussões no que respeita ao domínio científico e técnico, político e social.

    A faixa da História dedicada à Idade Média pode dividir-se em dois momentos. O primeiro, do século V ao XI, onde as actividades cultural e económica eram quase nulas na Europa Medieval, dado o funesto obscurantismo em que esta estava mergulhada. Era um período marcado por guerras sangrentas e superstições, com especial destaque para a religião. Todavia, a partir do séc. XVII da era Cristã assistimos à supremacia vigente do Império árabe, contrastando de modo tão evidente com o clima europeu. Este justifica-se com a fulminante expansão muçulmana e o aparecimento do profeta Maomé.

    O seu domínio estendeu-se a Oeste até à Península Ibérica e a Este de Meca. Este domínio não era de forma alguma opressor; muito pelo contrário, primava pela tolerância e interacção de culturas, o que deu azo a um muito significativo avanço científico.

    No campo da Medicina, a sabedoria árabe concretizou-se  através de certas operações cirúrgicas (cataratas, tumores....), sendo  o ópio  utilizado como analgésico.

    Na Química, surgem as tabelas de preços bem medidas, progressos no mecanismo de balanças, nas tinturas e ácidos. Na Matemática é descoberta a linguagem algébrica   (defendida no séc. XIII na Europa). Na Astronomia, é inventado o astrolábio. Por outro lado, cinco séculos antes de Copérnico, o “demonstrador”, Al Biruni concebe que a Terra gira em torno do Sol.

    No campo tecnológico, os árabes desenvolveram técnicas agrárias, moinhos e açudes.

    Estes inventos vieram influenciar extraordinariamente a Europa que começava a despertar de uma letargia: estudiosos e sábios acorriam de toda a Europa a Córdova  (Espanha árabe), sedentos de sabedoria, proporcionando  um novo incremento sociocultural na Europa medieval que os monges budistas difundiram, mais tarde, nas universidades europeias. Assim, é na 2ª fase da Idade Média, que vai até ao século XIV, que ocorre um segundo momento que se traduz numa nova fase de desenvolvimento sociocultural na Europa medieval.

    Contudo, foi especialmente a partir dos séculos XVI e XVII- os séculos de Galileu (1564-1642)- que começaram a fecundar as sementes “revolucionárias” do passado, dando origem àquilo a que se convencionou chamar “CIÊNCIA MODERNA”. “A ciência não se resume mais ao saber contemplativo e especulativo da Natureza, mas   passa a ser considerada como um instrumento de desenvolvimento e definição económica de supremacia e de dependência entre as nações”. (4) Deste modo, a ciência associada à técnica constitui o berço da tecnociência.  Tal facto leva a uma mudança profunda na vida do homem, intensificando-se a transformação permanente sobre o mundo. É dado um novo sentido ao Homem e à Natureza e estreita-se o relacionamento com Deus, de Criador para criatura,  conferindo  sentido à vida.

    “O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns indícios no século XYIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de então pode falar-se de um modelo global de racionalidade científica que admite variedade interna mas que se distingue e defende, por via de fronteiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento não científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos)”.(5)

    É também aqui que se instala a ilusão de que a ciência seria a única porta aberta para a descodificação de todos os problemas do homem. À luz desta ideologia nasce o cientismo, defendido por A. COMTE:  “Dentro da ciência está tudo, fora dela não há nada”. Assim, a ciência  apenas é encarada pelo seu pólo positivo, como  tábua única de salvação que tem como base a confiança absoluta na razão humana.

    No século XX, o progresso movido pela tecnociência passa a ser considerado como algo extremamente necessário ao Homem. No entanto, só a meio deste século é que há uma verdadeira tomada de consciência, não só respeitante ao papel e poder da tecnologia, mas também  ao papel e poder da Natureza. Ambos funcionam como “ uma espada de dois gumes” (Heidegger). Daqui advém a urgência de, tal como afirma B. S. Santos, “ (...)  perguntar pelo papel de todo o conhecimento científico acumulado no enriquecimento e no empobrecimento prático das nossas vidas (...) “. (6)

    Neste sentido, a concepção da própria tecnociência vai-se alterar: vai adquirir dois pólos: o positivo – já existente – e o negativo.  A razão desta nuclear tomada de consciência, que emerge da razão do Homem, tem a sua base no facto de se considerar não apenas como dominador mas também, e sobretudo, como dominado. Este sentimento de “poeira cósmica insignificante na imensidão do Universo” não desmotiva o ser humano que, sempre e cada vez mais, vai diluindo o Erro  no dialéctico caminho da Verdade. Nisto consiste o PROGRESSO da ciência que transforma para compreender, mas não para adulterar, faz decrescer o Erro e aumentar a Verdade, criando entre ambos -Erro e Verdade- uma indissociável e salutar relação dialéctica, como defende Bachelard.

    É evidente que esta mudança de rumo passa por uma mudança de mentalidade, o que implica uma sensibilização das camadas mais jovens que detêm nas mãos a chave de um “novo mundo”, de que fala o laureado Nobel de Literatura ALDOUS HUXLEY. Se respeitarmos a Natureza, jamais ela nos castigará.

Esta análise leva-nos a levantar as seguintes questões:

1. Poderá o homem evitar a tentação da febre tecnológica, de poder e de progresso, de forma a não plasmar no futuro o passado?
2.  Neste contexto,  será capaz de alterar as bases actuais político-financeiras geradoras do progresso científico?
3. Conseguirá  um diálogo entre todas as ciências, de forma a que o progresso do conhecimento científico esteja cada vez mais  distante do  senso comum,  até agora  seu companheiro fiel?
4. A sua investigação conseguirá andar de mãos dadas, não com um conhecimento que usa a sobrevivência, mas, sobretudo, a vivência do ser humano no mundo? Uma vivência que não o fragmente, mas que o una?
5. Terá o cientista capacidade de responder à sua responsabilidade perante si, a comunidade científica, o mundo, e deixar de se refugiar nas responsabilidades políticas do Estado?
6. Conseguirá tomar uma verdadeira consciência dos limites éticos, antes de os ultrapassar irremediavelmente?

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Racionalidade, ciência e técnica – quais os seus posicionamentos?

    Após uma breve digressão  pelos “anais do tempo”, podemos constatar a seguinte evidência: a problemática do conhecimento científico é dotada de grande complexidade, bem como as consequências de uma utilização incorrecta deste. Com efeito, este facto agudiza-se com a consciencialização de que a ciência e a técnica se encontram numa fase de transição. Neste sentido, ciência e técnica implicam, necessariamente, uma atenção e acompanhamento redobrados sobre os avanços tecnológicos da nossa era, associados, naturalmente, a uma profunda reflexão – o que se torna cada vez mais difícil, como iremos verificar de seguida.

    Assim, é necessário fazer uma análise do posicionamento que estes três conceitos e realidades- racionalidade, ciência e técnica - ocupam em diversos lugares da nossa sociedade.

Ciência e técnica constituem uma dialéctica.

    “ A ciência é a organização do conhecimento de uma maneira cada vez mais integrada” (7), segundo J. Bronowski. Esta assenta sobre hipóteses que têm de ser validadas experimentalmente, mas que são sempre transitórias. A única verdade irrefutável na ciência é, precisamente, a busca dessa Verdade Absoluta.  Com efeito, entramos no domínio da técnica, dado que, para explicar a realidade teórica, recorremos a instrumentos: “ O termómetro é uma teoria materializada “ ( Bachelard). Como foi possível construir o termómetro? Graças à teoria da dilatação dos corpos. Ou seja, a ciência forneceu a teoria e a técnica aplicou-a, surgindo o termómetro  que, por este meio, pode ser considerado tecnologia.

    De facto, como afirma E. Morin,“ (...) é impossível isolar a noção de tecnologia ou techné , porque bem sabemos que existe uma relação que vai da ciência à técnica, da técnica à indústria, da indústria à sociedade, da sociedade à ciência, etc.“(8) – Ciência e técnica estendem-se a variadíssimas áreas da nossa sociedade, promovendo uma racionalização cada vez maior.

    Nesta circularidade de conceitos podemos depreender a pluralidade de fins com que podemos utilizar a tecnologia. Ela é, então, ambivalente. Neste sentido, as racionalidades científica e técnica ( digo “racionalidade” e não “racionalização”, uma vez que esta última não consegue conceber algo que lhe seja não racionável) estão intimamente ligadas à tecnologia, e, assim, podem ser entendidas como meios de cultura.

    O fim original da ciência moderna – impregnada de racionalidade científica – era o de contribuir para o bem da humanidade, para o seu bem-estar, servindo-se, para tal, do método científico. Deste modo, “ (...) teve de desenvolver poderes de manipulação, precisos e seguros (...). A ciência começou por manipular para verificar, ou seja, para encontrar o conhecimento verdadeiro.” (9)

    Todavia, este prisma foi-se invertendo e, actualmente, a ciência é cada vez mais usada para manipular, para subjugar a Natureza. “Como diz Bacon, a ciência fará da pessoa humana o senhor e o possuidor da Natureza.” Além disso, continua Bacon,”(...) a senda que conduz o homem ao poder e a que o conduz à ciência estão muito próximas, sendo quase a mesma.” (10) Esta subjugação torna-se ainda mais crítica quando ocorre entre seres humanos ou até mesmo entre instituições, uma vez que um “eu” converte o seu semelhante num “objecto”, ser desprezível e inferior. É triste reconhecê-lo, mas não podemos evitar a constatação de que é o homem ao serviço da máquina e não o contrário: “ (...) obedece-se à máquina e não se sabe para onde vai a máquina! “ (11) – Somos, então, obrigados a questionar: “ para onde caminhamos, afinal? “ – ( Tema a ser desenvolvido no capítulo seguinte ).

    Assim, a tecnologia constitui-se simultaneamente como um meio e um fim;   “ ela própria ?é? a dominação “ (12), esta opinião é, igualmente, partilhada por J. Habermas.

    Conclui-se, portanto, que a racionalidade científico-técnica pretende ocupar, na sua totalidade, o lugar correspondente à racionalidade – como defende J. Habermas, e a que M. Horkheimer denomina de “razão instrumental” ou “razão dos técnicos”. Todavia, esta opção acarreta, automaticamente, uma destruição do que há de generosidade, solidariedade, compreensão no homem, sendo estas substituídas pela ganância, calculismo, neutralidade, objectividade e distanciamento .... Afinal, perdemos a condição de “ pessoa “ como meta a atingir e somos colocados no mesmo patamar que o das máquinas, robôs. Há um inevitável esquecimento do ser e, citando Heidegger, “(...) o esquecimento do ser não é um facto que atinja só o pensamento, mas determina todo o modo de ser do homem no mundo“.(13)

    Ao sermos seduzidos pela tecnologia, o objectivo de “ conhecer para conhecer“ fica perdido, tal como a  pedra atirada para o fundo de um pântano e, com ele, a valorização da dignidade humana e os princípios éticos que deveriam reger o ser humano. Colocamos, inevitavelmente, a ciência e a técnica acima de qualquer valor universal e intemporal, e, assim, “acima de nós”, “fora do nosso alcance” – posicionamo-nos num “conhecer para subjugar, quase esclavizar”.
Edgar Morin comenta: “ A tecnologia tornou-se, assim, o suporte  epistemológico de uma simplificação e de uma manipulação generalizadas, inconscientes, que julgam ser a racionalidade.” (14)

    Com efeito, esta manipulação prende-se, naturalmente,  segundo E. Morin, com interesses de domínio: da natureza (técnico), da sociedade (social) e reflexivo. Ora, este último: “ (...) é o interesse bom, porque esta ciência, porque esta crítica, animada pela reflexão, tem, de facto, como interesse a emancipação dos homens, enquanto os outros conduzem ao domínio ou à servidão.” (15)

    Posto isto, verificamos, em primeiro lugar, que não podemos negar a tecnologia, nem lutar contra ela, pois: “ (...) lutar contra a tecnologia é lutar contra a natureza do homem, tal como seria lutar contra a sua postura vertical, a sua imaginação simbólica, a sua faculdade de falar ou os seus pouco usuais apetite e posição sexuais. “Deste modo,” (...) eles, ?o Homem, a Humanidade...? não têm o direito de proclamar que querem o regresso à Natureza, sendo esta a natureza do homem. Porque a natureza do homem se expressa do mesmo modo em todas as culturas, do pigmeu e aborígene ao homem ocidental, e da proibição do incesto à linguagem; e um dos padrões universais é a tecnologia.” (16) Com efeito, esta anda de mãos dadas com o progresso ( que etimologicamente significa “passo em frente”) e este não pode ser travado. Em segundo lugar,  e esta conclusão decorre da primeira , é a forma como lidamos com a ciência-técnica que tem que ser alterada: a produtividade não pode mais ser o único motor do progresso, do objectivo de aniquilamento. Citando J. Bronowski : “ A nossa sociedade aceita que todos os homens têm direito ao melhor que a tecnologia lhes pode oferecer, mas na prática eles só adquirem tais benefícios para fazer a guerra sem sentido.” (17) Ou seja, a um carácter manipulador deve dar lugar um carácter reflexivo.

