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Alguns fragmentos, pedaços de coisas, letras desperdiçadas, estilhaços, reflexos do opaco...

Coisas que se rabiscam....palavras soltas....por aí...algo que se arrasta e aqui arremesso...

                        
                       
Os meus rabiscos...

A Dor    Algo de Meu     Ainda Pascal     Memórias    Mortalidade     O Intervalo   A propósito da morte   Corredores    A propósito de nada    Por tudo aquilo que ficou por dizer   Da morte  

Os rabiscos dos meus alunos...

Deus: uma resposta para existência, por Márcia Oliveira, Esc.Sec.Dr.Manuel Laranjeira, Junho 2006


Deus: uma resposta para a existência (?)

    Quando me deparei com esta afirmação ou questão como preferirem, pois a maneira como foi disposta não nos permite identificar a frase como uma certeza ou como uma pergunta, várias dúvidas fervilharam na minha cabeça.

            De imediato, não sei exprimir a minha opinião concreta de facto, muito sinceramente, ela deixa-me atónita. Pergunto-me essencialmente: até que ponto consigo e posso acreditar em Deus? ou se sei o que é a existência e como podemos defini-la?

            Depois, de muito pensar e de não chegar a conclusão nenhuma, optei por analisar a frase ponto por ponto, porque as dúvidas persistiam e atazanavam o meu pensamento tão habituado ao sossego de simplesmente não questionar o que me rodeia. Que mau hábito! Como posso ser tão passiva acerca de tudo? Como pensar através dos outros?

            Deus. Do meu ponto de vista, o elemento mais complexo. Quem é? Existe realmente? Quais as provas irrefutáveis que possuo para ambas as respostas viáveis acerca da sua existência? Seremos “marionetas” nas suas mãos? Para mim, esta última constitui-se como a mais relevante, porque acaso deus exista efectivamente, será que Ele controla a nossa vida, através de uma forte influência sobre a nossa conduta? Será que ao nascer já temos um destino traçado por Ele? Teremos capacidade de alterá-lo ou estamos definitivamente sujeitos a Ele? Estaremos encarcerados na sua teia?

            É por isto, que muitas vezes não gosto de pensar, porque me assusta pensar, neste caso concreto, que não tenho qualquer poder sobre a minha vida mais propriamente, sobre as minhas acções que se traduzem em escolhas. Gosto de pensar que sou livre com os limites impostos pela sociedade em que estou inserida, é claro! Por isso, alegro-me por saber que num leque de várias opções sou eu que decido por minha própria vontade respeitando as minhas convicções com o objectivo de cumprir os meus propósitos delineados por mim.

            Por outro lado, temos a acção da Igreja que por influência directa condiciona os nossos actos mediante o que supõe correcto, ou seja, aceitável ou errado, portanto condenável. Isto constitui um factor bastante importante, pois toda a civilização ocidental foi edificada nas bases do Cristianismo.

            Concluo que Deus é um ser omnipotente que de certa forma poderá influenciar a nossa conduta.

            Depois, temos a palavra resposta que a meu ver constitui o elemento fulcral da frase. Reparem, como podemos definir resposta? Eu não consigo. Pode ser algo de ultimado, isto é, incontestável sob todas as perspectivas. Algo vasto, pois cada resposta pode incidir sobre vários campos. Mas, no seu íntimo pode ser aquilo que queremos ouvir e deste modo, induz cada um de nós a erros descomunais. Quem já não julgou ter as respostas para tudo e de súbito, elas caem sobre a terra completamente desfeitas? Eu já. E quem foi a causadora disso? A Filosofia! Tão insistente, incansável e de um certo modo, perturbadora! No entanto, tão viva, intensa e curiosa! Podem pensar que não estou a regular muito bem, contudo cada vez mais vejo a Filosofia como uma criança pequenina e irrequieta que mete o nariz em tudo na esperança de descobrir o mundo que a rodeia. A tão infindável busca incessante do saber!... Comparação tola?! Talvez. (Isto ficará só entre nós, não é verdade?)

            Por último, temos a existência. Mas, o que é isto da existência? Resolvi consultar o dicionário e dizia assim, passo a citar: «facto de existir; estado do que existe; maneira de viver; vida; realidade». Bem, ao começar a ler fico mais confusa do que estava, no entanto há uma palavrita que se realça. E perguntam vocês qual é. E eu digo-vos: a vida! Debruçemo-nos sobre ela.     

            O que caracteriza a vida? Singularidade, isto é, apesar de a vida ser comum a todos, desde já cada um tem uma vida própria que se distingue da dos outros. Liberdade, ou seja, proporciona-nos várias situações onde temos que agir tomando partido delas ou não, consequentemente a forma de agir influenciará a nossa personalidade, pois a nossa conduta depende dos ideais que foram interiorizados por nós. Multiplicidade. Tantas formas de viver! Umas certas outras erradas… Mas, o que é o certo e o errado? Terei o direito de julgar a conduta dos outros e impor-lhe limites? Não é isso, que cada vez mais as nossas sociedades fazem?

