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SABER
CIENTÍFICO E REFLEXÃO
FILOSÓFICA
Trabalho realizado para a
disciplina de Introdução
à Filosofia-11º
ano
por Ricardo Sá
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Introdução Hoje em dia, vivemos num mundo cada vez mais influenciado pela Ciência, sendo que esta se faz representar sob a forma de tecnologia. De facto, a tecnologia é não só um produto da Ciência, mas também um meio indispensável para que esta seja criada. Podemos, assim, distinguir dois mecanismos completamente distintos dentro da tecnologia: o de oferta (que nos oferece aquilo de útil que a Ciência produz e de que nós necessitamos) e, subjacente a este, está o de procura (ao oferecer maiores meios tecnológicos a tecnologia liberta as potencialidades criadoras, o que permite um aumento de cultura e a consequente criação de novos meios tecnológicos). Esta interferência da Ciência na nossa vida, é hoje mais forte do que nunca e tal pode ser facilmente verificado se tivermos em conta que mais de metade dos cientistas da nossa história estão hoje vivos. Se a isto juntarmos as descobertas científicas que foram feitas no último século, o facto de algumas delas terem tido consequências catastróficas sobre a humanidade e ainda que, mais recentemente, foi descodificado o genoma humano, podemos, de facto, começar a interrogar-nos sobre o papel da Ciência não só na nossa sociedade, mas também na nossa vida. Esta hipótese de questionarmos a Ciência, surge do facto de esta ser uma “fatia” ou parte integrante da vida humana e estar, desta forma, sujeita a problemas humanos (inclusivamente filosóficos) tal como qualquer outro sector da nossa existência. Surge então outra questão: fará o papel extremamente importante que a Ciência tem na nossa sociedade com que esta esteja acima de qualquer lei? Para além de qualquer limite? Mas o questionamento da ciência deve ir mais longe. Devemos tentar saber se o conhecimento Científico corresponde totalmente à realidade, isto é, se ele é objectivo. Este é, em princípio, o grande objectivo da Ciência: fazer uma correspondência total entre o conhecimento científico e a realidade. E é aqui que surge um novo questionamento da Ciência por parte da Filosofia: será que o cientista pode ser responsável por consequências que possam surgir do seu trabalho, quando este consiste apenas no estabelecimento de uma correspondência entre a ciência e a realidade? Este
trabalho
pretende, assim, questionar a Ciência
como um todo, o que inclui os seus limites, princípios, poderes
e responsabilidades, bem como o papel que ela tem na sociedade,
pelo
que nos parece ser de uma actualidade e de uma importância
muitíssimo
elevadas, pois hoje é quase, ou mesmo, impossível comprar
um jornal ou uma revista que não tenha uma notícia
relacionada
com avanços científicos feitos, nomeadamente, por novas
ciências
ou, então, com problemas éticos eternamente associados a
certas práticas, tais como a eutanásia ou o aborto e,
mais
recentemente, com a exploração espacial, a clonagem ou a
descodificação do genoma humano. Questionamento da cultura científico-tecnológica Como foi dito na Introdução, a Ciência tem, cada vez mais, um papel importante na nossa Sociedade. De facto este papel é tão central que, a maior parte das vezes, é a esta que a Sociedade recorre para tentar resolver todas as dificuldades que se lhe apresentam. Mas a confiança na Ciência, bem como a proximidade desta com a população, têm vindo a diminuir nos últimos tempos, nomeadamente nos últimos cinquenta anos. Podemos referir, a título de exemplo, o extremo entusiasmo e enorme confiança que a sociedade Americana dos anos cinquenta depositava na Ciência. A descoberta de uma Energia barata e que chegava a todos, a melhoria e banalização da utilização de utensílios domésticos, o aumento da esperança média de vida, a descoberta de produtos, como o DDT que, alegadamente, seriam capazes de modificar completamente a vida de toda a população mundial, transmitiram confiança a todos. Aquando do aparecimento da Energia Nuclear uma nova vaga de confiança atingiu a população que acreditava que, muito em breve, a sua utilização seria tão vulgar como a da Energia Eléctrica. Todavia esta situação viria a mudar. Curiosamente, os produtos que tinham sido criados com a clara intenção de melhorar a vida da população mundial vieram a ter repercussões incrivelmente negativas. Os insectos que, alegadamente, seriam mortos com os pesticidas tonaram-se resistentes a estes, levando, assim, à necessidade da criação de insecticidas ainda mais potentes com efeitos devastadores sobre a Natureza; a Energia Nuclear, incorrectamente manuseada, levou a vários acidentes, o mais famoso dos quais o de Tchernóbyl, com repercussões terríveis e que possivelmente serão muito difíceis, ou mesmo impossíveis, de apagar; as modernas técnicas de produção, não apoiadas por outras que tivessem como objectivo a defesa do meio ambiente, levaram a consequências terríveis, como aconteceu, por exemplo, na baía de Minamata. Estes são apenas exemplos de uma destruição em massa levada a cabo pela população de um mundo fortemente influenciado pela tecnociência. De facto, parece que esta sociedade não consegue conceber um meio de criar um mundo em que não haja buraco do ozono, destruição das florestas tropicais e criar um modo de se consciencializar a si própria que metade das florestas tropicais e um quinto das espécies humanas foram perdidas, quem sabe, para sempre. Na realidade, praticamente toda a face terrestre foi modificada pelo homem e não se encontra na sociedade Ocidental nada que se assemelhe (ainda que vagamente) ao respeito pela natureza que existia nas culturas tradicionais. Verifica-se que hoje apenas uma parte muito reduzida da sociedade se mostra atenta a estes problemas. Organizações como a Greenpeace surgiram da ameaça que foi apresentada à Natureza sob a forma de destruição. Todos os dias verificamos que há causas a defender e um equilíbrio Natural a manter, e que os esforços têm que vir de todos nós. Não podemos exigir que um grupo de jovens que passam uma noite a uma temperatura de seis graus negativos a manifestarem-se na Rússia contra os lixos tóxicos acabem com este problema. Não há qualquer instituição ou organização não governamental no mundo com poder suficiente para mudar o destino para o qual nos encaminhamos. Apenas um repensar profundo da nossa atitude pode salvar o mundo do descalabro total. São estes factores, entre outros, que conferem à Ciência um estatuto de ameaça que lhe é atribuído pelos mais descrentes. Mas, e segundo Frederico Mayor Zaragoza, o conhecimento é sempre positivo. Apenas a utilização que dele fazemos pode ter repercussões negativas. Podemos assim concluir que na nossa sociedade não há, nem nunca haverá, uma excessiva racionalidade. Apenas há uma deficiência desta e, por isto, o conhecimento que é obtido pela ciência é erradamente utilizado. Podemos ainda condenar a sociedade científico-tecnológica por tentar usar a ciência para reduzir o Universo a um conjunto de situações em que são aplicadas leis gerais e assim chegar ao que pode ser o maior desejo do Homem: o domínio. De verdade o mundo sem encanto ou mistério pode muito bem ser considerado um mundo dominado. Assim podemos considerar que o Homem tenta usurpar a realidade através do seu conhecimento. Podemos também questionar a cultura científico-tecnológica por outro ponto de vista. Como pode deixar-se ela influenciar pela Ciência que, cada vez, mais lhe é distante e desconhecida? De facto a Ciência é cada vez mais um conhecimento que está ao alcance de um grupo muito específico. As repercussões a que temos acesso representam apenas uma ínfima parte desta (tão ínfima que nem conseguimos perceber como funciona). Isto é, de facto, paradoxal, pois nunca a civilização humana esteve tão dependente da Ciência. Quem poderemos considerar como culpado por esta situação? A sociedade que não se interessa pela Ciência que é tão importante para si? A Ciência que se diferenciou do restante conhecimento e consequentemente da sociedade ao criar a sua própria linguagem e se especificou cada vez mais, aprofundando o seu estudo? Possivelmente as duas (Ciência e Sociedade) repartem as culpas entre si. Mas como poderá uma sociedade tentar resolver questões que muitas das vezes são levantadas por novas descobertas científicas que ela mostra desconhecer quase totalmente? Como poderemos ter como centro da nossa cultura a Ciência que não nos pode dar certezas absolutas e que, muito possivelmente, nunca chegará a uma certeza ou a um conhecimento absolutos?
Não nos
podemos esquecer que a Ciência
nos tem trazido imensas vantagens e que muitas das coisas a que temos
acesso
nos foram trazidos por ela. Sem ela seria impossível, por
exemplo,
entrar em comunicação (quase instantaneamente) com locais
situados no outro lado do mundo. Todavia a Ciência não
consegue
satisfazer todos os seus objectivos e, continuando com o exemplo
anterior,
os habitantes de cerca de seiscentos mil lugares do mundo têm de
percorrer trinta quilómetros até chegar a um sistema de
comunicações.
Ainda hoje vinte por cento da população concentra em si
oitenta
por cento da riqueza a nível mundial e a Ciência
não
consegue (e talvez não consiga nunca) mudar isto. Mas a
Ciência
tem como objectivo recolher dados. Não lhe cabe a ela passar
à
acção ou tentar mudar as situações que
possam
estar erradas no mundo. Esta parte cabe à técnica e a
cabe
a cada um de nós passar à pratica. O simples facto de
termos
conhecimento da existência de um fosso entre um mundo pobre e um
mundo rico faz com que sejamos responsáveis por isso ou, pelo
menos,
compactuantes com tal situação. A Ciência fez a sua
função: recolheu dados, concluiu que havia dois mundos
separados
e fez chegar esta informação até nós. Temos
agora de ser nós a mudar tal situação. Não
podemos, por isto, responsabilizar a Ciência pela
imperfeição
do mundo que, actualmente, gira á sua volta. Como temos vindo a referir, a técnica tem uma forte influência sobre a nossa vida, influência esta que cada vez mais é maior. Na Introdução, chegámos mesmo a questionar se a Ciência estaria sujeita a qualquer tipo de leis ou de limites. É à resposta a esta questão que pretendemos chegar nesta parte do trabalho e, no caso de a Ciência se encontrar limitada, devemos, então, tentar perceber quais são estes limites. Comecemos, então, por tentar perceber quais são as condições necessárias para que haja uma pesquisa científica. Em primeiro lugar tem de haver, como é claro, um sujeito que procede ao estudo e um objecto, ou fenómeno, que vai ser estudado. Outra das coisas essenciais para a pesquisa, é um meio que permita ao cientista relacionar-se com o objecto, papel que vai ser representado pela técnica. Também importante para as pesquisas científicas actuais, são os fundos com que os cientistas contam para as suas pesquisas. Todas estas condições estão também, por si mesmas, limitadas pela época que se vive e pelo paradigma científico dominante. Apresentámos, assim, até agora, dois condicionantes do progresso científico: um condicionamento directamente relacionado com a época em que se dá a investigação e outro relacionado pelas condições mínimas para que haja desenvolvimento científico. Comecemos por analisar os limites materiais. Facilmente podemos comprovar que qualquer desenvolvimento da ciência é hoje cada vez mais dispendioso. Um bom exemplo disto são os aceleradores de partículas: gigantescas estruturas que têm como finalidade descobrir ou comprovar certas propriedades de partículas. Estas estruturas são, como é fácil de imaginar, imensamente dispendiosas. Não há qualquer cientista que, por muita vontade que tenha, consiga desenvolver uma pesquisa relevante neste domínio sem o acesso a um destes aparelhos. Vemos aqui que a ciência é limitada pelo financiamento. Nenhum cientista pode, por si só, lançar-se no estudo que pretende, pelo menos neste estudo, pelo que são muitas das vezes as autoridades que, tendo como fim o desenvolvimento da ciência, patrocinam os estudos científicos. Mas os financiadores têm não só o mérito de apoiarem o desenvolvimento científico mas também o direito de escolher em que sentido em que este se deve processar. Aqui está presente mais um limite da Ciência: a orientação e o destino do financiamento. Nem sempre o cientista é livre para fazer progredir a ciência a seu gosto. Vejamos agora as condicionantes inerentes à técnica. Como foi referido na Introdução, a técnica não é só um produto da Ciência. A primazia dada à Ciência, ideia defendida pelo pensamento Grego, foi completamente posta de parte pelo conceito de tecnociência que veio dar a primazia à técnica. Assim temos uma Ciência que parte de uma manipulação activa da realidade e que depende inteiramente dos meios técnicos existentes disponíveis para o fazer. Actualmente temos um técnica que é, naturalmente, a mais avançada em toda a história humana. Mas muitas das coisas que há para descobrir ou testar (não todas) não o são por causa de uma clara escassez de tecnologia para tal. Surge então um novo limite da Ciência: o estado da tecnologia. Mas por vezes não são estes os motivos para um impedimento do avanço da Ciência. Vejamos, a título de exemplo, o caso de Galileu. Galileu não necessitou de qualquer tipo de financiamento para desenvolver o seu telescópio e, ao faze-lo, criou todos os meios necessários para conseguir por em questão o Geocentrismo. Todavia, por afirmar que era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário, foi acusado de heresia, por isto ir contra as sagradas escrituras e também contra as crenças profundamente incutidas na sociedade da época. O que fez então com que a teoria de Galileu fosse, numa primeira altura, recusada, foi o facto de ela não estar de acordo com o contexto social da época e de não se enquadrar no paradigma que era então dogmaticamente aceite. Deparamo-nos assim com outro limite da Ciência: a sua evolução é condicionada pelo contexto histórico-social e pelo paradigma aceite. Vamos agora fazer um pequeno retrocesso no tempo. Vamos voltar ao tempo em que os Americanos lançaram bombas em Nagasaqui e Hiroshima. Ou então ao tempo em que os Nazis fizeram experiências terríveis com os Judeus que capturaram durante a Segunda Grande Guerra. Podemos ainda percorrer uma série de acontecimentos dramáticos e marcantes que dificilmente serão esquecidos pela humanidade. Estes acontecimentos foram consequências ou tentativas de se chegar a um conhecimento científico. Ainda que nem todas as culpas possam ser atribuídas aos cientistas, estes não podem ser totalmente desresponsabilizados. Ainda que tenha sido a entidade financiadora a incentivadora e criadora de tais projectos, esta não pode suportar todas as culpas. Actualmente, e mais do que nunca, o cientista deve ter consciência das hipotéticas consequências que possam surgir das suas descobertas. Ainda que haja vozes discordantes e que acham que pedir aos cientistas que não revelem certos segredos ou inventos é, de facto, algo que os transcende, tal não coincide com a nossa opinião. Os próprios cientistas que se reuniram na América com o objectivo de criar a bomba nuclear admitiram que, aquando da realização de tais experiências, não tinham a menor ideia de quais poderiam ser as consequências que essa traria ao mundo, para além de não saberem quais os perigos a que eles próprios se sujeitavam quando se expunham às radiações. Os testes que eles realizaram (mais uma vez por ordem da organização responsável por aquele projecto) são igualmente condenáveis. A exposição de pessoas a radiações cujos efeitos eram então desconhecidos, demonstraram um total desrespeito pela sua própria espécie. Na verdade, o desenvolvimento alucinante que se verifica actualmente nas ciências faz com que um cientista não se possa nunca dissociar da sua parte humana. Devemos lembrar-nos que a vida Humana é demasiado preciosa para ser apreciada em termos de valor e, se ainda podemos hesitar em desperdiçar uma vida para salvar milhares de outras (apesar de tal já ter uma moralidade duvidosa), deveria ser excluída completamente da comunidade científica a hipótese de sacrificar uma vida para acabar com milhares de outras.
Seguidamente
apresentaremos o caso de alguns progressos
científicos que, ao surgirem, levantaram imediatamente problemas
de ordem ética.
A descodificação do genoma humano A descodificação do genoma humano pode não ser apenas o início de uma nova era na Ciência. Na realidade, especialistas que estiveram envolvidos neste processo confirmam que através dele poderemos descobrir as doenças para as quais mostramos maior tendência. A possibilidade de esta análise ser feita de forma vulgarizada, criaria, com certeza, grandes discriminações nomeadamente a nível das companhias de seguros que se poderiam recusar a fazer seguros a determinadas pessoas que mostrassem uma maior propensão para determinadas doenças. Apesar de se acreditar que a Natureza tem tendência a anular as desigualdades e certas características poderem apresentar uma face negativa (ser causadora de uma determinada doença) e uma outra positiva (defender de outras), não cremos que isso fosse levado em conta se um indivíduo tivesse tendência a ter uma doença mortal. Mas como em tudo (ou quase tudo que a ciência descobre) há pontos positivos. Um dos maiores males da nossa sociedade actual consiste na discriminação de indivíduos por outros que se consideram diferentes ou superiores a estes. Não é difícil fazer entender aos dois que o código genético é a base de todas as formas de vida e que nele se encontram registadas todas as características que levam à criação de um ser tal como ele é. Então, deverá também ser fácil de lhes explicar que os testes efectuados pela Celera Genomics (empresa responsável pela descodificação do genoma) mostram que não há informação diferente entre seres humanos de diferentes raças ou etnias. É impossível, inclusivamente, distinguir as etnias de diferentes indivíduos a partir da sua informação genética. Outra questão relativa a este tema está relacionada com a possibilidade ou não de se registar a patente do código genético. Em princípio não se poderá proceder ao registo desta patente, uma vez que o código não foi inventado mas sim descoberto. Por outro lado o Presidente dos Estados Unidos e o Primeiro Ministro inglês vieram já a público pedir para que a patente não fosse registada, uma vez que acham que este assunto é do domino público. Veremos se os interesses monetários falam mais alto ou se, pelo contrário, todos temos acesso aos nossos dados mais pessoais. O conhecimento de que se tem tendência para ter determinada doença, poderia, ainda, causar efeitos psicológicos devastadores em alguns indivíduos. É
ainda
importante referir que todos temos
direito à privacidade e o nosso código genético
não
deve ser descodificado sem a nossa autorização. A Clonagem é outro assunto que tem estado na ordem do dia. Tal não se verifica sem razão. A clonagem é a mais profunda alteração do estatuto humano desde que este se passou a deslocar verticalmente. A possibilidade de os seres se reproduzirem assuxuadamente esteve até agora reservada a certas espécies e o homem é o primeiro a chegar a este estado por meios não naturais. A ideia de se poder “produzir” um homem sem o recurso a dois gametas provenientes de indivíduos de sexos diferentes, pode chegar a apresentar-se como assustadora. Isto vem pôr em causa não só o nosso conceito de identidade, como o próprio conceito de Ser Humano. A hipótese de alguém exactamente igual a nós ser produzido abioticamente é, desde há muito, o ponto de partida para filmes de ficção científica. Por ironia do destino, a Ciência fez com que o homem se confronte com a hipótese de passar estas ideias à prática. Mas não são só cópias o que a clonagem permite fazer. A última aplicação hipotética da clonagem que se descobriu, foi a de produção de órgãos ou sistemas através do desenvolvimento de embriões e a sua remoção quando estes se começam a desenvolver, e desenvolve-los separadamente até que possam ser implantados em receptores compatíveis. Este processo seria um meio mais rápido e seguro de salvar pessoas que se vêm privadas de órgãos vitais e não só. No entanto, levantam-se problemas éticos em relação a esta posição. Na maioria dos países a investigação em embriões ou fetos é proibida, e, sem esta hipótese, não é possível desenvolver esta técnica. Será que a ética está a impedir o desenvolvimento da Ciência e, consequentemente, a salvação de muitas pessoas cuja única esperança está nela? Cremos
que a
clonagem, principalmente a humana, é
um assunto verdadeiramente complicado e sobre o qual deve haver uma
reflexão
profunda antes de qualquer atitude ser tomada.
O aborto é outro dos aspectos que faz erguer problemas éticos. A interrupção voluntária da gravidez, como também é conhecido, faz com que convicções de ordem religiosa e social sejam postas em causa. O facto de o acto de matar ser considerado um pecado pela religião Cristã (que tem uma forte influência na sociedade portuguesa), de o direito à vida vir explícito na Declaração Universal do Direitos Humanos e de o homicídio estar previsto no código penal, faz com que não tenhamos (moral ou juridicamente) o direito de matar, em qualquer situação, um Ser Humano. Todavia o que está em questão no aborto (em semelhança à clonagem) é o conceito de Ser Humano. A legislação que, em Portugal, foi sujeita a um referendo Nacional, apoiava-se no facto de que não se poderia considerar um embrião de dez semanas um Ser Humano. Desde o momento da concepção, um Ser tem uma informação genética semelhante à dos seus progenitores. Dizer que um embrião de dez semanas que se desenvolve de acordo com a informação genética que lhe foi fornecida não é um Ser Humano, é o mesmo que afirmar que os seus pais não lhe transmitiram informação genética que lhe permitisse ser um Ser Humano. Esta afirmação é claramente vazia de significado científico e, por isso, não pode ser considerada como um critério para a validade ou não do aborto. Outro argumento que, esse sim, nos pode parecer válido é o de, em certas situações, o aborto ser a única hipótese possível para impedir o desenvolvimento de um embrião ou feto e pôr fim a uma gravidez, evitando um nascimento indesejado que traria sérias consequências para o novo Ser. Por outro lado a liberalização do aborto faria com que qualquer pessoa pudesse recorrer ao aborto como um simples método anticoncepcional. Esta situação deve, segundo a ética, ser evitada. O aborto deve apenas ser aplicado em casos muito especiais tais como: malformação do feto, pais sem possibilidades de ordem psicológica para educar um filho e outras situações que criem um grau de dificuldade semelhante para um desenvolvimento saudável do novo indivíduo. Idealmente, o aborto nunca deveria acontecer porque, antes disso, deveriam ser aplicadas outras medidas, tais como a prevenção da gravidez ou planeamento familiar. O aborto
deve assim,
também, ser precedido
de uma profunda meditação (pois uma vez executado
não
pode ser anulado) e também utilizado como último recurso. Durante a Guerra Fria, e na ausência de mais espaço para conquistar na Terra, as duas potências mundiais viraram-se para a conquista do desconhecido e infinito Espaço. Depois dos muitos contributos que a Ciência deu à Guerra, seria agora a vez de esta retribuir. Os primeiros a fazerem um vôo tripulado ao espaço foram os Russos. Em retaliação, os Americanos apontaram todos os seus meios para vencerem a corrida pela conquista da Lua. Assim, em 1969, os Americanos cumpriram a sua intenção e fizeram uma alunagem. Foram precisas muitas experiências para que os americanos conseguissem alcançar este feito histórico. E muitas experiências implicam muitos fundos aplicados e muitas vidas perdidas, uma vez que nem todas as tentativas eram bem sucedidas. Enquanto a morte dos astronautas é de necessidade contestável, mas aceitável, uma vez que não só eles estão sujeitos a acidentes de trabalho (e com certeza as mortes de astronautas por acidentes de trabalho seriam mínimas quando comparadas com as mortes em trabalho de, por exemplo, funcionários da construção civil), já os fundos que foram gastos na exploração espacial levantam maiores questões. Como pode o homem ter pretensões a dominar o Espaço quando no seu planeta milhares de pessoas morrem de fome? Como pode o Homem investir as imensas quantidades de dinheiro que investe na exploração espacial quando uma grande parte da população mundial vive no limiar da pobreza? Conforme
atrás referimos, é muitas
vezes necessário ter aspirações a feitos enormes e
longinquos para se conseguirem pequenos avanços
cientifícos.