    Neste sentido, torna-se também fulcral a preservação dos valores da ciência e a promoção da educação científica.

    Em relação ao primeiro caso, há, assim, a possibilidade de o homem ter um certo controlo preditivo – como, aliás, defende COMTE –  da velocidade a que as transformações tecnológicas ocorrem, e de as acompanhar sem ser simplesmente absorvido por estas. No segundo, evita um desfasamento entre “níveis de decisão e execução” (18) que iremos abordar mais à frente.

    De novo, Bronowski: “(…) qualquer homem que abdique do seu interesse pela ciência caminha de olhos abertos para a escravatura.” (19) É de considerar que, além do problema da rapidez a que já se verificam os avanços tecnológicos  e que é gerador de uma crise, no campo racional também a  ruptura entre filosofia e ciência o são. Esta crise deu-se, sobretudo, a partir do século XIX, apesar de Descartes, no séc. XVII, ter feito a distinção entre “ eu pensante” e “coisa material “. Perante este  dicotomia, “ (...) a filosofia é impotente para se conceber.” (20)

    É plausível acreditar que esta separação tenha acontecido, porque filosofia e ciência são, por essência, completamente diferentes. Mas, na verdade, a ciência, para além de verificação e falsificabilidade das hipóteses, deveria necessitar de “reflexividade”.

    Por seu turno, a filosofia não deveria dispensar os conhecimentos científicos, empíricos, próprios da época em que se insere, para poder constituir-se como uma consciência crítica sobre os mesmos.

    Todavia, esta “ comunicação interna “, de que fala Morin, é cada vez mais improvável, dada a fragmentação e ultra- especialização do próprio conhecimento científico: “(...) os filósofos já não podem alimentar-se de conhecimentos científicos, fecham-se friorentamente  e vivem nesse universo abstracto de especulação pura”(21). Além disso, o próprio cientista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne ao seu “ sector de investigação “. De um conhecimento fragmentário, obtém-se, por conseguinte, uma aplicação prática igualmente fragmentária (a chamada “ignorância especializada”). É o volte - face do conhecimento científico, de um carácter  assim denominado de “ progressivo-recessivo” (22). Também se inserem neste conceito a manipulação da ciência ( já abordada), a experimentalização e a formalização das teorias científicas.

    Poderemos, ainda, referir que é a própria linguagem científica que automaticamente exclui quaisquer “intrusos” a este meio. Quanto mais avançada é a ciência, mais fulcral é mergulhar nos seus termos complexos e rigorosos e direccionar o campo das suas atenções.

    Assim, não só os filósofos mas também as massas remetem o conhecimento científico para as elites, tornando-se a ciência uma “caixa surpresa “ fechada,  acessível a poucos. Em relação às massas, esta atitude, primeiro rotulada com a indiferença e, depois, até com a repulsa, é facilmente justificável: “ (...) o homem contemporâneo foge diante do pensamento e isso explica a falta de pensamentos, e mais, o homem contemporâneo não quer reconhecer esta fuga, muito pelo contrário, ele afirma o oposto, remetendo para tudo o que o conhecimento científico tem produzido.” (23)

    Para este estado de “ desintegração” do ser humano, em muito têm contribuído os mass-media, com o seu sensacionalismo e, muitas vezes, deturpações de factos científicos, (por exemplo, a ovelha Dolly não foi, nem por sombras, o primeiro mamífero clonado -como tantos divulgaram) com a banalização ou simples fuga às questões éticas fundamentais. É ainda de focar a mediatização exagerada de determinados acontecimentos, motivada pelos próprios cientistas, é certo, mas outras vezes nem tanto ...; e o suposto “esquecimento“ de outros, ao serviço de lóbis e  baixa política....

    Relativamente a este último aspecto, pode referir-se, entre muitos outros casos, o do neurologista Carlos Lima e da sua investigação no Hospital Egas Moniz: “ (...) transplantação de parte das (...) células da mucosa olfactiva para zonas lesionadas de medula espinal.” (24) Apostou-se na capacidade regenerativa das células da mucosa do nariz e parece ter conseguido o impossível: a reactivação dos nervos e neurónios danificados” (25). Esta foi divulgada na “TIME” e Internet, com reconhecimento internacional, e, em Portugal, apenas  referida num artigo da revista “Visão” (n.º516), que termina deste modo: “ Porque o mundo está de olhos no Egas Moniz”. É de estranhar a súbita cegueira dos media portugueses  em geral, para este caso ...

    No contexto da especialização, é também de referir a interessante e irónica análise que B. S. Santos fez desta problemática e do modo que esta se reflecte no nosso quotidiano: “As tecnologias preocupam-se hoje com o seu impacto destrutivo nos ecossistemas; a medicina verifica que a hiperespecialização do saber médico transformou o doente numa quadrícula sem sentido quando, de facto, nunca estamos doentes senão em geral; a farmácia descobre o lado destrutivo dos medicamentos, tanto mais destrutivo quanto mais específicos, e procura uma nova lógica de combinação química atenta aos equilíbrios orgânicos; o direito, que reduziu a complexidade da vida jurídica à secura dogmática, redescobre o mundo filosófico e sociológico em busca da prudência perdida; a economia, que legitimara o reducionismo quantitativo e tecnocrático com o pretendido êxito das precisões económicas, é forçada a reconhecer, perante a pobreza dos resultados, que a qualidade humana e sociológica dos agentes e processos económicos entra pela janela depois de ter sido expulsa pela porta; para granjear o reconhecimento dos utentes ( que, públicos ou privados, institucionais ou individuais, sempre estiveram numa posição de poder em relação aos analisados), a psicologia aplicada privilegiou os instrumentos expeditos e facilmente manuseáveis, como sejam os testes, que reduziram a riqueza de personalidade às exigências funcionais de instituições unidimensionais.” (26)

    Com efeito, a questão abordada leva-nos a outras duas  de igual ou mesmo superior gravidade, sobretudo sob o ponto de vista sociológico. O Homem especializa-se, compartimentaliza-se, fragmenta-se. Logo, não consegue encarar-se como um TODO. Então, podemos inferir que também não consegue pensar-se a si mesmo, cientificamente, enquanto “ homem”, e, enquanto “homem em sociedade”. Assim sendo, como é possível o homem assumir responsabilidades perante si mesmo e perante a sociedade, na qual se insere?  A resposta é simples: não assume!... Fará sentido continuarmos a atribuir o mesmo sentido às palavras “homem” e “homem em sociedade”, quando, na realidade, estes conceitos mudaram e não mais se inserem no dos Antigos? Não.

    O “homem” de hoje não é capaz de se meditar. Remontando para o campo científico: se não meditou, não conhece, não toma consciência, nem tem responsabilidades. Muitas vezes, a consciencialização chega ao cientista quando já é tarde de mais. Todavia, quando esta “chega a tempo” o cientista refugia-se, pura e simplesmente, num triângulo muito bem explicitado por E. Morin: “ (...) ciência (pura, nobre, bela, desinteressada), técnica ( que, como a língua de Esopo, pode servir para o melhor e para o pior), política ( má e nociva, que perverte a técnica, isto é, os resultados da ciência)” (27); ou na ideia  desnudada de impurezas e fruto de “ideologia” social,    Veja-se o caso de Einstein e o motivo que o levou a participar na construção da bomba atómica!..
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    As tentativas de soluções encontradas para este problema revelam-se insuficientes, não passando de boas intenções, pois passam pela criação de novas explicações, ainda mais “compartimentadas”, para explicar as anteriores. É um ciclo vicioso, onde é visível a agudização do problema em questão.
É de notar, contudo, uma tentativa de consciencialização por parte de algumas entidades, visando a dita consciencialização, através do diálogo.

    Ainda remetendo para a questão da falta de comunicação entre ciência e outros saberes / pessoas, seja-nos permitida uma pequena referência à relação ciência-arte. Numa imediata abordagem, é possível destacar, desde já, o papel dinamizador que ciência e arte  têm proporcionado  , incrementando, sobretudo, a partir da Idade Média, a renovação de valores. De que forma? Pela alteração de valores, “ humanizando o homem”, passe o pleonasmo.

    Aponta-se para Leonardo da Vinci, no campo da arte, da pintura, escultura, por exemplo, e no campo científico, para o conhecimento do corpo humano, realização de autópsias, operações, etc. Sábio e artista, de Leonardo da Vinci o que há, realmente, a destacar é o paralelismo de acontecimentos, o facto de uma decorrer de outra: a arte necessitava de conhecer o corpo humano, as suas proporções, para, depois, proceder à aplicação desses conhecimentos; de não serem focos isolados, separados pelo tempo, mas conviverem concomitantemente, sendo a Arte a expressão da Ciência. Assim, como afirma J. Bronowski: “ (...) ciência e arte encontram ambas semelhanças e ordem ocultas naquilo que parecia ser dissemelhante (...)”(28)

    Todavia, poder-se-ia levantar a seguinte questão: como é que ciência e arte podem conviver num igual patamar se possuem níveis de veracidade diferentes, que a ciência baseia em factos (empíricos) e a arte   remete mais para dados provindos directamente de um sujeito, que possui um determinado grau de subjectividade?
Perante esta questão, uma consciência ingénua diria: tem que haver, então, um grau semelhante de subjectividade na ciência ao que existe na arte.... Mas como é que é possível, dado que a ciência parte de factos?  Deixaremos, por hora, a questão em aberto.

    Ainda sobre este assunto, Edgar Morin é de opinião que ciência e arte nutrem um sentimento recíproco de desprezo. Ora, cremos que deve haver uma tentativa, de parte a parte, de superação desta dificuldade. Na verdade, há, sem dúvida, uma dimensão altruística na ciência, pois esta última, considerando o método hipotético-dedutivo, assenta sobre hipóteses, e a hipótese representa o expoente máximo de criação de actividade científica. Aliás, Roger Jones ainda vai mais longe nas suas observações, considerando que: “ (...) o sistema de Newton é tanto uma obra de arte como uma obra de ciência.”(29)Também, por exemplo, Poincaré, T. Kuhn, Polany e Popper partilham a ideia de sincronismo entre estes dois saberes.

    Então, é importante visar o lugar de primeira plateia que o conflito ocupa: de facto, são as ideias discordantes, de um determinado grupo, que incitam à busca de um consenso, que passa pelo surgir de novas opções, novas alternativas, novas hipóteses, portanto, que têm necessariamente de ser testadas ( através, por exemplo, do processo de contrastação proposta por K. Popper:  baseava-se na tentativa de infirmar essa mesma hipótese que, se resistir ás tentativas de refutação a que foi submetida, é considerada mais credível, mais consistente e provisoriamente “verdadeira”, permitindo, assim, a formulação do critério de demarcação entre o que é ou não científico). Com efeito, a hipótese não pode contrariar os fundamentos teóricos anteriormente concebidos, para que haja possibilidade de explicar os factos de que parte. Pode-se denotar o carácter preditivo da hipótese, bem como a capacidade de deduzir as consequências de uma escolha, ou não, desta ou daquela hipótese. É, então, de notar que “O conflito é extremamente fecundo (...) que a ciência, mesmo quando desemboca em teorias extremamente simplificadoras, sem sentido, se fundamenta na complexidade do conflito: ela caminha em quatro patas, todas independentes: o empirismo e o racionalismo, a imaginação e a verificação.” (30) Estes conceitos andam em sintonia, ou seja, apesar de independentes, nunca são totalmente auto-suficientes.

    Todavia, é necessário, para que haja a referida conflitualidade, que o cientista não se isole ainda mais do mundo, ou seja, que não se desligue da comunidade científica, ignorando o já único interruptor que o liga ao mundo!...

    Por outro lado, também é possível encontrar nas próprias teorias uma carga de criatividade – que nunca pode comprometer o rigor em que se sustenta a dita teoria – pois, afinal, as teorias são “ (...) uma construção de espírito, lógica-matemática (...). Uma teoria fundamenta--se em dados objectivos, mas  (...) não é objectiva em si própria.” (31)

    Ora, o próprio rigor matemático é posto em causa quando constatamos a abordagem feita pela física quântica neste campo e o  “(...) veículo formal em que a medição se expressa (...) “ (32). Estes dados são comprovados pelo teorema de incompletude de Gödel.

    Daqui é possível inferir acerca da especial relação entre subjectividade e objectividade no conhecimento científico (também designada por  “intersubjectividade”).

    Na verdade, o cientista parte de factos, mas estes são sempre “impuros”, “brutos”, pois o sujeito cognoscente  é influenciado por  factores internos (personalidade, expectativas, educação) e externos (meio, intensidade, etc.), que determinam a própria escolha de factos.  Note-se que isso implica, necessária e simultaneamente, um lado que constrói e um lado que destrói.