            Voltando ao problema inicial: deus constitui uma reposta para a existência? Sinceramente… não faço a mínima. Sei que nele acredito, apesar de a minha fé sofrer fortes abalos por vezes. Contudo, nas horas de aperto é a Ele que recorro. Acho que tudo se baseia numa questão de fé ou mesmo até de aceitação. Se me afirmo como cristã e sigo muitos dos princípios cristãos como posso não dizer que deus não é uma resposta para a existência? Calculo que a existência seja a fruto da acção de Deus, logo como não poderá ser Ele uma resposta?

            Em suma, tudo se baseia numa questão de aceitarmos ou não muitas vezes e a isto se chama de fé, apesar dela não ter que ser cega. Mas, lembrem-se, nem tudo pode ser questionado, pois por vezes não é preciso ver para crer.  

 
 
Márcia Catarina Alves de Oliveira

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   A Dor

     Lembro-me bem, muito bem, como se fosse hoje. É impossível não lembrar aquele rosto petrificado pelo medo e tingido de uma misteriosa esperança. Pergunto-me se alguém terá reparado em mim desta maneira quando, também eu, passei por estas cadeiras. Era de estatura média, um pouco forte, algo robusta, com uma estrutura quase atlética. Perto dos 40 anos, talvez, um pouco menos. Tinha um cabelo castanho-escuro que lhe caía sobre os ombros, algo revolto. Sei, agora, que o seu cabelo não poderia ser de outra forma, ter outro aspecto. Esse ar indomável, selvagem era o que restava de uma vida contida e esmagada por uma dor oculta, um presença ausente. Tinha os olhos negros e grandes, uns olhos que perscrutam a alma. Algumas sardas espalhadas aleatoriamente pela tez clara do seu rosto, davam-lhe um ar arisco e algo infantil. Chamava-se Fernanda, vim a saber. Era arquitecta. Costumava vê-la por ali, sempre que ia ao hospital visitar a Cândida. Lá estava ela, sentada naquelas cadeiras à espera da sua sessão de quimioterapia. Folgo em nunca a ter visto a sair daquela porta. Antecipo umas sardas mais esbatidas e um olhar vazio.

        É quase inevitável olhar para aquelas cadeiras e me ver ali, a mim, há cerca de dois anos. Será que alguém reparara em mim, como eu reparara nela? Não, não acredito. Quem iria reparar num homem de meia-idade, careca e de estômago dilatado por anos e anos de vida desregrada, marcada pelo álcool?...Agora tudo isso não passa de uma lembrança amarga. A doença levou-me o estômago dilatado. O álcool já me havia “levado” três esposas que não aguentaram. A vida recomeçou. Sorvo este café em pequenos tragos. Fecho os olhos sentindo aquele líquido quente e algo amargo, descer pela garganta. Por cada trago, bebo a vida, sinto a vida. Procuro desviar a atenção para outras notícias do jornal, mas aquela fotografia dela e o texto frio e longínquo, remeteram-me para aquelas cadeiras de hospital. Cândida chegou a conhecer uma parente dela – uma prima - que, por sua vez, era amiga de uma cliente lá do cabeleireiro. De quando em vez, aparecia lá com a amiga e, para não parecer mal de todo, arranjava as unhas. A Cândida foi conhecendo algo acerca da Fernanda (essencialmente depois de ela ter partido) enquanto cortava cabelos. Sim, a morte trágica de alguém evoca memórias enterradas, ressuscita pormenores macabros e alimenta a mesquinhez de muitas vidas. Talvez eu tenha conhecido mais da Fernanda quando atentava no seu rosto perdido e no seu corpo robusto que se aninhava naquelas cadeiras. Há catorze anos lutava contra uma memória……Paula.

        Paula era uma enfermeira do serviço de Oncologia. Nova. Muito simpática. -Vá lá…o Sr….como se chama? Não tenho ali a sua ficha! – disse. -Ah, desculpe…chamo-me João Costa, disse meio atordoado. -Bem, preciso que me acompanhe até ao guiché. Preciso do seu BI e cartão do utente. Desconfio que a ficha está noutro serviço, disse Paula. Assim acompanhei Paula, a enfermeira que me deu luz e tornou aquelas cadeiras menos dolorosas. Ela própria tão frágil e insegura…mas era ela que dava alento. De uma vez, enquanto eu procurava esticar a vida naquelas cadeiras, disse-me: - Sr. João, outra vez a dormitar? Não temos tempo! É preciso lutar pela vida! Temos de cuidar da máquina!, disse. Eu sorria. Aquela analogia entre a luta pela vida e o que eu fazia na oficina com os caros era, no mínimo, curiosa. Ela perguntava-me, muitas vezes, como é que eu era capaz de por como um novo um carro que havia chegado destruído à oficina e não era capaz de compreender que um homem, cheio de vida, como eu, venceria esta batalha para desafiar o tempo? Paula, a enfermeira incansável, na sua profunda solidão, transportava a mágoa e histórias de todos os seus doentes. Uma mãe ausente e displicente e um irmão bastante difícil que se perdia nas ruas da cidade, eram o que a esperava, todos os dias, quando regressava a casa transportando a dor dos outros, esquecendo a sua.

