| Os meus rabiscos... A Dor Algo de Meu Ainda Pascal Memórias Mortalidade O Intervalo A propósito da morte Corredores A propósito de nada Por tudo aquilo que ficou por dizer Da morte Os rabiscos dos meus alunos... Deus: uma resposta para existência, por Márcia Oliveira, Esc.Sec.Dr.Manuel Laranjeira, Junho 2006 |
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A Dor
É
quase inevitável olhar para aquelas cadeiras e me ver ali, a
mim, há cerca de
dois anos. Será que alguém reparara em mim, como eu
reparara nela? Não, não
acredito. Quem iria reparar num homem de meia-idade, careca e de
estômago
dilatado por anos e anos de vida desregrada, marcada pelo
álcool?...Agora tudo
isso não passa de uma lembrança amarga. A doença
levou-me o estômago dilatado.
O álcool já me havia “levado” três esposas que
não aguentaram. A vida
recomeçou. Sorvo este café em pequenos tragos. Fecho os
olhos sentindo aquele
líquido quente e algo amargo, descer pela garganta. Por cada
trago, bebo a
vida, sinto a vida. Procuro desviar a atenção para outras
notícias do jornal,
mas aquela fotografia dela e o texto frio e longínquo,
remeteram-me para
aquelas cadeiras de hospital. Cândida chegou a conhecer uma
parente dela – uma
prima - que, por sua vez, era amiga de uma cliente lá do
cabeleireiro. De
quando em vez, aparecia lá com a amiga e, para não
parecer mal de todo,
arranjava as unhas. A Cândida foi conhecendo algo acerca da
Fernanda
(essencialmente depois de ela ter partido) enquanto cortava cabelos.
Sim, a
morte trágica de alguém evoca memórias enterradas,
ressuscita pormenores
macabros e alimenta a mesquinhez de muitas vidas. Talvez eu tenha
conhecido
mais da Fernanda quando atentava no seu rosto perdido e no seu corpo
robusto
que se aninhava naquelas cadeiras. Há catorze anos lutava contra
uma
memória……Paula. Paula
era uma enfermeira do serviço de Oncologia. Nova. Muito
simpática. -Vá lá…o
Sr….como se chama? Não tenho ali a sua ficha! – disse. -Ah,
desculpe…chamo-me
João Costa, disse meio atordoado. -Bem, preciso que me acompanhe
até ao guiché.
Preciso do seu BI e cartão do utente. Desconfio que a ficha
está noutro
serviço, disse Paula. Assim acompanhei Paula, a enfermeira que
me deu luz e
tornou aquelas cadeiras menos dolorosas. Ela própria tão
frágil e insegura…mas
era ela que dava alento. De uma vez, enquanto eu procurava esticar a
vida
naquelas cadeiras, disse-me: - Sr. João, outra vez a dormitar?
Não temos tempo!
É preciso lutar pela vida! Temos de cuidar da máquina!,
disse. Eu sorria.
Aquela analogia entre a luta pela vida e o que eu fazia na oficina com
os caros
era, no mínimo, curiosa. Ela perguntava-me, muitas vezes, como
é que eu era
capaz de por como um novo um carro que havia chegado destruído
à oficina e não
era capaz de compreender que um homem, cheio de vida, como eu, venceria
esta
batalha para desafiar o tempo? Paula, a enfermeira incansável,
na sua profunda
solidão, transportava a mágoa e histórias de todos
os seus doentes. Uma mãe
ausente e displicente e um irmão bastante difícil que se
perdia nas ruas da
cidade, eram o que a esperava, todos os dias, quando regressava a casa
transportando a dor dos outros, esquecendo a sua. …Esqueci-me
do café. O que dele resta está frio. Perdi-me nos meus
pensamentos e no rosto
de Fernanda. Preparo-me para sair quando vejo Mafalda. Ela
esboça um sorriso
fabricado, sem vida próprio e dirige-se ao balcão do
café. Faço-lhe sinal com o
braço. Mafalda aproxima-se e, perante a minha insistência,
acaba por sentar-se. Senta-se.