No entanto, será legitimo que se gastem estas
incumensuráveis
quantias na tentativa de descobertas que, aparentemente, ou de uma
forma
imediata, não vão ter reprecursões na nossa vida,
e não se invista de forma definitiva em pesquisas para se
alcançar
a cura de doenças que vitimam milhões? De facto, experiências anteriores com consequências catastróficas fizeram com que o cientista ficasse cada vez mais consciente do seu papel na Sociedade, e das manifestações positivas e negativas que ele pode ter. O desenvolvimento constante das novas ciências e os conhecimentos actuais vieram alargar ainda mais o poder e a primazia dados à Ciência. O Homem considera, hoje, que o seu habitat natural é um Mundo alterado pelas suas descobertas e pelas transformações que nele operou. É cada vez mais difícil para o Homem conseguir conceber a Vida sem tecnologia e sem uma Ciência que consegue resolver a maior parte dos problemas com que ele se insurge. Podemos, assim, dizer que para o Bem o para o Mal estamos irremediavelmente mergulhados numa cultura cientifico-tecnológica que, por um lado, tenta apreender o conhecimento que lhe é dado pelo Mundo e, por outro, o usa para o alterar (ou destruir, dependendo do ponto de vista). Se bem que não possamos duvidar que o cientista tem como alvo, ainda que inconsciente, a construção do Paraíso, excepções haverá, em que, por exemplo, um regime político se sobrepõe aos interesses científicos, fazendo com que o conhecimento que daí provem não seja o verdadeiro conhecimento científico, mas apenas uma concretização das ideologias políticas convertidas em tecnologia. Apesar de podermos
ter diferentes pontos de vista
sobre a utilidade ou a validade da Ciência, não podemos
discordar
que ela é um aspecto central da nossa sociedade, que muito tem
beneficiado
com ela. Bibliografia
http://www.madinfo.pt/filosofia/filo.htm http://www.terravista.pt/AguaAlto/2158/Lenoir.htm http://www.byweb.pt/genoma/ BRONOWSKI, J. (1992) A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos, Introdução, Organização, Notas e Tradução A.M.Nunes dos Santos, C.Auretta e J.L.Câmara Leme, 1ª Edição-Lisboa: D. Quixote, pp. 29-116 POPPER, Karl. (1987) O Realismo e o Objectivo da Ciência, Tradução Nuno Ferreira de Faria – Lisboa: Publicações D. Quixote, pp. 25-55 HENRIQUES, Frederigo (1978) O Pensamento Científico, Tradução e Prefácio de V. de Magalhães Godinho. 3ª Edição – Lisboa: Inquérito, pp. 116-16
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SABER CIENTÍFICO E REFLEXÃO FILOSÓFICA
Trabalho realizado para a disciplina de Introdução
à Filosofia-11º ano
por Tiago Ribeiro
Introdução Este
trabalho de
pesquisa, cujo tema é “Saber
Científico e Reflexão Filosófica”, tem o objectivo
de explicar um pouco como a tecnociência interfere nas nossas
vidas
e de que modo esta poderá ser prejudicial. Questionamento da
cultura
científico - tecnológica A
ciência é normalmente concebida
como o que permite que progredamos pelo facto de descobrir
continuamente
os mistérios da natureza que nos leva para além do nosso
estádio de conhecimento. Todavia, a ciência resulta de um
trabalho da sociedade em geral e de um esforço mais
específico.
A ciência é, assim, uma prática social, ou seja,
faz
parte da vida humana e não se limita às fronteiras
consideradas
por muitos. Naturalmente, há críticos que não concordaram com esta posição da ciência e consideram mesmo que a filosofia é estéril, pois continuamente levanta sempre os mesmos problemas e põe em causa todas as respostas. Esta ideia é visivelmente antagónica à forma como é vista a ciência: repleta de rigor, objectividade e possuidora de um progresso invejável. Logo, também é natural que hajam opiniões desta natureza. Mas, voltando à ideia atrás referida, como podemos distinguir o que é filosófico do que é científico?A demarcação entre Ciência e Filosofia De facto, é necessária uma demarcação entre Ciência e Filosofia. Para isso foram criados alguns critérios para demarcar o que realmente é científico.
Assim, a
primeira demarcação
é a refutabilidade, isto é, um sistema teórico
só
é científico se for refutável (testável). O
facto de o que é científico ser testável
não
significa que seja verificável, no entanto, a
verificação
empírica não consegue demarcar o científico do
filosófico.
Desta forma, este critério torna-se limitativo, pois não
consegue, de facto, delimitar a Ciência e a Filosofia.. Por esta
razão, surge um critério delimitativo que é a
aplicabilidade
técnica do conhecimento científico, tornando-se este cada
vez mais útil a nível teórico na medida em que
produz
novos conhecimentos que aproximam a humanidade da verdade. Por outro
lado,
a ciência é útil a nível prático,
isto
é, na capacidade de modificar o meio, intervindo nele e
transformando-o.
De facto, são estas as finalidades da ciência e esta
é
preferida precisamente pela sua aplicabilidade prática, mas “A
ciência
é bem sucedida na pratica precisamente porque é bem
sucedida
na teoria”(1).
Podemos, desta forma, concluir que há uma relação dialéctica entre ciência e técnica. A inseparabilidade entre ciência e técnica A
ciência possui um estatuto muito próprio,
todavia está inteiramente ligada à técnica, que
pode
ser considerada como a dimensão prática do conhecimento
científico.
Todavia, não é só a ciência que permite a
realização
da técnica, muito pelo contrário, os sistemas
tecnológicos
amplificam a problematicidade e a investigação da
ciência,
o que permite desenvolvê-la. Para além deste elemento cultural (o conhecimento científico) existe outro presente na técnica: os valores morais, a ética. Apesar de todas as suas virtudes, a técnica não traz só benefícios, assomando, aqui, as duas faces da técnica: - a técnica que permite a difusão da cultura que facilita o quotidiano de todos nós, esta é a face da técnica que permite o conhecimento; esta é a técnica que edifica alojamentos dignos do homem: a técnica que produz instrumentos que tornam a nossa vida mais tranquila e acomodada. - a outra face da técnica é-nos alertada pelos críticos para que vejamos as suas consequências. Por exemplo, a última “vantagem” referida no ítem acima pode ser o início do fim do desenvolvimento de grande parte da humanidade que tem toda a sua vida facilitada. De facto, “A técnica torna-se uma parte da nossa vida. Vivemos totalmente de modo técnico.”(2) Justamente por este e outros motivos é necessário responsabilizar apenas o Homem pelas intervenções técnicas. O Homem não pode realizar tudo o que a técnica permite, tem de pensar na humanidade.
Há, assim, que questionar os riscos
da técnica e consequentemente do conhecimento científico. A
ciência, ao longo do século
XX tem sido vista como a solução de quase todos os
problemas.
Todavia, esta crença nas potencialidades da ciência tem
vindo
a enfraquecer e esta é vista por muitos como a
destruição
da harmonia entre o Homem e a Natureza. Para alguns a ciência
é
vista como a contribuição para o desmoronamento “(...)
dos
saberes, das tradições, das experiências mais
enraizadas
da memória cultural: não é este ou aquele
resultado
negativo do progresso científico, mas o próprio
“espírito
científico” que é acusado.”(3) A Técnica Pode
parecer
um pouco absurdo, mas a técnica
pode constituir um limite para a ciência. Limites materiais e ideológicos -Materiais: constituem um limite na medida em que o financiamento para as investigações científicas e para os investimentos técnicos pode ser limitado impedindo estes planos. Por outro lado, este financiamento é também dirigido, isto é, está estipulado o que vai ser estudado e investido, limitando a liberdade da ciência e do cientista. -Ideológicos: o contexto hist&oacutte;rico é muito importante para uma aceitação de algo de natureza científica. Por exemplo, Galileu defendia o heliocentrismo, todavia esta teoria não foi bem aceite pela sociedade que estava “habituada” a um modelo diferente relativamente ao lugar ocupado pela Terra no Universo (vigorando, na altura, o geocentrismo). Também o paradigma dominante é importante e vem de encontro do que foi dito acerca da oposição Geocentrismo/Heliocentrismo; pois não se pode mudar um paradigma repentinamente, pelo facto de o paradigma não ser só um conjunto de teorias mas também de métodos, crenças e valores partilhados por uma comunidade.Assim, o contexto histórico e o paradigma dominante constituem um limite para a ciência. A Ética Actualmente
questiona-se todo o progresso no
mundo da técnica, no domínio da medicina (que permite
combater
e pôr fim a doenças mortais anteriormente
incuráveis)
é benéfico ou maléfico. É aqui que surge a
preocupação ética e moral que se traduz em debates
acerca de vários temas humanos: a eutanásia, o aborto, a
clonagem humana, a pena de morte, etc. Desta forma a dimensão
ética
e moral é imprescindível, pois o ser humano rege-se por
critérios
que lhe servem de orientação para todas as suas
decisões. A EUTANÁSIA A
eutanásia consiste em provocar a morte
a um doente que se encontra em estado terminal e sem qualquer
esperança
de cura. Naturalmente, há defensores e opositores.
Os defensores acham que o doente, tendo a consciência da situação em que se encontra e pedindo o termo à sua vida, deve merecer uma morte digna e sem dor. Os defensores acreditam na eutanásia como o meio que põe termo ao sofrimento dos doentes terminais. Os opositores, defensores da vida, acreditam sempre num último meio para salvar a vida do doente. Defendem a vida até ao fim. O ABORTO O
aborto
(voluntário) consiste na interrupção
da gravidez. Existem os defensores que acham que este deve ser livre,
gratuito
e só depende da livre decisão da mãe. Os que
são
contra à interrupção voluntária da gravidez
consideram que se trata de um crime contra uma vítima inocente.
É óbvio que este assunto envolve valores éticos e
morais, daí existirem posições contra e a favor. a.1) “Questionemo-nos sobre
a
razão de, em Portugal, um grande
número de mulheres recorrer a clínicas clandestinas
(muitas
das quais sem as mínimas condições) para abortar,
causando-lhes graves lesões e por vezes a morte, bem como o
impedimento
nalguns casos da mulher poder voltar a engravidar. Sabemos que o
sofrimento
físico e psicológico por que passam; Sabemos o desespero
e a humilhação com que são marcadas para o resto
da
vida. Questionemo-nos porque é a despenalização ainda posta nestes termos, e não como o direito inquestionável que cada ser humano deve ter para decidir livremente sobre o seu corpo e sobre o seu vida. Pelo SIM à liberdade de escolha,Pelo SIM à qualidade de vida, SIM à Despenalização!”(4) a.2) “No início do mês de Março foi lançada em Lisboa, coma participação de pessoas dos mais variadas quadrantes, um movimento - Tolerância - que se destina a denunciar a falta de vontade política para resolver um problema que, neste país, e 24 anos depois de 25 de abril de 1974, continua a ser escomateado. Chamemos as coisas
pelos
nomes:
b ) Campanhas contra a despenalização do aborto1- a hipocrisia dos que sabem que estamos perante um problema de saúde pública, como o provam os 11 mil casos anuais de entradas nos hospitais , por sequelas de abortos praticados sem condições, mas que teimam em ignorar, em fechar os olhos à realidade. 2- a violência que representa para qualquer mulher sentir que está a ser incriminada, que tem de recorrer a uma rede clandestina, que tem de colaborar com um negócio por demais.”(4) Segundo a lei portuguesa
“(...) a vida
humana mesmo incipiente, é
um bem, e a grávida não pode dispor desse bem, que
não
seu”(5)
Esta
posição também pode
suscitar algumas objecções. Neste campo a ética
abrange
o período pré-natal e também o período
pós-nascimento.
Mas, como será a vida de uma criança indesejada, ou
criada
com dificuldades económicas? Os defensores da não
liberalização
do aborto têm de considerar que a ética não pode
acabar
“à saída do útero materno”! A clonagem em humanos é um tema que tem sido muito falado quer pelas suas vantagens, quer pelas suas desvantagens. Ao surgir a clonagem nos mamíferos suscitou a questão em relação à clonagem em humanos para fins medicinais. De facto, a clonagem de humanos pode ser muito benéfica na medida em que permite curar doenças como o cancro. Todavia, esta técnica supõe em colocar em clone num útero materno adoptivo e, posteriormente, provocar um aborto para se extrair alguns órgãos que permitiriam curar certas doenças. Realmente, comestes métodos curar-se-iam muitas doenças e permitir-se-ia melhorar a qualidade de vida de muita gente (com a substituição de órgãos em mau funcionamento). O que é necessário é não deixar que a clonagem em humanos vá longe demais, isto é, que se façam clones iguais a nós mesmos, pois a individualidade é uma das coisas mais preciosas que temos. A questão da clonagem suscita muitas objecções de origem ática e moral. Talvez sejam necessárias discussões acerca deste assunto, fazer um balanço de vantagens e desvantagens e talvez encontrar técnicas alternativas de fazer clonagem sem ser pelo método atrás referido. OS CIENTISTAS PERANTE A ÉTICA Vamos agora ver como alguns cientistas vêm a ética no mundo da ciência: Carl Sagan (Planetólogo): “A ciência passa por subversiva, por um mal necessário que é preciso controlar cuidadosamente. Os frutos tecnológicos da ciência são quase sempre propriedade primeira e exclusiva de quem detém o poder, de quem financiou e ajudou a investigação.(...). Se desejarmos a continuar a beneficiar dos frutos da ciência, precisamos de aprender a aplicar os seus métodos, com uma disciplina muito maior, a todos os desafios com que somos confrontados.”(7) Stephen Jay Gould (Paleontologista): “Estou convencido de que toda a actividade humana deve ser guiada e limitada por uma ética, pois nenhum imperativo é mais influente ou mais universal que uma conduta moral adequada (ainda que seja muito difícil este conceito definir ou de se compreender o seu conteúdo).”(7) Vataly Goldanski (Físico): “A ética da ciência e a ligação entre moral e ciência são assuntos que preocupam muitos espíritos. Com efeito, a força da ciência aumentou enormemente e a espécie humana depende da utilização que dela se faz: para o bem e para o mal.(...). Durante muito tempo, o nosso país utilizou o “slogan”: “Não podemos esperar que a natureza nos conceda os seus dons. A nossa tarefa é arrancar-lhos.”(...). O seu fim residiria na procura de uma harmonia máxima entre o homem e a natureza.”(7) Jacques - Yves Cousteau (Oceanógrafo): “Podemos interrogar-nos sobre se a ciência - que está na origem do conhecimento e portanto, em princípio, do progresso moral - deverá intervir directamente, com risco de se perverter devido ao contacto com interesses particulares. (...). No que diz respeito à boa convivência da ciência com os valores morais - e não apenas com uma ética de circunstância -, também aí a confusão surge entre ciência e tecnologia. A ciência limita-se a conhecer e não tem nada a ver com a ética. Em contrapartida, a tecnologia, a informação primária ou enganadora, fornecida pelos “media” e pelos interesses nacionais ou públicos, constituem uma aliança contra a natureza que deveria ser urgentemente subordinada a valores éticas.”(7) A Objectividade
Científica
Para além de todas as objecções que se têm colocado à ciência coloca-se as seguintes questões: a ciência é tão objectiva como afirma? Mas se o sujeito interfere no objecto as descrições científicas poderão ser 100% objectivas? As descrições científicas corresponderão à realidade? Há dois tipos de resposta: - Uma que responde afirmativamente e crê que os enunciados não incidem sobre os homens, sobre as suas capacidades, mas sobre as próprias coisas. Esta resposta corresponde a uma a uma objectividade forte da ciência que conduz à noção de ciência neutra e à desresponsabilização do investigador.
- Há outra
que responde negativamente, ou melhor, não tão
afirmativamente
como a outra perspectiva. A ciência com objectividade fraca
defende
que um enunciado é objectivo porque é para qualquer ser
humano,
faz-se intervir a noção de ser humano. Esta
objectividade,
mais correctamente, intersubjectividade (diferente de subjectividade)
implica
um sujeito totalmente ligado à realidade. É
agora altura de fazer uma reflexão
acerca do toda esta
situação. É verdade que já foram feitas
algumas
“divagações” mas podemos um pouco mais acerca deste tema.
1: REIS, Alfredo e PISSARRA, Mário (Agosto de 2000), Rumos da Filosofia - 11º ano, Lisboa, Edições Rumo, pp 285-299. 2: KIRSCHNER, Ulrich (1976), O Homem e o Seu Mundo, tradução de Maria Elisa Marques Silva (volume 7: “A Técnica”), Barcelona, Círculo de Leitores 3:Sites da Internet: 4: Arquivos do jornal “Público” de 5/2/97 e do
jornal “O
Independente”
de 7/2/97 NOTAS
|
Poder Científico e
Reflexão Filosófica
Trabalho realizado para a disciplina de Introdução
à Filosofia-11ºano, por
Miguel Breda
| Introdução
1-A Ciência como proposta de sentido 1.1-História e valor da Ciência 1.2-As várias áreas da ciência 1.3-Problemática Ciência/Religião 1.3.1-Origem do universo 1.3.2-A origem do ser vivo 2-Ciência e Sociedade 2.1-Relação entre a Ciência e a Sociedade 2.2-Grandes Desafios da Humanidade 3-Ciência e Ética Conclusão Bibliografia Desde
o
século XVII até aos
dias de hoje, a ciência e a técnica progrediram
avassaladoramente.
Nos últimos anos, a tecnologia tornou-se acessível
praticamente
a toda a gente e o horizonte de possibilidades do homem cresceu
explosivamente.
A nossa sociedade está profundamente marcada pela tecnociência. Basta ligar o rádio, abrir um jornal, viajar num avião, ou até mesmo navegar na internet, para termos presente o vastíssimo domínio da tecnociência. O termo técnica é recente, praticamente só apareceu no século XIX. Anteriormente, era mais comum a palavra arte, que significava o exercício de um ofício. Actualmente, o termo técnica significa “ um conjunto de regras ou instrumentos aptos a dirigir ou executar eficazmente uma actividade”. A finalidade da técnica é o domínio sobre as coisas, cada vez mais acrescido. Por isso, a técnica é uma força determinante. A
ciência e a
técnica estiveram sempre
em interacção, resultando um desenvolvimento
mútuo.
A ciência, utilizando-se da técnica, ocupa-se hoje de
fenómenos
que não são acessíveis à experiência
natural e, por isso, não é possível separar a
ciência
da técnica, porque toda a ciência é uma
tecnociência. A segunda
parte
reflectirá sobre os grandes
desafios e problemas que a ciência enfrentará muito
brevemente,
finalizando o trabalho com um capítulo dedicado à
responsabilidade
do cientista. “Eles
não sabem que o sonho
é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, (...) Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha O mundo pula e avança como bola colorida entre as mão de uma criança.”
Nesta
unidade, será feita a apresentação
da ciência aos leitores. Numa primeira fase, relatar-se-ão
, muito brevemente, os factos históricos da ciência, dando
especial destaque à Antiguidade Clássica, explicando
depois,
porque pode a ciência constituir uma unidade de sentido para o
homem.
Seguidamente, serão reveladas a grande diversidade de áreas abrangidas pela ciência. No fecho desta grande unidade, será suscitado no leitor um pouco de reflexão sobre a problemática ciência/religião. 1.1 -História e valor da ciência Recorrendo ao latim, ciência (scire) significa conhecer. Na verdade, a ciência defende uma forma de conhecimento que não é vulgar. É um conhecimento criticamente fundamentado, que resulta de uma intensa indagação racional. Há muitos séculos atrás, mais precisamente no séc. VII a.C., a ciência não se distinguia da filosofia. Aliás, quando em Mileto, Tales considerado o primeiro filósofo jónio introduziu uma forma de pensar totalmente diferente, não fazia a mínima ideia da nova fase da história da humanidade que estava a demarcar. Deste modo, devido à difícil distinção entre filosofia e ciência, falar do nascimento de uma assemelha-se a falar da génese da outra. Nem se deve sequer entrar em conflito por causa deste pormenor, deve-se , isso sim, estudar e venerar o maravilhoso processo da passagem do mito à razão que se caracterizou por ser complexo e lento. Facto que é fácil de entender, uma vez que estamos perante uma época cujo pensamento estava imbuído de misticismos, mantidos pela tradição oral, cravados de muitos subjectivismos, não apelando ao sentido crítico do humano. Foi neste ambiente que os primeiros “cientistas” gregos, desprovidos de quaisquer instrumentos, com excepção da razão, demonstraram uma enorme vontade em querer quebrar a tradição, tentando dar respostas a perguntas sobre a unidade e multiplicidade, do devir, da realidade e da aparência. Apesar deste louvável e enorme esforço, nas suas respostas iriam também estar presentes elementos míticos. Assim, tal como defendeu F. Châtelet, estes últimos aspectos constituíram as continuidades entre o pensamento mítico e o pensamento racional « tudo se passa como se a filosofia, ao mesmo tempo que consegue delimitar, cada vez melhor a originalidade do seu campo discursivo, repetisse, integrando-as, atitudes muito antigas». Assim sendo, numa primeira fase – o Período Cosmológico -, os filósofos pretenderam encontrar a ordem no caos, de modo a possibilitar o conhecimento humano. Nesse sentido, Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Heraclito intensificaram os seus estudos de forma a poderem encontrar o arché ( substância/ matéria de onde todas as coisas provêm); passando pela água , pelo indeterminado, pelo ar e pelo fogo. Mais tarde, Parménides, ainda dentro deste período filosófico, operou uma distinção entre o mundo real e o mundo aparente, referindo ainda que só existia a possibilidade de conhecer o ser. Cometia um erro tremendo se continuasse a minha brevíssima incursão pela história da ciência sem fazer uma referência a Pitágoras, filósofo e matemático muito importante. Durante a sua vida acreditou ser possível numerar todas as coisas, ou seja, traduzir os objectos para linguagem matemática; e também acabou por construir um dos mais importantes teoremas da matemática – O teorema de Pitágoras - . Mais tarde, após a viragem antropológica efectuada pelos Sofistas, surgiu Sócrates, importantíssimo filósofo grego. Grécia necessitava de um “indisciplinador” metódico. Essa função foi ocupada de livre vontade por Sócrates, uma vez que através do seu método conseguia provar às pessoas que nada era óbvio, não se deveria ter a certeza de nada, prova disso é a sua famosa afirmação : « Só sei que nada sei». Na
verdade, foi
através de Sócrates
que se consolidou definitivamente na Grécia o modelo racional. Mais
tarde, no
séc.XVIII, séc. das
Luzes, surgiu Isaac Newton, desenvolvendo e impulsionando a
Física,
através das suas leis. No meu
ponto de
vista, a ciência dá sentido
à existência humana! Antes de mais, para explicitar a
minha
posição, convém explicar claramente o que entendo
por ciência. Ela equipara-se a uma força em
constante
expansão que ,para além de ser caracterizada por uma
objectividade
indispensável, é ,também, um mundo de beleza
comparável
à poesia, pois, tal como ela, o conhecimento científico
brota
da imaginação humana.
