INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO SOFISTA

 

 

Novela em 10 episódios (diários)

 
 O Conde de Terra Nova

Por

 

 
Valentim S. da Costa

 

 

 


Saint Claire – Nouvelle Quebec

Editora do IHGS

 

2008

 


Dedicatória

 

Ofereço humildemente esta obra a Sua Alteza Real Casagrande I, Príncipe Monarca de Sofia. Que possa ela, nessas poucas páginas, colaborar de alguma forma para a construção da cultura sofista, e que possa, também, agradar aos que se dispuserem a lê-la.

 

Sainte Claire, 2 de setembro de 2004,

 

Valentim S. da Costa


 

I

 

            Naquele outono as ruas de Bona se cobriam festivamente dos mais variados tons de vermelho, laranja, amarelo, verde e outras cores inimagináveis, que caiam com as folhas dos altos bordos arranjados ao lado das belas ruas da capital.

        Saindo do magnífico prédio da Academia Real de Esgrima, onde praticava seu nobre esporte diariamente, o conde de Terra Nova refletia sobre o seu caminho e o caminho do país, que na verdade caminhavam juntos, pois um ajudou a construir o outro. Havia pouco o valoroso povo sofista conseguira bravamente sua independência, e a passos largos se construía uma grande nação ao redor do trono de Sua Alteza Real. Nesse momento exato avistou, de longe, o Palácio de Cratos. Quanto lutou junto ao príncipe! Quanto colaborou para fazer de Sofia um lugar perfeito! Se tivesse tempo faria uma visita a Sua Alteza, mas tinha que ir para casa. Ou melhor, tinha que ir à estação, pois seu primo chegaria em poucos minutos.

        O imenso relógio de ferro batia exatamente onze horas quando parou o trem. Em meio a uma multidão de passageiros, a maioria imigrantes, ávidos por construir uma nova vida no mais promissor dos lugares do mundo, avistou seu primo, o jovem Guillaume, que se equilibrava tentando carregar meia dúzia de malas. O reencontro foi caloroso, e depois de algumas palavras, deu-se a maior surpresa do dia:

        - Meu caro primo – Disse Guillaume em tom solene – Quero que conheça minha noiva, Celeste.

        O conde admirou-se, e procurou com os olhos a pessoa anunciada. Ela... Foi nesse momento que um brilho de sol caprichosamente iluminou a face angelical da moça, irradiando uma luz que atingiu diretamente o coração de Terra Nova.

        - O nome é muito próprio!- balbuciou o conde, beijando a mão de porcelana da donzela.

        Os três se dirigiram, então, à quinta onde ele morava, não muito longe dali. A casa era imensa, com mais de uma dezena de quartos, salões e escadarias. Foram hospedados na ala leste, que tinha uma inigualável alvorada, e a melhor vista para os jardins. Guillaume não esperou muito para rever seus velhos amigos sofistas, que também tinha ajudado no combate pela independência, e logo depois do almoço manifestou o desejo de visitá-los. Celeste, no entanto, estava terrivelmente cansada pela longa viagem, e pediu para ficar descansando naquela tarde.

 
 

II

 

            Em seu gabinete amadeirado, o conde verificava as contas de suas propriedades do campo, das outras cidades, o castelo de Sainte Claire, e o chalé em Varma. De repente alguém bateu na porta. Era Celeste:

        - Desculpe incomodá-lo, vossa graça, mas não consigo dormir!

        - Tudo bem. Pode me fazer companhia.

        Os dois começaram a conversar sobre os mais variados assuntos, desde literatura até futebol, as eleições mais recentes, o clima... A afinidade entre eles se mostrou perfeita, o que começava a incomodar o nobre. A lealdade era talvez a sua característica mais acentuada, e tinha medo de faltar com o primo.

A conversa durou até a noite, e cada vez os dois se sentiam perigosamente mais íntimos. Depois dessa tarde, sempre que podiam, tornavam a sentar e conversar agradavelmente.