Contudo, fica meia de lado, numa pontinha da cadeira revelando,
desta forma, uma pressa inusitada, uma necessidade de partir para um
qualquer
outro lugar. É quase
impossível não reparar em Mafalda. É muito bonita,
alta. Uma jovem mulher quase
da idade da minha filha mais nova, a Amélia. Antes da
Amélia ir para a Alemanha
trabalhar com o irmão no Hotel, ela foi colega da Mafalda no
hipermercado. Mafalda
ainda é operadora de caixa. Amélia também
não encontrou destino melhor – lava a
loiça na cozinha de um Hotel nos subúrbios de Berlin.
Mafalda, do cimo dos seus
23 anos, exala tédio, desafia a vida. - Senta-te, Mafalda.
Fala-me de ti, disse
eu. Esboçou outro sorriso fabricado, sem vida, sem garra. Os
traços perfeitos
do seu rosto e o lindo corpo bem torneado que desafia a
perfeição divina, ficam
esmagados sob o sorriso artificial de fim de dia. Mafalda respira
tédio. Tédio
da vida. Mafalda chora uma raiva incontida: a de não ser capaz
de ser coerente
consigo mesma. Passa os dias a olhar para o relógio de forma
obsessiva,
aguardando desesperadamente pela hora de ir dormir implorando a um
qualquer
deus não mais acordar. Mafalda não sabe porquê,
não sabe por que o espelho lhe
devolve uma imagem destruída e vazia em vez de uma bela mulher.
Não conta os
suspiros. Suspira de tédio, de enfado. Os seus movimentos
são lentos,
arrastados, melancólicos. - Estou cheia de pressa,
atrasadíssima., como sempre,
responde-me. Assim se desculpa e se levanta de forma paradoxalmente
lenta,
esboçando mais um sorriso fabricado e sussurrando: - Até
amanhã. Foi isso o que
ela me disse acerca de si própria. Mafalda parece que passa pela
vida sem a
vida dar por ela. Se calhar disse-me muito de si: estou
atrasadíssima, como
sempre. Sim, Mafalda está atrasada para a vida, para o sopro.
Demora-se muito.
Não chega. – Como sempre, Mafalda está onde já
não está, Mafalda é onde já nada
existe. Tédio da vida. Mafalda exala tédio, cheira a
Verão e a cansaço de fim
de dia. Os suspiros são quentes e abafados. Deve estar a olhar
para o relógio
contando os minutos que faltam para se deitar. Não mais acordar
é o sonho que
embala aquele corpo bem delineado criado por qualquer artífice
divino num tempo
antes do tempo. Fico mais uns minutos. O jornal continua à minha
frente. O
rosto de Fernanda petrificado e eternizado naquela fotografia, lava-me
a alma. Mesmo
agora, depois de ter deixado de lutar, Fernanda inunda-me de tristeza e
força. Fernanda
leva o tédio da Mafalda para aquelas cadeiras e transforma-as em
amor e
esperança. Naquelas cadeiras Fernanda deixou a dor da
ausência de um amor que
lhe faltou por 14 anos, um amor que se destruiu na sua frente,
desafiando a
gravidade numa varanda de um 6º andar sobre o mar. Penso que de
cada vez que a
Fernanda olhava o mar no conforto, do seu sofá negro, via
Francisco a dar o
salto no escuro, o passo para o desconhecido, para a “liberdade”, como
proferira instantes antes da queda. - Posso levantar a chávena?,
perguntou o
empregado de mesa. - Claro, respondi. Desculpe. Estava
distraídoPenso,
finalmente em ir-me embora. Fecho o jornal, dobro-o e entrego-o a uma
senhora
que está na mesa ao lado que o pede para ler. - Ora viva, sr.