        …Esqueci-me do café. O que dele resta está frio. Perdi-me nos meus pensamentos e no rosto de Fernanda. Preparo-me para sair quando vejo Mafalda. Ela esboça um sorriso fabricado, sem vida próprio e dirige-se ao balcão do café. Faço-lhe sinal com o braço. Mafalda aproxima-se e, perante a minha insistência, acaba por sentar-se. Senta-se. Contudo, fica meia de lado, numa pontinha da cadeira revelando, desta forma, uma pressa inusitada, uma necessidade de partir para um qualquer outro lugar. É quase impossível não reparar em Mafalda. É muito bonita, alta. Uma jovem mulher quase da idade da minha filha mais nova, a Amélia. Antes da Amélia ir para a Alemanha trabalhar com o irmão no Hotel, ela foi colega da Mafalda no hipermercado. Mafalda ainda é operadora de caixa. Amélia também não encontrou destino melhor – lava a loiça na cozinha de um Hotel nos subúrbios de Berlin. Mafalda, do cimo dos seus 23 anos, exala tédio, desafia a vida. - Senta-te, Mafalda. Fala-me de ti, disse eu. Esboçou outro sorriso fabricado, sem vida, sem garra. Os traços perfeitos do seu rosto e o lindo corpo bem torneado que desafia a perfeição divina, ficam esmagados sob o sorriso artificial de fim de dia. Mafalda respira tédio. Tédio da vida. Mafalda chora uma raiva incontida: a de não ser capaz de ser coerente consigo mesma. Passa os dias a olhar para o relógio de forma obsessiva, aguardando desesperadamente pela hora de ir dormir implorando a um qualquer deus não mais acordar. Mafalda não sabe porquê, não sabe por que o espelho lhe devolve uma imagem destruída e vazia em vez de uma bela mulher. Não conta os suspiros. Suspira de tédio, de enfado. Os seus movimentos são lentos, arrastados, melancólicos. - Estou cheia de pressa, atrasadíssima., como sempre, responde-me. Assim se desculpa e se levanta de forma paradoxalmente lenta, esboçando mais um sorriso fabricado e sussurrando: - Até amanhã. Foi isso o que ela me disse acerca de si própria. Mafalda parece que passa pela vida sem a vida dar por ela. Se calhar disse-me muito de si: estou atrasadíssima, como sempre. Sim, Mafalda está atrasada para a vida, para o sopro. Demora-se muito. Não chega. – Como sempre, Mafalda está onde já não está, Mafalda é onde já nada existe. Tédio da vida. Mafalda exala tédio, cheira a Verão e a cansaço de fim de dia. Os suspiros são quentes e abafados. Deve estar a olhar para o relógio contando os minutos que faltam para se deitar. Não mais acordar é o sonho que embala aquele corpo bem delineado criado por qualquer artífice divino num tempo antes do tempo. Fico mais uns minutos. O jornal continua à minha frente. O rosto de Fernanda petrificado e eternizado naquela fotografia, lava-me a alma. Mesmo agora, depois de ter deixado de lutar, Fernanda inunda-me de tristeza e força. Fernanda leva o tédio da Mafalda para aquelas cadeiras e transforma-as em amor e esperança. Naquelas cadeiras Fernanda deixou a dor da ausência de um amor que lhe faltou por 14 anos, um amor que se destruiu na sua frente, desafiando a gravidade numa varanda de um 6º andar sobre o mar. Penso que de cada vez que a Fernanda olhava o mar no conforto, do seu sofá negro, via Francisco a dar o salto no escuro, o passo para o desconhecido, para a “liberdade”, como proferira instantes antes da queda. - Posso levantar a chávena?, perguntou o empregado de mesa. - Claro, respondi. Desculpe. Estava distraídoPenso, finalmente em ir-me embora. Fecho o jornal, dobro-o e entrego-o a uma senhora que está na mesa ao lado que o pede para ler. - Ora viva, sr. João! Confesso que gosto bem mais de o ver sentado nestas cadeiras!. Era Paula. Estava a trás de mim. Havia acabado de entrar. Esbocei um grande sorriso. Havia acabado de entrar a minha luz, o meu alento. Ali estava Paula, carregada com a dor dos outros, procurando esquecer a sua. O café inunda-se de luz uma brisa primaveril invade-me as narinas-As cadeiras estão antes e depois de nós…apenas passamos por elas, respondi.

 Isabel Maia

Algo de meu

Não sinto que tenha algo de meu, algo que valha a pena,
Algo que realmente fique depois de eu ser EU.
Há um divórcio entre mim e a vida, entre mim e o mundo,
Entre o que quero e o que posso ter,
Entre o que tenho e o que queria ter,
Uma angústia permanente, um loucura lúcida,
Uma estranha forma de ser.
E as paredes recontam as vezes
Em que a fúria arremessou sonhos adiados
E as manhãs se erguem para SER outra vez,
mas nada acalma, nada sossega, nada adormece.
E cada vez que toco os sonhos perdidos,
Sinto que algo se esvai e sufoca
E volto a fazer de contas que a vida
É construir tudo sobre momentos idos.
Não tenho nada de meu, apenas silêncios roucos.
Não me tenho sequer, não sou nem mesmo o que julgo ser…
Eu sou uma vontade imensa de gritar mais alto,
De gritar tão alto, mas tão alto…
De atirar para longe os silêncios roucos
Para ser apenas eu, apenas eu…no meio dos outros…

Isabel Maia

    Ainda Pascal....