Nos últimos 150 anos, a ciência converteu-se num factor importante e determinante do nosso globo. Trata-se de um assunto de elevado interesse que não deve ser aprisionado no laboratório, deve, isso sim, libertar-se para todos os humanos que tenham curiosidade em compreender as magníficas leis que regem o nosso universo. Aliás, tal como qualquer outra forma de conhecimento, a ciência procura integrar o homem no mundo, percorrendo um caminho totalmente diferente. Desde os primórdios da humanidade, o ser humano sentiu necessidade de se expandir e conhecer o ambiente que o rodeia. Naturalmente, ao pretender conhecer, revela a intenção da procura da verdade, devendo , para isso, libertar a sua alma de preconceitos, embora seja muito difícil. No entanto, quer acreditemos ou não na ciência, devemos tentar alcançar a verdade, mesmo sabendo que ela é inalcançável. Assim sendo, ao recorrermos à ciência conseguimos adquirir um conhecimento de tal maneira poderoso que passamos a ter um maior grau de intelegibilidade dos fenómenos naturais e sociais; um maior grau de conforto, de segurança/insegurança (pois ,por vezes, o ser humano perde o controlo das suas invenções); um maior grau de controlo sobre as forças contrárias à existência humana e, por fim, e em último caso, maior grau de desenvolvimento da inteligência humana. Deste modo, o conhecimento científico é metodologicamente sustentado, baseando-se em conhecimentos e teorias prévias, que se reajustam e adequam a novas realidades. A ciência é ,pois, uma forma de conhecimento onde a verdade é biodegradável. Por
todas estas
razões, acreditar no poder
cientifíco equipara-se a uma crença nas potencialidades
humanas,
isto é, uma confiança enorme nas nossas
capacidades,
tornando-se o Homem um ser omnipotente. Consequentemente, as pessoas
que
assim pensam, encontram um perfeito refúgio na ciência,
que,
para além de ser parte integrante do humano, é a sua
expansão.
Tal como o pensamento humano, a ciência estará em
constante
mudança, tornando-se as certezas em incertezas e as verdades
irrefutáveis
em contradições. Esta característica da
ciência
é muito importante, pois o que lhe dá valor, e
também
alento a quem a estuda, é o facto de se auto-corrigir, de se
reajustar,
aos novos factos e descobertas. De facto, este aspecto é de tal
ordem importante que origina uma ciência em contínuo
movimento,
em contínua mudança, permitindo que reine a actualidade
no
seio da comunidade científica.
Por tudo isto, considero que a ciência, mais do que qualquer outra forma de conhecimento, confere sentido, equiparando-se a uma estrada que nós, humanos, podemos percorrer, entrando e saindo quando quisermos. Todavia, é urgente deixar um aviso aos condutores: - O caminho é longo! É impossível saber quanto combustível vão gastar. Devem, isso sim, focar as vossas atenções no magnífico percurso que vão efectuar. « O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.» (1 )
Ao
contrário da filosofia, a ciência
efectua uma redução temática, uma vez que
só
uma parcela da realidade constituí o seu objecto. Para esse
objecto
ser estudado é utilizado um método específico,
contudo
a ciência efectua uma abstracção
metodológica
porque tudo aquilo que escapa a esse método é colocado de
lado.
Desde há muitos anos, o que se tem verificado é uma crescente fragmentação da realidade, de modo a facilitar o seu estudo. Este facto levou também à crescente divisão da ciência e sua especialização. Caso este fenómeno se torne cada vez mais radical, corre-se sérios riscos, já que esta posição não é a mais correcta , pois o cientista deve ter interesse não só pela área que estuda, mas também pelas outras, com vista a adquirir conhecimentos para se auto-emancipar, caso contrário será um “ignorante especializado”. Na
verdade, apesar
desta especialização,
as ciências mantêm uma relação entre si,
sendo
possível distingui-las. As
ciências
formais são constituídas
por enunciados analíticos cuja verdade depende apenas da sua
estrutura
lógica ou do significado dos seus termos. As
ciências
factuais são constituídas por enunciados provenientes da
razão e da experiência e, por isso, a sua verdade depende
não só da razão, mas também dos factos ou
da
experiência a que se refere.
Outra divisão possível é a classificação aristotélica das ciências. Aristóteles ao classificar as ciências teve como critério, não o objecto, mas sim a sua finalidade: 1.3- Problemática Ciência/Religião Quando um
ser nasce,
logo que começa a ter
consciência daquilo que o rodeia, coloca variadas
questões.
Contudo, existe uma questão que se caracteriza por ser mais
profunda
e de difícil resposta – a existencial . A
relação mantida entre a ciência
e a religião, ao longo da história, sofreu várias
oscilações. Porém, segundo o Concílio
Vaticano
I, a Ciência e a Fé devem ajudar-se mutuamente, não
devendo a religião opôr-se à
investigação
científica. Posição
da Ciência Muitos
físicos acreditam ainda que o Universo
se encontra em expansão, mas vai chegar a um instante em que vai
haver uma regressão, isto é, depois de toda a
expansão,
todas as partículas vão regredir para o ponto inicial
ínfimo. Assim,
podemos
concluir que todas estas situações
nos demostram que esta teoria é uma cadeia de causas e efeitos
sem
princípio. Todavia, ficam ainda outras questões no ar: Posição da
Religião Porém, tal posição parece ser muito incompleta. Qualquer ser humano, penso eu, questiona e interpela. Fazendo este exercício poderá chegar à conclusão de que esta posição é redutora, pois falta algum fundamento. Não se pode partir de tais pressupostos para construir a teoria da criação do Universo... Creio eu.Como podem as pessoas crer nesta posição sem problematizar? « Não acredito
em Deus
porque
nunca o vi
Alberto
Caeiro
A
posição da ciência
relativamente a este aspecto, remete-nos para 4000 milhares de anos
atrás,
já depois do sistema solar estar relativamente definido.
Primeiramente, devido aos gases e vapores libertados pelas superfícies internas da terra, começou a formar-se uma atmosfera. O modelo que explica a constituição da atmosfera variou muito ao longo dos anos, contudo o Modelo actual, é o que goza maior aceitação junto da comunidade cientifica. Assim sendo, a atmosfera era composta por óxidos de carbono, vapor de água, azoto, metano e amoníaco. Segundo a hipótese heterotrófica, a partir desta atmosfera, conjuntamente com as radiações ultravioleta, bem como o calor proveniente da Terra e descargas eléctricas, foi possível, reagindo entre si, formar os primeiros compostos orgânicos. Por sua vez, estes compostos sofriam polimerizações, originando os primeiros seres vivos. A ciência conseguiu explicar só o decorrer dos acontecimentos mas não as suas causas. Por isso fica esta pergunta no ar: porque existimos?; Como se explica o surgimento de uma espécie humana onde todos os constituintes se interligam perfeitamente?; Sabendo hoje que a probabilidade de surgir a primeira célula viva é de 1/101000, não podemos dizer que tudo isto é um verdadeiro milagre, e remeter este fenómeno para a alçada de um Deus? Por outro lado, a religião tem outra posição relativamente a este assunto. Segundo a Bíblia, «o Senhor Deus plantou um jardim(...)e nele colocou o homem que havia formado.(...) O Senhor
disse:”Não é conveniente que
o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a
ele.”(...) Em suma, através desta pequena reflexão pretendi demonstrar que não devemos ter certezas de nada, devemos, isso sim, questionar e duvidar para, de forma metódica, tentar alcançar a verdade. 2.1- Relação entre
a Ciência e a Sociedade Se
tivéssemos de caracterizar a cultura
e sociedade ocidentais do século XX, poderíamos deitar
mão
de muitas expressões já consagradas: sociedade
capitalista,
sociedade industrializada, sociedade de consumo, sociedade
tecnológica
ou até sociedade automatizada. Há ,no entanto, uma
cultura
que predomina – a cultura científico-tecnológica. Ela
é
de tal ordem poderosa e omnipresente que acaba por estar connosco desde
o acordar até ao deitar.
A tecnociência, construída por um determinado tipo de sociedade, está de tal forma interligada com ela que só faz sentido em relação a essa mesma sociedade. Desta forma, se as inovações tecnológicas e científicas ,erigidas por um determinado tipo de sociedade, forem adoptados por uma sociedade totalmente distinta, quer em objectivos futuros ou, mais importante, na sua utilização para alavancar um processo de desenvolvimento rápido no contexto social, não faz qualquer sentido. Por exemplo: não faz qualquer sentido tentar implantar em África uma cultura computacional e informática, quando existem crianças a morrer por falta de alimentos. Penso que através desta exemplificação, ficou bem claro que a ciência e a sociedade andam de mãos dadas, mas , mais do que isso, cada sociedade adopta ou acolhe a tecnociência que lhe vai permitir responder às primeiras necessidades. Com efeito, nestas últimas décadas , verificámos que a ciência conquistou um poder, de tal ordem grande que para além da influência nos meios culturais, económico e social, tem ,também, no seio de todas as decisões – o meio político . Ora, é aqui que o maior problema poderá residir, uma vez que nas sociedades mais desenvolvidas, todas as áreas dependem do poder central. Caso este poder não tome posições com responsabilidade e ética, muitos problemas podem surgir, sem que a sociedade civil tenha qualquer culpa e capacidade de corrigir erros graves. Por esta razão, começam, dentro das sociedades ditas “desenvolvidas”, a emergir grupos consciencializadores, como a Greenpeace, com o objectivo de alertar o poder político que a sociedade civil não dorme e está pronta a agir antes que os problemas apareçam. Naturalmente, não será de espantar se no futuro as matérias-primas e bens ecológicos passem a ser entes jurídicos, de maneira a responsabilizar a classe humana. Poderão as pessoas questionar: porquê considerar as árvores e outros seres vivos entes jurídicos? Poderá até ser provocação política, mas...
«
Que seria o homem sem os animais? Se todos fossem exterminados, o homem
também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque
o que sucede aos animais também sucederá ao homem. Tudo
está
ligado.» Enfim, após esta
breve
introdução à unidade
2, poderemos reter algumas ideias essenciais: A EXPLORAÇÃO ESPACIAL O papel desempenhado pela exploração espacial influenciou o quotidiano das pessoas, sendo algo simultaneamente tremendo e tão tido em pouca conta. As descobertas e estudos desenvolvidos levados a cabo pelas equipas de exploração espacial marcaram definitivamente a história mundial. Quem não se recorda da chegada à lua? Na verdade, no futuro, quer a exploração espacial quer investigação genética terão um grau elevado de desenvolvimento e de importância na vida das pessoas. Contudo, acredito que a exploração espacial terá uma margem de desenvolvimento maior do que a engenharia genética, porque ,apesar de ambas responderem a perguntas que já há muito o homem ansiava responder, o campo de estudo é assombrosamente superior, para além do objecto da engenharia genética estar inserida num todo que é o Universo ( objecto de estudo da astronomia). A perda de importância da exploração espacial no subconsciente das pessoas pode ter diversas origens. A primeira deve-se à repetição de imagens sobre o espaço desde há mais de quatro décadas, o que vai ajudar um pouco à banalização das viagens espaciais. A segunda poderá residir naquela ideia de : para quê investir em exploração espacial, quando muitas crianças na nossa Terra morrem à fome? Este ponto pode resumir-se à incapacidade das pessoas não estabelecerem objectivos científicos relacionados com as primeiras necessidades humanas. Muitas vezes, a investigação científica é mesmo assim, os resultados de certos trabalhos e estudos não são obtidos a curto prazo, mas sim a longo prazo. A terceira razão poderá ser suportada nos acontecimentos recentes ocorridos nos EUA, que levaram à morte de vários astronautas aquando da entrada do vaivém na atmosfera terrestre. Todos estes pontos em conjunto poderão descredibilizar e desincentivar a exploração espacial. Contudo, o Universo sempre foi e será uma fonte de inspiração para o homem, para além de o instigar a questões filosóficas. De certo modo, aquilo que os astronautas e astrónomos fazem, poderá assemelhar-se à tentativa de responder a questões idênticas colocadas pelo Período Cosmológico da filosofia. Porque estamos aqui? Qual a causa de tudo isto?... Os mais
recentes
projectos ,propostos pelas organizações
responsáveis por estas matérias, poderão passar
pela
descoberta de mais pormenores de Marte; de novas Galáxias, na
tentativa
de encontrar planetas semelhantes à Terra e vida noutros
planetas;
e, finalmente, o acompanhamento atento na evolução do
buraco
do ozono. Nestas últimas décadas, a nível da neurofarmacologia, bem como da psicologia, fizeram-se descobertas incríveis! Este progresso teórico, culminou numa fantástica evolução na concepção das substâncias psicotrópicas, que se deve ,em grande parte, a um melhor conhecimento do comportamento e natureza química do nosso cérebro, desenvolvidos por Sigmund Freud. Contudo, esta teoria desenvolvida por Freud, segundo Francis Fukuyama, «pode ser comparado com uma teoria desenvolvida por um grupo de homens primitivos que descobrissem um automóvel com o motor a trabalhar e tentassem explicar o seu funcionamento interno sem serem sequer capazes de levantar a cobertura.» (2). Deste modo, podemos deduzir que esta teoria deve ser mais aprofundada, não deve ficar pela rama. A quem coube aprofundar esse estudo e olhar mais atentamente para o cérebro foi à neurologia pós-Freud. Este conhecimento, para além de ser poderoso é ao mesmo tempo muito perigoso, uma vez que uma ciência conhecedora do comportamento cerebral, mais tarde ao mais cedo, de forma mais ou menos aperfeiçoada, conseguirá controlar o cérebro. Como vemos, isto trás implicações éticas e sobretudo políticas. Por isso, não me admiraria se num futuro próximo começassem a surgir ,na sociedade, vozes a insurgir-se, reclamando comissões de ética mais apertadas para estes ramos da ciência! Talvez, até mais do que aqueles que regulam a clonagem. Como vemos, a neurofarmacologia é algo muito poderoso, mas ao mesmo tempo perigoso! Para explicar melhor, vou recorrer a dois exemplos nossos conhecidos:o Prozac e o Ritalin. O Prozac, ou fluoxetina, funciona como um inibidor de reabsorção da serotonina(hormona), fazendo com que a sua concentração aumente no nosso cérebro e consequentemente deixemos de estar deprimidos. A baixa concentração de serotonina, associa-se a depressões, agressividade e também perda do controlo dos impulsos. A
revolução efectuada pelo Prozac foi
possível ser verificada quando Kramer(médico) descreveu o
sucedido com uma paciente sua. Essa cliente tinha uma depressão
crónica, devido à falta de orientação
profissional
e também mau relacionamento com os homens. Após um
tratamento de semanas com Prozac, verificou-se uma verdadeira
revolução,
devido a uma mudança radical da personalidade da mulher: deixou
as relações deprimentes com os homens e passou a ter
perspectivas
futuras sorridentes. É óbvio que depois de uma
história
destas, as vendas de Prozac dispararam abruptamente. Mais tarde, veio a
descobrir-se que este medicamento tinha efeitos secundários
como:
aumento de peso, tiques nervosos, perda de memória,
disfunção
sexual, suicídio, violência e danos cerebrais. Para
além
de residir aqui um grande problema, não será
também
pertinente questionar quem era a verdadeira pessoa, se antes ou
depois
de ser medicada? Não será isto manipulação?
Imaginemos um governo ditatorial a administrar à
população
um medicamento estilo Prozac, quais as consequências? Ou, como
Francis
Fukuyama refere: «Teriam Júlio César e
Napoleão
sentido a necessidade de conquistar quase toda a Europa se tivessem
podido
tomar de vez em quando um comprimido de Prozac?».(3) São
,sem
dúvida, problemas complicados, e ainda tornar-se-iam mais
difíceis
se os analisássemos pelo lado comercial! O segundo
decorre da
mania que o ser humano tem em
ver tudo doenças, generalizando o tratamento para todas as
situações,
o que é completamente errado. Cabe ao
ser humano,
ser capaz de analisar as situações,
e só em situação de verdadeira doença
tomar estes medicamentos. Não deve existir um abuso, já
que
a partir de certo ponto, estes comprimidos alteram a nossa verdadeira
personalidade,
e também podem conter efeitos secundários desconhecidos. Vivemos uma era onde reina uma constante e rápida evolução da tecnologia. Infelizmente, muito poucas pessoas, tendo em atenção a globalidade da população mundial, podem ter acesso a esta tecnologia. Aliás, se atentarmos aos casos dos países chamados de “3º mundo”, verificamos que para além de não existir um acesso a esta tecnologia de ponta, também é nestes países que as doenças, mais precisamente, epidemias proliferam. Os desafios que temos de enfrentar são verdadeiramente assustadores! E é precisamente neste ponto que reside a principal frustração da ciência: por um lado, desenvolvemos novas tecnologias e inovações que podem revolucionar a nossa vida; por outro, vemos o tempo a passar e doenças por todo mundo continuam a devastar milhares de humanos! Será caso para questionar: Não deverá o humano reprogramar as políticas de investigação cientifica? Melhor dizendo, não deverá a comunidade cientifica, neste momento que doenças matam milhares de pessoas inocentes, convergir todos os seus esforços para tentar resolver este problema prioritário, e colocar de lado outros projectos desnecessários como o desenvolvimento de tecnologia de ponta, que só serve para desenvolver o consumismo? Por isso, penso que já chegou a altura de pararmos de chamar “coitadinhos” aos habitantes dos continentes de “3º mundo”, e passarmos à acção! Devemos prevenirmo-nos das variadas infecções e ajudar esses países a prevenirem-se, com vacinas, alimentação e muitos outros bens! Tubo bem que isto é muito teórico, mas também tenho a noção que um grande desafio da humanidade ( repartição igual de riquezas) não é levado em conta por muitas pessoas e , mais grave ainda, por países que são defensores destas medidas. Veja-se o presente caso, do ataque ao Iraque: porque razão vão os países amantes do amor, da liberdade e da justiça, conduzir as suas verbas para uma guerra, que só vai agravar as coisas, em vez de aplicá-las em organizações que lutam para que as pessoas que vivem em condições precárias possam ter um melhor futuro? Porquê ser hipócritas?... Prova de que devemos reunir todos os esforços para combater as doenças é o facto de que nos últimos 25 anos, pelo menos 20 doenças importantes, que pensávamos estarem erradicadas, voltaram com formas virais mais aperfeiçoados e adaptados aos fármacos. Seis doenças ( gripe, SIDA, doenças diarreicas, tuberculose, malária e sarampo) são responsáveis por 90% das mortes por doenças infecciosas em todo o mundo. Provavelmente o que isto poderá significar, é que daqui a alguns milhares de anos a espécie humana desaparecerá, já que, como refere Jim Hughes (Director do Centro dos EUA de Doenças infecciosas), os micróbios e vírus têm uma capacidade de adaptação ao planeta superior ao humano, e para além disso, os seres virais são muito superiores, em número, ao humano, e para agravar mais o panorama, eles evoluem em minutos, aperfeiçoando-se rapidamente! E o que é mais ridículo de tudo, é o facto de ,por vezes, actuarmos como cúmplices, ao comprarmos vegetais e outros produtos alimentares carregados de antibióticos, uma vez que muitos micróbios, ao tomarem contacto com estes produtos, melhoram o seu sistema de defesa! Neste momento, a palavra de ordem deve ser vigilância, na tentativa de descobrir e convergir esforços para erradicar as doenças. E essa vigilância passará por financiar mais projectos de investigação científica relativamente à imunologia humana. Contudo, o que temos vindo a verificar é que cada vez menos, os governos investem menos nesta imprescindível tarefa. Terão eles feito algum pacto económico ,mais vantajoso, com os micróbios? «Todos os seres,
até
agora, criaram algo que está
para além de si próprios; e vós quereis ser a
vazante
dessa grande maré e até retornar ao animal, de
preferência
a superar o homem? Nos
tempos que
correm, a engenharia genética
tomou um papel muito importante na nossa sociedade. Ela está
presente
quer no mundo animal, quer no mundo vegetal e, consequentemente, na
nossa
alimentação. Neste admirável mundo novo, a engenharia genética procura manipular os alimentos, tentando cruzar DNA’s de espécies diferentes, de modo a produzir melhores alimentos como: tomates e brócolos melhorados para combater o cancro; arroz e mandioca enriquecidos com vitaminas; trigo e soja sem alergénios; bananas usadas como vacinas; e, finalmente, óleos vegetais ,de tal maneira enriquecidos, que os médicos os receitam para combater doenças cardíacas. Contudo, os opositores a esta política, receiam que seja colocado no mercado, alimentos deste tipo ,sem se conhecer a totalidade dos seus riscos. E o grande problema é o facto deles estarem a ser distribuídos, sem qualquer política de controle e de reconhecimento. Prova disso, é o facto de nos EUA, mais de 60% dos alimentos colocados à venda nas grandes superfícies, são geneticamente modificados, sem as próprias pessoas se aperceberem disso. Os
grandes
benefícios deste projecto poderão
ser: Os
principais riscos
residem: Resta
saber se os
alimentos geneticamente modificados
vão cumprir as suas promessas de melhorar a qualidade de vida
humana,
cabendo ao ser humano avançar com cautela, uma vez feitos os
erros,
poderemos pagar muito caro! Em
última
análise, poderemos questionar:
Em que medida a clonagem poderá alterar a natureza humana? A segunda, e última razão, reside no facto de o cientista não necessitar de saber o todo para executar uma parte, isto é, o cientista pode não conhecer o complexo mundo de interacção dos genes, não sendo isto impeditivo de executar a sua manipulação. Aliás, o que se tem verificado na engenharia genética é precisamente uma evolução do mais simples para o mais complexo. Como vemos, estes factos provam que não devemos abordar estes assuntos com ligeireza, contudo a resposta a esta pergunta é imprevisível, restando-nos acompanhar o futuro da ciência. O que mais tem assustado a sociedade é a clonagem reprodutiva! No entanto, apesar de muitas pessoas, movimentos fanáticos e cientistas a apoiarem, ela parece fracassar logo à nascença. Como primeiro motivo poderemos ver os entraves éticos e vozes discordantes que têm desencorajado esta prática. Outra restrição imposta é o acontecimento recente da morte de Dolly, revelando imperfeições e descredibilizando este método. Além destes factos, se os cientistas recorressem a este método, poderiam correr o risco de explorar uma família que tinha acabado de perder um filho. Desenganem-se as pessoas que pensam que a clonagem reprodutiva pode criar cópias integrais de seres humanos, isto porque a clonagem não consegue copiar a alma de um humano! Na verdade, existe outro tipo de clonagem que é do agrado dos cientistas e éticos – a clonagem para fins medicinais -, uma vez que esta, poderá constittuir um avanço no tratamento de doenças que até hoje estavam sem cura. Em suma,
poderemos
pensar que a clonagem humana reprodutiva
poderá não ter sucesso, mas, como disse no início,
deveremos ser cautelosos, pois a história já nos mostrou
casos incrédulos e inesperados. Imaginemos que este
método
é posto em prática: Quem porá em causa a dignidade
do clone? Alguém terá coragem para actuar dessa maneira?
