Katherine estava a ponto de estourar os miolos daquela alma. Na verdade, poderia realmente fazê-lo se houvesse algum miolo não espectral naquele corpo, o que não era nem de longe o caso. A noite toda recebera reclamações de condenados ao inferno sobre a exploração do trabalho e a falta de férias remuneradas. Aquilo já estava passando dos limites da paciência de qualquer um, mais um pouco e ela mesma estrangularia os representantes do Inferno na terra.
- DOZE horas por dia! Meu chefe do mundo humano está ameaçando me demitir pelos atrasos SÓ essa semana! – Berrou o que Kate desejava matar em especial. Por algum motivo, ele rugia como um leão na sua cara, coisa que era totalmente desnecessária. Afinal, é possível se escutar num volume normal a um ou dois centímetros de distância.
- CHEGA! – Gritou mais alto que todos juntos, subindo o tom de voz em vários decibéis. De repente, um silêncio se abateu sobre a recepção. Quem não soubesse, poderia jurar que todos ali jaziam mortos em algum canto da sala.
Silêncio. Ah, o silêncio.
- Escutem – Começou Katherine, passando os olhos verdes por cada um ali. A qualquer momento poderia sacar suas luvas de borracha e enfiar aqueles reclamões dentro de um armário ou uma caixa de fósforos. Tolos, achavam que poderiam contra ela. Não irrite Kate, ela pode se vingar delatando aquele roubo que você julgava que os anjos ou os demônios não viram para seu superior. Era esse o lema, tanto que estava escrito em letras garrafais e vermelhas acima do relógio atrás da bancada de recepção. A conclusão – e a conseqüência - era por conta das almas. – Resolverei tudo, está bem? Vou conversar com o Diabo para ver o que podemos fazer a fim de resolver esses pequenos incidentes.
- INCIDENTES? – Um ao fundo gritou, revoltadíssimo. Se não fosse transparente, sua face estaria igual uma beterraba de tão corada e seus punhos gorduchos certamente acertariam algum infeliz pela forma como se agitavam no ar.
Kate revirou os olhos e se afastou do balcão, calçando as luvas. Era bom que nenhum se aproximasse com o intuito de tocá-la ou a caixa de fósforos não seria poupada. Algo que definitivamente não suportava era espectros que queriam colocar-lhe a mão; a sensação de algo que não a feria transpassando sua carne, pele, ossos, gordura e órgãos era no mínimo detestável.
- TODOS PARA FORA, JÁ! – Gritou, brandindo ameaçadoramente as luvas de cozinha acima da cabeça. Além de tudo eram surdos? Já dissera que resolveria o problema da forma que pudesse. Se não estavam satisfeitos que tomassem o rumo da rua, ora essa. A janela é a serventia da casa, senhor, fique absolutamente à vontade para tirar seu traseiro imundo da minha recepção.
Para o agrado geral, Katherine passou ilesa pelos montes de almas que se aglomeravam próximas ao balcão, seguindo direto para o corredor que daria até sua sala, o caminho oposto ao de Victoria. Não sabia quem fora o projetor da planta do prédio, mas decididamente não gostava dele. Por que ao invés de fazer as salas perto, ele fez uma sala que se localizava em um local completamente oposto à outra? Para chegar até a sala de Victória era preciso atravessar um corredor que não parecia ter fim. Seria muito mais fácil chutar a alma de sua sala para ao lado ao invés de ter que consultar um mapa para o escritório da amiga.
Kate abriu a porta, que com um rangido ensurdecedor acolheu-a para dentro. Era quase inacreditável a raridade com que visitava seu escritório em dias comuns. Se acontecesse de precisar recorrer a este era uma situação de grande emergência, ou em casos extremos, “desaparecer” com almas impertinentes. Se precisasse se comunicar diretamente com o Inferno ou o Céu, simplesmente se tele transportava pela máquina dos planos espirituais na saleta ao lado da recepção. Apesar de que em sua sala havia aquele tipo de tecnologia, com apenas uma diferença de destino - ao invés de aparecer nos portões do inferno ou do céu, era materializada no escritório do Demônio ou de Deus. Tinha de admitir que era um trabalho árduo, mas tinha lá suas recompensas no final do mês. Às vezes imaginava como seria se os funcionários soubessem realmente para quem e para quê estão trabalhando ao invés de ter uma vaga idéia da Almas&Cia ser uma empresa de telemarketing de nome muito peculiar.
Sangue-sugas malditos, porcos capitalistas! Com certeza exigiram um aumento gordo no salário.
Katherine apareceu no escritório oficial do Diabo com um estalar de dedos, sem emitir qualquer ruído notável. Passou os olhos pela sala inteiramente vermelha e preta, buscando o chefe dos chefes do Inferno atrás de sua mesa redonda. Com um único vislumbre reconheceu a silhueta feiosa de desagradável do Demônio, e por já estar ali não valia mais a pena retornar e pedir a Victoria que resolvesse com ele, mas podia aproveitar ainda para fazer pequenas anotações mentais como:
a) Mandar uma equipe de pintura a fim de acabar com o papel de parede brega e:
b) Tirar as luvas de borracha antes de sair do mundo humano, evitando assim parecer completamente idiota.
Certo, tudo registrado na área Visitas de sua mente.