    Holton designou esses ditos factores de themata: “ (...) pré concepção fundamental, estável, largamente espalhada e que não pode ser reduzida directamente à observação ou ao cálculo analítico e que não deriva de nenhum deles (...), anima a curiosidade e a investigação.” (33) É o que há de não científico na ciência, mas que fecunda a sua actividade, é nuclear para que esta se desenvolva. Neste sentido, é bem conseguida a comparação que E. Morin faz entre as teorias científicas e os  icebergues: possuem uma base imersa ( de foro não científico), que ele designa “ zona cega da ciência” – fundamental para o desenvolvimento da ciência, como atrás referimos.

    Este conceito (thema) corresponde geneticamente ao papel desempenhado pela noção de “erro” na construção da ciência, defendida por Bachelard. ( “ Nada nos é dado, tudo é construído”).

    É de salientar que esta subjectividade não pode, de modo algum, comprometer a actividade científica.(Assim respondemos à pergunta anteriormente formulada).

    Mas, afinal, onde é que se encontra a objectividade científica? Nos dados em que se baseiam as teorias, pelos testes que realizamos e também no confronto entre as diversas teorias, do diálogo, do meio sociocultural, como nos diz E. Morin: “A ciência é empurrada por forças antitéticas, as quais, na realidade, a revitalizam” (34), promovem o consenso entre investigadores, ainda que provisoriamente. Temos também de valorizar o esforço que o cientista faz ao entrar num laboratório: ele como que se “despe”, isto é, procura esquecer os seus problemas pessoais, preconceitos, hábitos, etc. e preocupa-se essencialmente com a objectividade, deixando “falar” os factos e só eles!...

    Então, seria perfeitamente válido partirmos do pressuposto  de que seria possível eliminar o “sujeito” da actividade científica. Todavia, tal não é nem nunca será possível! Popper disse que: “ se a subjectividade científica se fundamentasse na imparcialidade ou na objectividade do sábio individual, nesse caso deveríamos pôr luto pelo facto”.

    Não poderíamos deixar de passar em branco, uma vez mais, a posição de B. S. Santos sobre este tema. Baseando-se no princípio da incerteza de Heisenberg, em que ao tentar minimizar o erro de medição da velocidade, se aumenta o erro das posições das partículas, demonstrou a influência que o sujeito exerce sobre a estrutura do objecto em questão. Entre outras conclusões, apresentou a relação sujeito/objecto sob a forma de um continuum. Não há de todo qualquer oposição entre estes, pois um decorre do outro.

    Este tipo de conhecimento, ao qual se opõe Popper, representou, de um modo muito simplista, o conceito que a ciência moderna tem da relação sujeito/objecto. Uma dicotomia, aliás, em que não há, sob qualquer aspecto, um espaço para “impurezas” valorativas, de ordem social e moral. (Na verdade, esta foi uma das razões que levaram à compartimentação e rotulação de “ciências naturais” e “ciências humanas”).

    Esta separação entre sujeito e objecto leva-nos à questão, abordada no início, sobre as consequências que uma “ ciência ex machina” pode ter: o detrimento do ser, projectado a uma escala social e, assim, de uma consciência moral – condenatória dos maus actos, que actua de um modo perverso quando realizamos boas acções –, o que leva o homem moderno à banalização e, mesmo, a aceitar ideias eticamente condenáveis!... Se atentarmos a uma dimensão mais amplificadora, e soltando-nos para uma vertente política  - “ quem detém o poder”; – facilmente constatamos a catástrofe que se abaterá sobre a democracia: a sua total desvalorização, a criação de Estados totalitários que apenas     patrocinam a investigação científica  para colher benefícios  militares. Note-se o caso da antiga potência da URSS e , actualmente, do Iraque. Na verdade, e citando E. Morin: “ O novo saber científico é feito para ser depositado em bancos de dados e ser utilizado de acordo com os meios e de acordo com as decisões das potências.” (35)

    Se há um definhamento, progressivo e generalizado, da moral e, em contraposição, um engrandecimento de interesses de outra ordem – políticos, militares,  económicos -, é urgente que nos interpelemos: Para quê? Para dominar o quê?  A Verdade . Porquê? “ (...) a ordem verdadeira do Conhecimento chama-se Ciência; de resto, é por esta razão que toda a vontade de monopolizar a Verdade pretende deter a “ verdadeira ciência. “. (36)

Em síntese...

         Racionalidade, ciência e técnica ... são, sem sombra de dúvida, indissociáveis; ou, pelo menos, deveriam ser!.. É evidente que destas advêm outras ramificações que em nada deveriam ser estanques.

A Razão funciona como um “motor” que, partindo de dados empíricos – mas não só - , cria a Ciência. Esta última, aliada à técnica, gera o progresso que, por sua vez, se traduz num cada vez maior e melhor conhecimento da realidade, num levantar o véu que esconde o oculto, o velado, de que nos fala L’ Espagnat. De facto, “ a ausência de evidências não é, necessariamente, uma evidência de ausências.”  (Carl Sagan).

    Assim se definem racionalidade técnica  e científica. De que forma se posicionam na sociedade? São-lhe inerentes,  como meios de cultura, ou como propostas de sentido, ou ainda como ambições, meios de ganância e monopólio. Depois, tudo depende da forma como as sociedades lidam com o progresso e o pensam.
Como comentava B. Russel: “ Como o coelho fascinado pela serpente, as novas tecnologias colocam o homem frente ao perigo, mirando-o, mas sem saber como evitá-lo.”

 Uma proposta de sentido - o mundo humano como “um mundo transformado pela técnica”

     O nosso objectivo é levantar problemas, tentar soluções, apresentando diversas faces do mesmo prisma.

      Repercussões da ciência e da técnica na sociedade

    O mundo humano como “um mundo transformado pela técnica “....De facto, é inútil tentarmos negar esta afirmação. Os seres, ao longo de milhões e milhões de anos, evoluíram para seres cada vez mais complexos, desenvolvendo a sua capacidade de sobrevivência, de instinto, portanto. Ora, o homem não é excepção.”(..) a noção de homem não é uma noção simples: é uma noção complexa. Homo é um complexo bio-antropológico e bio-sociocultural.”(37) A única diferença reside na proporção inversa que existe entre razão e instinto. O que nós temos de racionalidade, eles têm-no de instinto.

    De qualquer modo, aliada à capacidade de sobrevivência está a capacidade de adaptação ao meio. Neste aspecto, o homem está em “vantagem”. Não por possuir uma grande versatilidade no que respeita à sua integração no meio, mas por conseguir adaptar o meio, o ambiente em que se insere às suas necessidades, às suas debilidades. Como? Transformando. “Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver”(38) Assim, é pertinente questionarmos: quais os efeitos que as ditas transformações têm no nosso quotidiano? E de que modo afectam as nossas crenças e a hierarquização dos nossos valores?

    Com efeito, com as constantes emergências ao nível tecnológico constatam-se, com facilidade, profundas alterações nos campos social, psicológico, demográfico, institucional, económico, político e religioso; alterações estas que se caracterizam, não por serem estanques, mas por se estenderem às diversas áreas focadas, não podendo ser separadas.

    Na verdade, como nos fala L. Archer, o desenvolvimento da área respeitante à neurobiologia e neuro-psicoformia tem uma enormíssima  importância no enriquecimento da farmacopeia de novos produtos, que poderão ser utilizados para o controlo de “estados cerebrais “  relativos ao humor, alegria /tristeza, prazer/dor, poder de decisão e de vontade, memória/amnésia.

    Por este meio, as drogas criadas serão um veículo para a cura de doenças na área da psiquiatria e medicina.  Mas não podemos, de modo algum, desconsiderar os efeitos maléficos e, até mesmo, maquiavélicos, se este tipo de medicamentos ”cai nas mãos erradas”:se eles fossem mantidos clandestinamente pelas elites dos diferentes ramos da sociedade, era de esperar que se tornasse “(...) um trunfo em perigosas acções de pressão e de abuso de poder.

    Se fossem divulgados publicamente, não é de todo plausível pensar numa boa aceitação por parte e formular precisões. Temos consciência de que há o perigo de uma atonia ou anestesia social de consequências catastróficas”.(39)

    Neste sentido, é fundamental não esquecermos o papel que a “liberdade individual” possui e o que esta última implica que seja respeitado.

    Estas modificações na sociedade são também fruto de um grande interesse revelado pelos cientistas na área da engenharia genética, por exemplo.

    Só assim foi possível a criação de novos seres vivos, nomeadamente, com a introdução “(...) do gene produtor da “somatostonina” (hormona cerebral de interesse comercial) (...) numa bactéria (40).

    Outro caso interessante, muito em voga, é o da sequência do genoma humano, em Julho de 2000. Esta foi comparada historicamente à chegada do homem à Lua. De facto, houve uma viragem do mundo para este tema. Todas as fronteiras, apenas ausentes na imaginação  de cada um, haviam sido quebradas. Apenas, aproximadamente três anos depois, o jornal “Público” noticia a sequência completa do cromossoma 14, onde se localizam cerca de sessenta genes que se relacionam com o aparecimento de doenças como as de Alzheimer ou Machado-Joseph. Esta última é hereditária , afecta o sistema nervoso, provocando uma morte precoce.

    Outra notícia de grande interesse relaciona-se com a descoberta da existência de 50 mil genes na planta do arroz. Foi a primeira planta com flor a ser descodificada, pelas mãos da multinacional Monsanto. O conhecimento do genoma do arroz foi acolhido com muito entusiasmo, não pelo valor científico da descoberta em si, mas pelo que pode significar para a melhoria da dieta alimentar de cerca de 40% da população mundial que tem como base de alimentação o arroz.

    Assim, é previsível o crescente interesse por parte de empresas multinacionais e indústrias farmacêuticas no pedido de patentes sobre os genes ; exemplo: Genset-França, Ribozyme-EUA, Departamento de Saúde dos Estados Unidos, etc. e financiamento de investigações.Verificamos que estas alterações de facto influenciaram a sociedade, o cientista, o indivíduo.

    Estas vieram  intensificar a ânsia de maiores descobertas, bem como a falsa esperança do homem “(...) vir a dominar a natureza de tal maneira que controle a evolução futura do mundo vivo.”(41)

     Parafraseando o cientista português, Luís Archer, podemos referir que, ao nível da bioindustrialização, esta visa utilizar processos biológicos naturais, aproveitando-os para a produção mais económica de interesse industrial, nomeadamente, na obtenção de biomassas, biocombustíveis e outras bioconversões.
É de referir que estes meios são muito dispendiosos e, como tal, vão ser apenas acessíveis aos países industrializados. O aumento do fosso entre países pobres e países ricos  é  inevitável.Sob uma perspectiva demográfica e social, podemos destacar a importância dos progressos científicos no que respeita ao:

-“Aumento de longevidade- De 1850 a 1950 a expectativa média de vida aumentou 30 anos, em grande parte devido à baixa da mortalidade infantil. Mas, a partir desse ponto, só a custos excepcionais elevados se poderá conseguir, nos próximos decénios, algum pequeno aumento adicional de longevidade.

-Melhoria das condições de saúde na 3ª idade. Neste campo, a medicina pensa poder realizar, dentro de pouco tempo, importantes progressos: conseguir, até uma idade muito avançada, vigor físico, lucidez intelectual e actividade sexual.

-Aumento de produtividade agrícola e pecuária, devido ao uso da engenharia biológica e genética, como se indicou atrás.

-Precocidade crescente dos jovens.

-Redução da taxa de natalidade por progressos e métodos de planeamento familiar.

-Escolha do sexo dos filhos  que pode, em certas condições, vir a desequilibrar a distribuição dos sexos em adultos.”  (42)

Em síntese...

    Um aumento da longevidade irá provocar um adiamento da idade de reforma, pois, chegando à idade actual de reforma (cerca de 65 anos), a pessoa em questão ainda será considerada  como “activa” e, portanto, capaz de trabalhar, de produzir. É necessário ainda chamar a atenção para a mudança da avaliação salarial, da carga horária e de repartição do trabalho e da variedade das actividades produzidas.

    Este facto vai ser determinante no aumento dos confrontos directos entre gerações, no local de trabalho, uma vez que as gerações mais antigas permanecem mais tempo em serviço, como foi referido.

    Perante esta situação, as empresas vão sentir uma cada vez maior necessidade de substituir o pessoal que trabalha há mais tempo. Só assim manterá elevada a sua capacidade de inovação.

    Devido a esta situação, corre-se o risco de cair numa maior desumanização do trabalho humano: “(....) a vida é ganha, mas não vivida.  (43)

    Assim como estas modificações do mundo que habitamos se reflectiram tremendamente na maneira de encarar e conviver na sociedade, o poder político que rege a dita sociedade não poderia também ficar à margem. Aliás, ele assume um papel deveras  importante na evolução da técnica- “agente transformador”- na maioria dos casos, demasiadamente importante...Todavia, com o acréscimo de poder nasce também a consciencialização de uma grande responsabilidade. Assim, é exigido aos governantes, entre outras coisas, a criação de uma política científica que tenha capacidade de conduzir e acompanhar “a par e passo” os avanços tecnológicos.