João! Confesso
que gosto bem mais de o ver sentado nestas cadeiras!. Era Paula. Estava
a trás
de mim. Havia acabado de entrar. Esbocei um grande sorriso. Havia
acabado de
entrar a minha luz, o meu alento. Ali estava Paula, carregada com a dor
dos
outros, procurando esquecer a sua. O café inunda-se de luz uma
brisa primaveril
invade-me as narinas-As cadeiras estão antes e depois de
nós…apenas passamos
por elas, respondi.
Não sinto que tenha algo de meu, algo que valha a pena, Algo que realmente fique depois de eu ser EU. Há um divórcio entre mim e a vida, entre mim e o mundo, Entre o que quero e o que posso ter, Entre o que tenho e o que queria ter, Uma angústia permanente, um loucura lúcida, Uma estranha forma de ser. E as paredes recontam as vezes Em que a fúria arremessou sonhos adiados E as manhãs se erguem para SER outra vez, mas nada acalma, nada sossega, nada adormece. E cada vez que toco os sonhos perdidos, Sinto que algo se esvai e sufoca E volto a fazer de contas que a vida É construir tudo sobre momentos idos. Não tenho nada de meu, apenas silêncios roucos. Não me tenho sequer, não sou nem mesmo o que julgo ser… Eu sou uma vontade imensa de gritar mais alto, De gritar tão alto, mas tão alto… De atirar para longe os silêncios roucos Para ser apenas eu, apenas eu…no meio dos outros… Isabel Maia Eis-me no
cabeleireiro. Uma ida inevitável ao cabeleireiro. Uma daquelas
coisas que é
necessário fazer de vez em quando…
Parece ser o local menos propício à
reflexão, mas sem quase dar por isso, ouço as conversas
que me circundam, olho
para as imagens na televisão que está ligada, enquanto
espero com uma paciência
estóica a minha vez. Apetece-me escrever. Peço papel
(caneta já tinha!) e
começo…vêm-me logo à mente as sábias
palavras de Pascal que dizia que não nos
contentamos com a vida que temos em
nós e no nosso próprio ser: queremos viver na ideia dos
outros uma vida
imaginária e esforçamo-nos por assim o parecer. (*)
Ainda Pascal, sempre actual…
Vivemos num “mundo light”, com ideias e
pensamentos “light”. Afastados de nós mesmos, percorremos
corredores
barulhentos de centros comerciais frenéticos, procurando entrar
na avalanche,
juntos, mas sós, em direcção a um
“não-sei-quê” que nos faz mover.
Pensar parece incomodar cada vez mais
e, fundamentalmente, incomodar os outros.
Num mundo “light”, pensar é pesado,
pesado demais. Procura-se viver da ilusão de se ser algo
e já não alguém.
Foge-se do olhar do outro como se foge do pensamento. Em última
instância,
foge-se de nós mesmos. E o que se desvela, apenas se esconde,
cada vez mais. Em
roupas de Barbie, onde não é suposto caber-se,
desfila-se, desvela-se o corpo
na ausência da alma.
Somos invadidos, diariamente, pelos
reflexos de uma sociedade vazia. Pretendem tolher-nos o pensamento…a
televisão
“bombardeia-nos” com o apelo aos sentidos e prolifera, por todo o lado,
uma
ética da quantidade. Trata-se de viver mais depressa, estamos na
época do fast, é preciso sentir a
adrenalina,
esgotar e esgotar-se. Esvai-se o
respeito pela VIDA, pelo Outro. O Homem canaliza o seu vazio, o seu
“sem-sentido” para o mais fraco. Subjugar é assumir o impoder;
subjugar é
esquecer a culpa. Deixamos de ter tempo para a alma, deixamos de querer
saber
disso. Num mundo “fast”, interessa o já feito, pronto a digerir,
a consumir, o
caminho já por muitos percorrido. Tudo, menos PENSAR.
E quando o frio dá lugar às
temperaturas amenas, a chuva ao sol, pensar torna-se ainda mais penoso.