- Ora ora, parece que finalmente achei-o aqui, Demo. – Comentou em voz alta, aproximando-se sorrateiramente da mesa de reuniões, onde o Diabo se encontrava no lado oposto, fitando-a de forma desdenhosa. O que ela queria agora? Não gostava de humanos, muito menos daquela que frequentemente interferia em seus negócios. Ahh, mas ainda chegaria o dia dela queimar lá em baixo como todos os outros e finalmente parar de dar ordens. Mulher insuportável!
Alguns seguranças ao fundo da sala empunharam suas lanças, prontos a atacar a qualquer minuto, mas um básico olhar ameaçador de Katherine bastou para que se aquietassem em seus postos. Era fantástico como aquilo funcionava em todo lugar.
Era fantástico também como o comitê de visitas sempre a recebia daquele jeito. Tanto no Inferno como no Céu, aliás, principalmente no Céu. Nunca vira tanta burocracia por se materializar a frente de Deus e jogar-lhe uma pilha de papéis nas fuças.
- Diga o que quer. – Suspirou o Diabo, recostando-se na sua cadeira tão vermelha quanto às paredes. Em seus olhos miúdos se poderia ler um tipo de pré-cansaço, algo que os empresários estão acostumados a denominar por Meus Instintos Dizem Que Não É Notícia Boa.
- Vou direto ao ponto. – Kate franziu o cenho, se auto convidando para sentar na cadeira de negociações. Caso houvesse muita reclamação por parte do outro, ela poderia realizar uma chantagem. Sempre funcionava! Ao menos no Céu não era problema. O ponto é que sabia que o inferno tinha um lugar reservado para ela após a morte e não era bom brincar com o humor do pessoal dali. Cruzou as pernas e lançou um olhar encantador ao Demônio, como se tudo o que fosse dizer era que veio para um visita amigável.
Seria perfeitamente plausível se realmente fossem amigos.
- Alguns dos meus empregados estão reclamando de exploração por aqui. Não se esqueça de que são seres humanos e que além de preguiçosos, são revoltados e tem seus empregos na Terra também. Portanto... – Katherine se inclinou para frente, cruzando os dedos enluvados. - Sugiro que faça algo a respeito. – E exibiu seu melhor sorriso.
Pelo que seus olhos captaram, poderia jurar que o Demo ficara ainda mais vermelho que o natural. Tinha certeza de que receberia mal a notícia do protesto dos humanos, e provavelmente descobriria a castigaria os envolvidos. Mas aquilo não era de sua conta, então que os humanos se ferrassem pro próprio lado. Seu trabalho estava sendo feito.
O demônio se ergueu e elevou a voz, aproximando o rosto ao de Katherine com seus dentes afiados e incrivelmente brancos a mostra. Talvez fizesse clareamento dental, pensou, sem dar muita importância para a perigosa explosão do chefe ali.
- POIS PODE LEVÁ-LOS DE VOLTA PARA A TERRA! NÃO QUERO PREGUIÇOSOS AQUI! LEVE-OS DE VOLTA! TODOS VOCÊS, HUMANOS SÃO SERES IMPRESTÁVEIS! IM-PRES-TÁ-VE-IS!!!
Blá, blá, blá. Vocês são incompetentes, só reclamam e nem mereciam ter um trabalho antes da morte. Deveriam pagar com alguns mergulhos no enxofre.
O mesmo discurso de sempre.
Será que não conseguiam mudar a Sessão Resmungamento para a simples aceitação dos fatos? Faça-me o favor! A época de temer o Inferno e o Céu acabou na era Medieval, assim que aquela porcaria de Igreja perdeu o poder. Nos tempos atuais, quem manda é o ser humano (além do capitalismo) e não há tempo sobrando para discutir negociações como aquela. Aliás, negociação uma ova – a denominação correta seria intimação.
- É melhor se afastar, Demo. Sabe muito bem que o interesse é seu naquelas pessoas trabalhando aqui, e não meu. – O olhar encantador se tornou no mínimo frio. – Se mandar aquelas pessoas embora, metade da sua mão-de-obra já era e nós dois sabemos que o Inferno tem passado por tempos difíceis, não é? A muito as pessoas passaram a preferir o Paraíso como casa para a eternidade.
O Diabo apertou os olhos, com um vivo desejo de matar Katherine ali mesmo. Mas ela estava certa no final das contas, se perdesse gente o problema recairia sobre ele e uma revolta de almas condenadas é pior do que almas “em greve”. A diferença é que as em greve não tem armamento nem chefe de exército.
Um sorriso delicado se esparramou pelos lábios de Kate e ela afastou o rosto, esticando uma das mãos para o Diabo.
- Férias de duas semanas a cada 6 meses, oito horas de trabalho no máximo e nada de exploração. Estamos feitos?
O demônio hesitou, em busca de táticas para sair daquela situação. Como último e desesperado recurso, lançou um olhar por cima dos ombros de Kate aos seus subordinados, a espera de que um milagre ocorresse e uma idéia acabasse por se concretizar nas mentes ignorantes.
Era pedir demais.
- Feito.
O caminho de volta foi relativamente mais tranqüilo. O problema estava resolvido e seria no mínimo engraçado ver o problema em que o pessoal na recepção estaria metido ao voltar sete palmos abaixo da terra. Kate esperava mesmo que fossem forçados a lavar os pés do Diabo ou algo igualmente repugnante.
Mas afinal, quem liga? Tudo o que queria era novamente a paz de sua cadeira e o Nintendo DS.