    Por exemplo, e, remetendo para a atribuição de patentes, de modo a possibilitar a investigação de genes específicos. É necessária legislação suficiente capaz de lidar com os lóbis instalados, não cedendo a estes. Aliás, devia ser permitido patentar o património genético de toda a Humanidade? Não deveria ela poder aceder à sua investigação, aprofundando-a?

    Actualmente, a política “científica” não possui, nem de longe nem de perto, a capacidade de travar esta avalancha das multinacionais, sendo  apenas uma agulha num imenso palheiro.

    Para finalizar, não poderíamos deixar de referir a incomparável relevância que o modelo evolucionista de Charles Darwin teve no reajustamento da posição do homem. Ele veio redimensionar toda uma crença no Criacionismo! Afinal, como seria possível termos evoluído dos macacos, se, e recordando a Bíblia, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os peixes e animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem para a aceitação de uma ciência extraordinária, que explica os novos factos científicos que foram surgindo! A esta passagem, T.Kuhn designou-a de revolução científica.

     Assim, e levado o homem de volta às suas origens, gerou-se um terrível confronto entre uma teoria que a todo o custo se tentava manter e a outra que se impunha de forma natural, rendendo-se à evidência dos factos. Não havia qualquer tipo de compatibilidade, de conciliação de ideias.

    Esta breve abordagem foi feita com o objectivo de visualisarmos as repercussões  que a teoria evolucionista tem na actualidade: (44) ”Toda a mentalidade científica é hoje inevitavelmente evolucionista.” Somos o resultado de uma evolução selectiva, pela “lei do mais forte”.

    O que terrivelmente se verificou foi que a política fez surgir o “darwinismo social” (L. Archer)- fruto da necessidade de uma ideologia. Por este meio foi sua intenção “(...) justificar, numa base biológica, muita exploração racial e muita brutalidade colonialista na segunda metade do século XIX.” Também com base na biologia da hereditariedade se fundou a política hitleriana, anti-semitista e eugenista, em que o próprio Nobel, em 1940, da Fisiologia e da Medicina chegou a afirmar que “(...) deveríamos preservar a raça, estar atentos à eliminação dos seres normalmente inferiores de forma ainda mais severa que a actual. Devemos, e temos o direito disso, contar com os melhores dentre nós e encarregá-los de proceder à selecção que determinará a prosperidade ou aniquilamento do nosso povo“ (45) – É óbvio que esta ideologia constitui-se, a si própria, como um paradoxo. O aniquilamento de um povo não depende somente de uma decisão de um dos seus representantes, também a natureza interfere de forma inelutável. Assim, todo o povo estaria condenado  à partida.

 Em síntese...

    Com efeito, a necessidade que o homem tem de transformar o  ambiente em que vive é-lhe intrínseca. Estas modificações, “estes avanços tecnológicos” vão-se tornando sucessivamente bases implementadas, alicerces que sustentarão as novas sociedades  que virão.

    Estas ditas transformações passam pela linguagem científica específica; pela noção de integração do homem como um elemento apenas mais complexo, na Natureza.

    Em relação a este último aspecto, cremos que no âmbito da sequenciação do genoma humano esta é uma afirmação comprovativa da nossa situação actual interessante: “no dia em que em cinco capitais, os cientistas divulgam os resultados de uma das mais fantásticas aventuras do conhecimento da era moderna, apercebemo--nos melhor do pouco que sabemos”. E somos”(46). Na verdade, com esta descoberta é fundamental questionarmo-nos: por que é que o racismo, xenofobia, ódio, preconceitos se articulam de uma forma tão fluída e se entranham na nossa sociedade, quando o património genético, em certos casos (ex: chimpanzés) chega a atingir 99% de semelhança? Como afirma Paabo: ”(...) os preconceitos, a opressão e o racismo alimentam-se da ignorância”. A ignorância....o ponto fulcral da grande maioria dos problemas...? ou das soluções?

Qual a real influência da ciência e da técnica sobre os valores e crenças de uma sociedade? E vice-versa?

    A questão foi propositadamente deixada em aberto no subtema anterior. “A ignorância ....o ponto fulcral da grande maioria dos problemas....?ou das soluções...?  Vamos agora debruçarmo-nos sobre ela e suas possíveis ramificações.

    De um modo generalizado, podemos afirmar que a ignorância se constitui como a raiz quer das soluções como dos problemas. Em relação ao primeiro aspecto, é um facto indiscutível  que é partindo da ignorância ,pela sensibilização, pela educação, onde conceitos como os de responsabilidade e liberdade estão implícitos, que se forma uma sociedade com valores e crenças. O problema reside, exactamente, em: como fazê-lo? Como despertar as sementes adormecidas do alheamento, impavidez, inépcia, para um trabalho conjunto de unificação? Sabemos os fins, desconhecemos os meios...É neste contexto que a ciência e a técnica assumem papéis de enorme relevância: na formação de uma cultura científica e na criação de um elo entre essa cultura e a ciência.

    Todavia, quando os próprios intelectuais se demitem da sua tarefa, esta fica inevitavelmente por cumprir. Um exemplo concreto e verídico de atitude abominável é o de L. Frederic Fieser, que dirigiu a investigação relativamente à construção da bomba de Napalm. Para negar qualquer tipo de responsabilidade , invocou apenas o lado técnico da sua pesquisa nesta área: “ Não se sabe o que vai acontecer. Isto não é tarefa minha, mas de outras pessoas. Eu trabalhei no problema técnico que foi considerado premente (...)Eu distingo entre o desenvolvimento de quaisquer munições e o seu uso. (...) A minha função não é responder a problemas políticos ou morais.” (47)

    Ao fazê-lo, os intelectuais abandonam:”(...) também a responsabilidade histórica do intelectual, que consiste na preservação dos valores e da consciência da sociedade. Sejam eles cientistas ou académicos, críticos literários ou filósofos , os intelectuais não são apenas os detentores do conhecimento tradicional e os veículos em que ele é transportado. Eles têm estas funções porque dão um valor ao conhecimento como expressão de verdade intelectual ou como experiência de verdade emocional. Sem esta dedicação à verdade como meta universal, seriam apenas bancos de dados; com ela, são eles que espicaçam  a civilização. É, portanto, criticamente necessário que os cientistas  se ergam com firmeza e mantenham ao menos parte da responsabilidade ética que lhes cabe como intelectuais, nomeadamente os valores dos quais depende a prática científica e que são ensinados através do seu exemplo. (48)
Neste âmbito será importante questionarmo-nos : o que é um valor? Um dicionário dir-nos-ia que é propriedade ou carácter do que é, não somente desejado, mas desejável; as próprias coisas desejáveis, sendo os principais valores o verdadeiro, o belo, o bem (..). (49) Na verdade, este conceito exige uma análise mais aprofundada, pois os valores não só são partilhados e representantes de uma dada sociedade, bem como permitem a expressão da liberdade de cada indivíduo que a constitui.

    Assim, são legítimas as desconfianças, juízos precipitados e condenações, por parte da opinião pública, face a novos avanços científicos. Como estes são coordenados pelos cientistas, o público exige-lhes respostas. Todavia, os cientistas são controlados pelo poder quer seja económico ou político. É este que modela habilmente a sociedade. Não pensemos, contudo, que o público está isento de responsabilidade, não, muito pelo contrário!

    Mas, afinal, quem deverá controlar a ciência? São estas as considerações que iremos desenvolver, de seguida.

    Com a primeira atitude acima descrita, o público pretende ilibar-se de qualquer responsabilidade. “A responsabilidade é uma noção humanística e ética que só tem sentido para um sujeito cognoscente”. (50) Mas, no fundo, ele está como que a auto-recriminar-se.  É o público que elege os seus representantes para que dirijam a nação , da melhor forma possível, de forma a delinearem uma política externa e interna, usadas em circunstância de guerra e de paz e a fornecerem os meios necessários  para que esta acabe ou se mantenha respectivamente? Então, onde é que reside a moralidade de um público  que exige a um cientista qualquer tipo de justificações, ou quando, por outro lado, incita esse mesmo cientista a revelar a sua  opinião/tecnologia? É, de facto, uma incongruência! Veja-se, novamente, o caso de Einstein que, numa carta, delegou toda a responsabilidade de construção da bomba atómica para o presidente Churchil.

    Esta responsabilidade é do público que deveria eleger conscientemente os seus governantes. Também é curioso e simultaneamente uma noção de progresso de mentalidades verificar o aparecimento de grupos que emergem da sociedade “impávida e serena” e que agitam os alicerces de uma má construção. Pretendem, desta maneira, evitar o desfasamento que existe  entre público e avanços tecnológicos. Um exemplo disso é o movimento “Science for People” que apareceu nos Estados Unidos. O seu lema é a intervenção do público para que haja um consenso generalizado e não apenas de alguns. Claro que este grupo constitui ainda hoje uma minoria....

    Posto isto,  onde é que se insere a responsabilidade do cientista? Para responder a esta pergunta, consideraremos dois momentos.

    Vimos que a responsabilidade só tem razão de ser quando há um “eu” e um “tu”. Todavia, segundo a concepção clássica de ciência, devido à necessidade de um rigor e objectividade total, foi eliminado, pura e simplesmente, o sujeito. Ora, se não há sujeito, não há responsabilidade...”a ciência nasce morta” (51). Focamos este aspecto porque infelizmente este tipo de ciência ainda tem “seguidores”.

    Como não existe nenhum critério rigoroso de responsabilidade, ela diz respeito “a cada um” consoante os seus princípios....

    A execução experimental, prática do investigador, exige-lhe que possua uma ética pessoal: “(...) uma consciência profissional inerente a toda a profissionalização.

    Trata-se de uma ética própria do conhecimento que anima todo o investigador que não se considera como um simples funcionário. (52)

    Perante a pressão social e a velocidade dos avanços científicos e tecnológicos é imperativo que esta “ética própria” sobressaia do âmago do investigador!

    Também, é igualmente, fundamental que  o cientista se torne decrescente, no que respeita à suposição de que a existência de uma moral é suficiente para reger a sua investigação; que tome consciência de uma ecologia de acção, onde “(...) qualquer acção humana escapa às mãos do seu iniciador e entra no jogo das interacções múltiplas próprias da sociedade que a desviam da sua finalidade e que, por vezes, lhe dão um destino contrário ao que lhe era visado”, (53) e a falsa esperança de que , de alguma forma, o sistema político vigente tenha capacidade de compreender os problemas científicos  e servir de orientador imparcial numa investigação científica.

    Muito pelo contrário, pela parcialidade evidente que consome o poder político nas suas decisões, a responsabilidade do cientista também reside na capacidade que este tem de resistir à manipulação de políticas de baixo nível, em reacção a uma atitude, ao que parece, cada vez mais comum: “ (...) os cientistas têm-se deixado comprar por salários avultados, subsídios e compensações monetárias que não se coadunam verdadeiramente com os seus reais méritos, e tudo porque uma determinada política governamental se apoiou com os seus conhecimentos tecnológicos.” (54)

    O cientista tem, então, de educar, não rodeando nem “cobrindo os olhos do povo com areia” e de esclarecer para que a essência , o ritmo e a dimensão das alterações tecnológicas se tornem compreensíveis aos olhos de todos! Só um verdadeiro cientista, um cientista apaixonado pelo seu trabalho, terá verdadeiramente vocação para tal.

        Contudo, os cientistas vêem-se completamente impotentes para exercer a sua responsabilidade...Pelo poder exercido pelos governantes...Assim, a própria comunidade científica – pelo menos a parte desta que ainda não foi “comprada”- deve fazer-se escutar e exigir, também ela, que os representantes da sociedade permitam que a informação científica seja dada ao público pelos cientistas!

    Neste sentido, é muito pertinente focar o comentário feito na Declaração de Veneza, assinada em Março de 1986, acerca da responsabilidade do cientista, no contexto atrás mencionado:” Os desafios da nossa época – o desafio de autodestruição da nossa espécie, o desafio informático, o desafio genético, etc. – esclarecem de novo a responsabilidade social dos cientistas tanto na iniciativa como na aplicação da investigação. Se os cientistas não podem decidir da aplicação das suas próprias descobertas, não devem assistir à aplicação cega destas mesmas descobertas.   A amplitude dos desafios contemporâneos exige, por um lado, a informação rigorosa e permanente da opinião pública e, por outro, a criação de órgãos de orientação e mesmo de decisão de natureza pluri e transdisciplinar.”    (55)

    Porquê esta atitude por parte dos governantes? Os cientistas são agentes de mudança! Tal como a realidade, também a sociedade e os governos estão num permanente  devir, numa espiral evolutiva. Os governos lutam contra a finitude das coisas.....então, também lutam contra os próprios cientistas, ......Deste modo, é natural que surjam,  aqueles a quem Bronowski apelidou de “dissidentes do sistema”. Na verdade, “(...) não se faz a ciência realmente criteriosa se os cientistas forem reduzidos a escravos de um regime político”.  (56)

    Julgamos ainda ser necessário focar o papel dos media que acaba por estar intimamente relacionado com a responsabilidade dos cientistas e dos poderes políticos.