    Eis-me no cabeleireiro. Uma ida inevitável ao cabeleireiro. Uma daquelas coisas que é necessário fazer de vez em quando…

         Parece ser o local menos propício à reflexão, mas sem quase dar por isso, ouço as conversas que me circundam, olho para as imagens na televisão que está ligada, enquanto espero com uma paciência estóica a minha vez. Apetece-me escrever. Peço papel (caneta já tinha!) e começo…vêm-me logo à mente as sábias palavras de Pascal que dizia que não nos contentamos com a vida que temos em nós e no nosso próprio ser: queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária e esforçamo-nos por assim o parecer. (*)

         Ainda Pascal, sempre actual…

         Vivemos num “mundo light”, com ideias e pensamentos “light”. Afastados de nós mesmos, percorremos corredores barulhentos de centros comerciais frenéticos, procurando entrar na avalanche, juntos, mas sós, em direcção a um “não-sei-quê” que nos faz mover.

         Pensar parece incomodar cada vez mais e, fundamentalmente, incomodar os outros. Num mundo “light”, pensar é pesado, pesado demais. Procura-se viver da ilusão de se ser algo e já não alguém. Foge-se do olhar do outro como se foge do pensamento. Em última instância, foge-se de nós mesmos. E o que se desvela, apenas se esconde, cada vez mais. Em roupas de Barbie, onde não é suposto caber-se, desfila-se, desvela-se o corpo na ausência da alma.

         Somos invadidos, diariamente, pelos reflexos de uma sociedade vazia. Pretendem tolher-nos o pensamento…a televisão “bombardeia-nos” com o apelo aos sentidos e prolifera, por todo o lado, uma ética da quantidade. Trata-se de viver mais depressa, estamos na época do fast, é preciso sentir a adrenalina, esgotar e esgotar-se. Esvai-se o respeito pela VIDA, pelo Outro. O Homem canaliza o seu vazio, o seu “sem-sentido” para o mais fraco. Subjugar é assumir o impoder; subjugar é esquecer a culpa. Deixamos de ter tempo para a alma, deixamos de querer saber disso. Num mundo “fast”, interessa o já feito, pronto a digerir, a consumir, o caminho já por muitos percorrido. Tudo, menos PENSAR.

         E quando o frio dá lugar às temperaturas amenas, a chuva ao sol, pensar torna-se ainda mais penoso. Assim, quando a Primavera começa a surgir, a beleza da Natureza confunde-se com a imbecilidade humana. As revistas invadem-nos com corpos perfeitos ao alcance de todos (e por que é que todos haveríamos de querer ter corpos perfeitos??), belas roupas (supostamente…) que apenas podem assentar bem em cabides ou cruzetas, dietas milagrosas, curas para todos os males (mas quais são os verdadeiros males??), notícias bombásticas que alimentam a futilidade, a vida alheia, destinos de férias paradisíacos, novas e aliciantes possibilidades de crédito, fantásticos testes para descobrir (finalmente!!) a “alma gémea”, deliciosas receitas saudáveis que não engordam (?), dicas preciosas para reconquistar o seu ex-namorado, enfim…a lista é infindável. Pergunto agora: e o SER? Sim, no meio de tudo isto, apetece-me gritar: ONDE ESTÁ O SER? O SENTIDO? O CAMINHO? O grito é tão alto e estridente que quase desfaleço. Recebo de volta o eco da minha voz que se entranha no vazio…não há nada, nem ninguém para me ouvir para além do meu cão que me olha, fixamente, com uns olhos tristes…desesperado por EU ser humana.

         Sento-me no chão, encosto-me ao armário e consolo-me no seu pelo fofo e quente. Aquela respiração canina no meu pescoço humano, devolve-me à esperança. Um olhar, um gesto, um abraço e eis que os dois fazemos parte de um só mundo, um mundo do qual ele apenas conhece a amizade, o amor, o perdão, a fidelidade. Rola uma lágrima, mas sinto-me segura. Acredito que me encontro e que sou EU cada vez que deixo voar o pensamento…

         E vêm-me, novamente, à mente as palavras de Pascal: Ora em que pensa o mundo? Nunca em tais coisas; mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em correr à argola, etc.; em bater-se, em fazer-se rei, sem pensar no que é ser rei e ser homem.

Isabel Maia

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Memórias

 Os dias que passam lentos

E não lembram nada...
 Entre os ruídos da rua e do vento nas árvores,
Desenha-se uma breve memória de ti,
Das palavras, dos gestos, de um modo de estar...
 
Memória suave e ténue
Gasta pela sombra da morte
Que descendo sobre as nossas vidas,
Marcou uma distância impossível de conter...
 
Onde estão os teus sonhos, o teu sentido?...
Respondem-me as lágrimas que rondam
As palavras que ficam por dizer...
Chegam, por vezes, até mim
Em mensagens que só nós podemos partilhar...
 
