De certa forma Kate estava com receio de realizar o empreendimento. Estava no ramo há anos e sempre conseguia fazer suas almas prosperarem, mas aquela já era demais. Leu o histórico dela e concluiu que aquela era o tipo de alma que estava condenada a passar o resto da eternidade caçando restos de auras e sobrevivendo através delas. Um futuro não muito digno, mas era isso o que ela estava sendo levada a concluir.
__ Não creio que você tenha algum futuro, amiga __ disse Kate, ainda atenta à lista que seu computador produzia __ Sinto muito.
Katherine pegou o fio de cabelo de cima de seu suposto scanner de mesa e o jogou no chão. Era surpreendente a utilidade do scanner. Com ele Kate conseguia ver o histórico completo da alma. Muito útil.
A mulher ficou desconcertada. Como assim sua alma não tinha futuro? Tamanha calúnia era imperdoável. Já havia feito muito acreditando no relato de sua amiga e ido até aquela empresa louca denominada “Almas e cia” e agora tinha que aceitar aquela ofensa? A afirmativa de que sua alma não possuía futuro? Imperdoável.
__ Pois bem então! __ disse a moça, pegando sua bolsa e indo na direção da porta __ Como quiser! Nem sei porque diabos vim até aqui!
Kate ficou observando a moça sair do escritório e suspirou. Era difícil fazer negócios com pessoas daquele tipo.
Voltou sua atenção para a tela de seu computador, que exibia o menu do último jogo que havia adquirido, mas sua paz não durou muito. Victoria rompeu escritório adentro com milhares de papéis nos braços e exibia uma expressão nada calma. Pelo contrário, estava completamente estressada.
__ Deixou outra cliente escapar... __ disse ela, arfando __ Outra vez?!
Victoria respirou fundo tentando se acalmar de todas as maneiras e Kate olhou para ela completamente atônita. A alma não tinha futuro. Ela a dispensou. Só isso, não havia nada demais.
__ Não temos que ser seletivos quanto às almas que tem ou não futuro. Pegamos todas. Essa é a nossa lei! __ exclamou Victoria __ Agora vou arrumar a merda que você me fez se me dá licença.
Victoria saiu então porta afora correndo pelo corredor em busca da alma perdida. Não demorou muito para achar a mulher, já que a mesma estava completamente perdida nos corredores da empresa.
__ Desculpe-me por nossos enganos __ disse Victoria, compondo-se imediatamente e assumindo o ar profissional que normalmente assumia __ Minha colega não queria ter dito o que disse. Ela tem muito trabalho a fazer e fica um pouco fora de foco.
Abriu um sorriso amarelo para tentar amenizar a moça e continuou:
__ Por que não me acompanha até minha sala. Talvez você queira um café, ou um refrigerante... Quem sabe uma água?
Victoria pôs a mão sobre os ombros da moça que estava completamente sem reação e começou a conduzi-la na direção de sua sala sem esperar pela reação da mesma.
A sala era ampla e completamente branca. Possuía dois sofás de coloração bege, uma mesa pequena no centro onde encontravam-se duas xícaras e um bule já à espera das duas.
__ Sente-se, por favor __ pediu Victoria, toda sorrisos __ Mostraremos a você o quanto nossos serviços são bons.
__ Confesso que estou um pouco perdida __ disse a mulher, completamente atordoada.
__ Ah, normal, normal __ Victoria disse, rindo como se estivesse rindo de uma criança que descobriu que a lua era feita de queijo __ Nossos negócios não são muito conhecidos e muito menos levados a sério. Mas só o simples fato de você ter acreditado na história de quem quer que seja e vindo até aqui já é alguma coisa.
Victoria também se sentou na cama e ficou olhando debilmente para a moça. Era o que ela sempre fazia. Tentava vender o produto, já que Kate detestava qualquer tipo de contato com o cliente e Kate fazia a maior parte do intermédio. Nada muito complicado. As duas sempre haviam se virado bem sozinhas.
__ Eu acredito __ disse a mulher com sinceridade __ Depois do que minha amiga mais racional me contou... Não há porque duvidar. Então, pode me contar como funciona tudo?
Victoria pegou o bule em cima da mesa e serviu um pouco de café para as duas xícaras. Depois entregou uma delas para a moça e abriu um sorrisinho. Victoria tinha raiva de seu sorriso, mas seus colegas insistiam que era uma de suas melhores qualidades. Conseguia cativar qualquer um e ela tinha que agradecer principalmente a ele por suas conquistas de clientes. Os clientes derretiam-se quando sorria e a gentileza passava a ser utilizada por eles. Nada de ser rude. Não podiam ser rudes quando havia uma mulher alta, completamente linda e com classe sorrindo e sendo a pessoa mais gentil do mundo.