Foi passando o tempo. Guillaume conseguiu um emprego num jornal de Menier, e quase diariamente viajava até lá. Celeste não o acompanhava, e se acostumou a, todos os dias, tomar chá com a princesa em Cratos. O resto do tempo passava o junto ao temeroso conde.

 

III

 

Eis que o inevitável aconteceu. Tantas afinidades, tanto tempo em companhia um do outro, fizeram com que o conde e a noiva de seu primo se apaixonassem. Descobriram isso quando, numa tarde, em frente a uma janela, um beijo teve ocasião. Rapidamente separados, aquele momento durou muito mais.

Nesse tempo, também, começaram a surgir boatos de que o Canadá juntava forças para retomar Sofia sob o seu controle. O palácio de Herácles nunca confirmou a veracidade disso, mas o assunto rapidamente se espalhou pela ilha.

O conde nem tinha cabeça para pensar em combater canadenses. Sua preocupação voltava-se em frear suas emoções. Deveria esquecer Celeste, ser fiel a seu primo e trair seu coração. Era isso que esperava, mas não o que se deu. Quando Guillaume partia para Menier, os dois ou iam para o jardim, ou para a biblioteca, ou para o gabinete. Aquilo lhe deixava profundamente triste, por se sentir impelido a faze-lo por uma força maior que a razão. Celeste também cada vez ficava mais triste, cabisbaixa, às vezes parecendo desolada.

Um certo dia, depois da saída de noivo, Celeste se trancou em seu quarto. O conde estranhou muito aquela atitude, bateu na porta várias vezes, mas não teve resposta. Usando uma chave reserva, conseguiu entrar no quarto, e viu uma cena chocante: Celeste estava deitada, de costas, na cama. Na mesa ao lado uma adaga de cabo dourado, como se tivesse acabado de ser repousada ali. O conde se adiantou para acudir a amante, mas ela se levantou e ordenou:

- Pare!

A moça pegou a arma, e apontou-a pra o coração.

- O que está fazendo?! – Perguntou Terra Nova desesperado.

Os olhos rubros e lacrimosos da moça pareciam em outro mundo:

- Não posso mais continuar!

No momento em que ela parecia precipitar a lâmina em direção ao seu corpo, o conde se lançou e atirou a arma para longe, abraçando Celeste.

- Me perdoe! Foi culpa minha - disse ele.

- Não sabe do que está falando!

O nobre olhou para ela como um interrogador, e ela decidiu:

- Vou lhe contar tudo!

 

IV

 

 

- Sei que vossa graça nunca vai me perdoar, mas a culpa me pressiona demais! Senhor conde, não sou noiva de Guillaume. Na verdade, fui contratada pelo governo do Canadá para fazer com que vossa graça se apaixonasse por mim.

O clima ficava mais tenso.

- O que está dizendo?!

- Eles sabem da confiança que o senhor tem junto ao príncipe. Sabiam que, se eu tivesse a sua confiança, seria muito mais fácil conseguir informações vitais para a invasão da ilha.

- Não acredito!

- É verdade. E seu primo sabe de tudo.

O conde ficou profundamente atordoado.

- Sou uma traidora, mas felizmente me apaixonei pelo senhor!

        Saindo imediatamente do quarto, Terra Nova deu ordens ao seu mordomo que enviasse a senhorita Celeste, o quanto antes, ao seu castelo de Sainte Claire. Suas ordens foram cumpridas, e ela não se manifestou contra.

        Já era noite quando Guillaume chegou à quinta. O primo o esperava na sala, e o interceptou antes que subisse as escadas:

        - Você me traiu?

        - O que diz?

        - Celeste me contou tudo!

        Guillaume reagiu com os olhos, manifestando um medo descomunal.

        - Do que fala? Está louco?!

        - Olhe nos meus olhos – sentenciou o conde, segurando o primo pela camisa – e diga que não me traiu!