É o sentido de um sentimento que a morte não termina,
O início de uma nova existência
Que a memória nos fez partilhar....
 
 
Isabel Maia


Mortalidade
 
   Por vezes, ecoam em mim uma série de questões. Questões já colocadas por muitos outros antes de mim e, certamente, a colocar por muitos depois de mim. São as questões que nos arrebatam, que nos acordam de um sono ténue e frágil. Quem sou eu? O que sou eu? Parecem perguntas absurdas. Em última análise é comum pensar-se que, pelo menos, se não se sabe quem somos, sabe-se o que somos. Mas não acredito. A proximidade perigosa com que lidamos a propósito do nosso Eu, dificultaria toda e qualquer tarefa de busca séria…

            Às vezes, as noites alargam-se, aqui, no escritório e as perguntas enroscam-se-me nos pés. Que forma de ser, esta, a minha!!..Aborrece-me ser eu própria…às vezes. Aborreço-me de ser eu. Tantas perguntas e depois o desafio/vazio de não lhes encontrar resposta.

            Enquanto tudo dorme, toca muito baixinho Kitaro e o pau de incenso com aroma de chá verde, já acabou. A atmosfera é, simultaneamente, densa e suave. Não sei porquê, mas hoje sinto-me terrivelmente mortal. Sinto que o mundo era o mesmo antes de mim e será o mesmo depois de mim. Passo por aqui como uma brisa e, como uma brisa abano, levemente, quem por mim se deixa abanar. Uma brisa que abana, por instantes umas folhinhas que, rapidamente, voltam ao seu lugar. E senão tivesse passado? Terá esse breve, fugaz mover de folhas modificado alguma coisa no mundo. Não, penso. Nada se modificou. Ficou apenas em mim esse aparente banal “chocalhar” de folhas, como um rasto da minha passagem.

            É assim. Sinto-me mortal, terrivelmente mortal. Definitivamente mortal.

            Ainda há pouco estava lá em baixo, sentada na carpete da cave, com o meu cão. Que delícia! Quanta espontaneidade e inconsequência pode ter um cão?? É o brilho da vida, do momento, do êxtase. Enquanto eu brinco com ele, não faz perguntas tolas…não as faria, nunca. Sabe entregar-se ao sabor do momento. Sabe ser a dádiva. Que liberdade, a sua! Que inveja, a minha! Ele não hesita, não se desvia, não recua, não antecipa. Ele é. Simplesmente, é. Sem saber quem é, o que é, ele pode ser. Em toda a sua autenticidade. Não se sente mortal. Não se confronta. Não se sente cercado numa atmosfera de incenso acabado de queimar. Para ele é só um lugar quente, familiar, confortável e seguro onde pode estar. Ele é sem o saber. Eu não sei se sei quem sou. Sinto-me assim, hoje: terrivelmente mortal.

 

Isabel Maia
O Intervalo

    A vida acontece no intervalo do que planeamos e o que acontece são os sonhos que nos esquecemos de sonhar. Temos tendência a racionalizar e a mecanizar a existência considerando o sonho uma dimensão de menoridade, própria de quem anda alheado da vida ou, então, a quem ela, em si, pouco ou nada diz. A dimensão do cálculo inerente à nossa condição de sapiens, arremessa-nos para o futuro mais ou menos longínquo onde tem lugar o plano. O plano alicia…e porquê? O plano é o “ainda não” e, simultaneamente, aquilo que é suposto controlar e dominar. O plano é o indisponível adiado que se julga poder controlar. E não é curioso que esse indisponível (justamente por sê-lo) se torna naquilo que permanentemente se modifica sem ter nunca chegado, algum dia, a ser? “Mudei de planos”. Quantas vezes o dizemos ou ouvimos dizer? Estamos a mudar o que nunca foi. Em rigor não estamos a mudar nada, rigorosamente nada, apenas a afirmar (ainda que a nível quase inconsciente) uma vontade de domínio e de controlo.

            O plano não está no passado. No passado está quase tudo o que escapou ao plano, em última análise, no passado estamos NÓS. Os planos ficaram lá onde nunca chegaram a ser e nós fomos, simplesmente fomos por entre tudo o que planeamos. Não há autenticidade no plano. O plano é do domínio da intenção. A vida joga-se no momento da acção, a vida joga-se nos intervalos do previsto porque, em última instância, a vida é o que não controlamos. É do domínio do espontâneo, do incontornável. Por isso ela assusta. Escorre por entre os dedos e não sabemos suportar o que é fugaz. Queremos perpetuar-nos, tornar-nos presentes para sempre, de alguma forma e em algum lugar. Esquecemo-nos do intervalo.