Assim,
quando a Primavera começa a surgir, a beleza da Natureza
confunde-se com a
imbecilidade humana. As revistas invadem-nos com corpos perfeitos ao
alcance de
todos (e por que é que todos haveríamos de querer ter
corpos perfeitos??),
belas roupas (supostamente…) que apenas podem assentar bem em cabides
ou
cruzetas, dietas milagrosas, curas para todos os males (mas quais
são os
verdadeiros males??), notícias bombásticas que alimentam
a futilidade, a vida
alheia, destinos de férias paradisíacos, novas e
aliciantes possibilidades de
crédito, fantásticos testes para descobrir (finalmente!!)
a “alma gémea”,
deliciosas receitas saudáveis que não engordam (?), dicas
preciosas para
reconquistar o seu ex-namorado, enfim…a lista é
infindável. Pergunto agora: e o
SER? Sim, no meio de tudo isto, apetece-me gritar: ONDE ESTÁ O
SER? O SENTIDO?
O CAMINHO? O grito é tão alto e estridente que quase
desfaleço. Recebo de volta
o eco da minha voz que se entranha no vazio…não há nada,
nem ninguém para me
ouvir para além do meu cão que me olha, fixamente, com
uns olhos
tristes…desesperado por EU ser humana.
Sento-me no chão, encosto-me ao armário
e consolo-me no seu pelo fofo e quente. Aquela respiração
canina no meu pescoço
humano, devolve-me à esperança. Um olhar, um gesto, um
abraço e eis que os dois
fazemos parte de um só mundo, um mundo do qual ele apenas
conhece a amizade, o
amor, o perdão, a fidelidade. Rola uma lágrima, mas
sinto-me segura. Acredito
que me encontro e que sou EU cada vez que deixo voar o pensamento…
E vêm-me, novamente, à mente as
palavras de Pascal: Ora
em que pensa o
mundo? Nunca em tais coisas; mas em dançar, em tocar
alaúde, em cantar, em
fazer versos, em correr à argola, etc.; em bater-se, em fazer-se
rei, sem
pensar no que é ser rei e ser homem. Isabel Maia Up
Desenha-se uma breve memória de ti, Das palavras, dos gestos, de um modo de estar... Memória suave e ténue Gasta pela sombra da morte Que descendo sobre as nossas vidas, Marcou uma distância impossível de conter... Onde estão os teus sonhos, o teu sentido?... Respondem-me as lágrimas que rondam As palavras que ficam por dizer... Chegam, por vezes, até mim Em mensagens que só nós podemos partilhar... É o sentido de um sentimento que a morte não termina, O início de uma nova existência Que a memória nos fez partilhar.... Isabel Maia Mortalidade
Às vezes, as noites alargam-se,
aqui, no escritório e as perguntas enroscam-se-me nos
pés. Que forma de ser,
esta, a minha!!..Aborrece-me ser eu própria…às vezes.
Aborreço-me de ser eu.
Tantas perguntas e depois o desafio/vazio de não lhes encontrar
resposta.
Enquanto tudo dorme, toca muito
baixinho Kitaro e o pau de incenso com aroma de chá verde,
já acabou. A
atmosfera é, simultaneamente, densa e suave. Não sei
porquê, mas hoje sinto-me
terrivelmente mortal. Sinto que o mundo era o mesmo antes de mim e
será o mesmo
depois de mim. Passo por aqui como uma brisa e, como uma brisa abano,
levemente, quem por mim se deixa abanar. Uma brisa que abana, por
instantes
umas folhinhas que, rapidamente, voltam ao seu lugar. E senão
tivesse passado?
Terá esse breve, fugaz mover de folhas modificado alguma coisa
no mundo. Não,
penso. Nada se modificou. Ficou apenas em mim esse aparente banal
“chocalhar”
de folhas, como um rasto da minha passagem.
É assim. Sinto-me mortal,
terrivelmente mortal. Definitivamente mortal.
Ainda há pouco estava lá em baixo,
sentada na carpete da cave, com o meu cão. Que delícia!
Quanta espontaneidade e
inconsequência pode ter um cão?? É o brilho da
vida, do momento, do êxtase.