    A acção dos mass-media perante qualquer notícia de fora, aparentemente científico, tem sido deplorável! Debrucemo-nos no caso dos “Raelianos e os clones”. Os meios de comunicação para terem mais “exclusivos” ou acesso a qualquer notícia escandalosa/espetacular, nem sempre confirmam as suas fontes nem questionam verdadeiramente. Citando C. Pinto Correia, de facto, “O que não se percebe é como é que os jornais, ou as televisões, na sua ânsia de dar um novo frisson de clonagem às suas audiências, não fazem qualquer tipo de pergunta ou levantam qualquer tipo de ressalva, e publicam, sem qualquer espécie de sentido crítico, o que qualquer Zé Ninguém da Esquina metido a cientista lhes for contar o que acabou de confeccionar no seu laboratório, mesmo que não tenha provas e queira guardar ferozmente o segredo sobre todos os aspectos substânciais da história.(...) É espantoso e é muito descoroçoante, verificar como as regras mais básicas de reacção segundo o senso comum desapareceram completamente  sempre que um maluquinho conta uma história de clonagem a um jornal”   (57) Ainda por cima, se a comunicação social se vê presa nas garras de governos totalitários ou interesses políticos....ela torna-se, não mais do que, “um meio de lavagem cerebral”.

    É assim categórico que a comunicação social seleccione a informação que vai transmitir ao público, pois afinal ela não é mais do que um meio de educação!, e que não se deixe subornar. É necessário que seja íntegra, imparcial e portanto, capaz de reter as massas. A responsabiliade e o poder  são directamente proporcionais....

    A quem pertencerá este poder? “(...) o poder é a categoria fundamental do homem e o trabalho o conceito básico da sociedade”. (58)

    É nossa convicção que o poder jamais deve estar concentrado apenas num polo, uma vez que conduziria inevitavelmente a posicionamentos extremos. É, pois, necessário distribuí-los pelos quatro. Só assim haverá  um verdadeiro elo, uma interacção entre os quatro poderes: caminharão como um só, em direcção a um mundo novo.

    Em síntese...

    Perante esta difícil encruzilhada entre estes três vectores, estão em jogo os mais diversos interesses. Não podemos propor soluções rígidas, fixas, definitivas,  pois elas seriam, a curto prazo, ultrapassadas e postas de parte. Apenas podemos propor percursos.Parafraseando M. P. Baptista, devemos despertar para uma nova visão do mundo oriunda do universo da ciência!

    De facto, já não mais podemos ter uma noção “ cor-de-rosa” do mundo, pois perdemos a inocência.

    A uma teoria geocentrista   sucedeu uma teoria holocentrista ... Não estamos de modo algum no centro do Universo, mas apenas num subúrbio de uma das muitas galáxias existentes. O Universo constitui-se como uma máquina harmoniosa, regida pelos próprios mecanismos, independente da vontade do Homem. Tudo surgiu, ao que parece, de uma grande explosão (Big Bang). Todavia, as respostas científicas encontradas levantam ainda mais questões, nomeadamente existenciais: como é que algo pode ter surgido do nada? Foi Kant quem inicialmente se debruçou sobre esta questão.

    Antigamente, as pessoas alimentavam-se na crença, na religião, nos mitos; a ciência veio revolucionar toda esta concepção! É da ciência que se alimentam os ávidos espíritos de sabedoria! Mas atenção! Nunca a ciência pode ser vista mediante uma fé cega!

    Não pode haver uma separação entre sujeito e objecto. “ Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios. Por isso, todo o conhecimento científico é autoconhecimento.”    (59)

    Não pode haver então uma separação entre “ ciências da Natureza” e “ciências Humanas”! A ciência é plural e incita a uma visão compreensiva da realidade, recorrendo com frequência a explicações de dados empíricos. “ O homem domina a Natureza não pela força mas pela compreensão. É esta a razão pela qual a ciência conseguiu alcançar êxito onde a magia falhou, isto é, não tentou lançar nenhum encanto mágico sobre a natureza.”    (60)

    É, assim, necessária uma atitude reflexiva e organizadora, um mergulhar crítico na ciência e na técnica. Isto passa por uma atitude crítica, por parte do cientista, de quem não se torna subserviente, não se silencia nunca, que indaga sempre. Aliás, “ ao duvidarmos somos levados a inquirir e pela indagação apreendemos a verdade”( Abelardo), ainda que esta   seja provisória.

    Por seu turno, é também nuclear que surjam tentativas reais de integração e penetração de valores numa sociedade, e, portanto, numa cultura!
A noção de responsabilidade torna-se mais preciosa que nunca: ela é a guardiã do nosso futuro ... Afinal, “ parafraseando Saint-Exupéry, nós tornamo-nos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos.

    Como este sentido de responsabilidade ainda não se encontra incorporado na nossa sociedade, não basta abanar o telhado de uma construção sólida, temos que começar pela base, pela raiz. Enquanto caminhamos nesta direcção, devemos alimentarmo-nos de um “politeísmo de valores” (Edgar Morin), mas um politeísmo que se coaduna com o sujeito na sua totalidade!

    Caminhamos de olhos fechados para o futuro pois, se  é possível prever o futuro, então não há nada que possamos fazer a seu respeito; se podemos fazer algo a seu respeito, então não podemos prevê-lo” ( Aristóteles).

    “ Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro.Estamos divididos, fragmentados. Sabemo-nos a caminho, mas não exactamente onde estamos na jornada.”     (61)

         Posto isto, de que forma poderá a ciência ser efectivamente, uma proposta de sentido?

Tecnociência e ética – uma dicotomia ou uma dialéctica?

    Até há poucos séculos atrás, a ciência e a ética eram encaradas como uma proposta de sentido, excluindo na sua íntegra o conceito de ética. Efectivamente, ciência / técnica e ética podem constituir uma dicotomia, como aconteceu / tem acontecido ... Mas, perante esta dicotomia, nunca pôde / pode / poderá ser a ciência / técnica vistas como uma verdadeira proposta de sentido, pois se elas se desfazem continuamente do “eu” para  “a máquina”! Por isso, ciência /técnica falharam no passado. E continuarão a falhar redondamente, se esta postura perante a vida, em última análise, se mantiver e/ou se acentuar! Com efeito, nestas circunstâncias, o “ (...) ser humano é um animal que rompe o equilíbrio ecológico, e como insaciável predador , dizima, sem qualquer piedade, as formas de vida que partilham com ele o planeta, aliás demasiado limitado para uma população em multiplicação crescente e continuadamente empobrecido pelos gastos de energias não renováveis que podem apressar soluções catastróficas. Por isso, vêm da terra sinais alarmantes do nosso tempo. Planeta de vida, “ la terre des hommes” convertida em matéria-prima de ambições humanas por uma Modernidade tricentenária é, nas sociedades industrializadas, pasto de voracidade de um consumismo que, se fosse universalizado, a converteria irremediavelmente num planeta de morte.   (62)

    Este afastamento sucessivo, provindo, sobretudo, das próprias metodologias impostas pelas ciências da Natureza, fragmenta o Homem, não o orienta, mas desvia-o do caminho que o levaria, de volta, ao berço da Mãe Natureza. Assim, discordamos da ideologia defendida por Birnbacher: a opção por esta forma de ciência não luta a favor dela, mas contra ela.

    Desta forma, torna-se nuclear propôr uma alternativa: arrancar as raízes secas e profundas da ideia de “ uma dicotomia cientifico-ética e fecundar as sementes, já plantadas, de uma “ dialéctica cientifico-técnica”.  É neste caminho que lançamos as nossas esperanças, para uma proposta de sentido em sintonia com a música da Natureza, para uma “ (...) veneração perante a vida (...)”   (63)

    Tendo como ponto de partida que a tecnociência e ética são indissociáveis e, neste sentido, têm bases consistentes para se apresentarem como propostas de sentido, vamos propor alguns caminhos, percursos que nos podem levar a esse fim.

    É necessário, antes de mais, questionarmo-nos: o que é a “ ética ”? “O adjectivo ético,  na linguagem comum, é aplicado a comportamentos / posturas  “éticos”, “poucos éticos”, “falhos de ética”) das pessoas, numa referência à realidade humana na sua plenitude / totalidade. A palavra portuguesa deriva de dois termos gregos muito semelhantes no seu significado e pronúncia. Éthos significa hábito ou costume – entendidos, com uma certa superficialidade, como maneira exterior de comportamento; Éthos tem um carácter mais amplo e rico: o de lugar ou pátria onde habitualmente se vive e o carácter habitual (ou maneira de ser ou até forma de pensar) da pessoa. Assim, o ético poderia traduzir-se por modo ou forma de vida, no sentido mais profundo da palavra, compreendendo as disposições do homem na vida, o seu carácter, costumes e, claro, também a moral”. (64) Poderíamos ainda ampliar este conceito, como o fez E. Morin: o conceito de ética   não deve apenas remontar-nos para o Homem, mas para a vida em geral.

    Ética e moral não são, contudo, identificáveis: enquanto que a primeira se prende com a conduta do ser humano em sociedade, sob a égide de um sistema
político / económico e social, etc., organizados; a segunda possui um carácter reflexivo sobre o Homem e seus actos na sociedade em que está integrado.
Neste sentido, é importante distinguir moralismo e moral. O primeiro considera “ (...) uma oposição maniqueísta entre bem e mal o que, na realidade, é um  conflito de valores. O moralismo confunde a normalidade e a norma; ora temos de desconfiar da ética da normalidade, aquela que vai privilegiar o indivíduo-padrão (...)   (65)
    De facto, é a ética científico-técnica que possui meios, conteúdos para ir ao cerne de questões verdadeiramente importantes para o ser humano e que o “situam” no mundo: “  Quem sou eu (= homem, humanidade)? Quem sou eu (= ser em sociedade)? Onde me posiciono na sociedade? Para onde caminho? O que virei a ser?

    Mais do que ética científica, E. Morin propõe uma scienza nuova, isto é, uma ciência que progride, que é dinâmica, porque é falível. Defende também que: “ Nesta evolução, será necessário que ela englobe o autoconhecimento, ou melhor, a autociência (...) temos necessidade de pontos de vista metacientíficos sobre a ciência que revelam os postulados metafísicos e até a mitologia escondidos no interior da ciência.  (66)

    Assim, a ciência, segundo esta perspectiva, levaria os cientistas a repensarem a sua posição existencial no mundo. Ela promove a criação de uma sociologia da ciência, que conduziria exactamente aos conflitos éticos. Todavia, na nossa opinião, esta proposta apresenta validade, mas é insuficiente: a estrutura, a da ciência moderna, no seu âmago, em pouco se alteraria! De facto, a ciência incluiria o autoconhecimento, mas também um auto-desconhecimento!, dado às próprias metodologias. Não seria possível ter uma visão ampla do global, pois esta concepção de ciência “fabrica” ignorantes especializados (cientistas) e ignorantes generalizados (cidadãos). Ela continuaria a “falar-nos” de uma objectividade sem par, o que, de facto, não corresponde à realidade e manteria a ideologia: “ Não podemos esperar que a Natureza nos conceda os seus dons. A nossa tarefa é arrancar-lhos” ( V. Goldanski)

    Todavia, E. Morin, ao defender implicitamente que ciência e ética munem forças, em conjunto, reforça a ideia de que: “ (...) os verdadeiros conflitos éticos são conflitos entre imperativos. Da mesma forma que há, doravante, um conflito entre o imperativo do conhecimento pelo conhecimento, que é o da ciência, e o imperativo de salvaguardar a humanidade e a dignidade do homem.” (67) Para tal, fala-nos de comités de bio-ética, capazes de questionar normas e valores tidos como absolutos, incitando a uma crítica construtiva. Concordamos, em parte, com este aspecto. Na verdade, é pela discussão, num ambiente aberto, sem dogmas, em equipa, que surge o “ mais verdadeiro” dos conhecimentos ... pelo menos por algum tempo ...(tema desenvolvido no capítulo seguinte).

    Concordante com o carácter provisório do conhecimento científico, E. Morin também propõe uma moral provisória, aliás, condena-nos a ela, pois “ são os problemas permanentes da ética que se chocam com situações inesperadas, as quais suscitam conflitos éticos. Estamos condenados em bio-ética a compromissos arbitrários e provisórios.”(68) Por este meio, o autor rejeita, determinantemente, uma nova ética.

     Assim, não deixa de ser interessante analisarmos a posição de H. Jonas que situa num extremo oposto, em relação a E. Morin, pois reivindica uma nova ética. Considera insuficiente o modelo instituído por Kant: não, a promoção da relação com o próximo não é viável, não mais! É necessária “uma ética voltada para o futuro [que ] estende os nossos compromissos morais de tal modo a alcançar as gerações vindouras dos não-nascidos e nos responsabiliza igualmente pelos cuidados com a natureza extra-humana.”  ( 69) que rompe uma barreira antropocêntrica e contemporânea.