            À noção de intervalo está sempre associada a e pausa, isto é, o intervalo é o que está depois do que se fez e antes do que se vai fazer. É o momento, por definição, neutro, infrutífero, estéril, mas tão desejado: o intervalo das aulas, do filme, da tarde de estudo ou de trabalho. Valorizamos o intervalo enquanto condição para a continuidade do sucesso do que estávamos a fazer ou, até, para que este tenha lugar: “Vamos parar um pouco?”; “Por que não fazer um intervalinho?”; “Está na hora do intervalo” (atenção, o intervalo, às vezes, tem hora!!!)…quantas vezes dizemos ou ouvimos dizer isto? O intervalo é o lugar da autenticidade, da vida. Nós somos efectivamente o que somos, no intervalo do que fazemos. Se pensarmos um pouco melhor apercebemo-nos de que, se calhar, não conhecemos ninguém (ou então, poucas pessoas) que num intervalo do que quer que seja prefiram a total solidão, o encontro consigo mesmas. Ao intervalo está associada a leveza. Não é suposto o confronto com nós mesmos. A verdade é que é exactamente ao contrário! É no intervalo que a vida acontece. É no intervalo que somos. O intervalo é o lugar da solidão por excelência que a todo o custo procuramos evitar trazendo sempre mais alguém ou mais alguma coisa para o nosso intervalo. Parece que não é suposto estar-se só no intervalo!

            E assim termino, eu própria, o meu intervalo. Escrevi este texto num intervalo do trabalho. Nada estava planeado. Nem o trabalho, nem o texto, nem o intervalo. Através do texto desfizer qualquer plano. Através do texto aconteci. No intervalo SOU.

Isabel Maia

A propósito da Morte

     Epicuro dizia que “nada há de terrível na vida para o homem que compreendeu que nada há de terrível em não viver” Esta tranquilidade perante a vida e perante a morte, quase chega a ser obscena para o comum dos mortais. Por que motivo nos recusamos? Por que motivo recusamos a morte enquanto aniquilação? Desde tempos imemoriais que o homem se debate consigo próprio, com a sua irredutível mortalidade, com a sua fragilidade, com a falta de si. Epicuro dizia que a morte não “está connosco”, nem enquanto vivos nem enquanto mortos, pois para os vivos ela nada é e, para os mortos, esses, já não são. Assim, a morte atravessa-nos sem nos tocar e da morte não há sensação. Se calhar é justamente a ânsia da imortalidade que torna a vida absurda e não a própria mortalidade. Invejo Epicuro, mas não sou epicurista. A morte está aqui, já ao lado, em qualquer momento. Se não quiser esperar por ela, posso procurá-la. Ela está aqui, simplesmente está. Está na vida. É isso: a morte está na vida. Qual o sentido?E porquê tantas perguntas?

            Na radical inquietude que tece o homem, espreita a ânsia da eternidade. Queremos, em tudo, nos eternizar…nos gestos, na memória dos outros, nos genes que insistimos remeter para uma outra geração. Pedaços de nós. Aos bocados, vamos indo. Vamo-nos espalhando pelo tempo, ao longo de gerações. Vem-me à memória o Caso Makropulos, Emília, que tomou o elixir da vida e que não aguenta viver mais…342 anos…uma vida entregue ao aborrecimento e ao tédio, à indiferença, à frieza. É este o vislumbre da eternidade.

            Mas o “eu”? E o “eu”? Sim, porque gritamos “e eu?”. A morte é intransmissível. É solitária, por natureza, o momento de maior e profunda solidão. Ninguém, rigorosamente, ninguém, morre COMIGO. Morro só, mesmo rodeada de muitas pessoas que me aconchegam e seguram a mão. Estou só. Nesse momento derradeiro sou só eu e o desconhecido. Os outros morrem…sós…cada um…um de cada vez…e EU? Esta é a pergunta. Esta é a barreira. Entra agora a imaginação. A fuga. O medo. “Se eu fosse árvore entre árvores, gato entre os animais (…)” (como dizia Camus)…só que não sou, não sou nada disso. Sou uma descendente do Sapiens-Demens, alguém que esquece a natureza em si. E a morte torna-nos iguais. Todos. Humanos e não-humanos. Convergimos para um fim, sozinhos e juntos. O vértice. A perfeição.

            Queremos agarrar o mundo, dominar a morte. Convivemos mal com o transitório. Parece-nos fraqueza. É isso. Queremos enraizar num terreno minado. Talvez o único sentido seja mesmo esse: não se agarra…antes persegue-se e...foge. Transitoriedade. Eis a nossa condição. Aceitá-la seria o primeiro passo e num instante adormeceríamos na quietude envenenada de Epicuro.

            Nenhum outro ser se maravilha com a existência na exacta medida em que a teme. Só o homem.

 Isabel Maia

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    Foi sem querer! Foi sem querer. Eu amava-a mais do que a mim própria. Foi sem querer! Repito estas palavras para mim mesma, vezes sem conta. Arrasto-me por estes corredores sempre iguais, impecavelmente assépticos. São o lugar mais impessoal do mundo. Tudo aqui é distância.

Não sou só eu que digo foi sem querer. Os médicos, os enfermeiros e todos os que por aqui se arrastam, sussurram-me ao ouvido foi sem querer, foi sem querer.Não te martirizes, Antónia, foi sem querer. Eu sei que foi sem querer. Vão por-te boa aqui, vais ver. Vão por-nos boas aqui, vais ver, diz Carolina, uma rapariga muito nova que envelheceu e se cansou nda vida. Após inúmeras tentativas de suicídio falhadas, passou a arrastar-se por estes corredores com aquela camisa de dormir quase tão branca como a sua esquálida pele. De olhos vazios, rosto magro, lábios gretados, ela sussurra a todos os que encontra pelos corredores : foi sem querer, eu sei que foi sem querer.