E mais, se repararmos, um dos argumentos mais utilizados pelas vozes
contra
a clonagem é o facto de ela ser anti-natura, mas o que tem vindo
a fazer a ciência, senão isto? A ciência na sua
evolução,
entre muitas coisas, pretende prolongar a vida humana, e isso
é
ir contra as leis da natureza. Não será esse o caso da
vacinação
? Como vemos neste ponto os opositores contradizem-se!
«(...) nunca devemos esquecer a pesada responsabilidade que cabe
ao cientista.» (5)
A investigação científica percorre frequentemente dois caminhos na procura da verdade: a indução e dedução. Na sua pretensão de formular leis tendencialmente universais, os métodos percorridos pela ciência são múltiplos, por isso não se pode dizer que na ciência existe um método para construir o conhecimento, existem, isso sim, vários métodos que são adoptados pelos cientistas consoante o objecto de estudo de cada área científica. O conhecimento científico é por si só um valor, mas a decisão sobre quais conhecimentos a sociedade ou o cientista devem concentrar os seus esforços, implica a consideração de outros valores. Da mesma forma não se pode deixar de considerar o papel do cientista ou da actividade que ele exerce. A responsabilidade ética deve ser avaliada não só pelo exercício das suas pesquisas em si, mas pelas consequências sociais decorrentes das mesmas. Nos dias que correm devemos apelar, cada vez mais, a uma constante responsabilização do cientista. Porquê? Esta preocupação deve-se, essencialmente, ao facto da ciência e todo o seu conhecimento se tornar potencialmente aplicável. Antigamente, as coisas não eram bem assim, até porque ainda não existia uma grande divulgação científica. O cientista apenas tinha a preocupação de procurar a verdade, tentando aprofundar o conhecimento. Actualmente, tudo mudou. Várias empresas e poderes políticos, constataram as potencialidades científicas, e por isso, decidiram explorá-las, umas vezes negativamente, outras vezes positivamente. Com efeito, os cientistas muitas vezes sentem-se perdidos e com falta de referências exemplares que possam guiar a sua conduta. Por esta razão, surge cada vez mais a necessidade de implantar junto dos ramos científicos a ética. «Temos construído armas e forjado políticas que nenhum de nós[cientistas] individualmente, no foro íntimo da sua consciência privada, teria apoiado.»(6) Antes de
avançarmos, impõe-se uma simples
questão: - Afinal, o que é a Ética?-
«Santa
crueldade. Um homem, que trazia uma
criança nos braços, foi ter com um homem santo e
perguntou-lhe:
“Que devo fazer com esta criança? É um desgraçado
informe que já não deve ter muito tempo de vida.”
Respondeu-lhe
o homem santo, soltando um grito terrível: “Mata-o e guarda-o
nos
teus braços durante três dias e três noites para que
nunca mais te esqueças! Nunca mais engendrarás assim um
filho,
quando não for o momento próprio para lhe dar vida!”
Ouvindo
isto, o homem afastou-se, desiludido, e muitos foram os que censuraram
o homem santo por tê-lo aconselhado a matar a criança. Ao
que este respondeu: “Não seria mais cruel deixá-la
viver?”»(7)
Passando agora à questão “Qual a responsabilidade moral do cientista?”, deve-se esclarecer antes que o cientista, pelo facto de trabalhar num campo especializado, tem uma responsabilidade única e especial. De tal maneira especial que em certas investigações científicas, só eles são capazes de encontrar implicações decorrentes dessa descoberta, que ,numa primeira vista, passam despercebidos a um leigo. Contudo,
existem
certos pontos comuns e básicos
que caracterizam a responsabilidade essencial de um cientista. Em
primeiro
lugar, existe um encargo relativo à própria
profissão
dos cientistas: deve haver uma procura incansável da verdade, ou
melhor, procura de aperfeiçoar teorias anteriores. Este aspecto
mostra que qualquer cientista está sujeito ao erro, todavia esse
erro não deve ser o motivo da sua desistência, deve, isso
sim, consistir o ponto de partida para tentar atingir a verdade. Antigamente, as pessoas alimentavam uma imagem negativa dos “homens de bata branca”. Em grande parte, isto devia-se a um distanciamento enorme existente, entre o cientista e a sociedade. Deste modo, o cientista deve efectuar uma maior aproximação com a sociedade, divulgando e democratizando o conhecimento científico, sem qualquer espécie de arrogância ou altivez. O cientista tem um papel fundamental como educador das gerações vindouras. Na verdade, qualquer homem que trabalhe na ciência, deve ,acima de tudo, respeitar a sua consciência moral. Como já referi em cima, muitas vezes, certos investigadores deixam-se ser manipulados por propostas ambiciosas, em troca de uma boa recompensa material. Contudo, esses homens e mulheres, devem ter a noção de que não estão a agir da forma mais correcta. Assim, o
cientista
deve seguir aquilo que a sua consciência
lhe diz, porque por detrás de um projecto estão humanos
(quer
os cientistas, quer aqueles que mais tarde vão ser afectados
pelas
consequências nefastas) que têm uma dignidade, e devem
recusar
submeterem-se àquilo que se julga ser consenso geral. Perante
este
problema, o poder central tem um papel importante a desempenhar:
permitir
que aqueles cientistas ,que não estão de acordo com
certos
projectos, desenvolvam a sua actividade, dando-lhes
condições,
independentemente da raça, nacionalidade, ou até mesmo
cor
política. «Os governantes acreditam que a sociedade deveria permanecer tal e qual como está - e, sobretudo, deveria prescindir-se do acto eleitoral. Os cientistas, por outro lado, acreditam que a sociedade deveria ser estável, sem que isso seja sinónimo de estático. Os cientistas desejam ver uma sociedade em evolução, tal como acontece no mundo físico.»(8) Como podemos depreender por este excerto, o humano que está por trás do cientista, é influenciado por esse espírito evolutivo e transitório, que a ciência acarreta. Até agora, só divulguei as responsabilidades do cientista e do poder central. Falta revelar a responsabilidade do público em relação à ciência. Deste modo, o cidadão comum deve assumir uma postura de total curiosidade sobre tudo o que o rodeia, exigindo aos cientistas e governo, informações sobre tudo o que se está a desenvolver no laboratório. Assim, as pessoas não podem nem devem dormir, devem, isso sim, manifestar uma atitude de total desconfiança (ponderada) sobre tudo o que se passa, envolvendo-se dessa forma nas principais decisões que o país tem que tomar. Ora, estes três pólos ciência/governo/público, devem estar em completa conexão, respeitando os seus campos de actuação, não implicando o respeito, submissão e mecanização. Para
finalizar,
gostaria de reter a ideia de que,
agora e no futuro, o cientista vai ter um papel importantíssimo,
de educador e, acima de tudo, de um ser activo que não se
submete
àquilo que se costuma apelidar de “politicamente correcto”,
transformando
e revolucionando as sociedades.
Conclusão-
Que Futuro?
Chegando agora ao fim do meu trabalho, gostaria de fazer uma breve reflexão sobre o futuro que se avizinha, colocando três questões: 1.
Será que a ciência
tem limites? 2. Até onde pode ir a ciência? A
prática
científica não pode
ter uma liberdade absoluta. Não há uma
investigação
pura e, por isso, a prática científica deve estar
subordinada
às finalidades justas( respeitantes à dignidade humana)
da
vida moral e política. 3. Quem deve controlar a ciência? As
organizações ecologistas, bem como
um conjunto alargado de pensadores, filósofos e
bioéticos,
entre muitos outros, têm denotado uma crescente
preocupação,
representando uma sociedade preocupada com a aceleração
da
investigação científica, que em muitos casos pode
conduzir a danos irreparáveis na sociedade e na natureza.
É
a esses pensadores, organizações, estado de direito e,
essencialmente,
à comunidade social, que cabe o dever de intervir no controlo da
tecnociência, uma vez que o desenvolvimento da tecnociência
coloca problemas sobre o público e o privado, sobre
informação
e manipulação, instrumentalização e
dignidade
humana e, até mesmo, exploração económica e
investimento útil. Enfim, com as inovações tecnológicas e os novos mundos que a ciência abre, é possível que o futuro próximo seja uma era pós-humana, isto é a essência humana seja alterada na esperança de poder criar um mundo menos estratificado, onde é possível fornecer capacidades inumanas aos humanos, no sentido de alargar a liberdade humana. Contudo, esta liberdade será muito diferente de todas as outras conquistadas. Esta liberdade seria ilimitada, e como tal, deixaria de fazer sentido, já que, na realidade, tratar-se-ia de uma anarquia. Contudo, ao contrário do que muitas pessoas pensam, esta nova era pós-humana pode vir a ser muito mais hierarquizada e competitiva do que a actual sociedade. Não somos obrigados a defender a era pós-humana, nem a sociedade de que fazemos parte. Não somos escravos da tecnologia, muito menos cegos, para nos apercebermos das lacunas do nosso mundo. Por isso, urge reflectir e encontrar alternativas a estes dois cenários! Aceitam-se sugestões...
«O contrato
tácito que fizemos com a
sociedade que nos deu a liberdade de actuar como profissionais é
fundamentalmente moral e supõe, para lá do
contínuo
aperfeiçoamento científico e técnico, uma
reflexão
ética correlativa.» (9)
AA. VV., Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura ,(1967), vol.5, Editorial Verbo, Lisboa, pp.450-455 AA. VV., Catecismo da Igreja Católica, (1993), Ed. Gráfica de Coimbra, Coimbra, p.78. ABRUNHOSA, M. A. e LEITÃO, M., (1998), Um outro olhar sobre o mundo 11ºano, Porto, Edições Asa, 1ª edição, pp. 198; 337. ALVES, F. e outros, (1991), Filosofia Pensar e Ser 10ºano, Lisboa, Texto Editora, 2ª edição, p.105 ANTUNES, J. Lobo, (2002), Memória de Nova Iorque e Outros ensaios, Lisboa, Gradiva, 3ª edição, p.249 BRONOWSKI, J.,(1992), A responsabilidade do cientista e outros escritos, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1ªedição, pp.29-40. CAMPOS, Á., (s/d), Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa, Edições Ática, p.110 CARAÇA, B.J.,(2000), Conceitos fundamentais da Matemática, Lisboa, Ed. Gradiva, 3ª edição, p.62. FUKUYAMA, F., (2002), O nosso futuro pós-humano, Lisboa, Quetzal Editores, pp.75-97; 121-136; 273. GUITTON,J. (1991), Deus e a Ciência, Lisboa, Editorial Notícias, pp. 21-36 POPPER, K., (1996), O Mito do Contexto, Lisboa, Edições 70, pp.139-140; 153-161. REIS, A. e PISSARRA, M., (2001), Rumos da Filosofia 11ºano, Lisboa, Edições Rumo, 3ª edição, pp.257-258. SAVATER, F., (2000), Ética para um jovem,
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http://www.portaldoastronomo.org/tema7.php JORNAIS E REVISTAS: Clonagem in “Público”, Domingo, 19 de Janeiro de 2003, pp. 2-4 “Desafios da Humanidade” por Rick Weiss in National Geographic, Fevereiro 2002, pp.5-31 “Alimentos geneticamente modificados” in National Geographic, Maio 2002, pp.3-20 “Galáxias Vigiadas” por Ron Cowen in National
Geographic,
Fevereiro
2003, pp.2-29 (1) – Álvaro de Campos, Poesias
de
Álvaro
de Campos, p.110 (voltar) |
| Introdução
O impacto da ciência e da técnica no mundo ocidental Racionalidade, Ciência e Técnica - quais os seus posicionamentos? Uma proposta de sentido - O mundo humano como “Um mundo transformado pela técnica" Qual a real influência da ciência e da técnica sobre os valores e crenças de uma sociedade e vice-versa? Tecnociência e Ética – uma dicotomia ou uma dialéctica? Conclusão Bibliografia Notas Introdução “
Olho-te
daqui, meu filho, vejo-te brincar
com os pequenos cubos que a tua imaginação rapidamente
transformou
em comboio, e interrogo-me: Que destino o teu? Que futuro temos
nós
para te dar? E haverá futuro com tantos mísseis apontados
ao coração? Ao interrogar-me assim, imediatamente me
censuro:
como posso eu consentir à roda dos teus três anos de idade
a sobra espessa e inquieta destas interrogações? Mentir?
E como poderia eu pactuar com a mentira, ocultar esta
inquietação,
este medo de te ver crescer num lugar tão precário como a
terra? Como deixar de pensar que contigo crescem no mundo
milhões
de crianças sem ternura, e que tantas outras morrem simplesmente
de fome? – enquanto os homens, e quando digo homens tenho em mente os
responsáveis
pelos nossos destinos, continuam numa desenfreada corrida a armamentos
cada vez mais dispendiosos e mortíferos, a construir reactores e
centrais que não tardarão a pôr-nos o lixo nuclear
à porta, comprometendo, assim, toda a economia do planeta, o seu
equilíbrio ecológico, a sobrevivência das
espécies,
multiplicando a angústia, o terror de uma catástrofe
atómica,
fazendo-se da vida a negação da própria vida,
transformando-se
o homem, esse “prodígio” de que falavam os gregos, no “monstro”
de que fala Pascal. E tudo isto para manter a mais bárbara, a
mais
vil, a mais hipócrita das sociedades – uma sociedade meramente
mercantil,
cujo objectivo único é o lucro, sem qualquer finalidade
moral.
Olho-te daqui, Miguel, vejo-te brincar com os pequenos cubos; juntando-os e empurrando-os, comboio seguindo viagem para qualquer lugar onde se não chegue dilacerado ou amputado da alegria de o homem sentir nascer para um novo amor, uma imaginação nova, distante já, e vamos dizê-lo com tremendas palavras de Nietzche, desse asilo de alienados que durante tantos anos foi a terra.” (1) Apesar de ser um pouco longo, optámos por escolher este texto porque, cremos estar intimamente relacionado com o nosso trabalho e por ser extremamente belo. De facto, o tema do trabalho: “ Ciência e consciência” foi, à primeira vista, aliciante. Sempre foi do nosso interesse analisar as questões éticas, não só é certo, que estão, ou deveriam estar, por detrás da ciência e da técnica. Com efeito, as nossas expectativas iniciais foram amplamente superadas! Frequentemente somos levados a interrogarmo-nos sobre o nosso destino. Que futuro temos nós [Homens] para dar aos que vêm depois de nós? Teremos futuro, dado o próprio contexto mundial? Assim, tal como o texto, tentámos fazer uma análise crítica da realidade e sentimos uma urgência, na antes experienciada, de mudança ... Se continuarmos passivos em relação a este panorama e, até o aceitarmos, caminhamos de olhos abertos, que olham, mas não vêem, rumo ao nosso fim, ao fim dos recursos naturais, no fim do planeta Terra. Tal como nós, também o autor anseia, sonha por um mundo novo! E “ o sonho comanda a vida!” ( Fernando Pessoa) É este o nosso ponto de partida. Não pretendemos apresentar soluções, e ficaremos plenamente satisfeitos se levantarmos ainda mais dúvidas. Este trabalho pretendia ser um percurso contínuo, de capítulo em capítulo, subcapítulo em subcapítulo. Consideramos este aspecto muito importante na medida em que acreditamos ser fulcral que não haja compartimentos estanques na própria organização do trabalho, assim como o tema. Seria um paradoxo tentarmos demonstrar que ciência / técnica e ética estão intimamente relacionadas e, de seguida, concretizar essa mesma separação! Assim, será dividido em três capítulos: Introdução, desenvolvimento (Para uma ciência com consciência/os limites da tecnociência....) e conclusão. No primeiro capítulo visamos introduzir o tema “Ciência com consciência” apresentando a estrutura do trabalho. O segundo capítulo apresenta dois subcapítuloApesar de ser um pouco longo, optámos por escolher este texto porque, cremos estar intimamente relacionado com o nosso trabalho e por ser extremamente belo. De facto, o tema do trabalho: “ Ciência e consciência” foi, à primeira vista, aliciante. Sempre foi do nosso interesse analisar as questões éticas, não só é certo, que estão, ou deveriam estar, por detrás da ciência e da técnica. Com efeito, as nossas expectativas iniciais foram amplamente superadas! Frequentemente somos levados a interrogarmo-nos sobre o nosso destino. Que futuro temos nós [Homens] para dar aos que vêm depois de nós? Teremos futuro, dado o próprio contexto mundial? Assim, tal como o texto, tentámos fazer uma análise crítica da realidade e sentimos uma urgência, na antes experienciada, de mudança ... Se continuarmos passivos em relação a este panorama e, até o aceitarmos, caminhamos de olhos abertos, que olham, mas não vêem, rumo ao nosso fim, ao fim dos recursos naturais, no fim do planeta Terra. Tal como nós, também o autor anseia, sonha por um mundo novo! E “ o sonho comanda a vida!” ( Fernando Pessoa) É este o nosso ponto de partida. Não pretendemos apresentar soluções, e ficaremos plenamente satisfeitos se levantarmos ainda mais dúvidas. Este
trabalho
pretendia ser um percurso contínuo,
de capítulo em capítulo, subcapítulo em
subcapítulo.
