Um cliente em potencial.

Por: Isabella Gonçalves
Victoria saiu correndo pela rua desesperadamente carregando consigo os dois copos de café. Inicialmente os copos eram para ser levados diretamente para a empresa, mas a visão da aura daquela alma havia chamado a atenção dela como nunca antes tinha acontecido. Era a alma mais propícia para missões que ela havia visto. Tinha um histórico perfeito para as missões que o paraíso tinham. Ela só precisava convencê-la...
– Ei, ei! Espera! Você mesmo, isso! Espera um minuto!
Começou a correr entre os carros da avenida completamente desesperada e o adolescente olhava para ela sem entender nada do que acontecia. Sua sobrancelha repleta de piercings erguia-se formando então uma expressão confusa e desconfiada.
Victoria parou na frente dele arfando e acalmou-se um pouco antes de falar:
– Tenho uma proposta para você __ disse ela __ Acho que você vai gostar.
A sobrancelha do garoto ergueu-se ainda mais. A expressão dele tornou-se então completamente desconfiada.
– Proposta? __ perguntou, analisando Victoria de cima a baixo __ Que tipo de proposta?
Victoria abriu um sorriso persuasivo e colocou a mão sobre o ombro do garoto, tentando estabelecer uma proximidade maior entre os dois.
– Venha comigo até minha empresa que falo em detalhes __ propôs, com o sorriso débil congelado em seu rosto.
O adolescente esquivou-se da mão de Victoria com um balançar de ombros e afastou-se, mal humorado.
– É cada um que me aparece... __ murmurou, começando a andar novamente na direção que andava antes de ser parado por uma mulher completamente pirada.
Victoria começou a andar em passos rápidos atrás do garoto. Ela simplesmente não podia deixar aquela alma escapar. Era a alma mais promissora que ela já havia visto em anos de trabalho.
– Ei, espera! Eu só quero sua alma!
Ela disse isso com a maior naturalidade, como se pedir almas por aí fosse completamente normal. O garoto só olhou para ela, balançou a cabeça negativamente e começou a andar com um leve sorriso de deboche em um dos cantos de sua boca.

Victoria não iria deixar aquilo por isso mesmo. Tirou a carteira de dentro da bolsa e tirou duas notas de cinqüenta da mesma. Aquilo devia servir.
Começou a correr na direção do garoto, equilibrando os copos de café em uma das mãos naquela espécie de bandeja e gritou novamente.
– Espera, espera! Por favor!
O garoto esperou e Victoria parou na frente dele cansada. O banho que havia tomado de manhã já não servia para muita coisa, já que seu rosto já estava melado de suor e a maquiagem levemente borrada.
– Te dou cem reais para você ir comigo até meu escritório e conversar comigo –Victoria disse, estendendo a mão que continha o dinheiro.
O garoto não hesitou nem um pouco estendeu a mão e abriu um sorriso simpático. Era sempre assim. Victoria já devia saber. Adolescentes só ouviam quando seu interesse era atendido. Andaram em silêncio durante todo o trajeto até a empresa. O café já estava frio, então, Victoria achou melhor deixá-lo em uma das latas de lixo que encontravam-se pelo caminho.
Percebeu que quando chegaram perto da empresa e o adolescente finalmente pôde ler o nome da empresa, ele hesitou um pouco. Não sabendo se levava ou não aquilo tudo a sério.
— Acredite, é real — disse Victoria, sorrindo — Agora vamos?
Ele assentiu e a seguiu sem dizer nada pelos corredores brancos da empresa. Entraram na sala que Victoria atendia os clientes e sentaram-se cada um em um dos sofás.
— Você deve ter achado bem estranho... O nome e tal — Victoria começou — Mas acredite, é real. É um negócio que oferecemos há uma década.
A sobrancelha do garoto ergueu-se por cerca de um centímetro. Involuntariamente, olhou para o relógio. Afinal, Victoria tinha dito uma hora.
— Você só tem que assinar um contrato. Sua alma sairá toda noite do seu corpo para realizar missões e você terá parte do lucro, mas o melhor de tudo é que quando você morrer terá um lugar especial do paraíso!
— Sou ateu — cortou o garoto, entediado — Nunca vi esse tipo de golpe antes, mas... Não vai funcionar comigo. E a propósito... Você tem mais quarenta e cinco minutos.
Victoria suspirou e por um momento sentiu vontade de socar o garoto. Tinha se esquecido daquele probleminha básico. Ateísmo. Aquele tipo de coisa já havia rendido até mesmo processos contra a empresa, mas Victoria e Kate conseguiram sair ilesas.
— Bom, o que custa acreditar? Você não vai perder nada com isso... — tentou Victoria.
— Prove-me que o que está dizendo está correto. Aí sim poderemos conversar.
Victoria ficou sem reação. Não havia provas. O negócio delas dependia basicamente da crença dos clientes. Somente daquilo.
— Não temos provas, mas você tem que enten...
— Gente como você nunca tem provas. Isso é golpe e eu sairia por aquela porta nesse momento se não fosse pelo trato que fizemos.
Victoria revirou os olhos e tentou pensar em algum modo de convencer ao garoto de fazer negócio. Eles precisavam daquela alma. Não havia outro jeito.
— 10%, ok? Normalmente damos no máximo 5%, mas damos 10% para você. Satisfeito?
A sobrancelha do garoto se ergueu mais uma vez e ele sorriu. Agora estava finalmente percebendo o quanto ele era importante para aquela mulher. Se ela estava disposta a oferecer o dobro... Ela poderia oferecer muito mais.
— O que é exatamente 10%? — perguntou — Seja mais específica.
— 200 reais mensal no início, mas depois aumenta conforme sua alma for prosperando no céu.
O adolescente pensou por um momento. Duzentos reais... sem precisar trabalhar nada. Aquilo era tentador.
— Posso ler o contrato? — perguntou.
— Claro.
Victoria tirou o contrato da maleta que carregava e entregou para o garoto, satisfeita. O adolescente o pegou e a leu por um momento. Vez ou outra seus lábios contorciam-se em um sorrisinho de deboche, mas quando terminou de ler sua expressão era quase convencida.
— 20% e está feito. E não vou dar um tostão para vocês. Só receber.
— Já fiz muito em te oferecer 10%. 20% está fora de cogitação — Victoria disse imediatamente.
— É isso ou nada — o sorriso do garoto era desafiador. Ele estava testando Victoria.
— Ta bem, ta bem — Victoria deu-se por vencida — 20%!
Pegou a folha de papel que o adolescente segurava e alterou o valor de má vontade, depois devolveu a mesma para o garoto murmurando um pedido para que ele assinasse.
O adolescente riu e assinou. Saiu da sala sem dizer nada deixando para trás a folha de papel e uma Victoria mal humorada. É... Alguns clientes eram realmente difíceis e Victória estava começando aprender a conviver com aquele fato.
Vá para o
Menu de Contos

Almas&Cia - All Rights Reserved™
Hosted by www.Geocities.ws

1