Morgana Mengue Saft1
Tempo 2
Vai levar tempo p`ra eu olhar a lua e não enxergar nela o teu rosto
Mas também, vai levar tempo p`ra eu olhar a lua de novo!
Vai levar tempo p`ra eu fazer coisas
simples,
como olhar p`ra fora da janela do carro e não lembrar das vezes que quis
dirigir o tempo
Controlar as horas e congelar o momento
Vai levar tempo p`ra eu sorrir e
não te esperar sorrindo do meu lado
Mas tudo bem, também vai levar tempo p`ra eu sorrir de novo!
Vai levar tempo, entre um olhar
e outro
Porque a imagem vai ficar muito tempo sustentada, mas não por tua mão
que antes me acariciava
Vai levar tempo p`ra eu andar sozinha,
e não contemplar
Não ter-te me acompanhando na intensidade da tua presença e no
desejo de te ver de novo
Vai levar um tempo p`ra eu deitar
de novo no peito quente de alguém que me segure
De qualquer forma, nenhum abraço tem o calor que possa me aquecer agora
Talvez leve tempo p`ra parar de
doer
Mas toda cicatriz deixa marcas, mostra na profundidade toda a intensidade do
acontecimento
A vida é isto, as marcas que temos no corpo
E contam nossa história
Vai levar tempo p`ra mim
Vai levar tempo p`ra que deixes de existir
Pode mesmo levar tempo
Mas se o tempo é um passado que nunca deixa de ser
Um presente que nunca deixa de estar
E um futuro que nunca deixa de desejar
Então este tempo não importa
Porque eu vou continuar a existir
E muitas coisas ainda vão continuar levando um tempo...
Sei Lá
Quando estou à flor da pele,
É porque tua mão corre por minhas costas
Descobre minhas curvas
Vaga em meus desejos
Trilha caminhos ainda não percorridos
Deste corpo sem dono
Sem fome
Suado
Quente
Intenso
Estou à flor da pele, quando
preciso que não me deixes ir
Quando me soltas
Quando me prendo no vento do teu abraço forte
Que nunca sopra
Menos que brisa
Mais que temporal
Suspiro
Ânsia
A flor da pele, são meus
pêlos aquecendo minha carne
Minha pele arrepiada
Meus mamilos querendo tua língua
Minha boca
Tua boca
Nossa entrega
Sem trégua
Sem dor
Sem amor
Sem espera
Amar
Amar é dor que cheira
É um fogo que esvazia
Encanto que desliza
Amar é sofrer de prazer
Temer o desejo
Necessitar a falta
Amar é querer o que ninguém
quis
Dizer o que ninguém diz
Chegar à alma como se toca o corpo
Amar é esperar o inusitado
e querer o comum
É ver o colorido onde a cor deixou saudade
É cegar para o óbvio e estar na vida
É amar quando se ama o amor
É desconectar do mundo
Se ligar a um
Escrever bobagens, sorrir por nada
Nada mais caber
Nada mais dizer
Nada mais sentir
Nada mais querer
Amar é correr o risco da nada mais viver...
E o Corpo sem Órgãos
se faz em mim...
E o CsO sem faz
Se faz quando me calo
Se faz quando grito
Se faz quando choro e
Também quando posso sorrir
E o CsO se faz quando apenas sinto
Se faz quando não há ainda palavras
Quando não há mais palavras...
E o CsO se faz quando permito
Ou quando sou invadida
Quando não controlo nem
Pretendo saber
E o CsO se faz quando é
Quando me constituo
E quando sou constituída
Na relação com o outro
E assim o CsO se faz
Quando não sei se a ele vou
Ou se dele que parto
Mas quando apenas sei
Que ele é!
Eu!
O que me rodeia?
O que me faz borda?
O que me limita?
O que me desenha?
Desenho que me mostra
Como me apresento
Como sou olhada?
Porque ter de ser olhada?
Admirada?
Existir e ter forma em outro
Grudada no outro.
Espelho e desejo do outro
Porque me sinto assim,
às vezes
Sem forma,
Amorfa?
E agora, que tento me tecer
Me sinto assim
Tão perdida
Tão livre
Tão triste?
O que me faz forma?
O que me forma?
O que me rodeia?
O que me delimita?
Senão eu mesma
NO MEU DESENHO
Na forma que escolho
No desejo que manifesto
Na fantasia que realizo
O que me segura?
O que me faz borda?
O que prende?
O que faz existir?
Senão Eu,
No meu desejo,
Na minha paixão
NA FOME DE SINTO
De muitas vezes devorar
E fazer-te meu
Notas
1- Graduanda em psicologia pela UNISINOS. E-mail: [email protected]
2 - 20/03/2001, + 14:30, no SAPPRE, ainda sob o efeito do filme (Entre las Piernas), a Clair , Guattari (Lígia e Rafa) e ontem à noite...