    Do mesmo modo, M. M. Pereira, exige também a destruição dessa barreira e propõe a naturalização de técnica: “ Qualquer alternativa válida [ para, uma última análise a salvação do homem] exige a destruição da barreira antropocêntrica e a nova consciência de que a humanidade não é uma sociedade fechada sobre si mesma mas uma parte da comunidade natural da vida e de que, portanto, o homem é um ser como os outros, com inclusão de animais e plantas, ar e água, céu e terra. Na paz com a natureza naturaliza-se a técnica, que só pode transformar sem destruir, criar sem dominar, crescer sem explorar.”    (70)

    M. M. Pereira “ pede , então uma compreensão do mundo. Para tal, insiste que se opere ao nível dos modos de pensamento actuais: “ (...) é necessário o “ espírito ético” que desenvolva a mentalidade humanitária da razão superior, que realmente corresponda “ à essência autêntica do homem.” (...) “ ao lado da Ética tradicional, carecida de profundidade e de difusão da força de convicção, aparecem a Ética da veneração perante a vida e tem aceitação.”   (71)

    Perante estas alternativas atrás analisadas, a nossa opinião é a de unificar, não fragmentar. Ou seja, encontrar uma relação de complementaridade entre ambas.De facto, a moral provisória proposta por Edgar Morin visa a auto-correcção e reajustamento de valores, de tempos a tempos, mediante os conhecimentos científicos. Todavia, não estará assim a ética ao serviço da ciência, e não ao contrário, como deveria ser ? E, além disso, não verificamos mudança na própria estrutura do método científico ... Por esta via, não entraremos numa circularidade, ao invés de uma “ espiralização crescente” ?

    É nestes pontos que as propostas de H. Jonas e M. M. Pereira conseguem “tocar”. Ao apostarem na responsabilidade e na capacidade de mudança do ser humano perante as gerações vindouras, ou seja, perante a vida, estão a aprofundar, no fundo, a corrigir a reajustar, mas estão a romper com o passado!... ( Posição tipicamente Bachelardiana, devemos acrescentar!)

    Por outro lado, Goldanski, numa entrevista ao jornal “PÚBLICO”, propõe a adopção de “ (...) um código moral e universal da ciência, uma espécie de declaração dos direitos e deveres dos sábios: que cada jovem investigador que escolha a carreira científica faça um juramento semelhante ao juramento de Hipócrates dos médicos, comprometendo-se a não prejudicar o homem nem a Natureza”. Afirma ainda que: “ Seria útil criar junto da ONU um  órgão internacional, um conselho superior de cientistas. Ele representaria a sabedoria colectiva da humanidade e poder-se-ia rodear do conselho de círculos mais alargados de especialistas em todas as áreas da ciência e da técnica.”  (72)

    Sobre estas linhas iremos fazer algumas críticas. Se o investigador se comprometesse a “ não prejudicar nem o homem nem a Natureza”, estaria a negar as suas próprias limitações de ser humano, a ser falso, portanto. Cientista que assume, à partida, este  compromisso não deve ser digno de confiança! Ele não pode assumir uma certeza absoluta quando não a tem! Ainda mais, que o futuro, o seu futuro, é uma carta fechada, na linguagem popular: “ Nunca digas, desta água não beberei!” Se bem que é válida e coerente a criação de instituições – aliás, esta opinião é, igualmente, partilhada por L. Archer, embora, não a uma escala tão ambiciosa. Esta passa pela criação de uma Ministério de Investigação que não só teria uma política científica, virada para incentivos culturais e educativos. – estas perdem todo o sentido se, apenas, permanecem confinadas às elites, que terão “ nas suas mãos” a vontade da Humanidade! Ora, tal é irreal. Nunca as elites, partidárias de uma ideologia, de um ou mais lóbis por Natureza, poderão tornar-se imparciais, voz da Humanidade. Com efeito, se olharmos para a própria comunidade científica verificamos se um ou mais investigadores – representantes da vontade de um grupo da sociedade – não estão de acordo com regras / teorias vigentes ou mesmo se questiona demasiado, são, de imediato expulsos dela. Nunca o poder deve estar centrado numa só pessoa / grupo. (Neste caso, poder equivale a conhecimento científica). O mesmo se passa na política, originando ditaduras. O ser humano é facilmente corrompido pelo poder. Como tal, deve evitar colocar-se / colocá-lo em tais situações. Assim, discordamos na totalidade, neste aspecto, com V. Goldanski.

    Neste sentido, a opinião de L. Archer ganha especial contorno, porque visa a educação, a informação dada ao público. Se o público está informado, pode criticar; ao criticar, evolui, construindo um mundo melhor. Isto seria perfeito, se o poder político-económico não se constituísse como uma ameaça ...De forma a pensar a ciência como proposta de sentido, B. S. Santos visiona um paradigma emergente, que suplanta de modo implacável, o paradigma dominante
(da ciência moderna). Para tal, apresenta quatro teses que transcrevemos, embora resumidamente, de seguida:

       1.“O conhecimento do paradigma emergente tende (...) a ser um conhecimento não dualista, um conhecimento que se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias que até há pouco considerávamos insubstituíveis, tais como natureza / cultura, natural / artificial, vivo / inanimado, mente / matéria, observador  / observado, subjectivo / objectivo, colectivo / individual, animal / pessoa.”  (73)

       2.“A ciência pós-moderna é uma ciência assumidamente análoga que conhece o que conhece pior através do que conhece melhor. (...) o mundo é comunicação e por isso, a lógica pós-moderna é promover a “ situação comunicativa” (...) não se trata de uma amálgama de sentido ( que não seria sentido, mas ruído), mas antes de interacções e de intertextualidades organizadas em torno de projectos locais de conhecimento incisivo.”   (74)

       3.  Há uma sugestão para uma “ (...) maior personalização do trabalho
       científico.”  (75)

       4.“ (...) o carácter autobiográfico e auto-referenciável da ciência é plenamente assumido.”(76)O paradigma emergente é dotado de “ (...) um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una ao que pessoalmente estudámos.”  (77)

       Aborda ainda a necessidade de um carácter reflexivo, que passa não por uma explicação, manifestação, mas por uma compreensão do mundo, levado a cabo, sob o ponto de vista sociológico, quer pelos cientistas, quer sobre o próprio cerne do conhecimento científico.Este modelo de conhecimento exige um repensar de toda a estrutura não só científica, mas também ética.É bastante complexo e aponta as metas que deveriam ser as do cientista dos nossos dias.

    Cremos que tem havido um grande esforço por parte, não digo de todos, mas de alguns grupos de cientistas para unificarem, integrarem e estabelecerem transdisciplinaridade e personalizarem ... Todavia, ainda há um longo percurso a percorrer. Claro que nunca será atingido, nunca chegaremos ao fim.
Mas pelo menos sabemos por onde caminhámos... Para não pisarmos solo como areias movediças, é fundamental que a ética do ser humano se imponha à ciência / técnica. Só assim, ciência e consciência andarão da mãos dadas.

    Bronowski direccionou o seu discurso, sobretudo para a questão da desigualdade e dos valores. Embora, Morin já tenha abordado a questão “valores na ciência” Bronowski debruçou-se, aprofundadamente, sobre ambos.“(...) o homem que é ajudado pela minha indiferença, o carniceiro, sou eu . Os valores humanos existem em mim e quando os esqueço por uns tempos, a maquinaria que enferruja, é o meu próprio futuro.

    Esta ética para a vida contemporânea, uma doutrina de igualdade e respeito para com todo o potencial humano, não pode ignorar os valores da ciência.(78)Mas, fala-nos de uma ética pessoal: ”A força de ciência reside no realismo com que orienta os motivos humanos a uma finalidade comum ao transformar o espírito de responsabilidade da comunidade científica numa ética pessoal.(79)

    Em relação à posição assumida sobre  a presença e o destaque, os valores devem assumir-se, concordamos plenamente. Aliás, é estando desperto para os valores humanos que mais facilmente podemos criticar esta ou aquela posição ou decisões tomadas. Este ambiente é ainda, suficientemente aberto para que haja liberdade para a opção pela mudança, não só a um nível externo, burocrático, aparente, mas sim interno, que vem da raíz.

    Todavia deixar que o cientista inserido numa comunidade científica, por uma, fundamentalmente ética pessoal, pode tornar-se tremendamente perigoso.Estaríamos  a centralizar o poder numa única pessoa, pessoa essa que é humana, passe o pleonasmo. Ou seja, também ela tem fraquezas, também ela sofre, também ela tem um ego, logo é falível, à nossa semelhança.

    Se o seu papel é ensinar, e se, efectivamente o cumpre, não será também maior a sua influência sobre o outro? Sobre a sua consciência? A ética pessoal não está confinada a uma só, ao próprio cientista?, mas, antes interage e regula a ética do público, dos governos....É do nosso entender que a “solução residirá numa ética pessoal, mas globalizante, que reuna consenso.

    Agora, ao defender que: “Uma verdadeira sociedade é mantida pelo sentido de dignidade  humana” (80). Brnowski remonta para um conceito mais amplo, mais generalizado, que não o público, os governos, mas, pelo contrário, integra-os promovendo o “encontro com o outro”, o respeito, a confiança e a responsabilidade mútuas.

    Assim, acrescenta que a moral do cientista deve residir na indistinção entre os fins e os meios(81).

    Sob um outro ângulo, Jacques Yves Cousteau afirma: “No que diz respeito à boa convivência da ciência com os valores morais – e não apenas  com uma ética de circunstância -, também aí a confusão surja entre ciência e tecnologia. A ciência limita-se a conhecer e não tem nada a ver com ética. Em contrapartida, a tecnologia, a informação primária ou enganadora, fornecida pelos “media” e pelos interessesnacionais e públicos, constituem uma aliança contra a natureza que deveria ser urgentemente subordinada a valores éticos.(82)

    Apesar de considerarmos a segunda afirmação muito objectiva, crítica e que, na realidade, se adequa à situação actual, não cremos que haja consistência lógica na primeira afirmação. Esta coaduna-se ainda com vestígios de um certo positivismo. Na verdade, o cientista não é sujeito cognoscente que somente conhece, que somente determina as causas, responde ao “como é que....?”. Se analisarmos o comentário feito detectamos  incongruências: como pode um cientista  que apenas conhece, não perguntando pelo “porquê”, falar do que está para além do “como”? Ou seja, como pode ele tomar consciência e fazer considerações acerca do todo (ciência, tecnologia, informação primária ou enganadora...), se só se limita à parte (ciência)?É de facto, um paradoxo: um cientista que somente explique não pode, de modo algum, compreender!

    Em síntese....

    Estaremos dispostos a ser as mãos que, em conjunto, constroem o mundo?

    “Fala-se hoje do síndroma “Titanic” para exprimir a tríplice atitude do homem no barco do mundo em perigo de naufrágio. Uns, divertem-se até à morte embalados no ludonismo da nossa idade cientifico-técnica: outros, reparam afanosamente as máquinas e os rombos do “Titanic” na expectativa de uma salvação técnica. Os restantes buscam alternativas para o super navio.(83) Com efeito, apresentamos três situações bem comuns na nossa sociedade. Enquanto uns ignoram a urgência de uma consciencialização, outros caminham numa só direcção , desviando-se de uma perspectiva globalizante, fragmentando a razão. Efectivamente não é possível salvar um navio que possua um buraco no casco, nem o navio, nem as pessoas que nele viajam. É sim, fulcral “deitar mão” aos botes de salva-vidas e remar para longe, para salvar a própria vida. Para que o percurso até à altura não tenha sido em vão, torna-se necessário construir um novo navio, um super-navio, mais resistente no casco, na base.

    Aqui, a ciência técnica, podem ser as ferramentas, os instrumentos que reforçam o navio. Os alicerces estão em novas concepções, novos projectos aperfeiçoados  em relação aos anteriores. Ou seja, a forma, a ideia de como construir o navio, pensando nas consequências e estudando-as para não plasmar os erros do passado no presente, mudou.

    Assim, e tendo como fundamento esta analogia, podemos afirmar que o homem (Humanidade) necessita de ir além da sua capacidade técnica! Não se pode idolatrar acreditando que encontrou a chave que descodifica todo o Universo, a felicidade, a evolução, o ser humano, etc.. Pelo contrário, tem de estar ao serviço. De quê? Não do conhecimento mas da ética do conhecimento e duma ética humana. É a aliança entre estas duas que promove um equilíbrio no indivíduo e, por conseguinte, na sociedade. Por este meio, a tecnologia serve, também ela, o conhecimento- que decorre da ética do próprio conhecimento (como já foi referido). Gera-se uma harmonia, uma convivência dialéctica entre ciência, técnica, ética, homem...Não poderão agora ciência e técnica, ser encaradas como propostas de sentido? Acreditamos que sim.