__ Primeiramente qual é o seu nome? __ perguntou Victoria.
__ Ah, desculpe-me __ disse a mulher, completamente constrangida __ Meu nome é Anna e o seu é...?
__ Victoria __ Victoria apressou-se a responder __ Sobre os negócios... Vou ser bem rápida na explicação. Toda noite, as almas saem do corpo de seus proprietários enquanto os mesmos dormem e começam a vagar pelo mundo. Algumas têm missões a cumprir e outras __ a maioria __ ficam vagando pelo mundo sem nenhum objetivo em mente.
“Acontece que as missões fazem com que as almas prosperem. Quando o proprietário morre e a alma já realizou bons serviços, ela imediatamente consegue um bom lugar no inferno ou no paraíso.”
“Fazemos sua alma prosperar tanto no Inferno quanto no Paraíso. Tanto faz para nós. A escolha é somente da sua alma.”
Victoria terminou a explicação com a maior naturalidade. Falava como se estivesse explicando um assunto completamente comum. Anna já estava até acostumada com a ideia. Sua amiga a havia preparado, mas ver aquilo tudo em pratos tão limpos era completamente diferente. Tentou manter a calma, mas era difícil demais.
__ Isso... Isso é sério? __ perguntou Anna, arregalando os olhos.
A expressão que Anna tinha era completamente assustada. Seus olhos estavam arregalados e sua boca estava um pouco entreaberta. A expressão lembrava a Victoria a de uma criança que havia descoberto algo que nunca havia nem sequer sonhado ser possível descobrir.
__ Claro que é. Veja bem, você entrega sua alma para nós e ela ficará em nossa posse até que você morra. Caso você queira sua alma de volta, terá que pagar uma taxa de devolução que é duas vezes mais o que ela já adquiriu prestando serviços. Com o serviço que sua alma presta, temos lucro e você tem direito de 3% a 5% dos lucros. Variando de acordo com a performace de sua alma nas missões. O verdadeiro lucro que você terá, aparecerá quando você morrer e for para o outro plano. Você será minoria e terá um lugar privilegiado dentro da sociedade de lá.
__ E eu não tenho que pagar nada? __ perguntou a mulher __ Só entregar a alma?
Qualquer pessoa que visse aquele diálogo riria de tudo, mas era justamente aí que estava a vantagem do negócio de Kate e Victoria. As pessoas não levavam a sério a história de assinar um contrato entregando a alma. Normalmente faziam aquilo só por brinquedo e achavam até legal quando recebiam cerca de cem reais por mês devido ao serviço que a alma prestava. Elas não faziam ideia do lucro que Kate e Victoria tinham com aquilo e continuariam sem saber. À medida que o dinheiro aparecia na conta dessas pessoas, mais e mais pessoas apareciam querendo virar adeptas do plano. Mais pelo dinheiro do que pelo interesse de fazer a alma prosperar. O ser humano era mesmo desprezível.
__ Só isso __ confirmou Victoria, sorrindo __ E só tem que assinar aqui...
Victoria foi até um armário que havia sido colocado discretamente em um canto da sala e tirou uma folha de papel de lá. Andou novamente até o sofá e entregou o papel para Anna.
__ Leia e assine aí em baixo.
Victoria tirou uma caneta do bolso de sua calça e entregou para Anna. A caneta parecia normal para qualquer um que a visse, mas ela na realidade tinha um liquido espectral que possuía a mesma coloração de uma caneta comum e era aquele líquido que fazia o contrato valer alguma coisa. O papel também era do outro mundo e se não fosse por ele, nada daquilo significaria um grande empreendimento de negócios.
__ Eu ganho quanto com isso? __ perguntou Anna, interessada.
__ Bom, depende do serviço que sua alma presta, mas normalmente você fatura uns cem reais. Isso só nos primeiros serviços. Depois de um tempo passa a ser bem mais.
Anna nem sequer terminou de ler. Pegou a caneta e assinou com uma decisão que impressionaria a qualquer um, mas menos a Victoria. Ela já estava acostumada com aquele tipo de reação. Todos reagiam da mesma forma quando sabiam daquele dinheiro. Não era muito, mas ajudava.
__ Ótima escolha, você não irá se arrepender __ disse Victoria confiante __ Passe na recepção na saída e faça seu cadastro lá com os dados necessários.
Victória levantou-se e começou a sair da sala. Tudo já estava concluído. Não havia necessidade para falsidades.
__ Vejo você em breve.
Deu um aceno curto e começou a se dirigir para a sala de Kate.
Victoria estava se arrependendo profundamente de ter feito negócios com aquela tal de Anna. Acompanhava toda a performace que a alma dela fazia no mundo espiritual através de um monitor especial. As imagens não eram lá muito específicas, mas serviam para um monitoramento integral.
Pegou o telefone sobre a mesa e apertou o botão que tinha uma simples letra K. Ela normalmente ia na sala de Kate, mas estava tremendo de tanto nervoso que não conseguia nem sequer se levantar.