Consideramos este aspecto muito importante na medida em que acreditamos
ser fulcral que não haja compartimentos estanques na
própria
organização do trabalho, assim como o tema. Seria
um
paradoxo tentarmos demonstrar que ciência / técnica e
ética
estão intimamente relacionadas e, de seguida, concretizar essa
mesma
separação! No primeiro capítulo visamos introduzir o tema “Ciência com consciência” apresentando a estrutura do trabalho. O segundo capítulo apresenta dois subcapítulos. O primeiro subcapítulo permite-nos ter uma visão global da evolução da relação homem/ciência/técnica ao longo dos séculos, até aos dias de hoje, bem como os posicionamentos da ciência/técnica e racionalidade na nossa sociedade. Consideramos esta abordagem essencial como conhecimento de base que alicerça o restante trabalho. Sem estas considerações prévias não seria possível compreender verdadeira e criticamente o tema em debate. Ao segundo subcapítulo foi conferida especial atenção, pois ele constitui o âmago, o corpo do trabalho. Analisa-se de que forma o homem tem vindo a transformar o mundo e qual a sua atitude perante ele. Com efeito, ao tentar modelar, através de meios técnicos, o mundo, também o próprio homem se reconhece modelado. As suas crenças e valores são também imbuídas de transformações. De seguida, tentamos demonstrar que, por detrás de uma aparente dicotomia ciência/técnica, se constitui, de facto, uma daléctica. O caminho do homem é pela verdade, sempre de mãos dadas com a ética, em direcção a um mundo melhor. Todos temos ambições e falhas. A ambição deve reconhecer a falha, e esta última unir-se à ética e à ciência para que no seu percurso, os obstáculos sejam superados. Ciência e técnica não devem ser encaradas como um fim - este só à verdade pertence. Na conclusão fazemos uma síntese de toda a problemática, que suscita cada vez mais dúvidas e levanta cada vez mais interpelações. Para tal, é necessária uma reflexão profunda e séria sobre a realidade científica. Criticando, deliniamos o futuro. Agindo, construímo-lo! A esperança nasce do eco dos nossos passos. Com o terceiro capítulo temos em vista referir de um modo não aprofundado- devido ao próprio rumo que o trabalho tomou e ao número limitado de páginas - os limites da tecnociência e as predisposições do ser humano para encará-los e tentar superá-los. O impacto da ciência e da técnica no mundo ocidental Uma breve viagem pela História da ciência A ciência e a técnica constituem, nos dias de hoje, um binómio indissociável, que está intrinsecamente ligado ao ser humano, sendo mais notória a sua influência nos países ocidentais. Todavia, a tecnociência, embora não a uma escala colectiva, não é nem de longe uma invenção do nosso século. É, sim, fruto de um longo percurso feito de avanços e recuos, mas sempre dinâmico: “ (...) de Galileu a Einstein, de Laplace a Hubble, de Newton a Bohr, perdemos o trono que colocava o nosso espírito no centro do Universo: aprendemos que somos, nós cidadãos do planeta Terra, os suburbanos de um Sol de subúrbio, ele mesmo exilado na periferia de uma galáxia periférica (...)”. O progresso das certezas científicas produz, pois, um progresso da incerteza. Mas é uma “boa” incerteza que nos liberta de uma ilusão ingénua e nos desperta de um sonho lendário: “é uma ignorância que se conhece como ignorância (...)” (2) Como resultado de uma necessidade de subsistência, o desenvolvimento da técnica iniciou-se com o “homo habilis”, através do fabrico de instrumentos mais rudimentares que utilizava para a caça e alimentação. Surgiu o fogo, com o friccionar de pedras, de nómadas passaram a sedentários, pela criação da agricultura, pecuária, etc. Na verdade, tinha começado a “humanização” do mundo. Esta tentativa de adaptação do meio às nossas necessidades, como afirma J. Bronowski, “ (...) libertou o travão da evolução que o ambiente impõe a todos os outros animais e desafiou o homem para uma mudança com uma velocidade inigualada nos três biliões de anos de existência da vida na Terra e a sua importância reside na conclusão de que: “ (...) a evolução do homem sempre foi dirigida pela cultura e que a componente principal foi a tecnologia. (3) Este desenvolvimento é, sobretudo, sentido quando, a um nível intelectual, chegamos ao “homo sapiens sapiens”. Contudo, este ainda é dotado de um pensamento profundamente envolvido nas malhas do mito, ou seja, não é autónomo. É só a partir do século IV a.C., com a civilização grega, que se dá uma cada vez maior ruptura: do mito passa-se para um pensamento racional, que visa preocupações de ordem cosmológica – “o arché”. Os seus representantes principais foram os três filósofos de Mileto, bem como Heraclito, Parménides, Platão, Aristóteles, ... Esta alteração vai ter grandes repercussões no que respeita ao domínio científico e técnico, político e social. A faixa da História dedicada à Idade Média pode dividir-se em dois momentos. O primeiro, do século V ao XI, onde as actividades cultural e económica eram quase nulas na Europa Medieval, dado o funesto obscurantismo em que esta estava mergulhada. Era um período marcado por guerras sangrentas e superstições, com especial destaque para a religião. Todavia, a partir do séc. XVII da era Cristã assistimos à supremacia vigente do Império árabe, contrastando de modo tão evidente com o clima europeu. Este justifica-se com a fulminante expansão muçulmana e o aparecimento do profeta Maomé. O seu domínio estendeu-se a Oeste até à Península Ibérica e a Este de Meca. Este domínio não era de forma alguma opressor; muito pelo contrário, primava pela tolerância e interacção de culturas, o que deu azo a um muito significativo avanço científico. No campo da Medicina, a sabedoria árabe concretizou-se através de certas operações cirúrgicas (cataratas, tumores....), sendo o ópio utilizado como analgésico. Na Química, surgem as tabelas de preços bem medidas, progressos no mecanismo de balanças, nas tinturas e ácidos. Na Matemática é descoberta a linguagem algébrica (defendida no séc. XIII na Europa). Na Astronomia, é inventado o astrolábio. Por outro lado, cinco séculos antes de Copérnico, o “demonstrador”, Al Biruni concebe que a Terra gira em torno do Sol. No campo tecnológico, os árabes desenvolveram técnicas agrárias, moinhos e açudes. Estes inventos vieram influenciar extraordinariamente a Europa que começava a despertar de uma letargia: estudiosos e sábios acorriam de toda a Europa a Córdova (Espanha árabe), sedentos de sabedoria, proporcionando um novo incremento sociocultural na Europa medieval que os monges budistas difundiram, mais tarde, nas universidades europeias. Assim, é na 2ª fase da Idade Média, que vai até ao século XIV, que ocorre um segundo momento que se traduz numa nova fase de desenvolvimento sociocultural na Europa medieval. Contudo, foi especialmente a partir dos séculos XVI e XVII- os séculos de Galileu (1564-1642)- que começaram a fecundar as sementes “revolucionárias” do passado, dando origem àquilo a que se convencionou chamar “CIÊNCIA MODERNA”. “A ciência não se resume mais ao saber contemplativo e especulativo da Natureza, mas passa a ser considerada como um instrumento de desenvolvimento e definição económica de supremacia e de dependência entre as nações”. (4) Deste modo, a ciência associada à técnica constitui o berço da tecnociência. Tal facto leva a uma mudança profunda na vida do homem, intensificando-se a transformação permanente sobre o mundo. É dado um novo sentido ao Homem e à Natureza e estreita-se o relacionamento com Deus, de Criador para criatura, conferindo sentido à vida. “O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns indícios no século XYIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de então pode falar-se de um modelo global de racionalidade científica que admite variedade interna mas que se distingue e defende, por via de fronteiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento não científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos)”.(5) É também aqui que se instala a ilusão de que a ciência seria a única porta aberta para a descodificação de todos os problemas do homem. À luz desta ideologia nasce o cientismo, defendido por A. COMTE: “Dentro da ciência está tudo, fora dela não há nada”. Assim, a ciência apenas é encarada pelo seu pólo positivo, como tábua única de salvação que tem como base a confiança absoluta na razão humana. No século XX, o progresso movido pela tecnociência passa a ser considerado como algo extremamente necessário ao Homem. No entanto, só a meio deste século é que há uma verdadeira tomada de consciência, não só respeitante ao papel e poder da tecnologia, mas também ao papel e poder da Natureza. Ambos funcionam como “ uma espada de dois gumes” (Heidegger). Daqui advém a urgência de, tal como afirma B. S. Santos, “ (...) perguntar pelo papel de todo o conhecimento científico acumulado no enriquecimento e no empobrecimento prático das nossas vidas (...) “. (6) Neste sentido, a concepção da própria tecnociência vai-se alterar: vai adquirir dois pólos: o positivo – já existente – e o negativo. A razão desta nuclear tomada de consciência, que emerge da razão do Homem, tem a sua base no facto de se considerar não apenas como dominador mas também, e sobretudo, como dominado. Este sentimento de “poeira cósmica insignificante na imensidão do Universo” não desmotiva o ser humano que, sempre e cada vez mais, vai diluindo o Erro no dialéctico caminho da Verdade. Nisto consiste o PROGRESSO da ciência que transforma para compreender, mas não para adulterar, faz decrescer o Erro e aumentar a Verdade, criando entre ambos -Erro e Verdade- uma indissociável e salutar relação dialéctica, como defende Bachelard. É evidente que esta mudança de rumo passa por uma mudança de mentalidade, o que implica uma sensibilização das camadas mais jovens que detêm nas mãos a chave de um “novo mundo”, de que fala o laureado Nobel de Literatura ALDOUS HUXLEY. Se respeitarmos a Natureza, jamais ela nos castigará. Esta análise leva-nos a levantar as seguintes questões: 1. Poderá o homem
evitar a
tentação da febre tecnológica,
de poder e de progresso, de forma a não plasmar no futuro o
passado? Racionalidade, ciência e técnica – quais os seus posicionamentos? Após uma breve digressão pelos “anais do tempo”, podemos constatar a seguinte evidência: a problemática do conhecimento científico é dotada de grande complexidade, bem como as consequências de uma utilização incorrecta deste. Com efeito, este facto agudiza-se com a consciencialização de que a ciência e a técnica se encontram numa fase de transição. Neste sentido, ciência e técnica implicam, necessariamente, uma atenção e acompanhamento redobrados sobre os avanços tecnológicos da nossa era, associados, naturalmente, a uma profunda reflexão – o que se torna cada vez mais difícil, como iremos verificar de seguida. Assim, é necessário fazer uma análise do posicionamento que estes três conceitos e realidades- racionalidade, ciência e técnica - ocupam em diversos lugares da nossa sociedade. Ciência e técnica constituem uma dialéctica. “ A ciência é a organização do conhecimento de uma maneira cada vez mais integrada” (7), segundo J. Bronowski. Esta assenta sobre hipóteses que têm de ser validadas experimentalmente, mas que são sempre transitórias. A única verdade irrefutável na ciência é, precisamente, a busca dessa Verdade Absoluta. Com efeito, entramos no domínio da técnica, dado que, para explicar a realidade teórica, recorremos a instrumentos: “ O termómetro é uma teoria materializada “ ( Bachelard). Como foi possível construir o termómetro? Graças à teoria da dilatação dos corpos. Ou seja, a ciência forneceu a teoria e a técnica aplicou-a, surgindo o termómetro que, por este meio, pode ser considerado tecnologia. De facto, como afirma E. Morin,“ (...) é impossível isolar a noção de tecnologia ou techné , porque bem sabemos que existe uma relação que vai da ciência à técnica, da técnica à indústria, da indústria à sociedade, da sociedade à ciência, etc.“(8) – Ciência e técnica estendem-se a variadíssimas áreas da nossa sociedade, promovendo uma racionalização cada vez maior. Nesta circularidade de conceitos podemos depreender a pluralidade de fins com que podemos utilizar a tecnologia. Ela é, então, ambivalente. Neste sentido, as racionalidades científica e técnica ( digo “racionalidade” e não “racionalização”, uma vez que esta última não consegue conceber algo que lhe seja não racionável) estão intimamente ligadas à tecnologia, e, assim, podem ser entendidas como meios de cultura. O fim original da ciência moderna – impregnada de racionalidade científica – era o de contribuir para o bem da humanidade, para o seu bem-estar, servindo-se, para tal, do método científico. Deste modo, “ (...) teve de desenvolver poderes de manipulação, precisos e seguros (...). A ciência começou por manipular para verificar, ou seja, para encontrar o conhecimento verdadeiro.” (9) Todavia, este prisma foi-se invertendo e, actualmente, a ciência é cada vez mais usada para manipular, para subjugar a Natureza. “Como diz Bacon, a ciência fará da pessoa humana o senhor e o possuidor da Natureza.” Além disso, continua Bacon,”(...) a senda que conduz o homem ao poder e a que o conduz à ciência estão muito próximas, sendo quase a mesma.” (10) Esta subjugação torna-se ainda mais crítica quando ocorre entre seres humanos ou até mesmo entre instituições, uma vez que um “eu” converte o seu semelhante num “objecto”, ser desprezível e inferior. É triste reconhecê-lo, mas não podemos evitar a constatação de que é o homem ao serviço da máquina e não o contrário: “ (...) obedece-se à máquina e não se sabe para onde vai a máquina! “ (11) – Somos, então, obrigados a questionar: “ para onde caminhamos, afinal? “ – ( Tema a ser desenvolvido no capítulo seguinte ). Assim, a tecnologia constitui-se simultaneamente como um meio e um fim; “ ela própria ?é? a dominação “ (12), esta opinião é, igualmente, partilhada por J. Habermas. Conclui-se, portanto, que a racionalidade científico-técnica pretende ocupar, na sua totalidade, o lugar correspondente à racionalidade – como defende J. Habermas, e a que M. Horkheimer denomina de “razão instrumental” ou “razão dos técnicos”. Todavia, esta opção acarreta, automaticamente, uma destruição do que há de generosidade, solidariedade, compreensão no homem, sendo estas substituídas pela ganância, calculismo, neutralidade, objectividade e distanciamento .... Afinal, perdemos a condição de “ pessoa “ como meta a atingir e somos colocados no mesmo patamar que o das máquinas, robôs. Há um inevitável esquecimento do ser e, citando Heidegger, “(...) o esquecimento do ser não é um facto que atinja só o pensamento, mas determina todo o modo de ser do homem no mundo“.(13) Ao sermos
seduzidos
pela tecnologia, o objectivo
de “ conhecer para conhecer“ fica perdido, tal como a pedra
atirada
para o fundo de um pântano e, com ele, a
valorização
da dignidade humana e os princípios éticos que deveriam
reger
o ser humano. Colocamos, inevitavelmente, a ciência e a
técnica
acima de qualquer valor universal e intemporal, e, assim, “acima de
nós”,
“fora do nosso alcance” – posicionamo-nos num “conhecer para subjugar,
quase esclavizar”. Com efeito, esta manipulação prende-se, naturalmente, segundo E. Morin, com interesses de domínio: da natureza (técnico), da sociedade (social) e reflexivo. Ora, este último: “ (...) é o interesse bom, porque esta ciência, porque esta crítica, animada pela reflexão, tem, de facto, como interesse a emancipação dos homens, enquanto os outros conduzem ao domínio ou à servidão.” (15) Posto isto, verificamos, em primeiro lugar, que não podemos negar a tecnologia, nem lutar contra ela, pois: “ (...) lutar contra a tecnologia é lutar contra a natureza do homem, tal como seria lutar contra a sua postura vertical, a sua imaginação simbólica, a sua faculdade de falar ou os seus pouco usuais apetite e posição sexuais. “Deste modo,” (...) eles, ?o Homem, a Humanidade...? não têm o direito de proclamar que querem o regresso à Natureza, sendo esta a natureza do homem. Porque a natureza do homem se expressa do mesmo modo em todas as culturas, do pigmeu e aborígene ao homem ocidental, e da proibição do incesto à linguagem; e um dos padrões universais é a tecnologia.” (16) Com efeito, esta anda de mãos dadas com o progresso ( que etimologicamente significa “passo em frente”) e este não pode ser travado. Em segundo lugar, e esta conclusão decorre da primeira , é a forma como lidamos com a ciência-técnica que tem que ser alterada: a produtividade não pode mais ser o único motor do progresso, do objectivo de aniquilamento. Citando J. Bronowski : “ A nossa sociedade aceita que todos os homens têm direito ao melhor que a tecnologia lhes pode oferecer, mas na prática eles só adquirem tais benefícios para fazer a guerra sem sentido.” (17) Ou seja, a um carácter manipulador deve dar lugar um carácter reflexivo. Neste
sentido,
torna-se também fulcral a preservação
dos valores da ciência e a promoção da
educação
científica. Em relação ao primeiro caso, há, assim, a possibilidade de o homem ter um certo controlo preditivo – como, aliás, defende COMTE – da velocidade a que as transformações tecnológicas ocorrem, e de as acompanhar sem ser simplesmente absorvido por estas. No segundo, evita um desfasamento entre “níveis de decisão e execução” (18) que iremos abordar mais à frente. De novo, Bronowski: “(…) qualquer homem que abdique do seu interesse pela ciência caminha de olhos abertos para a escravatura.” (19) É de considerar que, além do problema da rapidez a que já se verificam os avanços tecnológicos e que é gerador de uma crise, no campo racional também a ruptura entre filosofia e ciência o são. Esta crise deu-se, sobretudo, a partir do século XIX, apesar de Descartes, no séc. XVII, ter feito a distinção entre “ eu pensante” e “coisa material “. Perante este dicotomia, “ (...) a filosofia é impotente para se conceber.” (20) É plausível acreditar que esta separação tenha acontecido, porque filosofia e ciência são, por essência, completamente diferentes. Mas, na verdade, a ciência, para além de verificação e falsificabilidade das hipóteses, deveria necessitar de “reflexividade”. Por seu turno, a filosofia não deveria dispensar os conhecimentos científicos, empíricos, próprios da época em que se insere, para poder constituir-se como uma consciência crítica sobre os mesmos. Todavia, esta “ comunicação interna “, de que fala Morin, é cada vez mais improvável, dada a fragmentação e ultra- especialização do próprio conhecimento científico: “(...) os filósofos já não podem alimentar-se de conhecimentos científicos, fecham-se friorentamente e vivem nesse universo abstracto de especulação pura”(21). Além disso, o próprio cientista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne ao seu “ sector de investigação “. De um conhecimento fragmentário, obtém-se, por conseguinte, uma aplicação prática igualmente fragmentária (a chamada “ignorância especializada”). É o volte - face do conhecimento científico, de um carácter assim denominado de “ progressivo-recessivo” (22). Também se inserem neste conceito a manipulação da ciência ( já abordada), a experimentalização e a formalização das teorias científicas. Poderemos, ainda, referir que é a própria linguagem científica que automaticamente exclui quaisquer “intrusos” a este meio. Quanto mais avançada é a ciência, mais fulcral é mergulhar nos seus termos complexos e rigorosos e direccionar o campo das suas atenções. Assim, não só os filósofos mas também as massas remetem o conhecimento científico para as elites, tornando-se a ciência uma “caixa surpresa “ fechada, acessível a poucos. Em relação às massas, esta atitude, primeiro rotulada com a indiferença e, depois, até com a repulsa, é facilmente justificável: “ (...) o homem contemporâneo foge diante do pensamento e isso explica a falta de pensamentos, e mais, o homem contemporâneo não quer reconhecer esta fuga, muito pelo contrário, ele afirma o oposto, remetendo para tudo o que o conhecimento científico tem produzido.” (23) Para este estado de “ desintegração” do ser humano, em muito têm contribuído os mass-media, com o seu sensacionalismo e, muitas vezes, deturpações de factos científicos, (por exemplo, a ovelha Dolly não foi, nem por sombras, o primeiro mamífero clonado -como tantos divulgaram) com a banalização ou simples fuga às questões éticas fundamentais. É ainda de focar a mediatização exagerada de determinados acontecimentos, motivada pelos próprios cientistas, é certo, mas outras vezes nem tanto ...; e o suposto “esquecimento“ de outros, ao serviço de lóbis e baixa política.... Relativamente a este último aspecto, pode referir-se, entre muitos outros casos, o do neurologista Carlos Lima e da sua investigação no Hospital Egas Moniz: “ (...) transplantação de parte das (...) células da mucosa olfactiva para zonas lesionadas de medula espinal.” (24) Apostou-se na capacidade regenerativa das células da mucosa do nariz e parece ter conseguido o impossível: a reactivação dos nervos e neurónios danificados” (25). Esta foi divulgada na “TIME” e Internet, com reconhecimento internacional, e, em Portugal, apenas referida num artigo da revista “Visão” (n.º516), que termina deste modo: “ Porque o mundo está de olhos no Egas Moniz”. É de estranhar a súbita cegueira dos media portugueses em geral, para este caso ... No contexto da especialização, é também de referir a interessante e irónica análise que B. S. Santos fez desta problemática e do modo que esta se reflecte no nosso quotidiano: “As tecnologias preocupam-se hoje com o seu impacto destrutivo nos ecossistemas; a medicina verifica que a hiperespecialização do saber médico transformou o doente numa quadrícula sem sentido quando, de facto, nunca estamos doentes senão em geral; a farmácia descobre o lado destrutivo dos medicamentos, tanto mais destrutivo quanto mais específicos, e procura uma nova lógica de combinação química atenta aos equilíbrios orgânicos; o direito, que reduziu a complexidade da vida jurídica à secura dogmática, redescobre o mundo filosófico e sociológico em busca da prudência perdida; a economia, que legitimara o reducionismo quantitativo e tecnocrático com o pretendido êxito das precisões económicas, é forçada a reconhecer, perante a pobreza dos resultados, que a qualidade humana e sociológica dos agentes e processos económicos entra pela janela depois de ter sido expulsa pela porta; para granjear o reconhecimento dos utentes ( que, públicos ou privados, institucionais ou individuais, sempre estiveram numa posição de poder em relação aos analisados), a psicologia aplicada privilegiou os instrumentos expeditos e facilmente manuseáveis, como sejam os testes, que reduziram a riqueza de personalidade às exigências funcionais de instituições unidimensionais.” (26) Com efeito, a questão abordada leva-nos a outras duas de igual ou mesmo superior gravidade, sobretudo sob o ponto de vista sociológico. O Homem especializa-se, compartimentaliza-se, fragmenta-se. Logo, não consegue encarar-se como um TODO. Então, podemos inferir que também não consegue pensar-se a si mesmo, cientificamente, enquanto “ homem”, e, enquanto “homem em sociedade”. Assim sendo, como é possível o homem assumir responsabilidades perante si mesmo e perante a sociedade, na qual se insere? A resposta é simples: não assume!... Fará sentido continuarmos a atribuir o mesmo sentido às palavras “homem” e “homem em sociedade”, quando, na realidade, estes conceitos mudaram e não mais se inserem no dos Antigos? Não. O “homem”
de hoje
não é capaz de se
meditar. Remontando para o campo científico: se não
meditou,
não conhece, não toma consciência, nem tem
responsabilidades.
Muitas vezes, a consciencialização chega ao cientista
quando
já é tarde de mais. Todavia, quando esta “chega a tempo”
o cientista refugia-se, pura e simplesmente, num triângulo muito
bem explicitado por E. Morin: “ (...) ciência (pura, nobre, bela,
desinteressada), técnica ( que, como a língua de Esopo,
pode
servir para o melhor e para o pior), política ( má e
nociva,
que perverte a técnica, isto é, os resultados da
ciência)” (27);
ou na ideia desnudada de impurezas e
fruto de “ideologia” social,
Veja-se o caso de Einstein e o motivo que o levou a participar na
construção
da bomba atómica!.. Ainda remetendo para a questão da falta de comunicação entre ciência e outros saberes / pessoas, seja-nos permitida uma pequena referência à relação ciência-arte. Numa imediata abordagem, é possível destacar, desde já, o papel dinamizador que ciência e arte têm proporcionado , incrementando, sobretudo, a partir da Idade Média, a renovação de valores. De que forma? Pela alteração de valores, “ humanizando o homem”, passe o pleonasmo. Aponta-se
para
Leonardo da Vinci, no campo da arte,
da pintura, escultura, por exemplo, e no campo científico, para
o conhecimento do corpo humano, realização de
autópsias,
operações, etc. Sábio e artista, de Leonardo da
Vinci
o que há, realmente, a destacar é o paralelismo de
acontecimentos,
o facto de uma decorrer de outra: a arte necessitava de conhecer o
corpo
humano, as suas proporções, para, depois, proceder
à
aplicação desses conhecimentos; de não serem focos
isolados, separados pelo tempo, mas conviverem concomitantemente, sendo
a Arte a expressão da Ciência. Assim, como afirma J.
Bronowski:
“ (...) ciência e arte encontram ambas semelhanças e ordem
ocultas naquilo que parecia ser dissemelhante (...)”(28) Todavia,
poder-se-ia
levantar a seguinte questão:
como é que ciência e arte podem conviver num igual patamar
se possuem níveis de veracidade diferentes, que a ciência
baseia em factos (empíricos) e a arte remete mais
para
dados provindos directamente de um sujeito, que possui um determinado
grau
de subjectividade? Ainda sobre este assunto, Edgar Morin é de opinião que ciência e arte nutrem um sentimento recíproco de desprezo. Ora, cremos que deve haver uma tentativa, de parte a parte, de superação desta dificuldade. Na verdade, há, sem dúvida, uma dimensão altruística na ciência, pois esta última, considerando o método hipotético-dedutivo, assenta sobre hipóteses, e a hipótese representa o expoente máximo de criação de actividade científica. Aliás, Roger Jones ainda vai mais longe nas suas observações, considerando que: “ (...) o sistema de Newton é tanto uma obra de arte como uma obra de ciência.”(29)Também, por exemplo, Poincaré, T. Kuhn, Polany e Popper partilham a ideia de sincronismo entre estes dois saberes. Então, é importante visar o lugar de primeira plateia que o conflito ocupa: de facto, são as ideias discordantes, de um determinado grupo, que incitam à busca de um consenso, que passa pelo surgir de novas opções, novas alternativas, novas hipóteses, portanto, que têm necessariamente de ser testadas ( através, por exemplo, do processo de contrastação proposta por K. Popper: baseava-se na tentativa de infirmar essa mesma hipótese que, se resistir ás tentativas de refutação a que foi submetida, é considerada mais credível, mais consistente e provisoriamente “verdadeira”, permitindo, assim, a formulação do critério de demarcação entre o que é ou não científico). Com efeito, a hipótese não pode contrariar os fundamentos teóricos anteriormente concebidos, para que haja possibilidade de explicar os factos de que parte. Pode-se denotar o carácter preditivo da hipótese, bem como a capacidade de deduzir as consequências de uma escolha, ou não, desta ou daquela hipótese. É, então, de notar que “O conflito é extremamente fecundo (...) que a ciência, mesmo quando desemboca em teorias extremamente simplificadoras, sem sentido, se fundamenta na complexidade do conflito: ela caminha em quatro patas, todas independentes: o empirismo e o racionalismo, a imaginação e a verificação.” (30) Estes conceitos andam em sintonia, ou seja, apesar de independentes, nunca são totalmente auto-suficientes. Todavia, é necessário, para que haja a referida conflitualidade, que o cientista não se isole ainda mais do mundo, ou seja, que não se desligue da comunidade científica, ignorando o já único interruptor que o liga ao mundo!... Por outro lado, também é possível encontrar nas próprias teorias uma carga de criatividade – que nunca pode comprometer o rigor em que se sustenta a dita teoria – pois, afinal, as teorias são “ (...) uma construção de espírito, lógica-matemática (...). Uma teoria fundamenta--se em dados objectivos, mas (...) não é objectiva em si própria.” (31) Ora, o próprio rigor matemático é posto em causa quando constatamos a abordagem feita pela física quântica neste campo e o “(...) veículo formal em que a medição se expressa (...) “ (32). Estes dados são comprovados pelo teorema de incompletude de Gödel. Daqui é possível inferir acerca da especial relação entre subjectividade e objectividade no conhecimento científico (também designada por “intersubjectividade”). Na verdade, o cientista parte de factos, mas estes são sempre “impuros”, “brutos”, pois o sujeito cognoscente é influenciado por factores internos (personalidade, expectativas, educação) e externos (meio, intensidade, etc.), que determinam a própria escolha de factos. Note-se que isso implica, necessária e simultaneamente, um lado que constrói e um lado que destrói. Holton designou esses ditos factores de themata: “ (...) pré concepção fundamental, estável, largamente espalhada e que não pode ser reduzida directamente à observação ou ao cálculo analítico e que não deriva de nenhum deles (...), anima a curiosidade e a investigação.” (33) É o que há de não científico na ciência, mas que fecunda a sua actividade, é nuclear para que esta se desenvolva. Neste sentido, é bem conseguida a comparação que E. Morin faz entre as teorias científicas e os icebergues: possuem uma base imersa ( de foro não científico), que ele designa “ zona cega da ciência” – fundamental para o desenvolvimento da ciência, como atrás referimos. Este conceito (thema) corresponde geneticamente ao papel desempenhado pela noção de “erro” na construção da ciência, defendida por Bachelard. ( “ Nada nos é dado, tudo é construído”). É de salientar que esta subjectividade não pode, de modo algum, comprometer a actividade científica.(Assim respondemos à pergunta anteriormente formulada). Mas, afinal, onde é que se encontra a objectividade científica? Nos dados em que se baseiam as teorias, pelos testes que realizamos e também no confronto entre as diversas teorias, do diálogo, do meio sociocultural, como nos diz E. Morin: “A ciência é empurrada por forças antitéticas, as quais, na realidade, a revitalizam” (34), promovem o consenso entre investigadores, ainda que provisoriamente. Temos também de valorizar o esforço que o cientista faz ao entrar num laboratório: ele como que se “despe”, isto é, procura esquecer os seus problemas pessoais, preconceitos, hábitos, etc. e preocupa-se essencialmente com a objectividade, deixando “falar” os factos e só eles!... Então, seria perfeitamente válido partirmos do pressuposto de que seria possível eliminar o “sujeito” da actividade científica. Todavia, tal não é nem nunca será possível! Popper disse que: “ se a subjectividade científica se fundamentasse na imparcialidade ou na objectividade do sábio individual, nesse caso deveríamos pôr luto pelo facto”. Não poderíamos deixar de passar em branco, uma vez mais, a posição de B. S. Santos sobre este tema. Baseando-se no princípio da incerteza de Heisenberg, em que ao tentar minimizar o erro de medição da velocidade, se aumenta o erro das posições das partículas, demonstrou a influência que o sujeito exerce sobre a estrutura do objecto em questão. Entre outras conclusões, apresentou a relação sujeito/objecto sob a forma de um continuum. Não há de todo qualquer oposição entre estes, pois um decorre do outro. Este tipo de conhecimento, ao qual se opõe Popper, representou, de um modo muito simplista, o conceito que a ciência moderna tem da relação sujeito/objecto. Uma dicotomia, aliás, em que não há, sob qualquer aspecto, um espaço para “impurezas” valorativas, de ordem social e moral. (Na verdade, esta foi uma das razões que levaram à compartimentação e rotulação de “ciências naturais” e “ciências humanas”). Esta separação entre sujeito e objecto leva-nos à questão, abordada no início, sobre as consequências que uma “ ciência ex machina” pode ter: o detrimento do ser, projectado a uma escala social e, assim, de uma consciência moral – condenatória dos maus actos, que actua de um modo perverso quando realizamos boas acções –, o que leva o homem moderno à banalização e, mesmo, a aceitar ideias eticamente condenáveis!... Se atentarmos a uma dimensão mais amplificadora, e soltando-nos para uma vertente política - “ quem detém o poder”; – facilmente constatamos a catástrofe que se abaterá sobre a democracia: a sua total desvalorização, a criação de Estados totalitários que apenas patrocinam a investigação científica para colher benefícios militares. Note-se o caso da antiga potência da URSS e , actualmente, do Iraque. Na verdade, e citando E. Morin: “ O novo saber científico é feito para ser depositado em bancos de dados e ser utilizado de acordo com os meios e de acordo com as decisões das potências.” (35) Se
há um
definhamento, progressivo e generalizado,
da moral e, em contraposição, um engrandecimento de
interesses
de outra ordem – políticos, militares, económicos
-,
é urgente que nos interpelemos: Para quê? Para dominar o
quê?