        Guillaume não o obedeceu, e o seu silêncio bastou para dar certeza do ato. Naquela mesma hora saiu da quinta, a pedido do conde. Este, sentando-se em frente à lareira, pensava atordoado no que estava acontecendo. Percebeu, então, que não deveria ter deixado o jovem sair daquela maneira. Precisava saber o que estava acontecendo nas terras inimigas!

        Imediatamente partiu para o Palácio de Cratos.

 

V

 

            Tudo fora relatado a Sua Alteza, e este, consternado, prometeu tomar todas as providências necessárias. Mandou de imediato a Guarda Nacional para Menier, de onde se esperava vir um suposto ataque. Garantiu ao conde que prenderia Guillaume assim que ele fosse encontrado, e pediu que fosse ao castelo para conseguir mais informações com Celeste.

        Pouco tempo depois chegava Terra Nova ao seu castelo. Era uma construção em estilo medieval, lembrando antigas fortalezas da Escócia, mas com um toque de estilo francês. O nome do castelo, Sainte Claire, era uma homenagem a sua padroeira de todas as horas.

        Foi diretamente falar com a moça. Os empregados asseguraram que desde que chegara ali ela não tinha parado de chorar um instante. Quando ele entrou na sala ela tentou se recompor, mas quando os olhares se cruzaram o choro se abateu, e ela se jogou aos pés do amado, implorando:

        - Me perdoe! Sei que eu errei, mas me arrependo.

        - Apesar de toda a mágoa, a dor também era forte demais no bondoso coração do nobre:

        - Eu não queria, mas não tenho outra saída. Eu te perdôo, meu amor!

        Os dois se abraçaram fortemente, num abraço cinematográfico, onde as paredes de seda vermelha e o tremular das chamas da lareira, contrastando com a neve que começava a cair do lado de fora, dava à cena um ar de quadro barroco. Entre carinhos, lamentos e explicações, o conde tornou o assunto:

        - Preciso que me dê mais informações sobre o ataque! Preciso avisar o príncipe!

        - Mas não sei de mais nada. Era Guillaume quem tratava de tudo. O emprego que conseguiu em Menier era somente um disfarce. Minha função era apenas ser uma Dalila... Mas felizmente me apaixonei antes de cortar seus cabelos.

        O conde finalmente sorriu. Mas foi um sorriso nervoso. Ainda estava preocupado em ajudar se soberano na defesa do país. Talvez fosse melhor montar a Guarda por toda a costa sul da ilha, desde Menier até Hegelsville. A neve, entretanto, impediria qualquer viagem.

        Apesar de tudo, a companhia um do outro tornou a noite extremamente romântica, e os uniria para sempre.

Cochilaram ao lado da lareira, abraçados confortavelmente. Mas um barulho estridente os despertou. De pé, junto à porta de vidro que dava para a varanda, alguém apontava uma arma, e eles puderam, no cambalear da luz, distinguir Guillaume.

 

VI

 

 

- Que sorte encontrar os dois juntos! – disse Guillaume, se aproximando do casal.

Os dois se levantaram lentamente, tentando não ameaçar aquele que estava com o revólver.

- Ainda podemos resolver isso! – Apelou o conde.

- E vamos! Assim que amanhecer as forças canadenses irão invadir Sofia, e eu serei nomeado governador da ilha. Provavelmente receberei um título por isso. Talvez marquês...

- A Guarda sofista vai resistir, já estão prontos em Menier! Você será condenado quando tudo voltar ao normal!

- Nada vai voltar ao normal. Muito menos para vocês dois. A Guarda está em Menier? Ótimo. A invasão será feita por Port Felice! Espero que tenham aproveitado essa noite juntos, pois foi a última!

Terra Nova não esperou mais: lançou-se em direção ao primo e segurou a arma. Antes que algum disparo fosse feito, o revólver foi arremessado pela porta e caiu na varanda. Guillaume, mal se desvencilhou dos braços do primo, correu e pegou uma das espadas dispostas sobre a lareira:

- Juro pela minha vida que você não sai daqui!