__ Alô __ disse Kate, em sua típica voz entediada.
__ Kate, ligue o monitor agora! __ gritou Victoria. Estava tão desesperada que sua voz saiu completamente desafinada.
Houve o barulho de alguém digitando e depois um suspiro entediado por Kate. Victoria teve vontade de soca-la. Como ela conseguia ver aquilo e não sair correndo se descabelando por aí como Victoria tinha vontade de fazer? Mas não, ela tinha que soltar um suspiro entediado. Era sempre assim. Victoria nem sequer sabia o porquê de esperar alguma mudança por parte da amiga.
__ Vou resolver isso __ disse Kate simplesmente, e desligou.
Victoria começou a correr. Agora não havia porquê continuar sentada em sua cadeira pensando em alguma solução mágica. Kate ir até lá? Victoria tinha que admitir que ela tinha certas habilidades, mas Kate sempre arranjava algum tipo de confusão. Aquilo era praticamente inevitável, mas alguma coisa que envolvesse aquela alma em maus lençóis ia simplesmente acabar com a reputação da mesma. Já havia sido difícil conseguir um serviço para a alma, imagina então depois do fracasso.
Mas quando chegou na sala já era longe demais. Kate já havia ido e duas pessoas irem de uma vez só nunca era uma boa ideia. Caso desse algum problema no outro mundo era sempre ter alguém que servisse como âncora para trazer quem quer que estivesse perdido de volta.
Victoria voltou para sua sala em passos lentos, completamente derrotada e só viu a alternativa de acompanhar tudo pelo monitor.
Kate balançou a cabeça negativamente em sinal de desaprovação quando viu a cena que se desenrolava em sua frente. Era incrível como a alma tinha a capacidade de fracassar na simples missão de levar uma mensagem até um dos lacaios do Diabo. A própria Kate conseguiria realizar algo como aquilo e olha que ela nem tinha os poderes espirituais que as almas possuíam.
A alma havia levado a mensagem até a metade do caminho com sucesso, mas depois perdeu a concentração e se fundiu à mensagem. Ela tentava agora sair de todas as formas possíveis da carta, mas o máximo que conseguia era fazer o envelope se movimentar por pouco tempo.
__ Muito inteligente da sua parte __ disse Kate, sarcasticamente __ Almas como você tinham que ganhar algum prêmio.
__ Me tira daqui, me tira daqui! __ foi a resposta que a alma deu ao comentário sarcástico de Kate.
Kate suspirou entediada. Colocou uma luva em sua mão direita e puxou habilmente a alma de dentro da carta. No entanto, a luva não serviu como isolante como havia sido planejado. Mesmo com a luva de borracha, a alma conseguiu invadir o corpo de Kate.
Dois espíritos não podem ocupar um corpo só. Aquela era a regra básica do mundo espiritual. Kate normalmente conseguiria pegar seu corpo de volta com facilidade, mas ela estava no mundo dos mortos. A alma de Anna tinha vantagem praticamente absoluta e expulsou a alma de Kate de seu corpo com facilidade.
Kate só se deu conta do que tinha acontecido alguns segundos depois. Ela notou que estava olhando para uma pessoa exatamente igual a ela e que se contorcia, parecendo sofrer convulsões. Não era nada bonito. Produzir uma careta foi sua reação inicial, mas a careta de nojo rapidamente transformou-se em uma expressão de desespero. Ela finalmente percebeu que a alma de Anna havia roubado seu corpo.
__ Saia já daí! __ gritou Kate, avançando decididamente contra seu corpo.
Entrou no corpo e isso só fez com que o mesmo sofresse ainda mais convulsões. As duas almas estavam brigando por ele e algo como aquilo provocava aquele tipo de reação no mesmo.
A briga não durou muito. Novamente a alma de Kate perdeu e saiu do corpo fazendo uma série de acrobacias no ar e depois caiu sobre o chão fundindo-se a ele.
__ Faça alguma coisa! __ Kate gritou __ Ligue para a alma de Carlos. Ela com certeza saberá o que fazer.
__ Como faço isso? __ perguntou Anna, finalmente conseguindo controlar o corpo de Kate e ficar nele sem problemas.
__ Tem um celular aí no bolso da calça... Isso. Agora procure na lista de contatos pelo nome Carlos e ligue para ele. Peça para ele me encontrar.
Anna conseguiu fazer isso sem muitos problemas. Antes do que Kate esperava, Carlos apareceu lá exibindo um sorriso que reluzia por causa do brilho espectral que ele tinha.
__ Grande dia, heim? __ supôs Carlos.
Com grande facilidade desprendeu a alma de Kate do chão e tirou a de Anna do corpo dela. Kate entrou em seu corpo imediatamente e ele nem sequer produziu reação de protesto, já que já estava acostumado com a alma.
__ Tem que ser mais seletiva quanto as almas com quem faz negócios __ sussurou Carlos para Kete, olhando para Anna de canto de olho.
__ É o que eu sempre digo para Victoria __ disse Kate, suspirando.