Sento-me exausta num dos bancos, algures num dos corredores todos iguais. Solto os ombros, atiro a cabeça para trás. Sinto-me tonta, a desfalecer.

Estes corredores, estes sons arrastados. Sinto dor. Sinto que morro, aqui, aos poucos. Carolina procura, deseperadamente, todos os dias, alguma coisa com que se possa trespassar, definitivamente, enquanto sussurra, de forma absurda a quem passa: eu sei que foi sem querer, eu sei que foi sem querer.

Não sei há quanto tempo estou aqui. Nunca ninguém apareceu. Também nunca tive ninguém. Arranquei ao mundo, com as minhas próprias mãos, quem eu mais amava. Não há mais nada. Oh, meu Deus! Foi sem querer, foi sem querer, repito, repito, repito....

- Segure-a bem, enfermeira Andreia. Tenho de lhe dar outra injecção, bem mais forte. Ela tem de descansar- disse uma das médicas que aparece no meu quarto de vez em quando com uns papéis, uma caneta e aquele ar de quem sabe ler pensamentos. Mas não sabe. Não sabe nada. Ela não sabe.

Eu amava Ana. Amava-a mais do que a mim própria. Ana não compreendeu nunca. Eu não podia permitir que ninguém e, muito menos Ana, brincassem, zombassem com o que eu sentia. Naquela noite eu estava furiosa. A Ana tinha saído para ir tirar umas fotocópias que precisava para terminar um trabalho que tinha de entregar na faculdade. Disse que não demorava nada. Até já!, disse. Regressou 6 horas depois, nos braços de uma colega com quem tinha ido beber "qualquer" coisa. Estava completamente embriagada. Riu-se às gargalhadas quando me viu. Zombou da minha preocupação. Insultou-me. Chamou-me tarada, esquizofrénica e desequilibrada. Disse-me que eu tinha de arranjar urgentemente um namorado. Fiquei transtornada, desvairada. Controlei-me. Tratei dela. Ela precisava de mim. Pu-la no chuveiro, ajudei-a a vestir o pijama enquanto ela continuava a dizer aquelas coisas. Fiz-lhe um chá de ervas. Abri-lhe a cama. Ajudeia-a a deitar-se. Ajoelhei-me ao seu lado. Levei a palma da sua mão esquerda ao meu rosto e beijei-a delicadamente, enquanto sussurrava o seu nome e as lágrimas rolavam silencisamente pela cara abaixo.

De repente, Ana sacudei a mão. Afastou-me bruscamente e chamou-se louca e desequilibrada.

Não sei o que se passou. Algo aconteceu dentro da minha cabeça, do mei peito...enchi-me de uma fúria ofendida, desaveinda, de um orgulho humilhado, de um amor que não conseguia conter e atirei, furiosamente, as minhas mãos para o seu pescoçoe apertei, apertei, apertei, apertei e chorava, chorava, chorava....apertei até o pânico esguichar dos seus olhos vermelhos. Debateu-se, mas não tinha forças. Continuei a apertar, a apetar...larguei. Ana sussurrou qualquer coisa. Fui a correr à secretária, ao fundo do quarto, buscar a minha faca de abrir a correspondência e espetei cada bocadinho do seu corpo. Precisava de sentir o sangue dela na minha pele. Ana! Ana! O que é que eu fiz? Ana! Ana! Desatei a gritar...não sei quanto tempo isto durou..lancei-me a correr pelas escadas abaixo até ao exterior do prédio...lembro-me de correr, correr...o sangue da Ana estava quente, na minha pele...mais nada...Ana, Ana...

Amor, meu amor...foi sem querer...Ana, meu amor...

O tempo parou. Não sei. Quando me lembro de mim, já aqui estou nestes corredores. Não sei o que mais se passou. Não sei onde enterrarram a minha Ana. Não sei onde ela está. Entre o momento em que corri pela rua fora cheia do sangue no meu corpo até ao dia em que acordei aui, não há nada.

Foi sem querer, foi sem querer. Repito incessantemente para mim própria estas palavras. A dor do olhar de Ana, o seu pavor, turvam-me os olhos e as lágrimas pingam sobre o meu orgulho ferido. Não podias, Ana. Não podias ter feito aquilo...Ana, Ana...

- Deixe estar, enfermeira. Está bom. Ela já fica. Amanhã dá-se mais.

- Está bem, Dra. Eu vou ao outro casal.

Ana, Ana...tu sabes que foi sem querer...foi sem querer...

Isabel Maia

  A Propósito de Nada

 
A propósito de nada,
Também se escrevem sentidos,
Muros altos, opacos, densos
De onde me observo e escapo
Por entre labirintos...

 

A propósito de nada,
Se trocam os sonhos por ilusões,
Se tecem efemeridades,
Se enviezam sentimentos,
Se transmutam palavras,
Se recriam verdades.
 