    Então uma importante questão se levanta: estará a ciência (-técnica), feita pelo homem, disposta a submeter-se à ética?

    Actualmente o mundo apresenta uma atitude dual: a de rejeitar e refutar  as evidências ou a de reconhecer e tentar mudar o passado. É óbvio que esta última implica que, pela segunda vez, - a primeira foi com a questão Geocentrismo e do Heliocentrismo - o homem ande de “cavalo para burro”, passe a expressão, que se reajuste e reconheça as suas falhas, os seus limites!....

Os limites da tecnociência – apenas um meio ( instrumento) e não um fim (absoluto em si mesmo).

    “ O século XX é o século da descoberta dos limites da ciência como uma descoberta das certezas absolutas.

    Começou o século com o limite da velocidade de propagação de seja o que for no universo.

    Expandiu-se na dependência da medida de uma grandeza relativamente ao observador.

    Quantificou-se no princípio de incerteza de Heisenberg.

    Provou-se a impossibilidade de medir com rigor absoluto
.
    Libertou-se no teorema de Gödel.

    Impôs limites à lógica e à racionalidade como aríetes da busca humana da verdade absoluta.

    Revelou-se nas limitações que traz o simples contar.

    O simples lidar com a aritmética dos números mostrou-nos a precariedade das nossas previsões.Mas nada destas descobertas quebrou a química do egoísmo. Nada fez diminuir a física da agressividade. Nada. O conhecimento envenenado da soberba humana evolui de técnica em técnica. (...)

    Aprendemos nada do século XX. Sabemos todos os nossos limites. Mas não resistimos a utilizar a malícia suprema.” (84)

    F. Carvalho Rodrigues, autor da citação, ainda acrescenta que o caminho é aprender e aplicar os limites que a ciência do século passado nos legou. O caminho é o da amizade ...

    De facto, aprender para informar é, efectivamente, um percurso de considerar. Aliás, “ (...) para sermos parceiros activos, só estaremos qualificados se estivermos devidamente informados. Na grande evolução biológica do terceiro milénio, a informação é muito mais do que um direito sagrado de cada cidadão. É um dever imperioso.“ (85) Todavia, todo este processo é muito complicado, principalmente quando, para além de informações, não é dada ao público a liberdade de tomar decisões – o primeiro ponto decorre do segundo, é certo – estas são-lhe impostas pura e simplesmente. Tomemos por exemplo as comissões de ética, onde isto acontece sempre.

    Assim, “ (...) como sociedade, temos que pensar muito bem e decidir com clareza o que esperámos de uma comissão de ética, o quanto poder estamos dispostos a reconhecer-lhe.

    Além disso, se analisarmos os próprios comités de Ética, principalmente em Portugal, verificámos que estes não têm nenhuma preocupação em agir, em estimular, limitam-se a mandar    “ opiniões cá para fora .” (86)

“ A educação é fundamental para as pessoas poderem ter uma regulamentação que é educada e não só por convicções.” (87)A educação é um processo dinâmico, bem como a própria ciência, técnica, etc. – tudo está a evoluir.Logo, torna-se muito difícil definir limites rígidos, fixos que não “ podemos ultrapassar”. Ou seja, estão em arrastamento com os avanços científico-tecnológicos”, mas à sua frente! Só por este meio se evita a constante “desinformação”, sobretudo por parte dos mass-media, que não conseguem ir ao âmago das questões e gera-se uma confusão generalizada por parte do público. Nós próprios somos alvo desta“desinformação” constantemente!

    Neste sentido, é útil olhar para o passado, como referiu atrás F. Carvalho Rodrigues.

    Remetendo-nos, brevemente, para a questão da clonagem humana. Muita “desinformação” se divulgou a este respeito!

    De facto, não é por descodificarmos o genoma de uma pessoa, que vamos digitar toda a informação relativa a essa pessoa. “ Os genes só dão uma indicação geral daquilo que possa vir a ser a pessoa.” (88)

    O meio, a educação, a cultura, todos estes factores influenciam na formação de uma pessoa; os genes não fornecem indicações relativas à personalidade, ambições, comportamento, etc. Portanto, o futuro do dito “clone”, não é pré-determinado. É incrível como não choca ao público a manipulação social / ambiental, tal como choca a genética ... Talvez seja, infelizmente, pelo hábito...

    Assim, a questão nuclear que deveria estar nas mentes de cada um de nós é a da instrumentalização ou “desumanização” da pessoa em todo este processo!
Não é verdade que ela é realizada quando entre uma relação não há amor entre os cônjuges? Os embriões são utilizados unicamente para fins terapêuticos? Ou quando se contratam mães de aluguer?

    Não podemos deixar que a tecnologia se entranhe friamente no nosso quotidiano! Há que preservar a dignidade da pessoa. Como? “ Age de tal modo que nada do mundo trates apenas como um meio e não ao mesmo tempo também como um fim.” (89)

    Na verdade, existem problemas que se formulam ao nível da bioética, tais como as questões das cobaias humanas e animais, bancos de esperma, investimento na investigação ao nível do armamento biológico e químico, fertilização in vitro, inseminação artificial, aborto, etc.

    A nossa preocupação principal deve ser a de exigirmos que, quer a comunidade científica, quer as Comissões de Ética nos informem, numa linguagem não carregada de simbolismos e “termos estranhos”, mas que seja minimamente compreensível, acerca dos avanços tecnológicos e, por conseguinte, acerca dos limites que este implicam, para que juntos sejamos meios, veículos, para alcançarmos os fins.  A este prpósito tenhamos presente a subtil observação do professor Daniel Serrão: “ Os fins não justificam os meios” – temos de nos pensar no mundo de hoje.

    Afinal, parafraseando Monet, perseguimos um sonho, queremos o impossível. O desafio que se apresenta ao homem não é o de se superar tecnicamente, porque isso é-lhe inerente (já o Homem Neanderthal o fazia!); o verdadeiro desafio é que ele deixe cair todas as máscaras de uma razão técnica, de uma ambição desmesurada, de uma tentativa de atingir os seus objectivos “doa  a quem doer” , de um falso caminho onde as aparências fazem girar o mundo!...

    Não sabemos nem podemos saber, com absoluta evidência, o que se seguirá.

    “Ciência sem consciência não é [efectivamente] mais de que uma ruína de alma”? (Rabelais)

    Ao submeter os fins aos meios não estamos senão a reger-nos segundo uma “ (...) ética consequencialista, típica de uma teologia tipicamente protestante.” Este tipo de ética é perfeitamente admitida nos EUA e Grã-Bretanha, que aprovam a criação de embriões para a investigação. O referido catedrático  conclui: “ É ao abrigo desta ética que toda a acção com um fim benéfico é legítima e, por isso,  nos EUA, o lucro  legitima qualquer tipo de acção.” (90)
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Conclusão

    Para os “homens que são como lugares mal situados”(91)....

    Concluído o nosso trabalho, isso não significa que chegamos ao fim da nossa jornada, como seres humanos num mundo “humanizado”. Somente concluimos uma etapa, ou ultrapassamos um obstáculo. Assim, acentua-se a necessidade, e também a responsabilidade, de sermos agentes de um futuro que estava já a construir-se. É, então, nossa função consolidar a aliança que se tem vindo a estabelecer entre ciência/técnica e ética, de modo que esta [aliança] abarque todo o mundo.

    Como “uma espada dois gumes” (Heidger), é dever de todo o cientista convertê-la em instrumento de promoção de cada ser humano.

    É imperativo moral de todo o cientista perseguir, de espírito aberto e humilde, o objectivo originário e puro da ciência: a dignificação do homem. Todavia, não é um esforço solitário, o do cientista. Poderes políticos, económicos, sociais, não devem (não podem!...) minar a ciência-técnica; devem, sim, estar ao serviço, da Verdade, da Ética. O público também tem a sua quota-parte na escolha do poder político, bem como na exigência de informação pelos cientistas, bem como uma linguagem acessível (ciência-cultura e não ciência-ciência). Se o público e cientista não se encontram no mesmo patamar, porque devem ser encarados como tal?! Os media deveriam filtrar a informação que lhes é dada  e confirmar as suas fontes.

    Ao congregarem esforços, cientistas, público, governos e mass-media caminham na mesma direcção, não para um fim que fragmenta, mas que unifica.

    Deste modo, ciência e técnica seriam cada vez mais uma proposta de sentido.

    Por isso nem tudo o que é tecnicamente possível deve ser eticamente aceitável, (= ciência com consciência).

“Homens que trabalham sobre a campa
 Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias

Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
Ãs persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas]
Homens todos brancos que abrem as cabeças
À procura dessa pedra definida.

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída”(92)

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Bibliografia

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www.student.dei.uc.pt/~rleitao/estudos/Projectos/oral.htm

Notas

(1) in E. de Andrade, “ Memória doutro Rio, Vertentes do Olhar”, p. 77-78
(2) in E. Morin, “ Ciência com consciência”, p. 20
(3) in J. Bronowski, “ A responsabilidade do cientista e outros escritos”, p.79
(4) in www.ufsm.br/autartica/palestra % 201.htm
(5) in B. S. Santos, “Um discurso sobre  as ciências”, p. 8
(6)  in B. S. Santos,  ob. cit., p. 10
(7)  In J. Bronowski, ob. Cit., p. 69
(8) In E. Morin,  ob. Cit.,  p. 84
(9) In E. Morin, ob. cit., p. 85
(10) In B. S. Santos, ob. cit., p.13
(11) In E. Morin, ob. cit.,  p. 99
(12) In www.ufsm.br/antartica/Palestra%201.htm
(13) In  www.conciencia.org/contemporanea/heidegger.isabel.shtm
(14) In E. Morin, ob. cit.,  p. 87
(15) In E. Morin, ob. cit.,  p. 38-39
(16) In J. Bronowski, ob. cit., p. 80
(17) In J. Bronowski, ob. Cit.
(18) In www.ufsm.br/antartica/Palestra%201.htm
(19) In J. Bronowski, ob. cit., p. 108
(20) In E. Morin, ob. cit.,  p. 83
(21) In E. Morin, ob. cit.,  p. 49
(22) In E. Morin, ob. cit.,  p. 81
(23) In  www.conciencia.org/contemporanea/heidegger.isabel.shtml
(24) in Visão,”Do Egas Moniz para o Mundo”, nº 516, p. 66
(25) inVisão, ,”Do Egas Moniz para o Mundo”,  p. 67
(26) in B. S. Santos, ob. cit., p. 46-47
(27) In E. Morin, ob. cit., p. 93
(28) In J. Bronowski, ob. cit., p. 150
(29) in B. S. Santos, ob. cit., p. 54
(30) in E. Morin, ob. cit., p. 43
(31) In E. Morin, ob. cit., p. 33
(32) in B. S. Santos, ob. cit., p. 26
(33) In  E. Morin, ob. cit., p. 36
(34) In E. Morin, ob. cit., p. 43
(35) In E. Morin, ob. cit., p. 18
(36) In E. Morin, ob. cit., p. 79
(37)in E. Morin, ob. cit., p. 101
(38) In B.S.Santos, ob. Cit., p53
(39)  in L.Archer, “Temas biológicos e problemas humanos”, p.15
(40) in L.Archer,  ob.cit, p.20
(41) in L. Archer, ob. Cit., p.21
(42) in L. Archer, ob. Cit., p.24-25
(43) in L. Archer, ob. Cit., p.26
(44) in L. Archer, ob. Cit., p.157
(45) in L. Archer, ob. Cit., p.65
(46) in http://dossiers.publico.pt/genoma/index.html
(47) ) in M.B. Pereira, “Revista filosófica de Coimbra”, p.9-10
(48) in J.Bronowski, ob. Cit., p.8
(49) in J.A.Costa, A.S. e Melo, “Dicionário de Língua Portuguesa”,p.1699
(50) ) in E. Morin, ob. Cit., p.91
(51) in J.Bronowski, ob. Cit., p.39
(52) in E. Morin, ob. Cit., p.94
(53) in E. Morin, ob. Cit., p. 99
(54) in J.Bronowski, ob. Cit., p.31
(55) in M.B. Pereira, ob. cit., p.18 
(56)in J. Bronowki, ob. cit., p.30
(57)  in “Visão”, “Estamos a ficar muito burros”, nº516, Janeiro 2003, p.12
(58) in B. Santos, ob. Cit., p.52
(59)  in B. Santos, ob. Cit., p.52
(60) in J. Bronowki, ob. cit., p.113
(61) in B. Santos, ob. Cit., p.58
(62) in M. B. Pereira, ob. cit., p. 5
(63) in M. B. Pereira, ob. cit, p.20
(64) in www.terravista.pt/ancora/2254/lexicom/etica.htm
(65) in E. Morin, ob. Cit., p.102
(66) in E. Morin, ob. Cit., p.100-101
(67) in E. Morin, ob. Cit., p.102
(68) in E. Morin, ob. Cit., p.102-103
(69) in www.cfm.org.br/revista/bio1v8/simpo1.1.htm
(70) in M. M. P., ob. Cit., p. 32
(71) in M. M. P., ob. cit. p. 24
(72) in Abrunhosa ª A. M. e M. Leitão, “Um outro olhar sobre o mundo”, p. 351-352
(73) in B. S. Santos, ob. cit., pp. 39-40
(74) in B. S. Santos, ob. cit., pp. 45-46
(75) in B. S. Santos, ob. cit., pp. 50
(76) in B. S. Santos, ob. cit., pp. 53
(77) in B. S. Santos, ob. cit., pp. 54
(78) in J. Bronowski, ob. cit., p.86
(79) in J. Bronowski, ob. cit., p.67
(80) in J. Bronowski, ob. cit., p.163
(81) in M.B. Pereira, ob. cit., p.29 (traduzido)
(82) in M. Abrunhosa e M. Leitão, ob. cit., p. 352
(83) in M.B. Pereira, ob. cit., p.32
(84) in Quo, “ TRISTEZAS DA TERRA”, p. 24, n.º 91, Abril 2003
(85) in C.P. Correia, “ Clonai e multiplicai-vos”, p. 54
(86) in A. Quintanilha, “ Limites da ciência: É o saber, um absoluto em si mesmo ou um instrumento apenas?”, p. 38
(87) in A. Quintanilha, ob. cit., p. 31
(88) in A. Quintanilha, ob. cit., p. 23
(89) in Kant (citado por  M. B. Pereira, ob. cit., p. 30)
(90) in XIS, “ Bioética, uma utopia saudável”, p. 10, n.º 175, Outubro 2002
(91) in D. Faria, “ homens que são como lugares mal situados” (capa)
(92) in D. Faria, “ homens que são como lugares mal situados” , p.14

Observações:
1.No que respeita à bibliografia, todos os dados possíveis de livros, artigos, revistas e jornais foram retirados.