Enquanto eu brinco com ele, não faz perguntas tolas…não
as faria, nunca. Sabe
entregar-se ao sabor do momento. Sabe ser
a dádiva. Que liberdade, a sua! Que inveja, a minha! Ele
não hesita, não se
desvia, não recua, não antecipa. Ele é.
Simplesmente, é. Sem saber quem
é, o que é, ele pode ser.
Em
toda a sua autenticidade. Não se sente mortal. Não se
confronta. Não se sente
cercado numa atmosfera de incenso acabado de queimar. Para ele é
só um lugar
quente, familiar, confortável e seguro onde pode estar. Ele é sem o saber. Eu não sei se
sei quem sou. Sinto-me assim, hoje: terrivelmente
mortal. O Intervalo A vida acontece no intervalo do que planeamos e o
que
acontece são os sonhos que nos esquecemos de sonhar. Temos
tendência a
racionalizar e a mecanizar a existência considerando o sonho uma
dimensão de
menoridade, própria de quem anda alheado da vida ou,
então, a quem ela, em si,
pouco ou nada diz. A dimensão do cálculo inerente
à nossa condição de sapiens,
arremessa-nos para o futuro mais ou menos longínquo onde tem
lugar o plano. O plano alicia…e
porquê? O plano
é o “ainda
não”
e, simultaneamente,
aquilo que é suposto controlar e dominar. O plano é
o indisponível
adiado que
se
julga poder controlar. E não é curioso que esse
indisponível (justamente por
sê-lo) se torna naquilo que permanentemente se modifica sem ter
nunca chegado,
algum dia, a ser? “Mudei de planos”.
Quantas vezes o dizemos ou ouvimos dizer? Estamos a mudar o que nunca foi. Em rigor
não estamos a mudar
nada, rigorosamente nada, apenas a afirmar (ainda que a nível
quase
inconsciente) uma vontade de domínio e de controlo.
O plano não está no passado. No passado
está quase tudo o que escapou
ao plano, em última análise, no passado estamos NÓS. Os planos ficaram lá
onde nunca chegaram a ser e nós fomos, simplesmente fomos
por entre tudo o que planeamos. Não há autenticidade no
plano.
O plano é do domínio da intenção. A vida
joga-se no momento da acção, a vida
joga-se nos intervalos do previsto porque, em última
instância, a vida é o que
não controlamos. É do domínio do espontâneo,
do incontornável. Por isso ela
assusta. Escorre por entre os dedos e não sabemos suportar o que
é fugaz.
Queremos perpetuar-nos, tornar-nos presentes para sempre, de alguma
forma e em
algum lugar. Esquecemo-nos do intervalo.
À noção de intervalo está
sempre
associada a e pausa, isto é, o
intervalo é o que está depois do que se
fez e antes do que se vai fazer. É o momento, por
definição, neutro,
infrutífero, estéril, mas tão desejado: o
intervalo das aulas, do filme, da
tarde de estudo ou de trabalho. Valorizamos o intervalo enquanto
condição para
a continuidade do sucesso do que estávamos a fazer ou,
até, para que este tenha
lugar: “Vamos parar um pouco?”; “Por que não fazer um
intervalinho?”; “Está na
hora do intervalo” (atenção, o intervalo, às
vezes, tem hora!!!)…quantas vezes
dizemos ou ouvimos dizer isto? O
intervalo é o lugar da autenticidade, da vida. Nós
somos efectivamente o que somos,
no intervalo do que fazemos. Se
pensarmos um pouco melhor apercebemo-nos de que, se calhar, não
conhecemos
ninguém (ou então, poucas pessoas) que num intervalo do
que quer que seja
prefiram a total solidão, o encontro
consigo mesmas. Ao intervalo está associada a leveza.
Não é suposto o
confronto com nós mesmos. A verdade é que é
exactamente ao contrário! É no intervalo que a vida
acontece. É no intervalo que somos. O intervalo é
o lugar da solidão por excelência que a todo o custo
procuramos evitar trazendo
sempre mais alguém ou mais alguma coisa para o nosso intervalo.