A Verdade . Porquê? “ (...) a ordem verdadeira do Conhecimento
chama-se
Ciência; de resto, é por esta razão que toda a
vontade
de monopolizar a Verdade pretende deter a “ verdadeira ciência.
“. (36) Em síntese... Racionalidade, ciência e técnica ... são, sem sombra de dúvida, indissociáveis; ou, pelo menos, deveriam ser!.. É evidente que destas advêm outras ramificações que em nada deveriam ser estanques. A Razão funciona como um “motor” que, partindo de dados empíricos – mas não só - , cria a Ciência. Esta última, aliada à técnica, gera o progresso que, por sua vez, se traduz num cada vez maior e melhor conhecimento da realidade, num levantar o véu que esconde o oculto, o velado, de que nos fala L’ Espagnat. De facto, “ a ausência de evidências não é, necessariamente, uma evidência de ausências.” (Carl Sagan). Assim se
definem
racionalidade técnica
e científica. De que forma se posicionam na sociedade?
São-lhe
inerentes, como meios de cultura, ou como propostas de sentido,
ou
ainda como ambições, meios de ganância e
monopólio.
Depois, tudo depende da forma como as sociedades lidam com o progresso
e o pensam. Uma proposta de sentido - o mundo humano como “um mundo transformado pela técnica” O nosso objectivo é levantar problemas, tentar soluções, apresentando diversas faces do mesmo prisma. Repercussões da ciência e da técnica na sociedade O mundo humano como “um mundo transformado pela técnica “....De facto, é inútil tentarmos negar esta afirmação. Os seres, ao longo de milhões e milhões de anos, evoluíram para seres cada vez mais complexos, desenvolvendo a sua capacidade de sobrevivência, de instinto, portanto. Ora, o homem não é excepção.”(..) a noção de homem não é uma noção simples: é uma noção complexa. Homo é um complexo bio-antropológico e bio-sociocultural.”(37) A única diferença reside na proporção inversa que existe entre razão e instinto. O que nós temos de racionalidade, eles têm-no de instinto. De qualquer modo, aliada à capacidade de sobrevivência está a capacidade de adaptação ao meio. Neste aspecto, o homem está em “vantagem”. Não por possuir uma grande versatilidade no que respeita à sua integração no meio, mas por conseguir adaptar o meio, o ambiente em que se insere às suas necessidades, às suas debilidades. Como? Transformando. “Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver”(38) Assim, é pertinente questionarmos: quais os efeitos que as ditas transformações têm no nosso quotidiano? E de que modo afectam as nossas crenças e a hierarquização dos nossos valores? Com efeito, com as constantes emergências ao nível tecnológico constatam-se, com facilidade, profundas alterações nos campos social, psicológico, demográfico, institucional, económico, político e religioso; alterações estas que se caracterizam, não por serem estanques, mas por se estenderem às diversas áreas focadas, não podendo ser separadas. Na verdade, como nos fala L. Archer, o desenvolvimento da área respeitante à neurobiologia e neuro-psicoformia tem uma enormíssima importância no enriquecimento da farmacopeia de novos produtos, que poderão ser utilizados para o controlo de “estados cerebrais “ relativos ao humor, alegria /tristeza, prazer/dor, poder de decisão e de vontade, memória/amnésia. Por este meio, as drogas criadas serão um veículo para a cura de doenças na área da psiquiatria e medicina. Mas não podemos, de modo algum, desconsiderar os efeitos maléficos e, até mesmo, maquiavélicos, se este tipo de medicamentos ”cai nas mãos erradas”:se eles fossem mantidos clandestinamente pelas elites dos diferentes ramos da sociedade, era de esperar que se tornasse “(...) um trunfo em perigosas acções de pressão e de abuso de poder. Se fossem divulgados publicamente, não é de todo plausível pensar numa boa aceitação por parte e formular precisões. Temos consciência de que há o perigo de uma atonia ou anestesia social de consequências catastróficas”.(39) Neste sentido, é fundamental não esquecermos o papel que a “liberdade individual” possui e o que esta última implica que seja respeitado. Estas modificações na sociedade são também fruto de um grande interesse revelado pelos cientistas na área da engenharia genética, por exemplo. Só assim foi possível a criação de novos seres vivos, nomeadamente, com a introdução “(...) do gene produtor da “somatostonina” (hormona cerebral de interesse comercial) (...) numa bactéria (40). Outro caso interessante, muito em voga, é o da sequência do genoma humano, em Julho de 2000. Esta foi comparada historicamente à chegada do homem à Lua. De facto, houve uma viragem do mundo para este tema. Todas as fronteiras, apenas ausentes na imaginação de cada um, haviam sido quebradas. Apenas, aproximadamente três anos depois, o jornal “Público” noticia a sequência completa do cromossoma 14, onde se localizam cerca de sessenta genes que se relacionam com o aparecimento de doenças como as de Alzheimer ou Machado-Joseph. Esta última é hereditária , afecta o sistema nervoso, provocando uma morte precoce. Outra notícia de grande interesse relaciona-se com a descoberta da existência de 50 mil genes na planta do arroz. Foi a primeira planta com flor a ser descodificada, pelas mãos da multinacional Monsanto. O conhecimento do genoma do arroz foi acolhido com muito entusiasmo, não pelo valor científico da descoberta em si, mas pelo que pode significar para a melhoria da dieta alimentar de cerca de 40% da população mundial que tem como base de alimentação o arroz. Assim, é previsível o crescente interesse por parte de empresas multinacionais e indústrias farmacêuticas no pedido de patentes sobre os genes ; exemplo: Genset-França, Ribozyme-EUA, Departamento de Saúde dos Estados Unidos, etc. e financiamento de investigações.Verificamos que estas alterações de facto influenciaram a sociedade, o cientista, o indivíduo. Estas
vieram
intensificar a ânsia de
maiores descobertas, bem como a falsa esperança do homem “(...)
vir a dominar a natureza de tal maneira que controle a
evolução
futura do mundo vivo.”(41)
Parafraseando
o cientista português,
Luís Archer, podemos referir que, ao nível da
bioindustrialização,
esta visa utilizar processos biológicos naturais,
aproveitando-os
para a produção mais económica de interesse
industrial,
nomeadamente, na obtenção de biomassas,
biocombustíveis
e outras bioconversões. -“Aumento de longevidade- De 1850 a 1950 a expectativa média de vida aumentou 30 anos, em grande parte devido à baixa da mortalidade infantil. Mas, a partir desse ponto, só a custos excepcionais elevados se poderá conseguir, nos próximos decénios, algum pequeno aumento adicional de longevidade. -Melhoria das condições de saúde na 3ª idade. Neste campo, a medicina pensa poder realizar, dentro de pouco tempo, importantes progressos: conseguir, até uma idade muito avançada, vigor físico, lucidez intelectual e actividade sexual. -Aumento de produtividade agrícola e pecuária, devido ao uso da engenharia biológica e genética, como se indicou atrás. -Precocidade crescente dos jovens. -Redução da taxa de natalidade por progressos e métodos de planeamento familiar. -Escolha do sexo dos filhos que pode, em certas condições, vir a desequilibrar a distribuição dos sexos em adultos.” (42) Em síntese... Um aumento da longevidade irá provocar um adiamento da idade de reforma, pois, chegando à idade actual de reforma (cerca de 65 anos), a pessoa em questão ainda será considerada como “activa” e, portanto, capaz de trabalhar, de produzir. É necessário ainda chamar a atenção para a mudança da avaliação salarial, da carga horária e de repartição do trabalho e da variedade das actividades produzidas. Este facto vai ser determinante no aumento dos confrontos directos entre gerações, no local de trabalho, uma vez que as gerações mais antigas permanecem mais tempo em serviço, como foi referido. Perante esta situação, as empresas vão sentir uma cada vez maior necessidade de substituir o pessoal que trabalha há mais tempo. Só assim manterá elevada a sua capacidade de inovação. Devido a esta situação, corre-se o risco de cair numa maior desumanização do trabalho humano: “(....) a vida é ganha, mas não vivida. (43) Assim como estas modificações do mundo que habitamos se reflectiram tremendamente na maneira de encarar e conviver na sociedade, o poder político que rege a dita sociedade não poderia também ficar à margem. Aliás, ele assume um papel deveras importante na evolução da técnica- “agente transformador”- na maioria dos casos, demasiadamente importante...Todavia, com o acréscimo de poder nasce também a consciencialização de uma grande responsabilidade. Assim, é exigido aos governantes, entre outras coisas, a criação de uma política científica que tenha capacidade de conduzir e acompanhar “a par e passo” os avanços tecnológicos. Por exemplo, e, remetendo para a atribuição de patentes, de modo a possibilitar a investigação de genes específicos. É necessária legislação suficiente capaz de lidar com os lóbis instalados, não cedendo a estes. Aliás, devia ser permitido patentar o património genético de toda a Humanidade? Não deveria ela poder aceder à sua investigação, aprofundando-a? Actualmente, a política “científica” não possui, nem de longe nem de perto, a capacidade de travar esta avalancha das multinacionais, sendo apenas uma agulha num imenso palheiro. Para finalizar, não poderíamos deixar de referir a incomparável relevância que o modelo evolucionista de Charles Darwin teve no reajustamento da posição do homem. Ele veio redimensionar toda uma crença no Criacionismo! Afinal, como seria possível termos evoluído dos macacos, se, e recordando a Bíblia, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os peixes e animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem para a aceitação de uma ciência extraordinária, que explica os novos factos científicos que foram surgindo! A esta passagem, T.Kuhn designou-a de revolução científica. Assim, e levado o homem de volta às suas origens, gerou-se um terrível confronto entre uma teoria que a todo o custo se tentava manter e a outra que se impunha de forma natural, rendendo-se à evidência dos factos. Não havia qualquer tipo de compatibilidade, de conciliação de ideias. Esta breve abordagem foi feita com o objectivo de visualisarmos as repercussões que a teoria evolucionista tem na actualidade: (44) ”Toda a mentalidade científica é hoje inevitavelmente evolucionista.” Somos o resultado de uma evolução selectiva, pela “lei do mais forte”. O que
terrivelmente
se verificou foi que a política
fez surgir o “darwinismo social” (L. Archer)- fruto da necessidade de
uma
ideologia. Por este meio foi sua intenção “(...)
justificar,
numa base biológica, muita exploração racial e
muita
brutalidade colonialista na segunda metade do século XIX.”
Também
com base na biologia da hereditariedade se fundou a política
hitleriana,
anti-semitista e eugenista, em que o próprio Nobel, em 1940, da
Fisiologia e da Medicina chegou a afirmar que “(...) deveríamos
preservar a raça, estar atentos à
eliminação
dos seres normalmente inferiores de forma ainda mais severa que a
actual.
Devemos, e temos o direito disso, contar com os melhores dentre
nós
e encarregá-los de proceder à selecção que
determinará a prosperidade ou aniquilamento do nosso povo“ (45)
–
É óbvio que esta ideologia constitui-se, a si
própria,
como um paradoxo. O aniquilamento de um povo não depende somente
de uma decisão de um dos seus representantes, também a
natureza
interfere de forma inelutável. Assim, todo o povo estaria
condenado
à partida. Em síntese... Com efeito, a necessidade que o homem tem de transformar o ambiente em que vive é-lhe intrínseca. Estas modificações, “estes avanços tecnológicos” vão-se tornando sucessivamente bases implementadas, alicerces que sustentarão as novas sociedades que virão. Estas ditas transformações passam pela linguagem científica específica; pela noção de integração do homem como um elemento apenas mais complexo, na Natureza. Em relação a este último aspecto, cremos que no âmbito da sequenciação do genoma humano esta é uma afirmação comprovativa da nossa situação actual interessante: “no dia em que em cinco capitais, os cientistas divulgam os resultados de uma das mais fantásticas aventuras do conhecimento da era moderna, apercebemo--nos melhor do pouco que sabemos”. E somos”(46). Na verdade, com esta descoberta é fundamental questionarmo-nos: por que é que o racismo, xenofobia, ódio, preconceitos se articulam de uma forma tão fluída e se entranham na nossa sociedade, quando o património genético, em certos casos (ex: chimpanzés) chega a atingir 99% de semelhança? Como afirma Paabo: ”(...) os preconceitos, a opressão e o racismo alimentam-se da ignorância”. A ignorância....o ponto fulcral da grande maioria dos problemas...? ou das soluções? Qual a real influência da ciência e da técnica sobre os valores e crenças de uma sociedade? E vice-versa? A questão foi propositadamente deixada em aberto no subtema anterior. “A ignorância ....o ponto fulcral da grande maioria dos problemas....?ou das soluções...? Vamos agora debruçarmo-nos sobre ela e suas possíveis ramificações. De um modo generalizado, podemos afirmar que a ignorância se constitui como a raiz quer das soluções como dos problemas. Em relação ao primeiro aspecto, é um facto indiscutível que é partindo da ignorância ,pela sensibilização, pela educação, onde conceitos como os de responsabilidade e liberdade estão implícitos, que se forma uma sociedade com valores e crenças. O problema reside, exactamente, em: como fazê-lo? Como despertar as sementes adormecidas do alheamento, impavidez, inépcia, para um trabalho conjunto de unificação? Sabemos os fins, desconhecemos os meios...É neste contexto que a ciência e a técnica assumem papéis de enorme relevância: na formação de uma cultura científica e na criação de um elo entre essa cultura e a ciência. Todavia, quando os próprios intelectuais se demitem da sua tarefa, esta fica inevitavelmente por cumprir. Um exemplo concreto e verídico de atitude abominável é o de L. Frederic Fieser, que dirigiu a investigação relativamente à construção da bomba de Napalm. Para negar qualquer tipo de responsabilidade , invocou apenas o lado técnico da sua pesquisa nesta área: “ Não se sabe o que vai acontecer. Isto não é tarefa minha, mas de outras pessoas. Eu trabalhei no problema técnico que foi considerado premente (...)Eu distingo entre o desenvolvimento de quaisquer munições e o seu uso. (...) A minha função não é responder a problemas políticos ou morais.” (47) Ao
fazê-lo, os
intelectuais abandonam:”(...)
também a responsabilidade histórica do intelectual, que
consiste
na preservação dos valores e da consciência da
sociedade.
Sejam eles cientistas ou académicos, críticos
literários
ou filósofos , os intelectuais não são apenas os
detentores
do conhecimento tradicional e os veículos em que ele é
transportado.
Eles têm estas funções porque dão um valor
ao
conhecimento como expressão de verdade intelectual ou como
experiência
de verdade emocional. Sem esta dedicação à verdade
como meta universal, seriam apenas bancos de dados; com ela, são
eles que espicaçam a civilização. É,
portanto, criticamente necessário que os cientistas se
ergam
com firmeza e mantenham ao menos parte da responsabilidade ética
que lhes cabe como intelectuais, nomeadamente os valores dos quais
depende
a prática científica e que são ensinados
através
do seu exemplo. (48)
Assim,
são
legítimas as desconfianças,
juízos precipitados e condenações, por parte da
opinião
pública, face a novos avanços científicos. Como
estes
são coordenados pelos cientistas, o público exige-lhes
respostas.
Todavia, os cientistas são controlados pelo poder quer seja
económico
ou político. É este que modela habilmente a sociedade.
Não
pensemos, contudo, que o público está isento de
responsabilidade,
não, muito pelo contrário! Mas, afinal, quem deverá controlar a ciência? São estas as considerações que iremos desenvolver, de seguida. Com a primeira atitude acima descrita, o público pretende ilibar-se de qualquer responsabilidade. “A responsabilidade é uma noção humanística e ética que só tem sentido para um sujeito cognoscente”. (50) Mas, no fundo, ele está como que a auto-recriminar-se. É o público que elege os seus representantes para que dirijam a nação , da melhor forma possível, de forma a delinearem uma política externa e interna, usadas em circunstância de guerra e de paz e a fornecerem os meios necessários para que esta acabe ou se mantenha respectivamente? Então, onde é que reside a moralidade de um público que exige a um cientista qualquer tipo de justificações, ou quando, por outro lado, incita esse mesmo cientista a revelar a sua opinião/tecnologia? É, de facto, uma incongruência! Veja-se, novamente, o caso de Einstein que, numa carta, delegou toda a responsabilidade de construção da bomba atómica para o presidente Churchil. Esta responsabilidade é do público que deveria eleger conscientemente os seus governantes. Também é curioso e simultaneamente uma noção de progresso de mentalidades verificar o aparecimento de grupos que emergem da sociedade “impávida e serena” e que agitam os alicerces de uma má construção. Pretendem, desta maneira, evitar o desfasamento que existe entre público e avanços tecnológicos. Um exemplo disso é o movimento “Science for People” que apareceu nos Estados Unidos. O seu lema é a intervenção do público para que haja um consenso generalizado e não apenas de alguns. Claro que este grupo constitui ainda hoje uma minoria.... Posto isto, onde é que se insere a responsabilidade do cientista? Para responder a esta pergunta, consideraremos dois momentos. Vimos que a responsabilidade só tem razão de ser quando há um “eu” e um “tu”. Todavia, segundo a concepção clássica de ciência, devido à necessidade de um rigor e objectividade total, foi eliminado, pura e simplesmente, o sujeito. Ora, se não há sujeito, não há responsabilidade...”a ciência nasce morta” (51). Focamos este aspecto porque infelizmente este tipo de ciência ainda tem “seguidores”. Como não existe nenhum critério rigoroso de responsabilidade, ela diz respeito “a cada um” consoante os seus princípios.... A execução experimental, prática do investigador, exige-lhe que possua uma ética pessoal: “(...) uma consciência profissional inerente a toda a profissionalização. Trata-se de uma ética própria do conhecimento que anima todo o investigador que não se considera como um simples funcionário. (52) Perante a pressão social e a velocidade dos avanços científicos e tecnológicos é imperativo que esta “ética própria” sobressaia do âmago do investigador! Também, é igualmente, fundamental que o cientista se torne decrescente, no que respeita à suposição de que a existência de uma moral é suficiente para reger a sua investigação; que tome consciência de uma ecologia de acção, onde “(...) qualquer acção humana escapa às mãos do seu iniciador e entra no jogo das interacções múltiplas próprias da sociedade que a desviam da sua finalidade e que, por vezes, lhe dão um destino contrário ao que lhe era visado”, (53) e a falsa esperança de que , de alguma forma, o sistema político vigente tenha capacidade de compreender os problemas científicos e servir de orientador imparcial numa investigação científica. Muito pelo contrário, pela parcialidade evidente que consome o poder político nas suas decisões, a responsabilidade do cientista também reside na capacidade que este tem de resistir à manipulação de políticas de baixo nível, em reacção a uma atitude, ao que parece, cada vez mais comum: “ (...) os cientistas têm-se deixado comprar por salários avultados, subsídios e compensações monetárias que não se coadunam verdadeiramente com os seus reais méritos, e tudo porque uma determinada política governamental se apoiou com os seus conhecimentos tecnológicos.” (54) O cientista tem, então, de educar, não rodeando nem “cobrindo os olhos do povo com areia” e de esclarecer para que a essência , o ritmo e a dimensão das alterações tecnológicas se tornem compreensíveis aos olhos de todos! Só um verdadeiro cientista, um cientista apaixonado pelo seu trabalho, terá verdadeiramente vocação para tal. Contudo, os cientistas vêem-se completamente impotentes para exercer a sua responsabilidade...Pelo poder exercido pelos governantes...Assim, a própria comunidade científica – pelo menos a parte desta que ainda não foi “comprada”- deve fazer-se escutar e exigir, também ela, que os representantes da sociedade permitam que a informação científica seja dada ao público pelos cientistas! Neste sentido, é muito pertinente focar o comentário feito na Declaração de Veneza, assinada em Março de 1986, acerca da responsabilidade do cientista, no contexto atrás mencionado:” Os desafios da nossa época – o desafio de autodestruição da nossa espécie, o desafio informático, o desafio genético, etc. – esclarecem de novo a responsabilidade social dos cientistas tanto na iniciativa como na aplicação da investigação. Se os cientistas não podem decidir da aplicação das suas próprias descobertas, não devem assistir à aplicação cega destas mesmas descobertas. A amplitude dos desafios contemporâneos exige, por um lado, a informação rigorosa e permanente da opinião pública e, por outro, a criação de órgãos de orientação e mesmo de decisão de natureza pluri e transdisciplinar.” (55)
Porquê esta
atitude por parte dos governantes?