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Pena de Morte
(por Pedro Cabeça Santos)

    A pena de morte é um tipo de penalização retrógrada, bárbara e deveras injusta, especialmente nos dias de hoje, em que a sociedade contemporânea persegue a obtenção de um mundo mais perfeito e justo.Muitos poderiam contra-argumentar, advogando que a pena de morte é justa, na medida em que apenas castiga os criminosos com uma acção idêntica àquela que foi realizada por eles. Por exemplo, no caso dos assassinos em série, dado que estes matam inúmeras pessoas, é justo que sejammortos. Mas será este um pensamento correcto? Será que, tal como alguns filósofos defendem (Kant), deve ser aplicado o retributivismo? Parece-nos óbvio que não, pois todos os seres humanos têm direitos, nomeadamente o direito à vida e, apesar de alguns criminosos desrespeitarem os direitos os direitos de outras pessoas, isso não é suficiente para que nós passemos a desrespeitar os deles também. Nesse caso, também nós estaríamos a actuar como criminosos e não justiceiros, como muitos sustentam.

    Para além disto, também parece evidente que a prisão perpétua, em comparação com a pena de morte, é um castigo muito mais doloroso para os criminosos pois, para além de estes morrerem na prisão, o que acaba por acontecer mais tarde ou mais cedo, estes vêem-se forçados a passar o resto das suas vidas privados de liberdade que é condição impreterivelmente indissociável da felicidade do ser humano.Outro argumento a favor de outros tipo de penas em detrimento da pena de morte, é o facto de que, apesar de estes seres humanos estarem enclausurados, ainda podem ser úteis à sociedade, contribuindo, por exemplo, para a indústria de produção de bens, trabalho que pode ser levado acabo em estabelecimentos prisionais.

    Em suma, a pena de morte é uma penalização errada e retrógrada, independentemente do crime que tenha sido praticado e, deve ser substituída por uma pena mais justa, como por exemplo, a prisão perpétua.

Pedro Manuel Alves Cabeça Santos.
Texto argumentativo produzido no âmbito de uma Ficha de Avaliação de Língua Portuguesa.
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Reflexão sobre o pensamento autónomo*
(11ºA 2006/07)

    O pensamento autónomo é o que nos distingue dos outros animais. Somos seres designados "racionais" precisamente porque pensamos. Sabemos que o fazemos e que graças a ele conseguimos ultrapassar até hoje, as barreiras que se cruzaram com o nosso caminho. O pensamento autónomo sempre nos mostrou a direcção a seguir e essa direcção conduziu-nos ao processo de socialização. Este processo consiste na interiorização de regras, princípios e conhecimentos, tidos como correctos pela sociedade em que estamos inseridos.

    Mas como podemos ter a certeza que as ideias dominantes são as correctas se não reflectirmos racionalmente sobre elas? Esta é uma das principais inquietações da sociedade contemporânea que se traduz na necessidade de reflectir acerca das ideologias aceites pela sociedade e dos poderes estabelecidos.

    Perante esta dúvida podemos adoptar uma atitude ingénua, ou uma atitude critica. A ingenuidade é a característica relativa às pessoas que têm uma visão demasiado positiva do mundo e daqueles que as rodeiam. Este optimismo resulta da confiança que elas depositam em si e nos outros; e na crença de que todos nos esforçamos por um mundo melhor, cujos ideais seriam o amor, a paz e a sinceridade. Infelizmente, a vida ensina-nos que a ingenuidade é impraticável e coloca-nos em estado de alerta. Porquê? Porque as pessoas estão habituadas a pensar mais em si, do que no bem comum. Apesar de ser o arquétipo de um mundo idílico, na prática a ingenuidade é extremamente perigosa, pois desta advém uma grande oportunidade face a possíveis tiranos, traidores e manipuladores de consciências. O problema reside no facto de colocarmos a nossa liberdade de pensamento à disposição do poder estabelecido, já que por preguiça ou ingenuidade, não nos estaremos a questionar acerca de assuntos cruciais para a nossa existência. Por outro lado, se abandonarmos a ingenuidade e optarmos por exercer o espírito critico sobre as ideias dominantes e os poderes estabelecidos desenvolveremos as ferramentas necessárias para participar activamente na escolha das leis que deverão regular as nossas acções. Ao passo que da ingenuidade ... apenas podemos colher os inúmeros preconceitos que existem na sociedade.

    O preconceito é uma ideia pré-definida e não fundamentada, que por vezes leva a desentendimentos e arrufos entre pessoas. Não raras vezes conduzem ao racismo ou à xenofobia, visto que as pessoas preconceituosas acham que são superiores aos outros pelos quais têm preconceitos. Os preconceitos estão relacionados com os poderes estabelecidos e com a cultura popular. No imo
dos preconceitos, subsiste algum conhecimento e sabedoria herdada de geração em geração. Não obstante, essa mesma sabedoria revela-se normalmente ignorante, porque o senso comum critica sem fundamento, não apurando a verdade e vendo o mal ou o bem, onde estes possam não existir. Se não abandonarmos os preconceitos do senso comum, viveremos numa sociedade injusta, intolerante, autoritária e discriminante. Por analogia aos preconceitos que dominam a sabedoria popular, também as ideias dominantes e os poderes estabelecidos tentam submeter o Homem aos seus ideais acerca do mundo.

    Será o mundo apenas um aglomerado de terra? Não. O mundo é o nosso abrigo. O mundo é a nossa casa. É o único sítio onde temos oxigénio que nos permite viver e gravidade que nos permite caminhar. O mundo, espaço físico e social que nos proporciona os recursos que condicionam a actividade humana é o conjunto que nos permite evoluir e desenvolver. Caso o Homem não procurasse saber a significação do Mundo, o seu berço; nem o sentido de tudo o que deriva da história como caminho percorrido pelo Homem; nem da cultura que é o conjunto de transformações que o Homem fez nesse mesmo percurso; seria um ser exposto ao vazio repleto, provocado pela ignorância e desinteresse de todos aqueles ideais que construíram osalicerces da nossa civilização. Esta hipótese parece-nos impossível, ou pelo menos, dotada de uma dificuldade extrema, pois o ser humano é, por definição, um ser social, que se molda através da obtenção de conhecimentos, graças à partilha de informação com outras pessoas. O Ser humano apresenta-se como um ser social e racional, produto e produtor de cultura, que no nosso século é dominada por novas descobertas científicas, expansão das artes no geral e pelas burocracias impostas pelas políticas actuais. É na arte, ciência, politica, cultura e história, que o Homem encontra uma razão para a sua existência. Deste modo, atinge uma finalidade valorativa, capaz de o guiar para uma vida completa e realizada, com total noção e consciência de si próprio e das suas acções.

    Não devemos levar a cabo qualquer acção que possa prejudicar outrem. Mas o que acontece quando o fazemos? O que acontece quando prejudicamos alguém intencionalmente? Nessa altura a consciência entra em acção e reprime-nos, fazendo-nos reviver as nossas acções vezes sem conta, fustigando-nos com esses pensamentos. No entanto, por outro lado, quando levamos a cabo uma acção positiva, a consciência premeia-nos, transmitindo-nos sentimentos de bem-estar e realização pessoal. Quanto à intensidade das emoções que sentimos devido à consciência moral, variam muito, consoante a educação, e o meio sócio-cultural em que a pessoa está inserida. Mas o que aconteceria se nem sequer possuíssemos os meios para tomarmos consciência da nossa própria consciência?

    Um mundo sem consciência seria um mundo onde a justiça não poderia ser implementada. Qualquer pessoa seguiria os seus instintos, produto do que ainda resta de animal, dentro de nós e agiria de acordo com a sua disposição na altura. A consciência é, na verdade, se a considerarmos como racionalidade, a única característica que nos distingue de todos os outros animais. Os animais não racionais seguem aquilo que, geneticamente, está escrito. Um cão que morde uma pessoa por se sentir ameaçado, não tem a consciência do mal que fez e, dessa forma, terá ele realmente culpa do seu acto? A culpa torna-se um conceito sem sentido, se desprovido da consciência. Sem consciência, a responsabilidade não faz sentido, logo o ser humano não pode ser julgado por acções das quais não tem controlo.Tal como Sartre enunciou, "a nossa liberdade começa, onde acaba a liberdade do outro". É indispensável a elaboração de leis que assegurem a liberdade de cada um, já que esta tem de ser respeitada dentro dos seus limites, para que valores como a democracia e a justiça façam sentido. A liberdade, assim como a felicidade, são condições universais e obrigatórias à existência humana.

    Todos os Homens, quer consciente, quer inconscientemente, procuram e acreditam que estão relacionadas. A liberdade conduz à felicidade e esta é condição fundamental para o alcance da liberdade. Como animais que somos, procuramos sempre fugir ao sofrimento e atingir o máximo de prazer possível. Como humanos, procuramos não só fugir da dor física e procurar o prazer físico, como também fugimos da dor psicológica e procuramos atingir o prazer intelectual e espiritual . É fácil de entender que, embora alguns desistam de algum tipo de liberdade para poderem ser felizes, ninguém, nunca e em algum lugar, deixará de desejar ser livre, e portanto, nunca ninguém deixará de desejar a felicidade.

    É inegável que o fazemos. No entanto, enquanto percorremos o nosso caminho pela vida fora, por vezes parámos e pensámos que tudo seria mais fácil sem este desejo de uma vida aprazível e de uma felicidade crescente. Sem estas necessidades a vida tornar-se-ia muito menos dolorosa, pelo simples facto de que, uma vida sem expectativas, também é uma vida sem desilusões. Apesar de uma vida sem a perspectiva da felicidade e da liberdade ser aliciante, pela independência de expectativa, ela é incompatível com a natureza humana... porque todos desejamos ser felizes. Mas embora desejemos ser felizes e livres, essas são metas que raramente algum de nós, "simples mortais", atinge. A partir deste ponto de vista, o pensamento autónomo, que nos faz desejar algo tão inatingível como a felicidade e a liberdade é considerado um fardo. No entanto, sabemos que a felicidade e a liberdade são imperativos da razão e portanto abdicar delas não é um comportamento racional.

    Pensamos. O pensamento autónomo, aquele que sabemos vir de nós e para nós, liberta-nos dos determinismos e deixa-nos voar, conhecer novos horizontes. Permite-nos evoluir, viver em sociedade sem necessariamente nos subjugarmos às correntes das ideias dominantes e dos poderes estabelecidos. A razão emancipada, filosófica, possibilita maior compreensão do que nos rodeia e a partir daí podemos corrigir os erros do presente e preparar um futuro melhor.Podemos então concluir que o mundo deve ser regido por valores filosóficos que defendam a liberdade de pensamento, opinião e movimento; a boa convivência em comunidade;o respeito pelo local em que habitamos; a procura incessante pelo sentido da existência; o conhecimento do passado e do futuro; a responsabilização e justiça; e a natureza humana a que o homem se sujeita.

* por uma turma de alunos que não se rende às pseudo evidências e não desiste de pensar. Em nome de um ano que fez a diferença no mundo que vemos lá fora. (Isabel Maia)
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