Parece que não
é suposto estar-se só no intervalo!
E assim termino, eu própria, o meu
intervalo. Escrevi este texto num intervalo do trabalho. Nada estava
planeado.
Nem o trabalho, nem o texto, nem o intervalo. Através do texto
desfizer
qualquer plano. Através do texto aconteci. No intervalo SOU.
Na radical inquietude que tece o
homem, espreita a ânsia da eternidade. Queremos, em tudo, nos
eternizar…nos
gestos, na memória dos outros, nos genes que insistimos remeter
para uma outra
geração. Pedaços de nós. Aos bocados, vamos
indo. Vamo-nos espalhando pelo
tempo, ao longo de gerações. Vem-me à
memória o Caso Makropulos, Emília, que
tomou o elixir da vida e que não aguenta viver mais…342 anos…uma
vida entregue
ao aborrecimento e ao tédio, à indiferença,
à frieza. É este o vislumbre da
eternidade.
Mas o “eu”? E o “eu”? Sim, porque
gritamos “e eu?”. A morte é intransmissível. É
solitária, por natureza, o
momento de maior e profunda solidão. Ninguém,
rigorosamente, ninguém, morre
COMIGO. Morro só, mesmo rodeada de muitas pessoas que me
aconchegam e seguram a
mão. Estou só. Nesse momento derradeiro sou só eu
e o desconhecido. Os outros
morrem…sós…cada um…um de cada vez…e EU? Esta é a
pergunta. Esta é a barreira.
Entra agora a imaginação. A fuga. O medo. “Se eu fosse
árvore entre árvores,
gato entre os animais (…)” (como dizia Camus)…só que não
sou, não sou nada
disso. Sou uma descendente do Sapiens-Demens, alguém que esquece
a natureza
Queremos agarrar o mundo, dominar a
morte. Convivemos mal com o transitório. Parece-nos fraqueza.
É isso. Queremos
enraizar num terreno minado. Talvez o único sentido seja mesmo
esse: não se
agarra…antes persegue-se e...foge. Transitoriedade. Eis a nossa
condição.
Aceitá-la seria o primeiro passo e num instante
adormeceríamos na quietude
envenenada de Epicuro.
Nenhum outro ser se maravilha com a
existência na exacta medida em que a teme. Só o homem.
Up
Foi sem querer! Foi
sem querer. Eu
amava-a mais do que a mim própria. Foi sem querer! Repito estas palavras para mim
mesma, vezes sem conta. Arrasto-me por estes corredores sempre iguais,
impecavelmente assépticos. São o lugar mais impessoal do
mundo. Tudo aqui é
distância. Não sou só eu que digo foi
sem querer. Os médicos, os enfermeiros e todos os
que por aqui se arrastam, sussurram-me ao ouvido foi sem querer,
foi sem querer.Não te martirizes, Antónia, foi
sem querer. Eu sei que foi sem querer.
Vão por-te boa aqui, vais ver. Vão por-nos boas aqui,
vais ver, diz
Carolina, uma rapariga muito nova que envelheceu e se cansou nda vida.
Após
inúmeras tentativas de suicídio falhadas, passou a
arrastar-se por estes
corredores com aquela camisa de dormir quase tão branca como a
sua esquálida
pele. De olhos vazios, rosto magro, lábios gretados, ela
sussurra a todos os
que encontra pelos corredores : foi sem
querer, eu sei que foi sem querer. Sento-me exausta num dos bancos,
algures num dos corredores todos iguais. Solto os ombros, atiro a
cabeça para
trás. Sinto-me tonta, a desfalecer. Estes corredores, estes sons
arrastados. Sinto dor. Sinto que morro, aqui, aos poucos. Carolina
procura,
deseperadamente, todos os dias, alguma coisa com que se possa
trespassar,
definitivamente, enquanto sussurra, de forma absurda a quem passa: eu
sei que foi sem querer, eu sei que foi sem
querer. Não sei há quanto tempo
estou aqui. Nunca
ninguém apareceu. Também nunca tive ninguém.