Os cientistas são agentes de mudança! Tal como a
realidade,
também a sociedade e os governos estão num
permanente
devir, numa espiral evolutiva. Os governos lutam contra a finitude das
coisas.....então, também lutam contra os próprios
cientistas, ......Deste modo, é natural que surjam,
aqueles
a quem Bronowski apelidou de “dissidentes do sistema”. Na verdade,
“(...)
não se faz a ciência realmente criteriosa se os cientistas
forem reduzidos a escravos de um regime político”. (56) Julgamos ainda ser necessário focar o papel dos media que acaba por estar intimamente relacionado com a responsabilidade dos cientistas e dos poderes políticos. A acção dos mass-media perante qualquer notícia de fora, aparentemente científico, tem sido deplorável! Debrucemo-nos no caso dos “Raelianos e os clones”. Os meios de comunicação para terem mais “exclusivos” ou acesso a qualquer notícia escandalosa/espetacular, nem sempre confirmam as suas fontes nem questionam verdadeiramente. Citando C. Pinto Correia, de facto, “O que não se percebe é como é que os jornais, ou as televisões, na sua ânsia de dar um novo frisson de clonagem às suas audiências, não fazem qualquer tipo de pergunta ou levantam qualquer tipo de ressalva, e publicam, sem qualquer espécie de sentido crítico, o que qualquer Zé Ninguém da Esquina metido a cientista lhes for contar o que acabou de confeccionar no seu laboratório, mesmo que não tenha provas e queira guardar ferozmente o segredo sobre todos os aspectos substânciais da história.(...) É espantoso e é muito descoroçoante, verificar como as regras mais básicas de reacção segundo o senso comum desapareceram completamente sempre que um maluquinho conta uma história de clonagem a um jornal” (57) Ainda por cima, se a comunicação social se vê presa nas garras de governos totalitários ou interesses políticos....ela torna-se, não mais do que, “um meio de lavagem cerebral”. É assim categórico que a comunicação social seleccione a informação que vai transmitir ao público, pois afinal ela não é mais do que um meio de educação!, e que não se deixe subornar. É necessário que seja íntegra, imparcial e portanto, capaz de reter as massas. A responsabiliade e o poder são directamente proporcionais.... A quem pertencerá este poder? “(...) o poder é a categoria fundamental do homem e o trabalho o conceito básico da sociedade”. (58) É nossa convicção que o poder jamais deve estar concentrado apenas num polo, uma vez que conduziria inevitavelmente a posicionamentos extremos. É, pois, necessário distribuí-los pelos quatro. Só assim haverá um verdadeiro elo, uma interacção entre os quatro poderes: caminharão como um só, em direcção a um mundo novo. Em síntese... Perante esta difícil encruzilhada entre estes três vectores, estão em jogo os mais diversos interesses. Não podemos propor soluções rígidas, fixas, definitivas, pois elas seriam, a curto prazo, ultrapassadas e postas de parte. Apenas podemos propor percursos.Parafraseando M. P. Baptista, devemos despertar para uma nova visão do mundo oriunda do universo da ciência! De facto, já não mais podemos ter uma noção “ cor-de-rosa” do mundo, pois perdemos a inocência. A uma teoria geocentrista sucedeu uma teoria holocentrista ... Não estamos de modo algum no centro do Universo, mas apenas num subúrbio de uma das muitas galáxias existentes. O Universo constitui-se como uma máquina harmoniosa, regida pelos próprios mecanismos, independente da vontade do Homem. Tudo surgiu, ao que parece, de uma grande explosão (Big Bang). Todavia, as respostas científicas encontradas levantam ainda mais questões, nomeadamente existenciais: como é que algo pode ter surgido do nada? Foi Kant quem inicialmente se debruçou sobre esta questão. Antigamente, as pessoas alimentavam-se na crença, na religião, nos mitos; a ciência veio revolucionar toda esta concepção! É da ciência que se alimentam os ávidos espíritos de sabedoria! Mas atenção! Nunca a ciência pode ser vista mediante uma fé cega! Não pode haver uma separação entre sujeito e objecto. “ Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios. Por isso, todo o conhecimento científico é autoconhecimento.” (59) Não pode haver então uma separação entre “ ciências da Natureza” e “ciências Humanas”! A ciência é plural e incita a uma visão compreensiva da realidade, recorrendo com frequência a explicações de dados empíricos. “ O homem domina a Natureza não pela força mas pela compreensão. É esta a razão pela qual a ciência conseguiu alcançar êxito onde a magia falhou, isto é, não tentou lançar nenhum encanto mágico sobre a natureza.” (60) É, assim, necessária uma atitude reflexiva e organizadora, um mergulhar crítico na ciência e na técnica. Isto passa por uma atitude crítica, por parte do cientista, de quem não se torna subserviente, não se silencia nunca, que indaga sempre. Aliás, “ ao duvidarmos somos levados a inquirir e pela indagação apreendemos a verdade”( Abelardo), ainda que esta seja provisória. Por seu
turno,
é também nuclear que
surjam tentativas reais de integração e
penetração
de valores numa sociedade, e, portanto, numa cultura! Como este sentido de responsabilidade ainda não se encontra incorporado na nossa sociedade, não basta abanar o telhado de uma construção sólida, temos que começar pela base, pela raiz. Enquanto caminhamos nesta direcção, devemos alimentarmo-nos de um “politeísmo de valores” (Edgar Morin), mas um politeísmo que se coaduna com o sujeito na sua totalidade! Caminhamos de olhos fechados para o futuro pois, se é possível prever o futuro, então não há nada que possamos fazer a seu respeito; se podemos fazer algo a seu respeito, então não podemos prevê-lo” ( Aristóteles). “ Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro.Estamos divididos, fragmentados. Sabemo-nos a caminho, mas não exactamente onde estamos na jornada.” (61)
Posto isto, de que
forma poderá a ciência ser efectivamente, uma proposta de
sentido? Até há poucos séculos atrás, a ciência e a ética eram encaradas como uma proposta de sentido, excluindo na sua íntegra o conceito de ética. Efectivamente, ciência / técnica e ética podem constituir uma dicotomia, como aconteceu / tem acontecido ... Mas, perante esta dicotomia, nunca pôde / pode / poderá ser a ciência / técnica vistas como uma verdadeira proposta de sentido, pois se elas se desfazem continuamente do “eu” para “a máquina”! Por isso, ciência /técnica falharam no passado. E continuarão a falhar redondamente, se esta postura perante a vida, em última análise, se mantiver e/ou se acentuar! Com efeito, nestas circunstâncias, o “ (...) ser humano é um animal que rompe o equilíbrio ecológico, e como insaciável predador , dizima, sem qualquer piedade, as formas de vida que partilham com ele o planeta, aliás demasiado limitado para uma população em multiplicação crescente e continuadamente empobrecido pelos gastos de energias não renováveis que podem apressar soluções catastróficas. Por isso, vêm da terra sinais alarmantes do nosso tempo. Planeta de vida, “ la terre des hommes” convertida em matéria-prima de ambições humanas por uma Modernidade tricentenária é, nas sociedades industrializadas, pasto de voracidade de um consumismo que, se fosse universalizado, a converteria irremediavelmente num planeta de morte. (62) Este afastamento sucessivo, provindo, sobretudo, das próprias metodologias impostas pelas ciências da Natureza, fragmenta o Homem, não o orienta, mas desvia-o do caminho que o levaria, de volta, ao berço da Mãe Natureza. Assim, discordamos da ideologia defendida por Birnbacher: a opção por esta forma de ciência não luta a favor dela, mas contra ela. Desta forma, torna-se nuclear propôr uma alternativa: arrancar as raízes secas e profundas da ideia de “ uma dicotomia cientifico-ética e fecundar as sementes, já plantadas, de uma “ dialéctica cientifico-técnica”. É neste caminho que lançamos as nossas esperanças, para uma proposta de sentido em sintonia com a música da Natureza, para uma “ (...) veneração perante a vida (...)” (63) Tendo como ponto de partida que a tecnociência e ética são indissociáveis e, neste sentido, têm bases consistentes para se apresentarem como propostas de sentido, vamos propor alguns caminhos, percursos que nos podem levar a esse fim. É
necessário, antes de mais, questionarmo-nos:
o que é a “ ética ”? “O adjectivo ético, na
linguagem comum, é aplicado a comportamentos / posturas
“éticos”,
“poucos éticos”, “falhos de ética”) das pessoas, numa
referência
à realidade humana na sua plenitude / totalidade. A palavra
portuguesa
deriva de dois termos gregos muito semelhantes no seu significado e
pronúncia.
Éthos significa hábito ou costume – entendidos, com uma
certa
superficialidade, como maneira exterior de comportamento; Éthos
tem um carácter mais amplo e rico: o de lugar ou pátria
onde
habitualmente se vive e o carácter habitual (ou maneira de ser
ou
até forma de pensar) da pessoa. Assim, o ético poderia
traduzir-se
por modo ou forma de vida, no sentido mais profundo da palavra,
compreendendo
as disposições do homem na vida, o seu carácter,
costumes
e, claro, também a moral”. (64)
Poderíamos ainda ampliar
este conceito, como o fez E. Morin: o conceito de
ética
não deve apenas remontar-nos para o Homem, mas para a vida em
geral.
Ética e moral
não são, contudo,
identificáveis: enquanto que a primeira se prende com a conduta
do ser humano em sociedade, sob a égide de um sistema Mais do que ética científica, E. Morin propõe uma scienza nuova, isto é, uma ciência que progride, que é dinâmica, porque é falível. Defende também que: “ Nesta evolução, será necessário que ela englobe o autoconhecimento, ou melhor, a autociência (...) temos necessidade de pontos de vista metacientíficos sobre a ciência que revelam os postulados metafísicos e até a mitologia escondidos no interior da ciência. (66) Assim, a ciência, segundo esta perspectiva, levaria os cientistas a repensarem a sua posição existencial no mundo. Ela promove a criação de uma sociologia da ciência, que conduziria exactamente aos conflitos éticos. Todavia, na nossa opinião, esta proposta apresenta validade, mas é insuficiente: a estrutura, a da ciência moderna, no seu âmago, em pouco se alteraria! De facto, a ciência incluiria o autoconhecimento, mas também um auto-desconhecimento!, dado às próprias metodologias. Não seria possível ter uma visão ampla do global, pois esta concepção de ciência “fabrica” ignorantes especializados (cientistas) e ignorantes generalizados (cidadãos). Ela continuaria a “falar-nos” de uma objectividade sem par, o que, de facto, não corresponde à realidade e manteria a ideologia: “ Não podemos esperar que a Natureza nos conceda os seus dons. A nossa tarefa é arrancar-lhos” ( V. Goldanski) Todavia, E. Morin, ao defender implicitamente que ciência e ética munem forças, em conjunto, reforça a ideia de que: “ (...) os verdadeiros conflitos éticos são conflitos entre imperativos. Da mesma forma que há, doravante, um conflito entre o imperativo do conhecimento pelo conhecimento, que é o da ciência, e o imperativo de salvaguardar a humanidade e a dignidade do homem.” (67) Para tal, fala-nos de comités de bio-ética, capazes de questionar normas e valores tidos como absolutos, incitando a uma crítica construtiva. Concordamos, em parte, com este aspecto. Na verdade, é pela discussão, num ambiente aberto, sem dogmas, em equipa, que surge o “ mais verdadeiro” dos conhecimentos ... pelo menos por algum tempo ...(tema desenvolvido no capítulo seguinte). Concordante com o carácter provisório do conhecimento científico, E. Morin também propõe uma moral provisória, aliás, condena-nos a ela, pois “ são os problemas permanentes da ética que se chocam com situações inesperadas, as quais suscitam conflitos éticos. Estamos condenados em bio-ética a compromissos arbitrários e provisórios.”(68) Por este meio, o autor rejeita, determinantemente, uma nova ética.
Assim,
não deixa de ser interessante
analisarmos a posição de H. Jonas que situa num extremo
oposto,
em relação a E. Morin, pois reivindica uma nova
ética.
Considera insuficiente o modelo instituído por Kant: não,
a promoção da relação com o próximo
não é viável, não mais! É
necessária
“uma ética voltada para o futuro [que ] estende os nossos
compromissos
morais de tal modo a alcançar as gerações
vindouras
dos não-nascidos e nos responsabiliza igualmente pelos cuidados
com a natureza extra-humana.” (
69) que
rompe uma barreira antropocêntrica
e contemporânea. Do mesmo modo, M. M. Pereira, exige também a destruição dessa barreira e propõe a naturalização de técnica: “ Qualquer alternativa válida [ para, uma última análise a salvação do homem] exige a destruição da barreira antropocêntrica e a nova consciência de que a humanidade não é uma sociedade fechada sobre si mesma mas uma parte da comunidade natural da vida e de que, portanto, o homem é um ser como os outros, com inclusão de animais e plantas, ar e água, céu e terra. Na paz com a natureza naturaliza-se a técnica, que só pode transformar sem destruir, criar sem dominar, crescer sem explorar.” (70) M. M. Pereira “ pede , então uma compreensão do mundo. Para tal, insiste que se opere ao nível dos modos de pensamento actuais: “ (...) é necessário o “ espírito ético” que desenvolva a mentalidade humanitária da razão superior, que realmente corresponda “ à essência autêntica do homem.” (...) “ ao lado da Ética tradicional, carecida de profundidade e de difusão da força de convicção, aparecem a Ética da veneração perante a vida e tem aceitação.” (71) Perante estas alternativas atrás analisadas, a nossa opinião é a de unificar, não fragmentar. Ou seja, encontrar uma relação de complementaridade entre ambas.De facto, a moral provisória proposta por Edgar Morin visa a auto-correcção e reajustamento de valores, de tempos a tempos, mediante os conhecimentos científicos. Todavia, não estará assim a ética ao serviço da ciência, e não ao contrário, como deveria ser ? E, além disso, não verificamos mudança na própria estrutura do método científico ... Por esta via, não entraremos numa circularidade, ao invés de uma “ espiralização crescente” ? É nestes pontos que as propostas de H. Jonas e M. M. Pereira conseguem “tocar”. Ao apostarem na responsabilidade e na capacidade de mudança do ser humano perante as gerações vindouras, ou seja, perante a vida, estão a aprofundar, no fundo, a corrigir a reajustar, mas estão a romper com o passado!... ( Posição tipicamente Bachelardiana, devemos acrescentar!) Por outro lado, Goldanski, numa entrevista ao jornal “PÚBLICO”, propõe a adopção de “ (...) um código moral e universal da ciência, uma espécie de declaração dos direitos e deveres dos sábios: que cada jovem investigador que escolha a carreira científica faça um juramento semelhante ao juramento de Hipócrates dos médicos, comprometendo-se a não prejudicar o homem nem a Natureza”. Afirma ainda que: “ Seria útil criar junto da ONU um órgão internacional, um conselho superior de cientistas. Ele representaria a sabedoria colectiva da humanidade e poder-se-ia rodear do conselho de círculos mais alargados de especialistas em todas as áreas da ciência e da técnica.” (72) Sobre
estas linhas
iremos fazer algumas críticas.
Se o investigador se comprometesse a “ não prejudicar nem o
homem
nem a Natureza”, estaria a negar as suas próprias
limitações
de ser humano, a ser falso, portanto. Cientista que assume, à
partida,
este compromisso não deve ser digno de confiança!
Ele
não pode assumir uma certeza absoluta quando não a tem!
Ainda
mais, que o futuro, o seu futuro, é uma carta fechada, na
linguagem
popular: “ Nunca digas, desta água não beberei!” Se bem
que
é válida e coerente a criação de
instituições
– aliás, esta opinião é, igualmente, partilhada
por
L. Archer, embora, não a uma escala tão ambiciosa. Esta
passa
pela criação de uma Ministério de
Investigação
que não só teria uma política científica,
virada
para incentivos culturais e educativos. – estas perdem todo o sentido
se,
apenas, permanecem confinadas às elites, que terão “ nas
suas mãos” a vontade da Humanidade! Ora, tal é irreal.
Nunca
as elites, partidárias de uma ideologia, de um ou mais
lóbis
por Natureza, poderão tornar-se imparciais, voz da Humanidade.
Com
efeito, se olharmos para a própria comunidade científica
verificamos se um ou mais investigadores – representantes da vontade de
um grupo da sociedade – não estão de acordo com regras /
teorias vigentes ou mesmo se questiona demasiado, são, de
imediato
expulsos dela. Nunca o poder deve estar centrado numa só pessoa
/ grupo. (Neste caso, poder equivale a conhecimento científica).
O mesmo se passa na política, originando ditaduras. O ser humano
é facilmente corrompido pelo poder. Como tal, deve evitar
colocar-se
/ colocá-lo em tais situações. Assim, discordamos
na totalidade, neste aspecto, com V. Goldanski. Neste
sentido, a
opinião de L. Archer ganha
especial contorno, porque visa a educação, a
informação
dada ao público. Se o público está informado, pode
criticar; ao criticar, evolui, construindo um mundo melhor. Isto seria
perfeito, se o poder político-económico não se
constituísse
como uma ameaça ...De forma a pensar a ciência como
proposta
de sentido, B. S. Santos visiona um paradigma emergente, que suplanta
de
modo implacável, o paradigma dominante 1.“O conhecimento do paradigma emergente tende (...) a ser um conhecimento não dualista, um conhecimento que se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias que até há pouco considerávamos insubstituíveis, tais como natureza / cultura, natural / artificial, vivo / inanimado, mente / matéria, observador / observado, subjectivo / objectivo, colectivo / individual, animal / pessoa.” (73) 2.“A ciência pós-moderna é uma ciência assumidamente análoga que conhece o que conhece pior através do que conhece melhor. (...) o mundo é comunicação e por isso, a lógica pós-moderna é promover a “ situação comunicativa” (...) não se trata de uma amálgama de sentido ( que não seria sentido, mas ruído), mas antes de interacções e de intertextualidades organizadas em torno de projectos locais de conhecimento incisivo.” (74)
3. Há uma sugestão
para uma “ (...) maior personalização do trabalho 4.“ (...) o carácter autobiográfico e auto-referenciável da ciência é plenamente assumido.”(76)O paradigma emergente é dotado de “ (...) um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una ao que pessoalmente estudámos.” (77) Aborda ainda a necessidade de um carácter reflexivo, que passa não por uma explicação, manifestação, mas por uma compreensão do mundo, levado a cabo, sob o ponto de vista sociológico, quer pelos cientistas, quer sobre o próprio cerne do conhecimento científico.Este modelo de conhecimento exige um repensar de toda a estrutura não só científica, mas também ética.É bastante complexo e aponta as metas que deveriam ser as do cientista dos nossos dias. Cremos
que tem
havido um grande esforço por
parte, não digo de todos, mas de alguns grupos de cientistas
para
unificarem, integrarem e estabelecerem transdisciplinaridade e
personalizarem
... Todavia, ainda há um longo percurso a percorrer. Claro que
nunca
será atingido, nunca chegaremos ao fim. Bronowski direccionou o seu discurso, sobretudo para a questão da desigualdade e dos valores. Embora, Morin já tenha abordado a questão “valores na ciência” Bronowski debruçou-se, aprofundadamente, sobre ambos.“(...) o homem que é ajudado pela minha indiferença, o carniceiro, sou eu . Os valores humanos existem em mim e quando os esqueço por uns tempos, a maquinaria que enferruja, é o meu próprio futuro. Esta ética para a vida contemporânea, uma doutrina de igualdade e respeito para com todo o potencial humano, não pode ignorar os valores da ciência.(78)Mas, fala-nos de uma ética pessoal: ”A força de ciência reside no realismo com que orienta os motivos humanos a uma finalidade comum ao transformar o espírito de responsabilidade da comunidade científica numa ética pessoal.(79) Em relação à posição assumida sobre a presença e o destaque, os valores devem assumir-se, concordamos plenamente. Aliás, é estando desperto para os valores humanos que mais facilmente podemos criticar esta ou aquela posição ou decisões tomadas. Este ambiente é ainda, suficientemente aberto para que haja liberdade para a opção pela mudança, não só a um nível externo, burocrático, aparente, mas sim interno, que vem da raíz. Todavia deixar que o cientista inserido numa comunidade científica, por uma, fundamentalmente ética pessoal, pode tornar-se tremendamente perigoso.Estaríamos a centralizar o poder numa única pessoa, pessoa essa que é humana, passe o pleonasmo. Ou seja, também ela tem fraquezas, também ela sofre, também ela tem um ego, logo é falível, à nossa semelhança. Se o seu papel é ensinar, e se, efectivamente o cumpre, não será também maior a sua influência sobre o outro? Sobre a sua consciência? A ética pessoal não está confinada a uma só, ao próprio cientista?, mas, antes interage e regula a ética do público, dos governos....É do nosso entender que a “solução residirá numa ética pessoal, mas globalizante, que reuna consenso. Agora, ao defender que: “Uma verdadeira sociedade é mantida pelo sentido de dignidade humana” (80). Brnowski remonta para um conceito mais amplo, mais generalizado, que não o público, os governos, mas, pelo contrário, integra-os promovendo o “encontro com o outro”, o respeito, a confiança e a responsabilidade mútuas. Assim, acrescenta que a moral do cientista deve residir na indistinção entre os fins e os meios(81). Sob um outro ângulo, Jacques Yves Cousteau afirma: “No que diz respeito à boa convivência da ciência com os valores morais – e não apenas com uma ética de circunstância -, também aí a confusão surja entre ciência e tecnologia. A ciência limita-se a conhecer e não tem nada a ver com ética. Em contrapartida, a tecnologia, a informação primária ou enganadora, fornecida pelos “media” e pelos interessesnacionais e públicos, constituem uma aliança contra a natureza que deveria ser urgentemente subordinada a valores éticos.(82) Apesar de
considerarmos a segunda afirmação
muito objectiva, crítica e que, na realidade, se adequa à
situação actual, não cremos que haja
consistência
lógica na primeira afirmação. Esta coaduna-se
ainda
com vestígios de um certo positivismo. Na verdade, o cientista
não
é sujeito cognoscente que somente conhece, que somente determina
as causas, responde ao “como é que....?”. Se analisarmos o
comentário
feito detectamos incongruências: como pode um
cientista
que apenas conhece, não perguntando pelo “porquê”, falar
do
que está para além do “como”? Ou seja, como pode ele
tomar
consciência e fazer considerações acerca do todo
(ciência,
tecnologia, informação primária ou enganadora...),
se só se limita à parte (ciência)?É de
facto,
um paradoxo: um cientista que somente explique não pode, de modo
algum, compreender! Em síntese.... Estaremos dispostos a ser as mãos que, em conjunto, constroem o mundo? “Fala-se hoje do síndroma “Titanic” para exprimir a tríplice atitude do homem no barco do mundo em perigo de naufrágio. Uns, divertem-se até à morte embalados no ludonismo da nossa idade cientifico-técnica: outros, reparam afanosamente as máquinas e os rombos do “Titanic” na expectativa de uma salvação técnica. Os restantes buscam alternativas para o super navio.(83) Com efeito, apresentamos três situações bem comuns na nossa sociedade. Enquanto uns ignoram a urgência de uma consciencialização, outros caminham numa só direcção , desviando-se de uma perspectiva globalizante, fragmentando a razão. Efectivamente não é possível salvar um navio que possua um buraco no casco, nem o navio, nem as pessoas que nele viajam. É sim, fulcral “deitar mão” aos botes de salva-vidas e remar para longe, para salvar a própria vida. Para que o percurso até à altura não tenha sido em vão, torna-se necessário construir um novo navio, um super-navio, mais resistente no casco, na base. Aqui, a ciência técnica, podem ser as ferramentas, os instrumentos que reforçam o navio. Os alicerces estão em novas concepções, novos projectos aperfeiçoados em relação aos anteriores. Ou seja, a forma, a ideia de como construir o navio, pensando nas consequências e estudando-as para não plasmar os erros do passado no presente, mudou. Assim, e tendo como fundamento esta analogia, podemos afirmar que o homem (Humanidade) necessita de ir além da sua capacidade técnica! Não se pode idolatrar acreditando que encontrou a chave que descodifica todo o Universo, a felicidade, a evolução, o ser humano, etc.. Pelo contrário, tem de estar ao serviço. De quê? Não do conhecimento mas da ética do conhecimento e duma ética humana. É a aliança entre estas duas que promove um equilíbrio no indivíduo e, por conseguinte, na sociedade. Por este meio, a tecnologia serve, também ela, o conhecimento- que decorre da ética do próprio conhecimento (como já foi referido). Gera-se uma harmonia, uma convivência dialéctica entre ciência, técnica, ética, homem...Não poderão agora ciência e técnica, ser encaradas como propostas de sentido? Acreditamos que sim. Então uma importante questão se levanta: estará a ciência (-técnica), feita pelo homem, disposta a submeter-se à ética?