Celeste, num golpe de vista, pegou a outra espada e a jogou para o amado.

Sem mais palavras, os dois homens se prepararam para o combate. Cada um sabia dos riscos, e que dificilmente aquele duelo não seria fatal. Posicionados como verdadeiros espadachins, seus olhares se mediam e se investigavam, tentando adivinhar quando se daria o ataque, até que partiu o primeiro golpe. O som do aço tilintava doído, e fazia vibrar até mesmo o ar quente e frio que se misturavam. Num ataque do conde, Guillaume se esquivava brilhantemente, e quando este contra-atacava o primo se defendia com maestria. Os móveis se despedaçavam e o tecido das paredes se esfiapava, mas os dois combatentes continuavam ilesos. Mas não duraria muito. Guillaume atingiu o braço do conde, manchando de vermelho a manga de sua camisa, mas este não desistiu, e foi com mais voracidade para cima do adversário. Um outro golpe atingiu sua destra, que fez com que lançasse um grito no ar. Celeste não se movia. Guillaume, traído por sua própria confiança, tropeçou numa mesa e perdeu sua espada. Foi o momento final.

- Espero que tenha aprendido a lição! – pronunciou solene o conde, apontando a arma.

- Nunca vou aprender nada de você!

O conde se afastou e foi para junto de Celeste. A moça, imediatamente, preocupou-se em verificar os ferimentos. O primo, ainda ofegante pelo combate, lançou um olhar desafiador e se levantou, fugindo pelo mesmo lugar de onde viera.

 

VII

 

 

Mesmo com a intensa nevasca que desmoronava sobre Sofia, o conde de Terra Nova se despediu da amada, montou em seu cavalo de raça e partiu para Bona. Com toda aquela neve era impossível para qualquer outro veículo fazer aquela viagem. Galgando bravamente o caminho, conquistando com violência cada centímetro em meio à neve, percorrendo na escuridão da noite os quilômetros até a capital, o homem e o cavalo chegaram semimortos no portão do Palácio de Cratos.

Levado às pressas para dentro, relatou a fatídica notícia ao príncipe, que mandou convocar a Guarda para Port Felice com a máxima urgência.

Mas talvez não fosse possível levar todo o exército de uma ponta a outra da ilha. Como todos os meios de comunicação, naquele momento, estavam interrompidos pelo tempo, o conde se ofereceu para ir a Port Felice e alertar a Guarda Municipal. O príncipe, que tinha que esperar os batalhões vindos de Menier, quis recusar a sobre-humana oferta do amigo, mas nesse momento era a existência do principado que estava em jogo, e aceitou a proposta.

Não mais que alguns minutos depois de ter chegado ao Palácio, o conde montava num outro cavalo e, ainda enfrentado a terrível nevasca, partia em direção a Port Felice.

 

VIII

 

 

A neve começava a se dissipar nas primeiras horas da manhã, quando o nobre guerreiro avistou a cidade de Port Felice. Indo diretamente à sede da Guarda Municipal, se apresentou ao capitão e, em poucas palavras, assumiu o comando e ordenou que se preparassem para a batalha.

Finalmente pôde descansar enquanto os soldados se organizavam no litoral da cidade. Montado no mesmo cavalo, passando as tropas em revista e já com a trombeta anunciando a aproximação dos navios inimigos, o conde fez seu discurso de encorajamento:

- Irmãos Sofistas! Hoje, agora, está em jogo não só uma batalha. O que será disputado não será uma cidade, não será um país, não será um trono. O que estará em jogo, nas mãos de vocês, é um ideal! Poucas vezes no mundo um ideal tomou forma. Assim foi em Camelot, mas Camelot foi destruído. Sofia é um ideal, um sonho que se concretizou e que vive no coração e na mente de cada um de nós. Temos que defendê-lo, com nossa vida se for preciso. Aconteça o que acontecer, irmãos, Sofia deve sobreviver, para continuar a ser um refúgio de segurança, de amor e de liberdade. Vamos fazer desses três ideais um só, assim como as três pétalas formam uma só flor-de-lis, que tremula como símbolo máximo da nossa nação. Vamos lutar como nunca, e dar o possível e o impossível de cada um, por aquilo que é maior que todos nós: Sofia!