Arranquei ao mundo, com as minhas
próprias mãos, quem eu mais amava. Não há
mais nada. Oh, meu Deus! Foi sem querer, foi sem querer,
repito,
repito, repito.... - Segure-a bem, enfermeira Andreia.
Tenho
de lhe dar outra injecção, bem mais forte. Ela tem de
descansar- disse uma
das médicas que aparece no
meu quarto de vez em quando com uns papéis, uma caneta e aquele
ar de quem sabe
ler pensamentos. Mas
não sabe. Não sabe nada. Ela não sabe. Eu amava Ana.
Amava-a mais do que a mim própria. Ana não compreendeu
nunca. Eu não podia
permitir que ninguém e, muito menos Ana, brincassem, zombassem
com o que eu
sentia. Naquela noite eu estava furiosa. A Ana tinha saído para
ir tirar umas
fotocópias que precisava para terminar um trabalho que tinha de
entregar na
faculdade. Disse que não demorava nada. Até
já!, disse. Regressou 6 horas depois, nos braços de
uma colega com
quem tinha ido beber "qualquer" coisa. Estava completamente
embriagada. Riu-se às gargalhadas quando me viu. Zombou da minha
preocupação.
Insultou-me. Chamou-me tarada, esquizofrénica e desequilibrada.
Disse-me que eu
tinha de arranjar urgentemente um namorado. Fiquei transtornada,
desvairada.
Controlei-me. Tratei dela. Ela precisava de mim. Pu-la no chuveiro,
ajudei-a a
vestir o pijama enquanto ela continuava a dizer aquelas coisas. Fiz-lhe
um chá
de ervas. Abri-lhe a cama. Ajudeia-a a deitar-se. Ajoelhei-me ao seu
lado.
Levei a De repente, Ana
sacudei a mão. Afastou-me bruscamente e chamou-se louca e
desequilibrada. Não sei o que se
passou. Algo aconteceu dentro da minha cabeça, do mei
peito...enchi-me de uma
fúria ofendida, desaveinda, de um orgulho humilhado, de um amor
que não
conseguia conter e atirei, furiosamente, as minhas mãos para o
seu pescoçoe
apertei, apertei, apertei, apertei e chorava, chorava,
chorava....apertei até o
pânico esguichar dos seus olhos vermelhos. Debateu-se, mas
não tinha forças.
Continuei a apertar, a apetar...larguei. Ana sussurrou qualquer coisa.
Fui a
correr à secretária, ao fundo do quarto, buscar a minha
faca de abrir a
correspondência e espetei cada bocadinho do seu corpo. Precisava
de sentir o
sangue dela na minha pele. Ana! Ana! O que é que eu fiz? Ana!
Ana! Desatei a gritar...não sei
quanto tempo isto durou..lancei-me a correr pelas escadas abaixo
até ao
exterior do prédio...lembro-me de correr, correr...o sangue da
Ana estava
quente, na minha pele...mais nada...Ana,
Ana... Amor,
meu amor...foi sem querer...Ana, meu amor... O tempo parou.
Não sei. Quando me lembro de mim, já aqui estou nestes
corredores. Não sei o
que mais se passou. Não sei onde enterrarram a minha Ana.
Não sei onde ela
está. Entre o momento em que corri pela rua fora cheia do sangue
no meu corpo
até ao dia em que acordei aui, não há nada. Foi sem querer,
foi sem querer. Repito incessantemente para mim própria estas
palavras. A dor
do olhar de Ana, o seu pavor, turvam-me os olhos e as lágrimas
pingam sobre o
meu orgulho ferido. Não podias, Ana. Não
podias ter feito aquilo...Ana, Ana... - Deixe
estar, enfermeira. Está bom. Ela já fica. Amanhã
dá-se mais. - Está
bem, Dra. Eu vou ao outro casal. Ana,
Ana...tu sabes que foi sem querer...foi sem querer...