Actualmente o mundo
apresenta uma atitude dual: a
de rejeitar e refutar as evidências ou a de reconhecer e
tentar
mudar o passado. É óbvio que esta última implica
que,
pela segunda vez, - a primeira foi com a questão Geocentrismo e
do Heliocentrismo - o homem ande de “cavalo para burro”, passe a
expressão,
que se reajuste e reconheça as suas falhas, os seus limites!.... Os limites da tecnociência – apenas um meio ( instrumento) e não um fim (absoluto em si mesmo). “ O século XX é o século da descoberta dos limites da ciência como uma descoberta das certezas absolutas. Começou o século com o limite da velocidade de propagação de seja o que for no universo. Expandiu-se na dependência da medida de uma grandeza relativamente ao observador. Quantificou-se no princípio de incerteza de Heisenberg. Provou-se
a
impossibilidade de medir com rigor absoluto Impôs limites à lógica e à racionalidade como aríetes da busca humana da verdade absoluta. Revelou-se nas limitações que traz o simples contar. O simples lidar com a aritmética dos números mostrou-nos a precariedade das nossas previsões.Mas nada destas descobertas quebrou a química do egoísmo. Nada fez diminuir a física da agressividade. Nada. O conhecimento envenenado da soberba humana evolui de técnica em técnica. (...) Aprendemos nada do século XX. Sabemos todos os nossos limites. Mas não resistimos a utilizar a malícia suprema.” (84) F. Carvalho Rodrigues, autor da citação, ainda acrescenta que o caminho é aprender e aplicar os limites que a ciência do século passado nos legou. O caminho é o da amizade ... De facto, aprender para informar é, efectivamente, um percurso de considerar. Aliás, “ (...) para sermos parceiros activos, só estaremos qualificados se estivermos devidamente informados. Na grande evolução biológica do terceiro milénio, a informação é muito mais do que um direito sagrado de cada cidadão. É um dever imperioso.“ (85) Todavia, todo este processo é muito complicado, principalmente quando, para além de informações, não é dada ao público a liberdade de tomar decisões – o primeiro ponto decorre do segundo, é certo – estas são-lhe impostas pura e simplesmente. Tomemos por exemplo as comissões de ética, onde isto acontece sempre. Assim, “ (...) como sociedade, temos que pensar muito bem e decidir com clareza o que esperámos de uma comissão de ética, o quanto poder estamos dispostos a reconhecer-lhe. Além disso, se analisarmos os próprios comités de Ética, principalmente em Portugal, verificámos que estes não têm nenhuma preocupação em agir, em estimular, limitam-se a mandar “ opiniões cá para fora .” (86) “ A educação é fundamental para as pessoas poderem ter uma regulamentação que é educada e não só por convicções.” (87)A educação é um processo dinâmico, bem como a própria ciência, técnica, etc. – tudo está a evoluir.Logo, torna-se muito difícil definir limites rígidos, fixos que não “ podemos ultrapassar”. Ou seja, estão em arrastamento com os avanços científico-tecnológicos”, mas à sua frente! Só por este meio se evita a constante “desinformação”, sobretudo por parte dos mass-media, que não conseguem ir ao âmago das questões e gera-se uma confusão generalizada por parte do público. Nós próprios somos alvo desta“desinformação” constantemente! Neste sentido, é útil olhar para o passado, como referiu atrás F. Carvalho Rodrigues. Remetendo-nos, brevemente, para a questão da clonagem humana. Muita “desinformação” se divulgou a este respeito! De facto, não é por descodificarmos o genoma de uma pessoa, que vamos digitar toda a informação relativa a essa pessoa. “ Os genes só dão uma indicação geral daquilo que possa vir a ser a pessoa.” (88) O meio, a educação, a cultura, todos estes factores influenciam na formação de uma pessoa; os genes não fornecem indicações relativas à personalidade, ambições, comportamento, etc. Portanto, o futuro do dito “clone”, não é pré-determinado. É incrível como não choca ao público a manipulação social / ambiental, tal como choca a genética ... Talvez seja, infelizmente, pelo hábito... Assim, a
questão nuclear que deveria estar
nas mentes de cada um de nós é a da
instrumentalização
ou “desumanização” da pessoa em todo este processo! Não podemos deixar que a tecnologia se entranhe friamente no nosso quotidiano! Há que preservar a dignidade da pessoa. Como? “ Age de tal modo que nada do mundo trates apenas como um meio e não ao mesmo tempo também como um fim.” (89) Na verdade, existem problemas que se formulam ao nível da bioética, tais como as questões das cobaias humanas e animais, bancos de esperma, investimento na investigação ao nível do armamento biológico e químico, fertilização in vitro, inseminação artificial, aborto, etc. A nossa preocupação principal deve ser a de exigirmos que, quer a comunidade científica, quer as Comissões de Ética nos informem, numa linguagem não carregada de simbolismos e “termos estranhos”, mas que seja minimamente compreensível, acerca dos avanços tecnológicos e, por conseguinte, acerca dos limites que este implicam, para que juntos sejamos meios, veículos, para alcançarmos os fins. A este prpósito tenhamos presente a subtil observação do professor Daniel Serrão: “ Os fins não justificam os meios” – temos de nos pensar no mundo de hoje. Afinal, parafraseando Monet, perseguimos um sonho, queremos o impossível. O desafio que se apresenta ao homem não é o de se superar tecnicamente, porque isso é-lhe inerente (já o Homem Neanderthal o fazia!); o verdadeiro desafio é que ele deixe cair todas as máscaras de uma razão técnica, de uma ambição desmesurada, de uma tentativa de atingir os seus objectivos “doa a quem doer” , de um falso caminho onde as aparências fazem girar o mundo!... Não sabemos nem podemos saber, com absoluta evidência, o que se seguirá. “Ciência sem consciência não é [efectivamente] mais de que uma ruína de alma”? (Rabelais) Ao
submeter os
fins aos meios não estamos
senão a reger-nos segundo uma “ (...) ética
consequencialista,
típica de uma teologia tipicamente protestante.” Este tipo de
ética
é perfeitamente admitida nos EUA e Grã-Bretanha, que
aprovam
a criação de embriões para a
investigação.
O referido catedrático conclui: “ É ao abrigo desta
ética que toda a acção com um fim benéfico
é legítima e, por isso, nos EUA, o lucro
legitima
qualquer tipo de acção.” (90)
Para os “homens que são como lugares mal situados”(91).... Concluído o nosso trabalho, isso não significa que chegamos ao fim da nossa jornada, como seres humanos num mundo “humanizado”. Somente concluimos uma etapa, ou ultrapassamos um obstáculo. Assim, acentua-se a necessidade, e também a responsabilidade, de sermos agentes de um futuro que estava já a construir-se. É, então, nossa função consolidar a aliança que se tem vindo a estabelecer entre ciência/técnica e ética, de modo que esta [aliança] abarque todo o mundo. Como “uma espada dois gumes” (Heidger), é dever de todo o cientista convertê-la em instrumento de promoção de cada ser humano. É imperativo moral de todo o cientista perseguir, de espírito aberto e humilde, o objectivo originário e puro da ciência: a dignificação do homem. Todavia, não é um esforço solitário, o do cientista. Poderes políticos, económicos, sociais, não devem (não podem!...) minar a ciência-técnica; devem, sim, estar ao serviço, da Verdade, da Ética. O público também tem a sua quota-parte na escolha do poder político, bem como na exigência de informação pelos cientistas, bem como uma linguagem acessível (ciência-cultura e não ciência-ciência). Se o público e cientista não se encontram no mesmo patamar, porque devem ser encarados como tal?! Os media deveriam filtrar a informação que lhes é dada e confirmar as suas fontes. Ao congregarem esforços, cientistas, público, governos e mass-media caminham na mesma direcção, não para um fim que fragmenta, mas que unifica. Deste modo, ciência e técnica seriam cada vez mais uma proposta de sentido. Por
isso nem tudo
o que é tecnicamente possível
deve ser eticamente aceitável, (= ciência com
consciência).
“Homens que trabalham sobre a
campa Homens muito dobrados pelo
pensamento Homens que escavam dia
após dia o pensamento Homens de cabeça
aberta exposta ao pensamento AA.VV.,Diccionário da Língua Portuguesa, (s/d), Pub. Porto Editora, Lisboa, p. 1699 ANDRADE, E., (1985), Memória doutro Rio – Vertentes do Olhar, Porto, Pub. Lumiar, pp. 77-78 ABRUNHOSA, A., Maria e LEITÃO M. (1997), Um Outro Olhar Sobre o Mundo, Rio Tinto, Edições Asa, pp. 351-352 ARCHER, J., Luís (1981), Temas Biológicos e Problemas humanos, Lisboa, Pub. Brotéria, pp. 14-16, 20-25, 34-40, 65-157 BÍBLIA, (Gn, 1, 26-28) BRONOWSKI, J., (1992), A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos, Lisboa, Pub. D. Quixote, pp. 29-172 C.F., “O legado dos árabes”, in Super Interessante, Lisboa, nº 38, 02/2003, pp. 50-53 CORREIA, C., Pinto (1997), “Clonai e Multiplicai-vos”, Lisboa,, Texto Editora, pp. 45, 54, 65-66 CORREIA, C. Pinto, “ Estamos a ficar muito burros”, in Visão, Lisboa, nº 516, 01/2003, p.12 FARIA, D., (1998), “homens que são como lugares mal situados”, Porto, Pub. Fundação Manuel Leão, p. 14 FIRMINO, Tensa, “O cromossoma 14 foi sequenciado por completo”, in Público, 23/01/2003, p.23 LANCASTRE, M., “Bioética- uma utopia saudável”, in Xis, Lisboa, nº 175, 10/2002, p. 10 LIMA, Carlos, “ Do Egas Moniz para o Mundo”, in
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nº 91,
04/2003, p. 24 www.dossiers.publico.pt/genoma/index.html www.terravista.pt/2254/lexicon/etica-htm www.consciencia.org/contemporanea/heideggerisabel.shtml www.ufsm.br/antartica/Palestra%201htm www.geocities.com/isabel-mar2/discfilodiscient.html www.cfm.org.br/revista/biov8/simpo1.1.htm www.student.dei.uc.pt/~rleitao/estudos/Projectos/oral.htm (1) in E. de Andrade, “ Memória
doutro
Rio,
Vertentes do Olhar”, p. 77-78 Observações: |
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A pena
de morte é um tipo de penalização
retrógrada, bárbara e deveras injusta, especialmente nos
dias de hoje, em que a sociedade contemporânea persegue a
obtenção de um mundo mais perfeito e justo.Muitos
poderiam contra-argumentar, advogando que a pena de morte é
justa, na medida em que apenas castiga os criminosos com uma
acção idêntica àquela que foi realizada por
eles. Por exemplo, no caso dos assassinos em série, dado que
estes matam inúmeras pessoas, é justo que sejammortos.
Mas será este um pensamento correcto? Será que, tal como
alguns filósofos defendem (Kant), deve ser aplicado o
retributivismo? Parece-nos óbvio que não, pois todos os
seres humanos têm direitos, nomeadamente o direito à vida
e, apesar de alguns criminosos desrespeitarem os direitos os direitos
de outras pessoas, isso não é suficiente para que
nós passemos a desrespeitar os deles também. Nesse caso,
também nós estaríamos a actuar como criminosos e
não justiceiros, como muitos sustentam.
Para além disto, também parece evidente que a prisão perpétua, em comparação com a pena de morte, é um castigo muito mais doloroso para os criminosos pois, para além de estes morrerem na prisão, o que acaba por acontecer mais tarde ou mais cedo, estes vêem-se forçados a passar o resto das suas vidas privados de liberdade que é condição impreterivelmente indissociável da felicidade do ser humano.Outro argumento a favor de outros tipo de penas em detrimento da pena de morte, é o facto de que, apesar de estes seres humanos estarem enclausurados, ainda podem ser úteis à sociedade, contribuindo, por exemplo, para a indústria de produção de bens, trabalho que pode ser levado acabo em estabelecimentos prisionais. Em suma, a pena de morte é uma penalização errada e retrógrada, independentemente do crime que tenha sido praticado e, deve ser substituída por uma pena mais justa, como por exemplo, a prisão perpétua. Pedro Manuel Alves Cabeça Santos. Texto argumentativo produzido no âmbito de uma Ficha de Avaliação de Língua Portuguesa. Topo
Reflexão sobre o pensamento autónomo* (11ºA 2006/07) O
pensamento autónomo é o que nos distingue dos outros
animais. Somos seres designados "racionais" precisamente porque
pensamos. Sabemos que o fazemos e que graças a ele conseguimos
ultrapassar até hoje, as barreiras que se cruzaram com o nosso
caminho. O pensamento autónomo sempre nos mostrou a
direcção a seguir e essa direcção
conduziu-nos ao processo de socialização. Este processo
consiste na interiorização de regras, princípios e
conhecimentos, tidos como correctos pela sociedade em que estamos
inseridos.
TopoMas como podemos ter a certeza que as ideias dominantes são as correctas se não reflectirmos racionalmente sobre elas? Esta é uma das principais inquietações da sociedade contemporânea que se traduz na necessidade de reflectir acerca das ideologias aceites pela sociedade e dos poderes estabelecidos. Perante esta dúvida podemos adoptar uma atitude ingénua, ou uma atitude critica. A ingenuidade é a característica relativa às pessoas que têm uma visão demasiado positiva do mundo e daqueles que as rodeiam. Este optimismo resulta da confiança que elas depositam em si e nos outros; e na crença de que todos nos esforçamos por um mundo melhor, cujos ideais seriam o amor, a paz e a sinceridade. Infelizmente, a vida ensina-nos que a ingenuidade é impraticável e coloca-nos em estado de alerta. Porquê? Porque as pessoas estão habituadas a pensar mais em si, do que no bem comum. Apesar de ser o arquétipo de um mundo idílico, na prática a ingenuidade é extremamente perigosa, pois desta advém uma grande oportunidade face a possíveis tiranos, traidores e manipuladores de consciências. O problema reside no facto de colocarmos a nossa liberdade de pensamento à disposição do poder estabelecido, já que por preguiça ou ingenuidade, não nos estaremos a questionar acerca de assuntos cruciais para a nossa existência. Por outro lado, se abandonarmos a ingenuidade e optarmos por exercer o espírito critico sobre as ideias dominantes e os poderes estabelecidos desenvolveremos as ferramentas necessárias para participar activamente na escolha das leis que deverão regular as nossas acções. Ao passo que da ingenuidade ... apenas podemos colher os inúmeros preconceitos que existem na sociedade. O preconceito é uma ideia pré-definida e não fundamentada, que por vezes leva a desentendimentos e arrufos entre pessoas. Não raras vezes conduzem ao racismo ou à xenofobia, visto que as pessoas preconceituosas acham que são superiores aos outros pelos quais têm preconceitos. Os preconceitos estão relacionados com os poderes estabelecidos e com a cultura popular. No imo dos preconceitos, subsiste algum conhecimento e sabedoria herdada de geração em geração. Não obstante, essa mesma sabedoria revela-se normalmente ignorante, porque o senso comum critica sem fundamento, não apurando a verdade e vendo o mal ou o bem, onde estes possam não existir. Se não abandonarmos os preconceitos do senso comum, viveremos numa sociedade injusta, intolerante, autoritária e discriminante. Por analogia aos preconceitos que dominam a sabedoria popular, também as ideias dominantes e os poderes estabelecidos tentam submeter o Homem aos seus ideais acerca do mundo. Será o mundo apenas um aglomerado de terra? Não. O mundo é o nosso abrigo. O mundo é a nossa casa. É o único sítio onde temos oxigénio que nos permite viver e gravidade que nos permite caminhar. O mundo, espaço físico e social que nos proporciona os recursos que condicionam a actividade humana é o conjunto que nos permite evoluir e desenvolver. Caso o Homem não procurasse saber a significação do Mundo, o seu berço; nem o sentido de tudo o que deriva da história como caminho percorrido pelo Homem; nem da cultura que é o conjunto de transformações que o Homem fez nesse mesmo percurso; seria um ser exposto ao vazio repleto, provocado pela ignorância e desinteresse de todos aqueles ideais que construíram osalicerces da nossa civilização. Esta hipótese parece-nos impossível, ou pelo menos, dotada de uma dificuldade extrema, pois o ser humano é, por definição, um ser social, que se molda através da obtenção de conhecimentos, graças à partilha de informação com outras pessoas. O Ser humano apresenta-se como um ser social e racional, produto e produtor de cultura, que no nosso século é dominada por novas descobertas científicas, expansão das artes no geral e pelas burocracias impostas pelas políticas actuais. É na arte, ciência, politica, cultura e história, que o Homem encontra uma razão para a sua existência. Deste modo, atinge uma finalidade valorativa, capaz de o guiar para uma vida completa e realizada, com total noção e consciência de si próprio e das suas acções. Não devemos levar a cabo qualquer acção que possa prejudicar outrem. Mas o que acontece quando o fazemos? O que acontece quando prejudicamos alguém intencionalmente? Nessa altura a consciência entra em acção e reprime-nos, fazendo-nos reviver as nossas acções vezes sem conta, fustigando-nos com esses pensamentos. No entanto, por outro lado, quando levamos a cabo uma acção positiva, a consciência premeia-nos, transmitindo-nos sentimentos de bem-estar e realização pessoal. Quanto à intensidade das emoções que sentimos devido à consciência moral, variam muito, consoante a educação, e o meio sócio-cultural em que a pessoa está inserida. Mas o que aconteceria se nem sequer possuíssemos os meios para tomarmos consciência da nossa própria consciência? Um mundo sem consciência seria um mundo onde a justiça não poderia ser implementada. Qualquer pessoa seguiria os seus instintos, produto do que ainda resta de animal, dentro de nós e agiria de acordo com a sua disposição na altura. A consciência é, na verdade, se a considerarmos como racionalidade, a única característica que nos distingue de todos os outros animais. Os animais não racionais seguem aquilo que, geneticamente, está escrito. Um cão que morde uma pessoa por se sentir ameaçado, não tem a consciência do mal que fez e, dessa forma, terá ele realmente culpa do seu acto? A culpa torna-se um conceito sem sentido, se desprovido da consciência. Sem consciência, a responsabilidade não faz sentido, logo o ser humano não pode ser julgado por acções das quais não tem controlo.Tal como Sartre enunciou, "a nossa liberdade começa, onde acaba a liberdade do outro". É indispensável a elaboração de leis que assegurem a liberdade de cada um, já que esta tem de ser respeitada dentro dos seus limites, para que valores como a democracia e a justiça façam sentido. A liberdade, assim como a felicidade, são condições universais e obrigatórias à existência humana. Todos os Homens, quer consciente, quer inconscientemente, procuram e acreditam que estão relacionadas. A liberdade conduz à felicidade e esta é condição fundamental para o alcance da liberdade. Como animais que somos, procuramos sempre fugir ao sofrimento e atingir o máximo de prazer possível. Como humanos, procuramos não só fugir da dor física e procurar o prazer físico, como também fugimos da dor psicológica e procuramos atingir o prazer intelectual e espiritual . É fácil de entender que, embora alguns desistam de algum tipo de liberdade para poderem ser felizes, ninguém, nunca e em algum lugar, deixará de desejar ser livre, e portanto, nunca ninguém deixará de desejar a felicidade. É inegável que o fazemos. No entanto, enquanto percorremos o nosso caminho pela vida fora, por vezes parámos e pensámos que tudo seria mais fácil sem este desejo de uma vida aprazível e de uma felicidade crescente. Sem estas necessidades a vida tornar-se-ia muito menos dolorosa, pelo simples facto de que, uma vida sem expectativas, também é uma vida sem desilusões. Apesar de uma vida sem a perspectiva da felicidade e da liberdade ser aliciante, pela independência de expectativa, ela é incompatível com a natureza humana... porque todos desejamos ser felizes. Mas embora desejemos ser felizes e livres, essas são metas que raramente algum de nós, "simples mortais", atinge. A partir deste ponto de vista, o pensamento autónomo, que nos faz desejar algo tão inatingível como a felicidade e a liberdade é considerado um fardo. No entanto, sabemos que a felicidade e a liberdade são imperativos da razão e portanto abdicar delas não é um comportamento racional. Pensamos. O pensamento autónomo, aquele que sabemos vir de nós e para nós, liberta-nos dos determinismos e deixa-nos voar, conhecer novos horizontes. Permite-nos evoluir, viver em sociedade sem necessariamente nos subjugarmos às correntes das ideias dominantes e dos poderes estabelecidos. A razão emancipada, filosófica, possibilita maior compreensão do que nos rodeia e a partir daí podemos corrigir os erros do presente e preparar um futuro melhor.Podemos então concluir que o mundo deve ser regido por valores filosóficos que defendam a liberdade de pensamento, opinião e movimento; a boa convivência em comunidade;o respeito pelo local em que habitamos; a procura incessante pelo sentido da existência; o conhecimento do passado e do futuro; a responsabilização e justiça; e a natureza humana a que o homem se sujeita. * por uma turma de alunos que não se rende às pseudo evidências e não desiste de pensar. Em nome de um ano que fez a diferença no mundo que vemos lá fora. (Isabel Maia) |