Os brados de “viva” soaram retumbantes: vivas ao conde, vivas a Sofia, vivas ao príncipe monarca. Mas enquanto os sofistas adquiriam força, os adversários de além-mar se aproximavam cada vez mais, com uma esquadra impressionante: uma dúzia de navios de guerra trazendo milhares de soldados, infantaria e cavalaria.

O sol já raiava quando foi possível que os dois lados avistassem os olhos de seus oponentes. Para aqueles que estavam sobre as águas certamente era irracional, mesmo cômico, que menos de uma centena de homens enfileirados na praia tentassem impedir a invasão da ilha de Anticosti pela robusta marinha canadense. Para os sofistas, o número não importava, valendo, mais do que tudo, a bravura que contavam naquele momento para defender a liberdade de sua terra.

A frota parou a alguma distância do litoral, e por um tempo reinou um silêncio gelado em toda a cena. Em seguida, um pequeno barco foi arriado de um dos navios, e se lançou no mar com meia dúzia de soldados, em direção à praia. Entre eles, enquanto chegavam mais perto, o conde pôde reconhecer, mesmo sob a farda de general, o mesmo homem que tentara lhe matar durante a noite, o mesmo que lutara a seu lado na primeira batalha pela independência de Sofia, o mesmo que possuía seu sangue nas veias. Era Guillaume, que mal aportou e foi ter com seu primo:

- O que me diz agora?

- Que você é louco!

- Renda-se e viverá!

- Um sofista nunca se rende, luta até a morte!

Um sorriso de desprezo apareceu nos lábios de Guillaume. Quanto Orgulho! Por que perder a vida por causa de uma pequena ilha?! Foi ai que surgiu o desafio fatal:

- Aceita um novo combate? – Perguntou o altivo conde – Duelamos denovo. Se você ganhar, Sofia é sua, mas se perder, nunca mais ninguém tentará por os pés nessa ilha sem a autorização de Sua Alteza!

O primo refletiu durante um curto segundo, e então repetiu as ordens aos guardas que o esperavam na pequena embarcação, que imediatamente partiram para o mar.

Sob os olhares assombrados dos guardas sofistas e dos canadenses, os dois primos se preparavam para outro combate: tiraram os chapéus e os casacos e desembainharam as espadas. Pela segunda vez em poucas horas, bateram as espadas.

 

IX

 

 

A luta era em ritmo acelerado, e a violência com que se enfrentavam era de arrepiar a todos os que assistiam. Na opinião de um leigo em esgrima era difícil saber se um dos dois levava vantagem, mas alguém que conhecesse o assunto veria a supremacia do conde de Terra Nova sobre o adversário, com golpes mais precisos e mais certeiros, que só não o feriam gravemente pela falta de intenção. Da outra parte, Guillaume se defendia e tentava atacar, mas mesmo dando tudo de si para ofender o primo ficava cada vez mais sem saída. Então, num lance final, a espada de Guillaume voou longe de sua mão, e prontamente a outra espada se apoiou debilmente em sua garganta:

- Eu ganhei!- proclamou Terra Nova – Sofia está livre!

Guillaume, ajoelhado, reconheceu sua derrota, baixando o olhar até a areia, e permaneceu na mesma posição enquanto o oponente afastava a arma e jogava-a no chão, cansado. Com um máximo olhar de felicidade, o conde voltou-se para os companheiros e gritou, sorrindo esfuziante:

- Sofia está livre!