A propósito de nada,
Perdem-se as palavras por dizer,
Dilui-se o tempo num espaço definido,
Esqueço-me de mim e procuro,
Esqueço-me do limite e sonho
Com um infinito que corresse a meu lado.
 
A propósito de nada,
Para e escuto o silêncio.
A propósito de nada,
Limito e racionalizo o momento.
A propósito de nada,
Tudo o que sei e sinto se torna pensamento.
 
A propósito de tudo,
Me sinto ser mais do que vejo,
Me sinto ser mais do que penso,
Me sinto ser mais do que quero,
Me sinto ser mais do que sonho,
Me sinto ser mais do que consigo...
 
A propósito de nada,
Me sinto pensar, pensar,
Ser e não ser, sonhar e ver...
A propósito de tudo,
Entrego às palavras o simples querer...
Enreda-se no poema, uma forma de ser...
 
A propósito de tudo, penso em nada.
A propósito de nada, sinto tudo.

Isabel Maia

Por Aquilo Que Ficou Por Dizer

Por tudo aquilo que ficou por dizer…
assim começa a Saudade…
a minha saudade de ti.

É inútil acreditar que o mundo
possa continuar o mesmo,
quando as imagens e as memórias
se entrelaçam no meu pensamento.
Perdem-se as palavras que não disse,
as coisas que não fiz…
fica a ilusão de que o Tempo,
que as arremessa, as trará de volta para tas dizer…
…num sonho, numa saudade
ou numa lágrima que teima em cair.
 
Pergunto-me pelo sentido de tudo, num espaço onde o Tempo
me oprime e desgasta as minhas forças…
tenho a ilusão de que ouves
os ecos dessas palavras perdidas
numa existência que só a ti pertence…
e acredito que Longe,
nessa distância que nos separa,
vai continuar a crescer um sentimento
que as palavras não dizem,
que os sonhos não abrigam
e que te traz ao presente,
nos meus pensamentos e no meu coração.
 
Por tudo aquilo que ficou por dizer…
fica apenas a saudade e a certeza
de um vazio impossível de preencher…

Isabel Maia
Up

Da Morte

          Epicuro dizia que “nada há de terrível na vida para o homem que compreendeu que nada há de terrível em não viver” Esta tranquilidade perante a vida e perante a morte, quase chega a ser obscena para o comum dos mortais. Por que motivo nos recusamos? Por que motivo recusamos a morte enquanto aniquilação? Desde tempos imemoriais que o homem se debate consigo próprio, com a sua irredutível mortalidade, com a sua fragilidade, com a falta de si. Epicuro dizia que a morte não “está connosco”, nem enquanto vivos nem enquanto mortos, pois para os vivos ela nada é e, para os mortos, esses, já não são. Assim, a morte atravessa-nos sem nos tocar e da morte não há sensação. Se calhar é justamente a ânsia da imortalidade que torna a vida absurda e não a própria mortalidade. Invejo Epicuro, mas não sou epicurista. A morte está aqui, já ao lado, em qualquer momento. Se não quiser esperar por ela, posso procurá-la. Ela está aqui, simplesmente está. Está na vida. É isso: a morte está na vida. Qual o sentido?E porquê tantas perguntas?

            Na radical inquietude que tece o homem, espreita a ânsia da eternidade. Queremos, em tudo, nos eternizar…nos gestos, na memória dos outros, nos genes que insistimos remeter para uma outra geração. Pedaços de nós. Aos bocados, vamos indo. Vamo-nos espalhando pelo tempo, ao longo de gerações. Vem-me à memória o Caso Makropulos, Emília, que tomou o elixir da vida e que não aguenta viver mais…342 anos…uma vida entregue ao aborrecimento e ao tédio, à indiferença, à frieza. É este o vislumbre da eternidade.

            Mas o “eu”? E o “eu”? Sim, porque gritamos “e eu?”. A morte é intransmissível. É solitária, por natureza, o momento de maior e profunda solidão. Ninguém, rigorosamente, ninguém, morre COMIGO. Morro só, mesmo rodeada de muitas pessoas que me aconchegam e seguram a mão. Estou só. Nesse momento derradeiro sou só eu e o desconhecido. Os outros morrem…sós…cada um…um de cada vez…e EU? Esta é a pergunta. Esta é a barreira. Entra agora a imaginação. A fuga. O medo. “Se eu fosse árvore entre árvores, gato entre os animais (…)” (como dizia Camus)…só que não sou, não sou nada disso. Sou uma descendente do Sapiens-Demens, alguém que esquece a natureza em si. E a morte torna-nos iguais. Todos. Humanos e não-humanos. Convergimos para um fim, sozinhos e juntos. O vértice. A perfeição.

            Queremos agarrar o mundo, dominar a morte. Convivemos mal com o transitório. Parece-nos fraqueza. É isso. Queremos enraizar num terreno minado. Talvez o único sentido seja mesmo esse: não se agarra…antes persegue-se e...foge. Transitoriedade. Eis a nossa condição. Aceitá-la seria o primeiro passo e num instante adormeceríamos na quietude envenenada de Epicuro.

            Nenhum outro ser se maravilha com a existência na exacta medida em que a teme. Só o homem.


Isabel Maia



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