Também se escrevem sentidos, Muros altos, opacos, densos De onde me observo e escapo Por entre labirintos... A propósito de nada, Se trocam os sonhos por ilusões, Se tecem efemeridades, Se enviezam sentimentos, Se transmutam palavras, Se recriam verdades. A propósito de nada, Perdem-se as palavras por dizer, Dilui-se o tempo num espaço definido, Esqueço-me de mim e procuro, Esqueço-me do limite e sonho Com um infinito que corresse a meu lado. A propósito de nada, Para e escuto o silêncio. A propósito de nada, Limito e racionalizo o momento. A propósito de nada, Tudo o que sei e sinto se torna pensamento. A propósito de tudo, Me sinto ser mais do que vejo, Me sinto ser mais do que penso, Me sinto ser mais do que quero, Me sinto ser mais do que sonho, Me sinto ser mais do que consigo... A propósito de nada, Me sinto pensar, pensar, Ser e não ser, sonhar e ver... A propósito de tudo, Entrego às palavras o simples querer... Enreda-se no poema, uma forma de ser... A propósito de tudo, penso em nada. A propósito de nada, sinto tudo. Isabel Maia Por Aquilo Que Ficou Por Dizer
possa continuar o mesmo, quando as imagens e as memórias se entrelaçam no meu pensamento. Perdem-se as palavras que não disse, as coisas que não fiz… fica a ilusão de que o Tempo, que as arremessa, as trará de volta para tas dizer… …num sonho, numa saudade ou numa lágrima que teima em cair. Pergunto-me pelo sentido de tudo, num espaço onde o Tempo me oprime e desgasta as minhas forças… tenho a ilusão de que ouves os ecos dessas palavras perdidas numa existência que só a ti pertence… e acredito que Longe, nessa distância que nos separa, vai continuar a crescer um sentimento que as palavras não dizem, que os sonhos não abrigam e que te traz ao presente, nos meus pensamentos e no meu coração. Por tudo aquilo que ficou por dizer… fica apenas a saudade e a certeza de um vazio impossível de preencher… Isabel Maia Up
Na radical inquietude que tece o
homem, espreita a ânsia da eternidade. Queremos, em tudo, nos
eternizar…nos
gestos, na memória dos outros, nos genes que insistimos remeter
para uma outra
geração. Pedaços de nós. Aos bocados, vamos
indo. Vamo-nos espalhando pelo
tempo, ao longo de gerações. Vem-me à
memória o Caso Makropulos, Emília, que
tomou o elixir da vida e que não aguenta viver mais…342 anos…uma
vida entregue
ao aborrecimento e ao tédio, à indiferença,
à frieza. É este o vislumbre da
eternidade.
Mas o “eu”? E o “eu”? Sim, porque
gritamos “e eu?”. A morte é intransmissível. É
solitária, por natureza, o
momento de maior e profunda solidão. Ninguém,
rigorosamente, ninguém, morre
COMIGO. Morro só, mesmo rodeada de muitas pessoas que me
aconchegam e seguram a
mão. Estou só. Nesse momento derradeiro sou só eu
e o desconhecido. Os outros
morrem…sós…cada um…um de cada vez…e EU? Esta é a
pergunta. Esta é a barreira.
Entra agora a imaginação. A fuga. O medo. “Se eu fosse
árvore entre árvores,
gato entre os animais (…)” (como dizia Camus)…só que não
sou, não sou nada
disso. Sou uma descendente do Sapiens-Demens, alguém que esquece
a natureza
Queremos agarrar o mundo, dominar a
morte. Convivemos mal com o transitório. Parece-nos fraqueza.
É isso. Queremos
enraizar num terreno minado. Talvez o único sentido seja mesmo
esse: não se
agarra…antes persegue-se e...foge. Transitoriedade. Eis a nossa
condição.
Aceitá-la seria o primeiro passo e num instante
adormeceríamos na quietude
envenenada de Epicuro.
Nenhum outro ser se maravilha com a
existência na exacta medida em que a teme. Só o homem.
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