Mal fechou a boca um golpe certeiro lhe atingiu as costas, e fez com que caísse no chão. Guillaume juntara a espada e proferira um golpe fatal, pelas costas, em seu primo. Os guardas, sem acreditar no que viam, correram para cima do traidor, dispostos a fazer tudo para vingar aquele ato covarde, mas uma voz sonora os paralisou a todos: era o príncipe, montado em seu cavalo persa, que se aproximava velozmente, acompanhado dos seus generais e, mais atrás, de toda a Guarda Nacional de Sofia.

- O que acontece?

Os guardas de Port Felice abriram caminho, e Sua Alteza Real pôde ver o conde de Terra Nova estendido no solo da praia. Rapidamente desmontou e correu até lá, tentando reanimar o amigo, mas o sangue já lhe fugia das faces. Um último sorriso foi visível quando abriu os olhos e distinguiu o rosto do monarca:

- É uma honra muito grande morrer nos braços de Sua Alteza, mas, me perdoe, eu perdi... Imploro-lhe, Alteza: cuide de Celeste, e salve Sofia!

As lágrimas povoaram os olhos de todos os presentes, inclusive do príncipe. Guillaume, agarrado por vários guardas, finalmente concebeu o que havia acabado de fazer, e também ele sentiu uma imensa tristeza em seu coração, além de uma culpa que não poderia ser calculada.

Subitamente o príncipe se levantou, ordenou que o conde fosse levado para um lugar seguro, se recompôs e anunciou aos soldados:

- Homens, temos uma batalha a vencer!

Os homens bateram continência, respiraram profundamente e retornaram à formação de combate.

Pouco depois, da imóvel esquadra adversária, desceu uma nova embarcação, trazendo um punhado de guardas e, acima de tudo, uma tremulante bandeira branca. O mais graduado deles, quando desembarcou, foi até Sua Alteza e fez uma respeitosa reverência:

- Alteza, venho em nome do governo do Canadá pedir perdão pelo comportamento do nosso enviado. Ele manchou o nosso nome, o nosso país e a nossa coroa. E, também, venho oferecer minhas condolências pela perda do vosso bravo e legendário conde de Terra Nova, sem dúvida uma grande perda para todo o mundo. Cumprimentando-o por um homem tão honrado e valoroso, ofereço-vos a definitiva e incondicional proposta de paz!

O príncipe, comovido, ofereceu sua mão, ao que respondeu o oficial canadense com um vigoroso cumprimento.

- Nem o mais belo dos discursos – declarou o monarca de Sofia – poderia exprimir o quanto sentimos pela perda de Terra Nova. Que seu ato honroso, aliado ao ato covarde, possa, para sempre, assegurar a liberdade de Sofia!

 

X

 

 

Alguns dias depois, Sua Alteza Real assinava com Sua Majestade Britânica o tratado de paz tão sonhado, que assegurou de uma vez por todas a independência de Sofia, e confirmou que nunca mais o Canadá tentaria invadir a ilha de Anticosti.

Guillaume julgado e condenado à prisão perpétua por crime de assassinato e de Alta Traição. Entretanto, seu pior castigo foi ter que conviver, pelo resto de seus dias, com a culpa por ter cometido a maior atrocidade de que Sofia já teve notícia.

Celeste, depois do choque da perda de seu amado, obteve a honra de ser declarada esposa do conde de Terra Nova, e recebeu toda a herança deixada por ele. Aos poucos foi recobrando a felicidade, mais porque, cerca de nove meses depois do fatídico dia da batalha, ela deu à luz um menino, que pelos feitos de seu pai, logo ao nascer, recebeu o título de Duque de Terra Nova e cavaleiro da Ordem da Flor-de-Lis.

Como uma última homenagem, todo o povo sofista colaborou para a construção de um monumento de mármore, erguido no cemitério de Varma, onde pode ainda ser lido:

 

Ao Conde de Terra Nova,

Obrigado pela liberdade e pelo exemplo.

Do príncipe e do povo de Sofia.

* * *

 

FIM

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